Erremo – Sobre a cláusula de barreira nas eleições municipais

Divulguei informação equivocada neste weblog a respeito da cláusula de barreira nas eleições municipais.

Ao exemplificar o impacto com dados da eleição de 2012, deixei de levar em conta que o patamar mínimo para um vereador ser eleito não é o quociente eleitoral cheio, dado pelo número de votos válidos divido pelas cadeiras a serem preenchidas, mas 10% do quociente eleitoral. Asseguro aos leitores que já peguei o flagelo ali no armário e tomei as devidas providências.

Percebi o erro relendo as regras instituídas pela Resolução TSE nº 23.456/2015. Usando os resultados das eleições de 2012 para Porto Alegre, disponíveis no repositório de dados do Tribunal Superior Eleitoral, criei uma planilha mostrando como ficaria a situação dos candidatos se fosse aplicada, na época, a regra atual.

Naquele ano, houve 753.729 votos válidos, que, divididos pelas 36 cadeiras da Câmara de Porto Alegre, dão um Quociente Eleitoral (QE) de 20.937. O patamar mínimo de votos para um candidato assumir a vaga seria de 10% do QE, ou seja, 2.094 votos. Na planilha acima, estão marcados em verde os candidatos que teriam ultrapassado a barreira. Como se pode ver, não haveria mudança alguma na composição final da Câmara de Vereadores.

Apesar do equívoco na premissa, segue válida a conclusão anterior de que deixou de ser interessante votar na legenda. Meu exemplo usou o PSOL:

Em 2012, o município de Porto Alegre teve cerca de 800 mil votos válidos. Pela regra atual, caso se mantenha um número próximo a esse de votos válidos, cada vereador deve obter no mínimo uns 20 mil votos para atingir o patamar de barreira. Naquele ano, Pedro Ruas, do PSOL, foi o vereador mais votado, com 14.610 votos. Fernanda Melchionna, também do PSOL, obteve 7.214 votos nominais. A legenda PSOL recebeu 10.415 votos.

Em 2012, estes 10.415 votos na legenda iriam para o lixo, porque o terceiro candidato a vereador mais votado pelo PSOL, Professor Alex Fraga, obteve apenas 1.424 votos. Aliás, provavelmente a própria Fernanda Melchionna não seria eleita e, quem sabe, nem mesmo Pedro Ruas.

Com o cálculo correto, se pode perceber que as vagas de Pedro Ruas e Fernanda Melchionna estariam asseguradas. O Professor Alex Fraga não teria atingido o patamar de barreira, mas não foi eleito de qualquer forma porque o Quociente Partidário (QP) do PSOL deu direito a apenas duas cadeiras para o partido. Por outro lado, se o PSOL tivesse QP suficiente para assumir três vagas, a cadeira do Professor Alex Fraga teria sido repassada a algum outro partido, por insuficiência de votos nominais.

Portanto, renovo a sugestão: faça o que fizer nestas eleições, não vote na legenda.

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Vote em mulheres, negros ou mulheres negras

Um dos principais problemas políticos no Brasil é a discrepância entre o perfil demográfico da população e sua representação no Legislativo. Quando ainda era professor na PUCRS, orientei a produção de uma reportagem da aluna Georgia Ubatuba, mostrando como os deputados estaduais e federais estão distantes da realidade da população gaúcha.

Felizmente, cada um de nós brasileiros pode contribuir para mitigar este problema apenas exercendo o direito — e a obrigação — ao voto. Por isso, decidi sempre que possível, para o resto da vida, votar em mulheres, negros ou, melhor ainda, mulheres negras.

O sempre que possível exige, é claro, uma definição. As minhas crenças e valores pessoais se posicionam quase sempre no espectro ideológico da esquerda, então votar em alguém como Ana Amélia Lemos (PP) seria uma violência contra mim mesmo. Isso não me impediria, no entanto, de eventualmente dar meu voto a uma candidata do PP, DEM e quejandos, se a pessoa demonstrasse, através de sua atuação, ser um cisne negro progressista num desses partidos e não houvesse nenhuma candidata mulher ou candidato negro razoável na esquerda. A escolha do candidato em que votar é sempre contingente. Se a situação estiver muito ruim, todavia, eventualmente acabarei votando num homem branco de esquerda de novo.

Nas próximas eleições municipais, portanto, meus votos irão para as seguintes candidatas:

Luciana Genro (PSOL): É a única candidata mulher à prefeitura, à esquerda ou à direita.

Karen Santos (PSOL): Professora e ativista do movimento negro. Mesmo que não vença, o voto conta para eleger vereadores do PSOL, partido com cujas principais bandeiras eu concordo. O partido também não tem envolvimento em nenhum escândalo de corrupção, ainda. Além disso, a vereadora candidata à reeleição Fernanda Melchionna vem apresentando uma boa atuação na Câmara e será beneficiada com este voto.


 

ATUALIZAÇÃO: Como está explicado neste novo artigo, há equívocos em alguns trechos do texto abaixo, que foram devidamente rajados.

Como modificações recentes na Lei Eleitoral introduziram uma cláusula de barreira nestas eleições municipais, a estratégia de votar num candidato sem muitas chances, contando que o voto seja contabilizado no quociente eleitoral, pode não ser a melhor. Assim, estou repensando o voto na candidata Karen Santos.

Por um lado, se tornou mais necessário do que nunca a votação numa pessoa que você julgue boa candidata. Se não atingir o patamar de barreira, o candidato, mesmo estando num partido com bom quociente eleitoral, pode perder a vaga. Mais grave ainda, a cadeira pode acabar indo para um candidato de outro partido, caso nenhum outro do partido do seu candidato tenha atingido o patamar.

Em 2012, o município de Porto Alegre teve cerca de 800 mil votos válidos. Pela regra atual, caso se mantenha um número próximo a esse de votos válidos, cada vereador deve obter no mínimo uns 20 mil votos para atingir o patamar de barreira. Naquele ano, Pedro Ruas, do PSOL, foi o vereador mais votado, com 14.610 votos. Fernanda Melchionna, também do PSOL, obteve 7.214 votos nominais. A legenda PSOL recebeu 10.415 votos.

Em 2012, estes 10.415 votos na legenda iriam para o lixo, porque o terceiro candidato a vereador mais votado pelo PSOL, Professor Alex Fraga, obteve apenas 1.424 votos. Aliás, provavelmente a própria Fernanda Melchionna não seria eleita e, quem sabe, nem mesmo Pedro Ruas.

O exemplo acima tem um erro: a barreira não é o Quociente Eleitoral, mas 10% do QE. Então, refiz os cálculos e concluí que Pedro Ruas e Fernanda Melchionna teriam a vaga assegurada sob a regra nova. Detalhes aqui. De resto, segue não valendo a pena votar na legenda.

Por isso, creio que votarei mesmo em Fernanda Melchionna, pois não há elementos para medir a competitividade de Karen Santos, que não foi candidata em 2012.

O bom filho à casa torna

Em março de 2007, com apenas 28 anos de idade e concluindo o mestrado, a PUCRS me deu a oportunidade de iniciar a minha carreira como docente na área de Jornalismo. A partir de julho de 2016, entro em nova fase na carreira, com minha transferência da Famecos para o curso de Jornalismo da Fabico, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na UFRGS, vou assumir algumas das disciplinas de Ciberjornalismo, criadas para atender às novas diretrizes curriculares para o ensino do Jornalismo.

Será um prazer imenso retornar à Fabico, onde cursei a graduação entre 1997 e 2001 e, mais tarde, o mestrado, entre 2005 e 2007. Sempre tive o desejo de retribuir o investimento público em minha formação levando para lá o conhecimento que desenvolvi nesta década como pesquisador, além das habilidades práticas como jornalista digital e agitador cibercultural. No primeiro semestre, enquanto o currículo novo não é implantado, vou substituir o professor Wladimir Ungaretti na orientação dos alunos que produzem a revista Sextante e o jornal Três por Quatro. Será uma boa oportunidade de compartilhar algumas experiências do Editorial J com os alunos da Fabico.

Também vou participar do grupo de pesquisa em Jornalismo Digital, o JorDi, criado pela professora Luciana Mielniczuk.

Essa mudança é o ponto culminante de uma década de trabalho intenso como pesquisador e docente. Desde o ingresso no mestrado, havia determinado para mim mesmo o objetivo de me tornar pesquisador e docente no magistério superior federal. Se na PUCRS pude desenvolver bem as habilidades de professor e, até certo ponto, administrador, essa nova fase na carreira vai se focar em ampliar minha participação como pesquisador nos campos do Jornalismo e da Cibercultura.

Com o tempo, pretendo retomar as atividades neste weblog e no Garfada. Considerei adequado recomeçar compartilhando a alegria pelo raro privilégio de concretizar um sonho. :-)

11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Na quinta-feira, dia 23, começa o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Convido os inscritos a acompanharem as atividades da qual farei parte:

Quinta-feira, 9h – Painel “O cérebro e a notícia”, com os neurocientistas André Palmini (PUCRS) e André Martins (USP), no qual serão discutidos vieses cognitivos e outras interferências dos processos neurológicos no trabalho de reportagem

Sexta-feira, 9h e 14h – III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo

Sábado, 9h e 14h – III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo

As salas estarão indicadas nos guias que cada congressista vai receber ao fazer o credenciamento.

Por um mundo mais amish em 2016

Em vez de escrever um artigo listando compromissos e desejos para o ano de 2016, vou deixar vocês com este documentário a respeito da vida dum amish nos Estados Unidos. Em vários aspectos, os amish são um exemplo de relação com o mundo com o qual nós, habitantes da sociedade de consumo, podemos aprender muito.

Por um mundo mais amish em 2016!

É preciso resgatar a boa vontade nas redes sociais

O ano de 2014 demonstrou para todos os participantes de redes sociais a completa incapacidade do ser humano para o debate civilizado e o respeito mútuo. A decepção se cristalizou, para muitos, durante o período eleitoral, mas 2014 foi abundante em casos de desrespeito à opinião alheia e escracho moral no Facebook, Twitter e outras redes menos famosas.

A partir dos anos 1980, o ciberespaço começou a ser descoberto por acadêmicos e futuristas. Muitos se animaram com a informalidade e camaradagem das primeiras duas décadas de fóruns e listas de discussão virtuais. Alguns transformaram esse entusiasmo em previsões de que a Internet se tornaria uma nova Atenas, na qual cidadãos conectados debateriam as questões públicas numa ágora eletrônica.

Mas, então, vieram os anos 2000, o Orkut, o Twitter, o Facebook, as caixas de comentários em portais de notícias e tudo azedou. Protegidos pelo relativo anonimato da comunicação mediada por computador e com acesso a tecnologias de disseminação simples de usar, os mais rematados ignorantes e psicopatas passaram a emporcalhar o ciberespaço com todo tipo de boçalidade.

A camaradagem das duas primeiras décadas de Internet acessível ao público não-especializado foi enterrada sob uma avalanche de idiotice. A mudança de weblogs para redes sociais, cujas interfaces privilegiam a enunciação destemperada e cujos algoritmos privilegiam a a idiotia caça-cliques, tornou as vozes sensatas mais difíceis de encontrar. O resultado foi uma perversão até mesmo das pessoas sensatas em soldados a serviço de uma ou outra ideologia — pior, soldados que atiram primeiro e perguntam depois.

A polarização entre grupos diversos nos anos 2000 e na primeira metade dos anos 2010 causou uma degradação da etiqueta e da civilidade no ciberespaço. Nos esquecemos de que gentileza gera gentileza. Nos esquecemos de que a maior parte das pessoas está tentando fazer o melhor possível na maior parte do tempo. Nos esquecemos, principalmente, de que a discordância é uma característica inextirpável da socialização, uma condição para a democracia e, até mesmo, algo saudável.

Devemos empreender um esforço para resgatar a boa vontade no trato com os outros, antes de o clima de guerra total do ciberespaço contaminar irreversivelmente os outros âmbitos de existência humana.

Um exemplo lamentável

Numa reportagem recente, John Ronson mostra como um tweet infeliz arruinou a vida da relações-públicas Justine Sacco. No dia 20 de dezembro de 2013, antes de embarcar para a Cidade do Cabo, na África do Sul, Sacco publicou a seguinte frase ambígua:

“Going to Africa. Hope I don’t get AIDS. Just kidding. I’m white!”

“A caminho da África. Espero não pegar AIDS. Brincadeirinha. Eu sou branca!”

Pode-se ler a sentença de várias formas:

  1. Literalmente, ela estaria dizendo que pessoas brancas não correm risco de contrair o HIV e sugerindo que o continente africano seja um repositório da doença.
  2. Sacco também poderia estar indicando não ter a menor intenção de manter relações sexuais com pessoas negras durante sua estadia na África.
  3. Pode-se separar as duas primeiras frases das duas últimas, de modo que a primeira parte do tweet seria uma piada com a prevalência da AIDS na região e a segunda parte, uma explicação de que essa piada de mau gosto foi feita porque Sacco é branca e gente branca faz essas coisas sem noção.
  4. Tomado como ironia em seu conjunto, o tweet faz uma crítica ao fato de haver uma forma de Apartheid médico na África do Sul, onde os pacientes de AIDS são predominantemente negros. Os brancos estariam livres da doença por terem mais acesso à educação e a recursos da medicina.

Conforme a própria relações-públicas, o sentido que ela pretendia imprimir à declaração era este último. Todavia, entre esses quatro possíveis sentidos — e deve haver mais possibilidades do que as apresentadas acima –, o repórter Sam Biddle, do Valleywag, decidiu tomar como verdadeiro o primeiro deles. Sacco tinha apenas 170 seguidores no Twitter e poderia ter sido ignorada, mas a publicação da declaração no Valleywag chamou a atenção do mundo e muita gente, de boa ou má fé, seguiu Biddle em sua decisão. Em poucos minutos, o caso havia se tornado trending topic e, ao aterrissar na Cidade do Cabo, Sacco foi recepcionada por um desocupado, que a fotografou para o deleite da multidão.

Antes mesmo de pousar, ela já havia sido demitida pela InterActiveCorp, uma holding de mídia americana. Seus familiares, correligionários de Nelson Mandela, ficaram envergonhados e chateados. Ela passou por um período de depressão.

Nem mesmo o iniciador da caça às bruxas, no entanto, acreditava que Sacco queria dar à frase o primeiro sentido. Biddle admite ter publicado uma nota a respeito do tweet sem pensar nas consequências, apenas em busca da audiência. O mais provável é que ele tenha visto a oportunidade de se divertir e atrair cliques às custas de uma funcionária de uma empresa de mídia concorrente e por isso tenha chamado a atenção para o caso. Da mesma forma, muitos líderes sociais envolvidos na luta contra a AIDS, contra a pobreza, contra a ignorância e contra o racismo devem ter percebido a real intenção da relações-públicas, mas decidiram ignorá-la com o objetivo de promover suas causas políticas.

Uma grande parte dos leitores, porém, deve ter acreditado sinceramente que Justine Sacco publicara uma declaração racista e por isso resolveram escrachá-la em público. Este público de boa fé é o que interessa a essa discussão, pois compõe o grupo passível de resgate das garras da barbárie.

Pessoalmente, eu não vejo como alguém possa ler o tweet em questão e tomá-lo pelo valor de face. Em primeiro lugar, porque a construção da frase indica claramente a intenção de produzir um efeito irônico. Em segundo lugar, porque os outros sentidos carecem de integridade contextual, para usar um termo aplicado a outros aspectos da comunicação em redes sociais. Sacco, afinal, era chefe de comunicação de uma grande empresa, então, mesmo se considerasse a AIDS um problema restrito aos negros africanos, ela provavelmente teria habilidade suficiente para reconhecer o faux pas. Além disso, sendo uma pessoa da área de comunicação residente em Nova York, as chances de concordar com uma afirmação como essa diminuiriam bastante.

Existem, é claro, pessoas bem educadas e habitantes de círculos sociais progressistas que são tacanhas e preconceituosas, mas, para atribuir esse tipo de caráter a Sacco a partir do contexto geral, seria preciso ir contra o princípio da navalha de Occam — isto é, a ironia explica com mais simplicidade a sua manifestação no Twitter do que o racismo desbragado. Evidentemente, os seres humanos e as relações que estabelecem uns com os outros são complexas, mas, em geral, uma frase irônica é de fato uma ironia.

Esclareço não considerar o tweet de Sacco engraçado, oportuno ou razoável sob nenhum aspecto. No mínimo, tratou-se de uma declaração ambígua demais e, portanto, inábil. Além disso, reforça preconceitos contra negros, contra africanos e contra portadores de HIV. No fim das contas, era absolutamente desnecessário. (Tampouco a publicação de frases desnecessárias em redes sociais é uma atitude abaixo de mim; de fato, cometo esse tipo de sandice constantemente.)

Cria corvos e eles te comerão os olhos

Outro caso lamentável e rumoroso ocorrido em 2014 foi o do Tumblr dedicado a expor supostos casos de assédio psicológico ou sexual protagonizados pelo professor de literatura Idelber Avelar. O episódio foi analisado por centenas de ângulos diferentes nos últimos meses, com maior ou menor grau de sensatez. Mereceu pouca discussão até agora, entretanto, o papel que o próprio Avelar teve na construção de uma esfera pública ciberespacial na qual o escracho se tornou um instrumento socialmente aceito de interação entre grupos opositores.

Considero a melhor análise a realizada por Francisco Bosco na edição 19 da revista Serrote, embora tenha um ou outro reparo a fazer a respeito da forma do argumento. Bosco se detém em traçar um perfil psicológico das acusadoras de Avelar, embora existam poucos elementos para esse tipo de empreendimento, mas limita suas inferências a respeito da psiquê de Avelar a notas de rodapé e algumas poucas linhas, apesar de existir um banco de dados muito mais rico a respeito do desgraçado professor na Internet. Neste sentido, concordo com as reclamações de que Bosco foi excessivamente cordial com Avelar em seu artigo. Nem mesmo que fosse apenas para dar a impressão de equanimidade, deveria ter se esforçado mais em mostrar como o alvo do escracho pode ter atraído este tipo de vingança.

Em todo caso, Bosco toca num ponto essencial (numa nota de rodapé, aliás):

22. Acredito que a atuação pública rigorosa de Ibelber Avelar, sempre pronto a apontar as falhar morais ou intelectuais na conduta alheia, tenha se revertido contra ele no processo de seu julgamento nas redes sociais.

Com efeito, Avelar, uma das vozes pioneiras na “blogosfera” nacional, construiu para si ao longo dos últimos dez anos a imagem de paladino do progressismo político de esquerda — ou patrulheiro, a depender do ponto de vista. Manifestava-se a respeito de todas as pautas queridas da esquerda e até 2010 era alinhado ao Partido dos Trabalhadores, o que motivou, inclusive, alguns a identificarem nas acusações uma conspiração petista por conta de sua “traição” à causa. Suas manifestações eram sempre contundentes e em geral reduziam as opiniões e comportamento dos opositores à canalhice ou à ignorância, ou às duas juntas. Além disso, costumava oferecer à larga instruções para o comportamento considerado correto à luz da ideologia de esquerda contemporânea. Em resumo, a persona pública de Avelar era a de um caga-regra.

Eu mesmo costumava ler o ora desativado O biscoito fino e a massa, até o final dos anos 2010, mais ou menos. Nos anos dourados da Internet, interagi vez ou outra com Avelar, mas nunca o encontrei pessoalmente. Lá pelas tantas, porém, a cagação de regras começou a me incomodar, assim como o discurso autoritário da maioria dos outros blogueiros de esquerda cuja produção costumava acompanhar. Desgostoso, deixei de ler blogs sobre política de maneira geral, muito menos me dispus a acompanhar quando as discussões pedestres migraram para as redes sociais. Reduzi os debates sobre política às conversas ao vivo e a trocas via correio eletrônico com alguns poucos amigos com os quais nem sempre concordo, mas com quem posso desenvolver um argumento num clima de civilidade.

Se Bosco se desse o trabalho de analisar melhor a figura pública de Avelar, talvez identificasse nele a mesma tendência ao microfascismo que enxerga em suas acusadoras. Pessoalmente, fiquei surpreso com as revelações a respeito de suas preferências sexuais, de fato um “teatro regressivo do desejo” de tons rodrigueanos, como escreve Bosco, dada a sua fixação no personagem do corno e no adultério. Não me surpreendi, porém, com a arrogância e hipocrisia denotadas por sua intimidade, uma vez que estes são traços típicos do caráter autoritário. Bosco até vê esse traço, na nota de rodapé 26, quando diz que “a contundência de Idelber Avelar se voltou contra ele mesmo”, mas o despreza, porque “a generalização cometida por Idelber Avelar […] não deve ser mobilizada contra ele próprio”, pois “ela é falsa, tanto quanto seu aproveitamento”.

O autor do melhor artigo a respeito do caso perde aqui a oportunidade de oferecer ao leitor uma melhor compreensão das razões pelas quais Avelar sofreu um escracho tão vitriólico. Avelar criou os corvos que vieram a lhe comer os olhos. Ao longo de uma década, ele e seus correligionários alimentaram um estado de caça às bruxas no ciberespaço ocupado pela opinião pública brasileira, mobilizando webrings e, mais tarde, redes sociais contra os críticos das políticas de esquerda implementadas pelo Executivo e pelo Legislativo — nas quais vejo apenas razões para comemorar, diga-se de passagem, pois como os leitores deste blog sabem me alinho à esquerda. À medida em que as contradições dos governos petistas, principalmente, foram se mostrando desde a primeira eleição de Lula, os atores políticos de esquerda foram agindo cada vez mais como camisas negras virtuais contra os críticos, usando quase sempre argumentos ad hominem ou uma suposta canalhice direitista intrínseca como espantalho.

Neste sentido, Avelar pode ser visto como um expoente dos grupos que jogaram lenha na fogueira da polarização do debate público no ciberespaço. Se hoje as caixas de comentários de jornais eletrônicos se limitam ao lançamento de acusações como “petralha” ou “PIG” entre os leitores, em grande parte a situação se deve à obstinação pouco civil destes grupos na defesa de suas ideologias contra uma suposta conspiração da direita. A direita, evidentemente, não está isenta de responsabilidade, uma vez que jornalistas como Reinaldo Azevedo se reinventaram como blogueiros e passaram a adotar uma postura ainda mais tacanha, gerando filhos como Felipe Moura Brasil e Rodrigo Constantino. Por não escreverem em grandes veículos de imprensa, os filhos de Avelar são relativamente anônimos, mas tão corrosivos quanto a prole de Azevedo e Olavo de Carvalho para a esfera pública.

Não penso que o escracho sofrido por Avelar tenha sido proporcional a seus possíveis desvios de comportamento, se é que os houve — seria como culpar a vítima de estupro por causa de suas roupas provocantes. Entretanto,  não creio que seja possível compreender o fenômeno do escracho virtual sem levar em conta o atitude dos atores da esquerda no ciberespaço nos últimos dez anos e Avelar sempre foi um líder e um símbolo neste grupo. Além disso, é irresistível apontar a ironia de ele, devido à própria hipocrisia, se tornar vítima dos corvos que alimentou com sua verve agressiva.

Paz no ciberespaço aos homens de boa vontade

Nos dois casos discutidos acima, pode-se identificar como traço comum a total ausência de boa vontade entre os envolvidos. Se o tweet infeliz de Justine Sacco houvesse sido recebido com boa vontade, teria sido visto como uma gafe lamentável, talvez ensejado um pedido de desculpas, mas provavelmente seu emprego teria sido poupado. Se Avelar, seus correligionários e seus opositores não houvessem se comportado sem boa vontade ao longo de uma década, quem sabe o escracho seguisse hoje como o último recurso de satisfação para as vítimas de torturadores da ditadura brasileira, não como uma forma de vingança mesquinha contra pessoas com quem tivemos relações amorosas infelizes.

Falta boa vontade a todos os participantes do debate público contemporâneo. Eu certamente poderia avançar neste quesito, pois ainda preciso me policiar muito para não gritar “lobo!” ao ver uma ovelha se aproximando no lusco-fusco. Brinco com meus alunos que as atualizações nas redes sociais são um dos poucos fenômenos naturais mais velozes do que o pensamento: ainda estamos no meio do processo de raciocínio e nossos dedos já apertaram “publicar” ou no botão de “retweet”. Desenvolvemos, como sociedade, o hábito da agressividade e do autoritarismo na conversação em rede. Extirpá-lo é difícil, mas precisamos tentar, sob pena de a esfera pública se tornar uma algaravia de solipsistas e fazer desandar a política até mesmo no mundo concreto.

O caso Idelber Avelar, em particular, deveria chamar a atenção de todos e cada um para a necessidade de não alimentar uma cultura de agressividade no ciberespaço. Cedo ou tarde, todos podemos nos tornar vítimas da má vontade, da incompreensão, do voluntarismo, da irreflexão que investirmos nas interações com outros cidadãos na esfera pública virtual. Boa vontade gera boa vontade.

Visualizações de dados concretas

Nas últimas semanas, tive contato com dois projetos artísticos que me levaram a pensar, na falta de termo melhor, nas possibilidades oferecidas por visualizações de dados concretas.

O primeiro projeto se chama Hypotopia e foi criado por estudantes de arquitetura da Technisches Universität de Viena. A proposta era mostrar ao público o significado dos 19 bilhões de euros usados pelo governo austríaco para salvar da falência o banco Hypo Alpe Adria. A solução foi criar uma cidade-modelo para mais de cem mil habitantes, em blocos de concreto e madeira, no centro de Viena.

O cidadão podia caminhar ao largo e por entre os blocos da maquete, que previsa ruas sem carros, sustentabilidade energética e outros benefícios ainda não existentes nas cidades normais, para cujos aprimoramentos os governos alegam jamais ter dinheiro suficiente. O impacto de medir com os próprios olhos, ainda que em escala, poder até mesmo tocar com as mãos, o prejuízo causado à Áustria por um banco irresponsável é certamente maior do que o impacto de um gráfico de barras, ou mesmo uma simulação em vídeo, numa tela de computador. A necessidade de se deslocar até uma praça para desfrutar de Hypotopia, de tomar tempo para apreciá-la, também estabelece uma relação mais reflexiva, talvez, entre o público e a visualização, do que os poucos segundos de atenção dispensados a um gráfico competindo com meia dúzia de notificações numa tela.

Um outro projeto interessante é Dein Erdanteil, apresentado em Berlim pelo artista plástico sueco Nikolaj Cyon. Ele criou um jardim no aeroporto de Tempelhof, onde plantou ervas, verduras e frutos como pepinos e abóboras. O jardim ocupa uma área de 19,75 metros quadrados, o equivalente a 1/100 da área de terra agriculturável disponível por ser humano, conforme dados da FAO.

Obra Dein Erdanteil (2012), de Nikolaj Cyon, em exposição em Berlim. (Reprodução)

Obra Dein Erdanteil (2012), de Nikolaj Cyon, em exposição em Berlim. (Reprodução)

O jardim permite ao público estabelecer uma relação mais direta, mensurável em escala humana, da quantidade de recursos naturais disponíveis para cada um de nós. É fácil multiplicar os cestos de tomates e folhas por 100 e perceber se estamos individualmente abusando, ou não, do espaço que nos foi designado pela mãe natureza.

Embora não tenha observado estas duas obras ao vivo, mas apenas por imagens na Web, seu impacto sobre minha compreensão dos problemas discutidos por ambas foi muito grande. Só posso imaginar qual foi o tamanho de sua influência sobre o público das exposições. Talvez fosse produtivo para a imprensa realizar experimentos nessa linha, mesmo que para serem distribuídos primordialmente em imagens.

Interceptação de dados em redes wifi e reportagem investigativa

A revista Matter recentemente publicou uma reportagem sobre a facilidade com que se pode interceptar o tráfego de dados em redes móveis públicas. Por menos de cem dólares, é possível comprar um roteador WiFi Pineapple, que permite a qualquer micreiro de boa vontade “clonar” uma rede e observar emails, navegação na Web, chats e qualquer outro tipo de comunicação entre um computador, smartphone, tablet e a Internet.

Em resumo: contrate um plano 3G e desligue o wifi de todos os seus aparelhos quando não estiver próximo de uma rede confiável. Usar redes públicas desconhecidas é o equivalente informático do sexo casual sem preservativo.

De qualquer forma, a facilidade com que se pode xeretar o tráfego de dados de qualquer pessoa hoje em dia me fez refletir sobre a possibilidade de jornalistas investigativos passarem a usar esse tipo de expediente. À primeira vista, a proposta parece uma aberração ética. Entretanto, não é, em essência, uma técnica muito diferente das campanas e câmeras escondidas.

Durante uma campana, o repórter persegue seus alvos pelas ruas e prédios, anotando os lugares onde estiveram, as pessoas com quem falaram e, eventualmente, capturando imagens. Este foi, por exemplo, o procedimento usado pela equipe da Gazeta do Povo na série Polícia Fora da Lei, que ficou em 2º lugar no Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo. Diversas outras reportagens semelhantes já mereceram reconhecimento dos pares através de prêmios. Pode-se afirmar, então, que as campanas estão dentro dos limites éticos da profissão.

O uso de câmeras escondidas, por outro lado, gera debate entre os jornalistas — e, principalmente, é lamentado pela academia. Alguns repórteres consideram o expediente antiético, porque em geral envolve construir uma situação baseada em imposturas, para levar o alvo a ser filmado cometendo um crime. A resposta, aliás razoável, é que o repórter se torna um impostor em nome do interesse público, que se sobrepõe à infração ética — ao menos, trata-se de uma infração ao código de ética da Fenaj, embora a representatividade do mesmo possa ser discutida.

Digam o que disserem os códigos de ética, porém, programas como o Fantástico vivem do uso de câmeras escondidas e ninguém é punido por isso. Então, essa técnica de reportagem pode ser considerada aceitável, dum ponto de vista pragmático, no Brasil.

Por que não seria aceitável, então, usar um roteador preparado para espionar o tráfego de, digamos, um funcionário público envolvido na venda de licenças ambientais? Observar a navegação na Web e ler os emails trocados entre o suposto funcionário corrupto e seus corruptores não é diferente, ao fim e ao cabo, de sentar ao lado dos mesmos num restaurante e gravar sua conversa. É claro, a interceptação de tráfego pode fornecer acesso a mensagens de pessoas sem nenhuma relação com a investigação, ou, mesmo, à descoberta de que o barnabé gosta de pornografia furry.

Mas, numa campana, não acontece o mesmo? No caso da série “Polícia Fora da Lei”, citado acima, alguns policiais foram vistos frequentando moteis e bordeis. Embora estivessem cometendo uma infração ao usar viaturas, sua vida pessoal, que não interessa à investigação, foi exposta. Casamentos podem ter sido terminados com base nisso. É legítimo causar esse tipo de dano? Não sei. É um efeito colateral abominado pela imprensa? Não é. Numa hipótetica xeretagem de uma conversa num local público, o repórter simplesmente elimina da narrativa as referências a pessoas físicas e jurídicas sem relação com o caso, o que poderia facilmente ser transposto para uma investigação cibernética.

Da mesma forma, fazer um roteador se passar por uma rede wifi para engambelar o mesmo funcionário corrupto e  interceptar seu tráfego de dados não me parece diferente, do ponto de vista ético, de usar uma câmera escondida. É crime? Talvez. Por outro lado, é comum repórteres cometerem crimes, como a compra de drogas ou armas, durante a investigação de quadrilhas de traficantes. Livram-se de processos entregando a muamba à polícia para demonstrar boa-fé, o que também poderia ser feito com uma coleção de documentos interceptados.

O caso mais conhecido de cracking aplicado ao jornalismo é o da britânica News International, no qual funcionários da empresa jornalística contrataram detetives para invadir os telefones de celebridades e roubarem dados. O uso destas técnicas neste caso é indefensável sob qualquer ponto de vista. Mas e se estivessem investigando corrupção no parlamento britânico? Seria ao menos tolerável?

Eu não sei. Entretanto, é um debate a ser iniciado, porque muito em breve o hardware e software necessários para esse tipo de investigação se tornarão mais acessíveis e devem começar a aparecer mais casos de uso pela imprensa.

Como criar um arquivo de tweets no Google Drive

O maior problema do Twitter é a volatilidade do conteúdo. Pesquisadores e jornalistas interessados em compreender ou monitorar um acontecimento a partir dessa rede social precisam contar com um programador para capturarem o conteúdo relevante diretamente através da API em tempo real, ou se contentar com os últimos 1500 tweets oferecidos nas buscas por usuários ou termos.

Mas para tudo há solução na Internet, se a pessoa procurar com boa vontade.

Nos últimos meses, passamos a usar no Editorial J uma gambiarra, aproveitando um script para gerar um fluxo RSS a partir de um widget do Twitter, desenvolvido por Amit Agarwal, e o serviço de automatização IFTTT.

O If This Then That (Se Isso, Então Aquilo) permite combinar conteúdo de diversas fontes em “receitas” que cobrem grande parte das necessidades de jornalistas e pesquisadores. Por exemplo, pode-se definir que todo tweet marcado como favorito será arquivado num documento no DropBox, ou até mesmo controlar lâmpadas inteligentes a partir do horário de nascer e pôr-do-sol de serviços de climatologia. Por alguma razão, entretanto, é pouco conhecido no Brasil. Em termos simples, é uma forma de programar sem saber programar.

Na época do Twitter de raiz, do Twitter arte, ainda era possível usar os fluxos RSS gerados pelas timelines dos usuários, listas e outros recursos e direcioná-los diretamente para uma planilha no Google Drive usando o IFTTT. Desde que o Twitter decidiu se fechar para controlar melhor seus negócios, entretanto, os fluxos RSS foram descontinuados. Então, é necessário contar com a ajuda dos hackers.

Amit Agarwal criou um script que pode ser rodado no Google Drive para capturar tweets. Sua aplicação é simples, embora exija um tanto de atenção. Segue abaixo uma tradução das instruções:

1. Antes de mais nada, registre-se no Twitter e vá para a página de criação de widgets. Crie o filtro que você deseja, como, por exemplo, uma busca por palavra-chave, um widget para uma lista específica de usuários, ou ainda um widget para a sua própria timeline, caso queira arquivar seus tweets.

2. Ao publicar o widget, o Twitter vai gerar um código de incorporação. Neste código, há um atributo “ID”, como no exemplo. Guarde o número após “data-widget-id”:

<a class="twitter-timeline" href="https://twitter.com/hashtag/VOTOJ" data-widget-id="518141229486182400">#VOTOJ Tweets</a><script>!function(d,s,id){var js,fjs=d.getElementsByTagName(s[0],p=/^http:/.test(d.location)?'http':'https';if(!d.getElementById(id)){js=d.createElement(s);js.id=id;js.src=p+"://platform.twitter.com/widgets.js";fjs.parentNode.insertBefore(js,fjs);}}(document,"script","twitter-wjs");</script>

3. Agora, clique neste link para copiar o script de Agarwal em sua conta do Google Drive. Selecione a aba “run” e, depois, “Twitter_RSS”, para autorizar a conexão ao Twitter.

4. Vá até a aba “publish” e escolha “deploy as Web App”, depois clique no botão “save a new version”. Na rubrica “who has access to the app”, defina “anyone, including anonymous”.
Com isso, o Google Script vai gerar uma URL para o aplicativo, semelhante a esta: https://script.google.com/macros/s/ABCD/exec. O trecho “ABCD” vai mudar conforme o seu usuário no Google Drive.

5. Agora, adicione um ponto de interrogação ao final desta URL, seguido pelo ID do widget que você criou no Twitter. No caso do widget acima, ela ficaria mais ou menos assim: https://script.google.com/macros/s/ABCD/exec?518141229486182400.

Assim, você já tem um endereço de fluxo RSS para usar no IFTTT. Se quiser, você pode usar esta receita que nós criamos para o Editorial J. Caso contrário, siga os seguintes passos:

  1. Em “channels”, ative o canal do Google Drive. Você precisará inserir seus dados de login do Google. O canal de RSS deve estar ativado por padrão.
  2. Em “my recipes”, escolha “create recipe”. Clique em “this” e selecione o botão laranja de “feed”. Escolha o “trigger”, ou gatilho, “new feed item”. Cole a URL gerada no processo anterior.
  3. Clique em “that” e escolha o canal do Google Drive. Depois, escolha a “action”, ou ação, “add row to spreadsheet”.
  4. Dê um nome à sua planilha. Em “formatted row”, você pode retirar ou incluir parâmetros. Clicando no ícone azul de garrafa de laboratório, é possível, por exemplo, incluir o autor dos tweets como um dos atributos a serem armazenados. Finalmente, defina uma pasta diferente para a planilha, se quiser.
  5. Clique em “create action” e — voilá! – você agora tem um sistema automatizado de arquivamente de tweets. (Ao menos, até o Twitter decidir mudar a API de novo.)

O IFTTT vai criar planilhas novas automaticamente toda vez que uma delas chegar aos mil registros, então, dependendo do tipo de conteúdo desejado, você pode vir a ter dezenas de planilhas XLS. Depois, basta consolidar tudo um só banco de dados.

Nestas eleições, vote em mulheres, negros, índios, LGBTs e outras minorias

Nunca antes na história deste país eu tive tantas dúvidas quanto aos candidatos a agraciar com meus votos como nestas eleições. Como sempre faço, vou abrir abaixo o meu voto, na esperança de influenciar um ou outro leitor e dar minha contribuição ao processo democrático.

Meu axioma, após o nascimento de minha filha, se tornou votar, sempre que possível, em mulheres. Embora nossa presidente seja uma mulher, um avanço nada desprezível, na câmara de deputados e no senado elas ocupam menos de 10% das cadeiras. É preciso, portanto, aumentar a participação feminina na representação política. Quem tem uma filha tem, a meu ver, obrigação de buscar um futuro mais equânime para ela através de, entre outras coisas, o voto.

Outro norte das minhas escolhas por candidatos é o foco no poder Legislativo. Durante a campanha, o debate nas redes sociais se concentrou nas opiniões dos candidatos a presidente quanto às questões do aborto, da legalização das drogas, do casamento entre homossexuais e afins, entre outras problemáticas de direitos humanos. O problema é que todas essas questões dependem de leis específicas para serem regulamentadas. Quem aprova as leis? O Congresso. A opinião de um eventual presidente nestes temas, portanto, tem sua relevância, mas não é fundamental. O importante, mesmo, é eleger um Congresso progressista, caso você concorde com essas propostas.

Voto útil

O voto útil é um dos hábitos mais reprováveis dos brasileiros. Todos deveriam votar de acordo com sua consciência, mesmo que seus candidatos, em princípio, não tenham chance. Quando se troca o voto no, digamos, PCO pelo voto no PT, por exemplo, acaba-se desincentivando outros eleitores a escolher esta legenda. Não é o caso do PCO, cuja obstinação é lendária, mas outros partidos podem se ver desmotivados a investir de verdade nas eleições majoritárias, preferindo cargos mais fáceis de obter. O PSOL, por exemplo, designou seus melhores candidatos à concorrência por cadeiras estaduais, não pelas de deputado federal, no Rio Grande do Sul.

Em especial nas eleições para as casas legislativas, não é preciso se preocupar com o voto útil. Mesmo que você vote num candidato com poucas chances, ele será computado para a legenda e ajudará os outros candidatos do partido — parto do princípio, provavelmente ingênuo, de que a maioria das pessoas comunga do programa geral de um partido ao escolher um representante. Em todo caso, um candidato que não se eleja, mas tenha uma quantidade razoável de votos, pode receber mais investimento do partido num pleito futuro.

quociente eleitoral prevê, em linhas gerais, que todos os votos para um partido serão computados e cotejados com o número de votos por vagas a preencher. Assim, um partido pode ganhar nas urnas o direito de ocupar uma, três ou nove cadeiras, por exemplo. A ocupação se dará conforme o número de votos de cada candidato do partido, do maior para o menor. Portanto, é preciso tomar cuidado ao votar em celebridades que alugam seus nomes para legendas pequenas, porque pode-se acabar elegendo arrivistas desconhecidos, como ocorreu no caso do Tiririca.

Voto nulo

Existem diversos argumentos razoáveis em favor do voto nulo, mas não consigo deixar de considerá-lo imaturidade política. Ninguém tem obrigação de se interessar pelo processo democrático, mas justificar a idiotia — idiotés, na Grécia Antiga, designava os indivíduos que se dedicavam somente à vida privada e não participavam da deliberação sobre os problemas da pólis — pela ausência de candidatos representativos da vontade individual é narcisismo.

Nenhum dos candidatos abaixo me representa perfeitamente e enxergo milhares de defeitos no sistema político brasileiro. Isto não significa que não haja alguma opção menos ruim. Sempre há um candidato ou partido que ao menos se aproxima da visão de mundo do eleitor, mas a sobreposição nunca é perfeita. De fato, a possibilidade de representação perfeita é apenas um ideal teórico, mas na prática ela é impossível, porque as ideias competem e sua correlação de forças é dinâmica. Quem quer representação perfeita deve concorrer ele mesmo a algum cargo.

É preciso lutar por mudanças no sistema político, mas, enquanto elas não vêm, é sensato adotar procedimentos de redução de danos, votando em candidatos que tenham um mínimo de relação com os valores de cada um. Além disso, escolher candidatos que demonstrem alguma coragem para lutar por mudanças, ainda que tímidas.

O resto é mimimi.

Presidente

Estava certo de que iria votar na Dilma, por causa de seu esforço em aprovar o Marco Civil da Internet e dos investimentos em educação superior que os governos petistas vêm fazendo nos últimos 12 anos. Porém, o presidente da Capes fez declarações preocupantes recentemente. Além disso, o governo tem excluído a área de Humanas do programa Ciência Sem Fronteiras, o que denota preconceito e ignorância quanto à contribuição desse tipo de pesquisa para a sociedade.

Por outro lado, a gestão tucana foi dramática para as universidades federais e a pesquisa científica. O governo FHC foi uma época de vacas magras para os cientistas brasileiros. O programa de governo do PSDB sinaliza um retorno a essa politica. Além disso, tenho relutância em votar em herdeiros de clãs políticos como Aécio Neves. Primeiro, porque perpetua o espírito coronelista que ainda causa certas distorções na política brasileira. Segundo, porque Aécio Neves tem histórico de cerceamento da liberdade de imprensa em Minas Gerais. Como jornalista, não posso compactuar com isso. Finalmente, Aécio é homem e pretendo votar em mulheres.

Entre os principais concorrentes, restaria Marina Silva. Embora suas propostas para a educação pareçam boas, não consigo ultrapassar a desconfiança em relação à candidata do PSB. A principal razão foi sua incompetência em registrar a Rede, mesmo com seu patrimônio de milhões de votos angariados em 2010, num país onde qualquer imbecil cria um partido. Pior ainda, Marina acusou o PT de melar a fundação da Rede.

Não duvido que dificuldades possam ter sido criadas artificialmente, mas esse é o tipo de problema que só acomete a quem fica na linha tênue entre o suficiente e o insuficiente. Marina tinha cacife para obter um número absurdo de assinaturas, contra o qual nenhum burocrata poderia fazer nada, mas não conseguiu. Por quê? Só consigo pensar em incompetência. Finalmente, apesar de toda a conversa sobre nova política, Marina resolveu sacrificar suas convicções para colonizar o PSB, numa demonstração de que seu discurso, além de incompreensível, é vazio.

Até simpatizo com as propostas de Luciana Genro e creio que seria interessante o PSOL ter mais participação, por ser um partido comprometido com avanços sociais. Em Porto Alegre, foram os principais responsáveis por remexer o lodo das concessões de transporte público e forçar uma redução no valor das tarifas de ônibus. Por outro lado, Genro nunca passa de 1% das intenções de voto, mesmo no cenário atual de insatisfação popular e politização da juventude. Por que o PSOL não conseguiu mobilizar os manifestantes de junho de 2013? Talvez devido ao fato de, no fim das contas, ser um partido pouco aberto à participação popular, exceto do povo “inventado pela taxidermia socialista“.

Ao fim e ao cabo, meus principais interesses — educação superior e pesquisa científica — foram bem atendidos ao longo do governo Dilma, conforme minha própria percepção e diálogos com alguns colegas. Ainda houve a aprovação do Marco Civil da Internet de lambujem. O governo federal tem sofrido muitas críticas dirigidas ao modelo econômico, mas não tenho capacidade de discernir quem tem razão nesse ponto. Há muito a melhorar, mas o saldo até agora me parece positivo.

Governador

A única mulher concorrendo no Rio Grande do Sul é Ana Amélia Lemos, representante do atraso e do conservadorismo. Além disso, ela tem o perfil de uma arrivista social: foi protegida por uma mulher rica na infância, cursou o colégio com uma bolsa conferida pelo governador Leonel Brizola, depois fez com que um deputado pagasse por sua faculdade, favor a que retribuiu roubando o tal deputado de sua então esposa e filhos, para depois aproveitar o mandato de senador biônico de seu marido e acumular um cargo de confiança no Senado com sua função de diretora da sucursal da RBS em Brasília.

Portanto, resta votar pela manutenção de Tarso Genro no governo do Estado. Primeiro, pelo compromisso histórico do PT com a ampliação de oportunidades para as minorias. Segundo, porque o partido vem reestruturando a UERGS, uma instituição importante. Finalmente, para que o inovador projeto do Gabinete Digital siga em andamento e tenha oportunidade de mostrar resultados — por enquanto, ainda está para se ver ganhos sociais concretos, para além do importante, mas superficial, agrado à comunidade focada na cultura digital. Também gostaria de ver se a EGR vai dar certo, ou será de fato o fracasso que se prenuncia.

Faço aqui um apelo: se você não for votar em Tarso, ao menos vote no Sartori. Se você tem parentes que odeiam o PT, faça campanha pelo Sartori. Ele tem bom histórico em Caxias do Sul e um perfil de gringo que me remete a meus parentes colonos, que podem ter uma visão de mundo menos cosmopolita do que Tarso e Ana Amélia, mas costumam ser gente trabalhadora e honesta. Enfim, qualquer coisa é preferível a Ana Amélia. O Robaina pode ser uma alternativa mais à esquerda.

Senador

Essa é fácil: Olívio! Por motivos de:

Deputado federal

Como expliquei acima, considero as casas legislativas a principal preocupação nas eleições. O poder Executivo, ao menos em princípio, tem a função de aplicar as leis criadas nos parlamentos, não de as criar ele mesmo. É claro, no Brasil o presidente detém algum poder a mais devido ao contexto local, no qual temos, na prática, um governo de coalizão e um foco mais atento no ocupante do Palácio do Planalto, o que lhe confere maior legitimidade para conduzir reformas.

Também pretendo votar em mulheres que promovam avanços sociais. Procurei alguma candidata do PSOL, por acreditar que o partido vem apresentando um contraponto importante e mais à esquerda ao próprio PT, nas cadeiras legislativas que ocupa. Porém, não há nenhuma candidata interessante do PSOL gaúcho a deputada federal.

Por outro lado, o PT tem Maria do Rosário, cujo compromisso histórico com os direitos humanos é reconhecido até pelos opositores. Compromisso que a levou a solicitar a investigação do próprio cunhado, detido com uma prostituta menor de 18 anos. Rosário também é interessada pela área da cultura, outro setor que valorizo. Votarei, portanto, nela.

Deputado estadual

Meu primeiro impulso era votar no Pedro Ruas, por sua atuação na defesa do transporte público em Porto Alegre. Também porque ele costuma atear fogo ao circo com alguma frequência, mais acertando do que errando, um papel importante na Assembleia Legislativa. Felizmente, o PSOL gaúcho tem uma candidata comprometida com a questão do transporte, com os direitos humanos, das minorias raciais e de gênero e tão incendiária quanto Ruas: Fernanda Melchionna.

Votarei nela, inclusive por achar que o PSOL merece mais oportunidades de mostrar sua compreensão da participação popular, ou comprovar de uma vez a acusação de Reinaldo Azevedo, de que o povo é apenas um conceito abstrato para os correligionários da sigla.