Minha proposta de reforma política

Hoje, no Brasil, só o Tribunal Superior Eleitoral não vê a corrupção galopante gerada pelo sistema de representação política nacional.

Parece ser consenso até mesmo entre os políticos que o sistema eleitoral não pode ficar como está. O jornal Nexo publicou ano passado um bom panorama das principais propostas para alterar o modelo de campanhas políticas no Brasil. Nenhuma delas parece capaz, isoladamente, de dar uma resposta adequada ao problema da corrupção gerada pelos altos custos da busca de votos pelos candidatos, mas provavelmente seria possível combinar os melhores aspectos de cada uma para chegar a um sistema um pouco mais racional.

No entanto, os acontecimentos dos últimos dois anos demonstram que não são apenas as campanhas eleitorais caríssimas o problema. Investigações como a Zelotes e delações como as da Odebrecht e JBS expuseram o Congresso como um balcão de secos e molhados, no qual os detentores de poder econômico fazem aprovar as leis que bem entendem. Mudar as regras de campanhas eleitorais não vai mudar este comportamento e algumas propostas, como o voto em lista fechada, podem até mesmo aprofundar esse tipo de corrupção, porque tende a concentrar poder político nas mãos de caciques e dificultar a renovação.

Como se não bastasse o caráter fraco dos parlamentares, entre cujos líderes pelo menos um terço responde a ação criminal, o triste espetáculo do impeachment evidenciou a baixa qualidade intelectual dos mesmos. A maioria dos deputados e senadores não é capaz nem mesmo de se expressar corretamente em português, quanto mais encadear um argumento coerente baseado em premissas sólidas.

Por outro lado, o impeachment deixou claro, mais uma vez, qual é o poder realmente relevante no país. Embora o Brasil seja, em tese, uma república presidencialista e o voto seja, em tese, soberano, os principais argumentos levantados pelos congressistas para destituírem Dilma Rousseff giraram em torno de sua impopularidade e das medidas econômicas desastrosas, enquanto as pedaladas fiscais restaram esquecidas. O espetáculo burlesco do impeachment mostrou que um presidente brasileiro só governa se o Legislativo assim o permitir.

Apesar de seu peso decisivo, porém, é tradicionalmente difícil fazer o eleitor brasileiro se interessar pela disputa aos cargos legislativos. De fato, acompanhar a trajetória de deputados federais e senadores exige muito esforço e os benefícios de se importar não são muito claros. Seria ruim o suficiente se fosse apenas pela possibilidade do Congresso cassar um presidente legítimo por razões escusas, mas é ainda pior, porque o Legislativo é quem define o raio de ação do presidente, através de leis. Boa parte das medidas que o eleitor espera do presidente são na verdade de responsabilidade do Congresso.

Nos meses seguintes à mudança de governo, Michel Temer se tornou ainda mais impopular e tomou ações tão temerárias quanto as de Dilma — além de ter sido gravado cometendo crimes –, mas não foi apeado do Planalto. O recado é claro: Dilma sofreu impeachment porque não estava mais atendendo aos interesses das oligarquias que detêm o passe da maioria dos deputados e senadores.

Temos, portanto, um Congresso bandido e ignorante fiscalizado por uma população sem a menor disposição para levar a sério eleições legislativas. O desastre é inevitável. Além disso, mesmo se nossos parlamentares fossem decentes, seu perfil demográfico está muito longe do perfil demográfico da população brasileira, em grande parte por causa das dificuldades estruturais para se eleger mulheres, negros, índios e LGBTs para esse tipo de cargo. Assim, podemos supor que, mesmo se todo eleitor brasileiro subitamente tomasse um grande interesse pela disputa legislativa e o nível geral dos parlamentares melhorasse, eles ainda representariam muito mal as minorias.

Lotocracia

Responda sinceramente: se você sair agora mesmo e parar o primeiro adulto com quem cruzar na rua, ele não vai ser melhor, ou, pelo menos, igual ao pior parlamentar em atividade no Congresso hoje?

Existem diversos cientistas políticos propondo e regiões realizando experiências com o sorteio eleitoral. Em essência, o método prevê o preenchimento de cargos públicos pelo sorteio de um grupo representativo da demografia dos cidadãos a serem representados. Nesta “lotocracia”, a bancada gaúcha, por exemplo, seria constituída em 52% de mulheres e 48% de homens; 16% de negros ou pardos; 21% de parlamentares com menos de 35 anos e 9% com mais de 70; seu patrimônio médio seria de R$ 195 mil, em vez do atual 1,7 milhão. Os “eleitos” seriam escolhidos entre os adultos detentores de direitos políticos, aleatoriamente.

Existem vários métodos possíveis. Alguns proponentes insistem que somente voluntários deveriam ser considerados no sorteio, por exemplo, para garantir algum nível de comprometimento, mas outros argumentam que as pessoas mais competentes e honestas poderiam ter menos incentivos do que os incompetentes e desonestos para se candidatar. Considerando o tipo de gente que se candidata a esses cargos no Brasil, os proponentes da política como serviço público obrigatório parecem ter razão.

Certas propostas supõem o preenchimento de apenas parte dos cargos por sorteio, enquanto outras sugerem escolher uma das casas legislativas para ser preenchida por sorteio e manter a outra no sistema eleitoral normal.

Todos concordam nos possíveis benefícios, porém: evitar os incentivos perversos do sistema eleitoral e garantir melhor representatividade para os diferentes grupos sociais. O antecedente histórico mais citado é Atenas, onde o sorteio era o método de preenchimento dos cargos públicos, pois eleições eram vistas como promotoras de oligarquias. Cidadãos com mais de 30 anos se candidatavam e seus nomes eram então inseridos em máquinas chamadas kleroterion, as quais selecionavam os representantes aleatoriamente. O mandato típico era de um ano e o mesmo cidadão não podia se candidatar duas vezes ao mesmo cargo. Os escolhidos passavam por um exame público, no qual qualquer membro do Boule podia levantar objeções sobre sua capacidade ou caráter — mas os rejeitados pelo conselho podiam entrar com recursos nas cortes.

Não seria difícil adaptar um sistema semelhante ao mundo contemporâneo. Assim como na Grécia antiga, a principal vantagem seria eliminar a maioria dos incentivos à corrupção. Primeiro, os legisladores não precisariam promover campanhas de alto custo. Segundo, chegariam às câmaras de vereadores, assembleias legislativas, Câmara e Senado sem laços estabelecidos com os parasitas que costumam rondar essas casas. O fato de não poderem ocupar o mesmo cargo duas vezes evitaria que estes laços fossem criados. Além disso, toda nova legislatura seria composta por desconhecidos, então os representantes desonestos nunca saberiam em quem confiar. As chances de alguém honesto ficar horrorizado com uma proposta de corrupção e denunciar tudo seriam mais altas do que hoje em dia.

Quanto à questão da competência, poderia ser resolvida com o reforço dos quadros de carreira. Para quem não suspeita disso ainda, informo que o Tiririca não redige os próprios projetos de lei, como aliás não o faz quase nenhum dos deputados e senadores mais letrados do que ele. Os projetos são redigidos por assessores ou funcionários públicos de carreira especializados nisso — ou por lobistas da indústria, bancos, transportadoras… Os parlamentares, é claro, dão o norte. Os sorteados poderiam, enfim, contar com servidores públicos para explicar e redigir projetos de lei. Ao mesmo tempo, poderiam fiscalizar estes funcionários e serem por eles fiscalizados. O fato de sua experiência de vida estar mais próxima do cotidiano de suas regiões do que dos restaurantes e cabarés de Brasília lhes permitiria tomar melhores decisões para os cidadãos por eles representados — que seriam, de fato, seus vizinhos, seus familiares.

Obviamente, um sistema de sorteio também tem suas falhas e criaria novos problemas, necessitando de aperfeiçoamento constante. Os detalhes poderiam ser examinados mais tarde. A questão, antes de mais nada, é a seguinte: uma Câmara de Vereadores, uma Assembleia Legislativa, um Congresso eleito por sorteio, seriam piores do que os atualmente em atividade no Brasil?

Dificilmente.

Poderiam ser a mesma coisa, mas piores, não. Porque, em média, nossos primos, nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho são melhores pessoas do que os políticos profissionais. Ou por acaso um terço das pessoas que você conhece estão respondendo por crimes?

Se instalasse uma lotocracia, o Brasil poderia ver a qualidade de seus quadros legislativos melhorar e ainda poupar o dinheiro do processo eleitoral.

Como as eleições poderiam ser mais justas e honestas

Infelizmente, a instauração de uma lotocracia é uma possibilidade remota. Além disso, provavelmente seria sensato manter o processo eleitoral para o preenchimento de alguns cargos, como os de prefeito, governador e presidente. Então, mesmo se o Brasil mudasse o sistema político nessa direção, ainda haveriam eleições a serem realizadas. Por isso, seguem algumas ideias sobre como as tornar mais justas e honestas.

O problema da corrupção nas campanhas políticas é muito semelhante à questão do tráfico de drogas. Assim como alguns cidadãos consomem substâncias proibidas, alguns políticos se utilizam do caixa 2, ou vendem “cotas” de suas candidaturas a empresas para as quais prestarão serviços mais tarde, no caso de assumir um cargo. Assim como o Estado busca coibir o uso de substâncias proibidas através da repressão, a corrupção é reprimida pela punição dos envolvidos. Assim como o tráfico de drogas vai seguir existindo enquanto houver demanda da sociedade por entorpecentes, a corrupção vai campear enquanto uma candidatura a cargos eletivos exigir orçamentos publicitários obscenos.

Ao contrário do abuso de substâncias ilícitas, o qual não é fácil controlar, por ocorrer em privado, uma campanha eleitoral é por definição pública e, portanto, passível de controle pelo Estado. A lógica sugere, então, que a maneira mais eficaz de se atacar o problema da corrupção é limitar ao máximo as formas de campanha permitidas. Se a legislação eleitoral impuser um modelo restrito de propaganda, a demanda por recursos financeiros cairá e talvez se tornem fúteis o caixa 2 e o aluguel de mandatos a empresas financiadoras.

O modelo ideal de legislação eleitoral incluiria os seguintes pontos:

  • Fim do horário eleitoral obrigatório em emissoras privadas de rádio e TV. Os programas eleitorais passariam a ser veiculados exclusivamente em emissoras públicas, como as TVEs, TV Brasil, TV Senado e TV Câmara.
  • Limitação dos programas eleitorais a um palanque eletrônico. Os candidatos poderiam usar apenas uma tribuna com microfone aberto e um projetor ou pôsteres para expor suas ideias. Também poderiam trazer convidados para defender seu programa de governo ou legislatura, desde que usassem a estrutura das emissoras públicas.
  • Realização de entrevistas obrigatórias no formato “Roda Viva” para os candidatos a cargos no Executivo. Os debates de hoje em dia são pouco produtivos e, por outro lado, os jornalistas têm poucas oportunidades de sabatinar candidatos extensivamente. Um programa de entrevista coletiva transmitido por todas as emissoras poderia ter uma duração longa e realmente explorar as ideias dos candidatos.
  • Incentivo fiscal para a doação de pessoas físicas a partidos. Hoje, o cidadão não pode deduzir eventuais doações a partidos ou candidatos de seu Imposto de Renda. Este poderia ser um incentivo a um modelo mais orgânico de financiamento de campanhas e outras atividades políticas. O modelo alemão, no qual o Estado oferece um valor para cada euro doado pelos cidadãos, também parece interessante.
  • Fim dos períodos de campanha limitados por lei. A limitação das campanhas ao período eleitoral é uma hipocrisia da legislação brasileira e tem como efeito afastar o cidadão dos partidos por longo tempo entre as eleições, prejudicando a formação de uma cultura política mais adulta.

A PEC 55 e a UFRGS

As discussões sobre a PEC 55, atualmente em tramitação final no Senado, em geral tratam do orçamento da União de forma abstrata o suficiente para se tornar incompreensíveis para quem não tem um diploma em economia ou gestão pública. Por isso, vale a pena cada um analisar o impacto da emenda constitucional que o governo Temer pretende aprovar sobre o seu contexto pessoal.

No meu caso, sou professor e pesquisador na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O ocupante do Planalto, o presidente do Banco Central, deputados, senadores, a FIESP, a Febraban e outras entidades tentam sempre passar a impressão de que a PEC 55 vai obrigar as instituições a uma racionalização dos custos, cortando apenas os gastos supérfluos. Convenientemente, a reitoria da UFRGS preparou um estudo analisando qual teria sido o impacto da nova regra constitucional na universidade, se ela estivesse em vigor desde 2007. A tabela abaixo resume os números:

pec-55-ufrgs-proplan

Como se pode verificar, o orçamento de 2015 seria reduzido em cerca de 60%. Que falta fariam estes R$ 109 milhões para a UFRGS? Seriam cortadas as vantagens nababescas de marajás do serviço público? Os pesquisadores deixariam de se hospedar em hoteis 5 estrelas, para ficar em 3 estrelas? O uísque 18 anos seria trocado por uísque 8 anos?

Na verdade, o resultado seria a absoluta estagnação e, talvez, o retrocesso em diversas linhas de pesquisa, oferta de cursos e assistência estudantil. Abaixo estão descritos os valores destinados apenas ao custeio das atividades básicas da universidade em 2015:

  • Assistência estudantil: R$ 17,9 milhões
  • Limpeza: R$ 13,4 milhões
  • Transporte terceirizado: R$ 5 milhões
  • Manutenção predial: R$ 14,7 milhões
  • Energia elétrica, água e telefonia: R$ 28,5 milhões
  • Vigilância: R$ 19,2 milhões
  • Total: R$ 98,7 milhões

Como se pode verificar, o orçamento disponível para 2015, se a PEC 55 estivesse em vigor nos dez anos anteriores, não seria suficiente para pagar nem mesmo os custos mais básicos de operação da UFRGS. Todos os dias, alguém é assaltado no entorno dos campi, mas haveria menos recursos para vigilância. As instalações, mesmo com investimento de R$ 14,7 milhões em manutenção predial, já são insalubres em alguns casos. Basta observar o tamanho da fila no Restaurante Universitário em qualquer dia da semana para concluir que a assistência estudantil está muito aquém do necessário para garantir que os estudantes concluam seus cursos.

Não apenas isso, mas o contingenciamento significaria que diversos novos cursos, criados desde 2007, não teriam saído do papel. Afinal, um curso novo exige não apenas professores, mas salas, banheiros e luz, no mínimo. Diversas pesquisas iniciadas no período teriam sido vetadas por falta de dinheiro para manter equipamentos de laboratório funcionando, pois exigem energia, água e limpeza — hoje em dia, já acontece de pesquisadores terem de pagar contas do próprio bolso, para não perder suas colônias de bactérias ou deixar traças comerem documentos.

Funcionários qualificados produzem mais e geram mais recursos para o Estado, na forma de impostos. Pesquisas científicas permitem criar novos produtos, que pagam impostos para serem comercializados, ou aumentar a eficiência da produção, o que também aumenta impostos. A verba destinada ao custeio e expansão da universidade não é liberalidade do Estado para com o dinheiro do contribuinte, mas um investimento.

Ainda assim, é preciso reconhecer a situação fiscal tenebrosa do Brasil e encontrar formas de colaborar com o ajuste das contas. A UFRGS e outras instituições certamente podem encontrar formas de reduzir os custos — na verdade, já vêm fazendo isso nos últimos anos, como resposta ao contingenciamento de verbas imposto pelos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia; por exemplo, bancas de dissertação e tese passaram a ser realizadas via teleconferência, para poupar em passagens aéreas e diárias.

Todavia, mesmo que se encare o ajuste fiscal proposto com otimismo e boa vontade, deixando de lado o fato de um presidente ilegítimo estar propondo emendar a Constituição Federal a um Congresso criminoso, é impossível deixar de perceber o desequilíbrio nos sacrifícios exigidos por Brasília. Enquanto a oferta dos serviços de Saúde e Educação, voltada aos trabalhadores e aos pequenos empresários, vai ficar, na melhor das hipóteses, estagnada, o empresariado e os rentistas não vão fazer sacrifício algum. Pelo contrário, estão recebendo ainda mais benefícios de Temer.

Quando “desonera” o “setor produtivo”, o governo usa o argumento de que os benefícios se revertem no futuro, indiretamente, em mais empregos e uma economia mais dinâmica, cujo resultado é um aumento na arrecadação de impostos. Esse discurso nunca é aplicado, porém, ao investimento em profissionalização de cidadãos e pesquisa científica.

Enfim, a PEC 55, da maneira como está apresentada, reduzirá drasticamente a capacidade de se formar trabalhadores especializados e se inovar tecnologia no Brasil. Este efeito nefasto provavelmente não vai se restringir aos 20 anos previstos para o ajuste fiscal, mas deve prejudicar o desempenho das universidades num prazo ainda mais longo. A Educação e a Ciência são setores que respondem lentamente às condições externas. Esse até poderia ser um sacrifício razoável e passível de discussão, se os malefícios fossem distribuídos de forma equânime. No momento, porém, como sempre no Brasil, a conta está sendo socializada e as benesses, privatizadas.

Salvar

Gabriel Pillar salvou a minha vida e a de muitos mais

 photo pillar_01.jpg

Há exatamente dez anos, fui acordado por um telefonema por volta das seis da manhã. Numa voz ainda incrédula, a Preta, mãe do Gabriel, foi objetiva: “O Gabriel bateu o carro e faleceu agora há pouco. O velório vai ser no cemitério da Santa Casa. Por favor, avisa o pessoal.” A incredulidade na sua voz fazia sentido: o Gabriel tinha apenas 22 anos e anteontem mesmo eu havia saído com ele. Na terça, iria participar da banca de seu trabalho de conclusão de curso. Deitei a cabeça novamente no travesseiro e fechei os olhos, tentando me convencer de que havia sonhado. Passados 15 minutos, comecei a fazer algumas das ligações telefônicas mais tristes da minha vida.

O funeral transcorreu como se esperaria do enterro de um jovem falecido de repente, cheio de projetos em andamento. Não apenas os amigos próximos e a família, mas muitas pessoas que apenas o conheciam “da Internet” apareceram. Muitos escreveram obituários comoventes. Jamais presenciei dor como a manifestada na ocasião pela Preta e pelo Valério. Ambos transmutaram ao menos parte dessa dor em algo que o Gabriel aprovaria, porém: um livro com material produzido por ele e alguns trechos das homenagens que recebeu ao longo do ano seguinte à sua morte. Se quiserem saber quem foi o meu amigo e qual impacto ele teve nas vidas de muita gente, basta ler este livro.

Eu mesmo, normalmente, estaria ao lado dele no veículo que colidiu num poste da avenida Mostardeiro, voltando da festa de final de ano da Casa de Cinema, no Ocidente. Venho tentando lembrar nos últimos dias o porquê de não ter ido a essa festa, mas não consigo. Talvez estivesse gripado, ou tivesse um trabalho final de disciplina do mestrado para terminar, ou mesmo estivesse ainda sofrendo de ressaca do sábado anterior. Quem sabe, apenas estivesse sem saco.

Nunca soube o motivo exato do acidente. Não sei se o Gabriel estava embriagado, com sono, ou se outro motorista embriagado fez alguma manobra que o levou a perder o controle do carro. De uma coisa, porém, eu sei: todos bebíamos e dirigíamos naquela época. Não porque não soubéssemos dos riscos. Afinal, Diza Gonzaga vinha há dez anos insistindo para que fôssemos mais responsáveis no trânsito. Como todos os jovens, não ouvíamos. Como as penalidades por conduzir um veículo embriagado eram pífias, ninguém pensava duas vezes antes de o fazer. O prejuízo imediato pagando a tarifa do táxi parecia mais grave do que a mera possibilidade de se acidentar.

Infelizmente, precisei perder um dos meus melhores amigos para começar a ouvir. Mesmo assim, a mudança de comportamento não foi imediata. Passei a evitar ao máximo sair à noite de carro, mas, quando o fazia, com frequência ainda bebia e dirigia. No dia seguinte, a ressaca era amplificada pela lembrança do ocorrido com o Gabriel. Aos poucos, o recado do cosmos começou a fazer efeito. Não apenas em mim, porque vários amigos passaram a ser mais responsáveis mais ou menos na mesma época.

Dois anos depois do acidente, a “Lei Seca” foi inserida no Código de Trânsito Brasileiro, embora não tenha surtido um grande efeito, devido à dificuldade em se aplicar as penalidades previstas. Foi um avanço, entretanto, na medida em que o processo de aprovação da lei trouxe maior conscientização a respeito do tema. As escolas passaram a incluir no currículo discussões sobre trânsito. Hoje, a minha filha, recém saída do jardim de infância, não deixa eu nem mesmo dar a partida no carro, se não estiver usando cinto de segurança, além de criticar veementemente qualquer pessoa que use o celular ao volante. Em 2012, o endurecimento da Lei Seca passou a realmente desmotivar os motoristas, ao menos no meu círculo de amizades, a dirigirem embriagados.

Quase 20 anos depois, Porto Alegre vem apresentando os menores índices de fatalidade no trânsito desde que a EPTC passou a coletar este dado. Até outubro, os números indicavam que 2016 seria o ano com menos mortes desde 1997. Quantos jovens como o Gabriel teriam sido perdidos desde 2006, se não fosse pelo avanço na conscientização dos motoristas e na fiscalização pelas autoridades? Quantas coisas interessantes nós perdemos junto com o Gabriel? Ele teria se tornado escritor? Teria criado aplicativos revolucionários para smartphones? Não se perdeu apenas um amigo, um filho, mas um talento que faria diferença em nossa sociedade.

Só lamento que não tenhamos dado ouvidos a pessoas como Diza Gonzaga antes. Se há dez anos houvesse uma cultura de responsabilidade no trânsito como a atual, talvez o Gabriel ainda estivesse vivo. Como disse acima, não sei se ele estava embriagado, mas isso não importa, porque responsabilidade ao volante envolve muitos outros aspectos. Alguém saindo às cinco da manhã duma festa pode estar com sono, mesmo sem ter bebido. Ou pode encontrar algum motorista que tenha bebido pelo caminho. Também pode ser assaltado ao entrar ou sair do carro e levar um tiro de graça. Pode se dar mal ao cruzar um sinal vermelho na tentativa de evitar ficar dando sopa de madrugada. Muita gente evita usar o carro à noite hoje por causa de todas essas possibilidades.

Para mim e para muitos dos meus amigos, todavia, o ponto de inflexão foi a tragédia do Gabriel. Se não salvou a mim, ele salvou a algum outro amigo querido. Neste aniversário de dez anos de sua morte, eu gostaria de agradecer ao Gabriel com este texto, por seguir beneficiando a todos à sua volta, mesmo sem estar presente.

Você faz muita falta, meu amigo!

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Meu primeiro voto nulo

Pela primeira vez na vida, votarei nulo numa eleição.

Considero impossível escolher o menos pior entre Sebastião Melo e Nelson Marchezan Jr. no próximo domingo. Ambos os candidatos têm qualidades e defeitos, algumas diferenças de personalidade e trajetória. Porém, se levarmos em conta que nunca elegemos apenas uma pessoa para um cargo do Executivo, mas toda uma equipe de governo, uma coligação partidária e uma base de apoio no Legislativo, fica muito difícil traçar uma linha divisória clara onde Melo termina e Marchezan começa.

Até novembro de 2015, Marchezan e Melo faziam parte do mesmo governo no Paço Municipal. O PSDB era parte da base de apoio do prefeito José Fortunati, para o qual Melo atua como vice. Noutras palavras, são farinha do mesmo saco. Neste momento da campanha, se vê muita gente argumentando que Melo tem uma candidata a vice do PDT, um partido de esquerda, enquanto o PSDB de Marchezan tem apoio do PP, um partido de direita. Além disso, o próprio PMDB descende do MDB, enquanto o PP descende da ARENA. Mesmo se aceitarmos a ascendência dum partido brasileiro como indicativo de seu comportamento atual, precisamos lembrar que o DEM compõe a coligação de Melo e o PTB manifestou apoio a Marchezan. Então, no fim das contas. E todos eles estavam juntos até julho deste ano na Prefeitura. Então, não temos aí nenhuma diferença marcante.

Também cabe lembrar que, se Marchezan vencer, sua coligação elegeu apenas dez vereadores numa Câmara de 36 assentos. Ele será obrigado a compor com a maioria dos partidos que fazem parte hoje da coligação de Melo. Talvez o PDT, o PSB e a Rede não aceitem trabalhar com Marchezan, mas o resto dos partidecos da coligação ficará mais do que feliz em aceitar cargos em troca de apoio — o PMDB inclusive, muito provavelmente.

Alguns eleitores tradicionais da esquerda vêm argumentando que, embora Melo seja candidato do PMDB de Michel Temer, o partido aqui no Rio Grande do Sul seria diferente, menos golpista e fisiológico do que noutras paragens. Além disso, a vice Juliana Brizola é filiada ao PDT, que se opôs ao golpe institucional de Michel Temer. O primeiro ponto é discutível. O segundo, embora faça sentido, não traz benefício algum para Porto Alegre. O golpe ocorreu — notem o tempo pretérito — no ente abstrato conhecido como Brasil. O fato de termos um prefeito marginalmente menos golpista não vai fazer os buracos nas ruas se fecharem ou os ônibus andarem no horário.

Em resumo, a corrida entre Melo e Marchezan parece indicar, no máximo, uma disputa pelo poder dentro de um grupo de políticos à direita do centro e sua entourage de CCs. Uma evidência disso é a ausência completa de diferenças relevantes nos planos de governo.

Se a posição no espectro político não ajuda muito a escolher entre os dois candidatos, suas peculiaridades pessoais tampouco oferecem um norte para o eleitor.

Melo representa uma administração incapaz de terminar um corredor de ônibus em três mandatos. Uma administração que realizou uma licitação para o transporte público na capital de modo a manter os membros da ATP confortáveis em seus lugares — e apenas porque foram obrigados a tanto pela maior onda de protestos populares desde a redemocratização. Uma administração na qual Vanderlei Cappellari segue presidente da EPTC. A qual vê um shopping center emporcalhando o cartão postal de Porto Alegre como solução de urbanismo. Na qual a efervescência cultural de projetos como as Serenatas Iluminadas ou hortas comunitárias encontra resistência. A qual, desde 2005, vem aparelhando o governo local com burocratas fiéis e CCs. A qual, para resumir, é na melhor das hipóteses chocha, com uma ou outra ação desastrosa aqui e ali.

Devido aos motivos acima, eu estava decidido a votar não em Marchezan, mas contra Melo, até alguns dias atrás.

Marchezan votou a favor da PEC 241. Como deputado, foi na melhor das hipóteses medíocre. É um janota descendente da pior elite política local, sem grandes qualidades ou visão política digna de nota. É apoiado agora pela elite econômica pseudo-esclarecida local, patrocinadora do Instituto de Estudos Empresariais e outras organizações psicopatas. Sua única qualidade, de fato, é não ser o candidato ungido pela atual administração. Considerando o desempenho pífio de Fogaça e Fortunati no Paço Municipal, não é uma vantagem irrelevante, mas é questionável, porque o PSDB fez parte dos governos de ambos e talvez mantenha muitas de suas chefias e CCs. Mesmo assim, seria possível ter esperança de que uma chacoalhada na burocracia fizesse Porto Alegre sair do marasmo. Todavia, Marchezan votou a favor da PEC 241.

Temos, então, um vice-prefeito indefensável disputando a prefeitura com um pretendente que um eleitor tradicional da esquerda não pode apoiar. Além disso, não há diferenças substanciais o suficiente entre ambos para discernir um voto útil — ou, pelo menos, útil o suficiente para valer a pena violentar meus valores e crenças.

Como um voto em qualquer um dos dois pode se mostrar fútil, pela primeira vez na vida estou sem condições de escolher até mesmo o menos ruim.

Erremo – Sobre a cláusula de barreira nas eleições municipais

Divulguei informação equivocada neste weblog a respeito da cláusula de barreira nas eleições municipais.

Ao exemplificar o impacto com dados da eleição de 2012, deixei de levar em conta que o patamar mínimo para um vereador ser eleito não é o quociente eleitoral cheio, dado pelo número de votos válidos divido pelas cadeiras a serem preenchidas, mas 10% do quociente eleitoral. Asseguro aos leitores que já peguei o flagelo ali no armário e tomei as devidas providências.

Percebi o erro relendo as regras instituídas pela Resolução TSE nº 23.456/2015. Usando os resultados das eleições de 2012 para Porto Alegre, disponíveis no repositório de dados do Tribunal Superior Eleitoral, criei uma planilha mostrando como ficaria a situação dos candidatos se fosse aplicada, na época, a regra atual.

Naquele ano, houve 753.729 votos válidos, que, divididos pelas 36 cadeiras da Câmara de Porto Alegre, dão um Quociente Eleitoral (QE) de 20.937. O patamar mínimo de votos para um candidato assumir a vaga seria de 10% do QE, ou seja, 2.094 votos. Na planilha acima, estão marcados em verde os candidatos que teriam ultrapassado a barreira. Como se pode ver, não haveria mudança alguma na composição final da Câmara de Vereadores.

Apesar do equívoco na premissa, segue válida a conclusão anterior de que deixou de ser interessante votar na legenda. Meu exemplo usou o PSOL:

Em 2012, o município de Porto Alegre teve cerca de 800 mil votos válidos. Pela regra atual, caso se mantenha um número próximo a esse de votos válidos, cada vereador deve obter no mínimo uns 20 mil votos para atingir o patamar de barreira. Naquele ano, Pedro Ruas, do PSOL, foi o vereador mais votado, com 14.610 votos. Fernanda Melchionna, também do PSOL, obteve 7.214 votos nominais. A legenda PSOL recebeu 10.415 votos.

Em 2012, estes 10.415 votos na legenda iriam para o lixo, porque o terceiro candidato a vereador mais votado pelo PSOL, Professor Alex Fraga, obteve apenas 1.424 votos. Aliás, provavelmente a própria Fernanda Melchionna não seria eleita e, quem sabe, nem mesmo Pedro Ruas.

Com o cálculo correto, se pode perceber que as vagas de Pedro Ruas e Fernanda Melchionna estariam asseguradas. O Professor Alex Fraga não teria atingido o patamar de barreira, mas não foi eleito de qualquer forma porque o Quociente Partidário (QP) do PSOL deu direito a apenas duas cadeiras para o partido. Por outro lado, se o PSOL tivesse QP suficiente para assumir três vagas, a cadeira do Professor Alex Fraga teria sido repassada a algum outro partido, por insuficiência de votos nominais.

Portanto, renovo a sugestão: faça o que fizer nestas eleições, não vote na legenda.

Salvar

Salvar

Vote em mulheres, negros ou mulheres negras

Um dos principais problemas políticos no Brasil é a discrepância entre o perfil demográfico da população e sua representação no Legislativo. Quando ainda era professor na PUCRS, orientei a produção de uma reportagem da aluna Georgia Ubatuba, mostrando como os deputados estaduais e federais estão distantes da realidade da população gaúcha.

Felizmente, cada um de nós brasileiros pode contribuir para mitigar este problema apenas exercendo o direito — e a obrigação — ao voto. Por isso, decidi sempre que possível, para o resto da vida, votar em mulheres, negros ou, melhor ainda, mulheres negras.

O sempre que possível exige, é claro, uma definição. As minhas crenças e valores pessoais se posicionam quase sempre no espectro ideológico da esquerda, então votar em alguém como Ana Amélia Lemos (PP) seria uma violência contra mim mesmo. Isso não me impediria, no entanto, de eventualmente dar meu voto a uma candidata do PP, DEM e quejandos, se a pessoa demonstrasse, através de sua atuação, ser um cisne negro progressista num desses partidos e não houvesse nenhuma candidata mulher ou candidato negro razoável na esquerda. A escolha do candidato em que votar é sempre contingente. Se a situação estiver muito ruim, todavia, eventualmente acabarei votando num homem branco de esquerda de novo.

Nas próximas eleições municipais, portanto, meus votos irão para as seguintes candidatas:

Luciana Genro (PSOL): É a única candidata mulher à prefeitura, à esquerda ou à direita.

Karen Santos (PSOL): Professora e ativista do movimento negro. Mesmo que não vença, o voto conta para eleger vereadores do PSOL, partido com cujas principais bandeiras eu concordo. O partido também não tem envolvimento em nenhum escândalo de corrupção, ainda. Além disso, a vereadora candidata à reeleição Fernanda Melchionna vem apresentando uma boa atuação na Câmara e será beneficiada com este voto.


 

ATUALIZAÇÃO: Como está explicado neste novo artigo, há equívocos em alguns trechos do texto abaixo, que foram devidamente rajados.

Como modificações recentes na Lei Eleitoral introduziram uma cláusula de barreira nestas eleições municipais, a estratégia de votar num candidato sem muitas chances, contando que o voto seja contabilizado no quociente eleitoral, pode não ser a melhor. Assim, estou repensando o voto na candidata Karen Santos.

Por um lado, se tornou mais necessário do que nunca a votação numa pessoa que você julgue boa candidata. Se não atingir o patamar de barreira, o candidato, mesmo estando num partido com bom quociente eleitoral, pode perder a vaga. Mais grave ainda, a cadeira pode acabar indo para um candidato de outro partido, caso nenhum outro do partido do seu candidato tenha atingido o patamar.

Em 2012, o município de Porto Alegre teve cerca de 800 mil votos válidos. Pela regra atual, caso se mantenha um número próximo a esse de votos válidos, cada vereador deve obter no mínimo uns 20 mil votos para atingir o patamar de barreira. Naquele ano, Pedro Ruas, do PSOL, foi o vereador mais votado, com 14.610 votos. Fernanda Melchionna, também do PSOL, obteve 7.214 votos nominais. A legenda PSOL recebeu 10.415 votos.

Em 2012, estes 10.415 votos na legenda iriam para o lixo, porque o terceiro candidato a vereador mais votado pelo PSOL, Professor Alex Fraga, obteve apenas 1.424 votos. Aliás, provavelmente a própria Fernanda Melchionna não seria eleita e, quem sabe, nem mesmo Pedro Ruas.

O exemplo acima tem um erro: a barreira não é o Quociente Eleitoral, mas 10% do QE. Então, refiz os cálculos e concluí que Pedro Ruas e Fernanda Melchionna teriam a vaga assegurada sob a regra nova. Detalhes aqui. De resto, segue não valendo a pena votar na legenda.

Por isso, creio que votarei mesmo em Fernanda Melchionna, pois não há elementos para medir a competitividade de Karen Santos, que não foi candidata em 2012.

O bom filho à casa torna

Em março de 2007, com apenas 28 anos de idade e concluindo o mestrado, a PUCRS me deu a oportunidade de iniciar a minha carreira como docente na área de Jornalismo. A partir de julho de 2016, entro em nova fase na carreira, com minha transferência da Famecos para o curso de Jornalismo da Fabico, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na UFRGS, vou assumir algumas das disciplinas de Ciberjornalismo, criadas para atender às novas diretrizes curriculares para o ensino do Jornalismo.

Será um prazer imenso retornar à Fabico, onde cursei a graduação entre 1997 e 2001 e, mais tarde, o mestrado, entre 2005 e 2007. Sempre tive o desejo de retribuir o investimento público em minha formação levando para lá o conhecimento que desenvolvi nesta década como pesquisador, além das habilidades práticas como jornalista digital e agitador cibercultural. No primeiro semestre, enquanto o currículo novo não é implantado, vou substituir o professor Wladimir Ungaretti na orientação dos alunos que produzem a revista Sextante e o jornal Três por Quatro. Será uma boa oportunidade de compartilhar algumas experiências do Editorial J com os alunos da Fabico.

Também vou participar do grupo de pesquisa em Jornalismo Digital, o JorDi, criado pela professora Luciana Mielniczuk.

Essa mudança é o ponto culminante de uma década de trabalho intenso como pesquisador e docente. Desde o ingresso no mestrado, havia determinado para mim mesmo o objetivo de me tornar pesquisador e docente no magistério superior federal. Se na PUCRS pude desenvolver bem as habilidades de professor e, até certo ponto, administrador, essa nova fase na carreira vai se focar em ampliar minha participação como pesquisador nos campos do Jornalismo e da Cibercultura.

Com o tempo, pretendo retomar as atividades neste weblog e no Garfada. Considerei adequado recomeçar compartilhando a alegria pelo raro privilégio de concretizar um sonho. :-)

11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Na quinta-feira, dia 23, começa o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Convido os inscritos a acompanharem as atividades da qual farei parte:

Quinta-feira, 9h – Painel “O cérebro e a notícia”, com os neurocientistas André Palmini (PUCRS) e André Martins (USP), no qual serão discutidos vieses cognitivos e outras interferências dos processos neurológicos no trabalho de reportagem

Sexta-feira, 9h e 14h – III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo

Sábado, 9h e 14h – III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo

As salas estarão indicadas nos guias que cada congressista vai receber ao fazer o credenciamento.

Por um mundo mais amish em 2016

Em vez de escrever um artigo listando compromissos e desejos para o ano de 2016, vou deixar vocês com este documentário a respeito da vida dum amish nos Estados Unidos. Em vários aspectos, os amish são um exemplo de relação com o mundo com o qual nós, habitantes da sociedade de consumo, podemos aprender muito.

Por um mundo mais amish em 2016!

É preciso resgatar a boa vontade nas redes sociais

O ano de 2014 demonstrou para todos os participantes de redes sociais a completa incapacidade do ser humano para o debate civilizado e o respeito mútuo. A decepção se cristalizou, para muitos, durante o período eleitoral, mas 2014 foi abundante em casos de desrespeito à opinião alheia e escracho moral no Facebook, Twitter e outras redes menos famosas.

A partir dos anos 1980, o ciberespaço começou a ser descoberto por acadêmicos e futuristas. Muitos se animaram com a informalidade e camaradagem das primeiras duas décadas de fóruns e listas de discussão virtuais. Alguns transformaram esse entusiasmo em previsões de que a Internet se tornaria uma nova Atenas, na qual cidadãos conectados debateriam as questões públicas numa ágora eletrônica.

Mas, então, vieram os anos 2000, o Orkut, o Twitter, o Facebook, as caixas de comentários em portais de notícias e tudo azedou. Protegidos pelo relativo anonimato da comunicação mediada por computador e com acesso a tecnologias de disseminação simples de usar, os mais rematados ignorantes e psicopatas passaram a emporcalhar o ciberespaço com todo tipo de boçalidade.

A camaradagem das duas primeiras décadas de Internet acessível ao público não-especializado foi enterrada sob uma avalanche de idiotice. A mudança de weblogs para redes sociais, cujas interfaces privilegiam a enunciação destemperada e cujos algoritmos privilegiam a a idiotia caça-cliques, tornou as vozes sensatas mais difíceis de encontrar. O resultado foi uma perversão até mesmo das pessoas sensatas em soldados a serviço de uma ou outra ideologia — pior, soldados que atiram primeiro e perguntam depois.

A polarização entre grupos diversos nos anos 2000 e na primeira metade dos anos 2010 causou uma degradação da etiqueta e da civilidade no ciberespaço. Nos esquecemos de que gentileza gera gentileza. Nos esquecemos de que a maior parte das pessoas está tentando fazer o melhor possível na maior parte do tempo. Nos esquecemos, principalmente, de que a discordância é uma característica inextirpável da socialização, uma condição para a democracia e, até mesmo, algo saudável.

Devemos empreender um esforço para resgatar a boa vontade no trato com os outros, antes de o clima de guerra total do ciberespaço contaminar irreversivelmente os outros âmbitos de existência humana.

Um exemplo lamentável

Numa reportagem recente, John Ronson mostra como um tweet infeliz arruinou a vida da relações-públicas Justine Sacco. No dia 20 de dezembro de 2013, antes de embarcar para a Cidade do Cabo, na África do Sul, Sacco publicou a seguinte frase ambígua:

“Going to Africa. Hope I don’t get AIDS. Just kidding. I’m white!”

“A caminho da África. Espero não pegar AIDS. Brincadeirinha. Eu sou branca!”

Pode-se ler a sentença de várias formas:

  1. Literalmente, ela estaria dizendo que pessoas brancas não correm risco de contrair o HIV e sugerindo que o continente africano seja um repositório da doença.
  2. Sacco também poderia estar indicando não ter a menor intenção de manter relações sexuais com pessoas negras durante sua estadia na África.
  3. Pode-se separar as duas primeiras frases das duas últimas, de modo que a primeira parte do tweet seria uma piada com a prevalência da AIDS na região e a segunda parte, uma explicação de que essa piada de mau gosto foi feita porque Sacco é branca e gente branca faz essas coisas sem noção.
  4. Tomado como ironia em seu conjunto, o tweet faz uma crítica ao fato de haver uma forma de Apartheid médico na África do Sul, onde os pacientes de AIDS são predominantemente negros. Os brancos estariam livres da doença por terem mais acesso à educação e a recursos da medicina.

Conforme a própria relações-públicas, o sentido que ela pretendia imprimir à declaração era este último. Todavia, entre esses quatro possíveis sentidos — e deve haver mais possibilidades do que as apresentadas acima –, o repórter Sam Biddle, do Valleywag, decidiu tomar como verdadeiro o primeiro deles. Sacco tinha apenas 170 seguidores no Twitter e poderia ter sido ignorada, mas a publicação da declaração no Valleywag chamou a atenção do mundo e muita gente, de boa ou má fé, seguiu Biddle em sua decisão. Em poucos minutos, o caso havia se tornado trending topic e, ao aterrissar na Cidade do Cabo, Sacco foi recepcionada por um desocupado, que a fotografou para o deleite da multidão.

Antes mesmo de pousar, ela já havia sido demitida pela InterActiveCorp, uma holding de mídia americana. Seus familiares, correligionários de Nelson Mandela, ficaram envergonhados e chateados. Ela passou por um período de depressão.

Nem mesmo o iniciador da caça às bruxas, no entanto, acreditava que Sacco queria dar à frase o primeiro sentido. Biddle admite ter publicado uma nota a respeito do tweet sem pensar nas consequências, apenas em busca da audiência. O mais provável é que ele tenha visto a oportunidade de se divertir e atrair cliques às custas de uma funcionária de uma empresa de mídia concorrente e por isso tenha chamado a atenção para o caso. Da mesma forma, muitos líderes sociais envolvidos na luta contra a AIDS, contra a pobreza, contra a ignorância e contra o racismo devem ter percebido a real intenção da relações-públicas, mas decidiram ignorá-la com o objetivo de promover suas causas políticas.

Uma grande parte dos leitores, porém, deve ter acreditado sinceramente que Justine Sacco publicara uma declaração racista e por isso resolveram escrachá-la em público. Este público de boa fé é o que interessa a essa discussão, pois compõe o grupo passível de resgate das garras da barbárie.

Pessoalmente, eu não vejo como alguém possa ler o tweet em questão e tomá-lo pelo valor de face. Em primeiro lugar, porque a construção da frase indica claramente a intenção de produzir um efeito irônico. Em segundo lugar, porque os outros sentidos carecem de integridade contextual, para usar um termo aplicado a outros aspectos da comunicação em redes sociais. Sacco, afinal, era chefe de comunicação de uma grande empresa, então, mesmo se considerasse a AIDS um problema restrito aos negros africanos, ela provavelmente teria habilidade suficiente para reconhecer o faux pas. Além disso, sendo uma pessoa da área de comunicação residente em Nova York, as chances de concordar com uma afirmação como essa diminuiriam bastante.

Existem, é claro, pessoas bem educadas e habitantes de círculos sociais progressistas que são tacanhas e preconceituosas, mas, para atribuir esse tipo de caráter a Sacco a partir do contexto geral, seria preciso ir contra o princípio da navalha de Occam — isto é, a ironia explica com mais simplicidade a sua manifestação no Twitter do que o racismo desbragado. Evidentemente, os seres humanos e as relações que estabelecem uns com os outros são complexas, mas, em geral, uma frase irônica é de fato uma ironia.

Esclareço não considerar o tweet de Sacco engraçado, oportuno ou razoável sob nenhum aspecto. No mínimo, tratou-se de uma declaração ambígua demais e, portanto, inábil. Além disso, reforça preconceitos contra negros, contra africanos e contra portadores de HIV. No fim das contas, era absolutamente desnecessário. (Tampouco a publicação de frases desnecessárias em redes sociais é uma atitude abaixo de mim; de fato, cometo esse tipo de sandice constantemente.)

Cria corvos e eles te comerão os olhos

Outro caso lamentável e rumoroso ocorrido em 2014 foi o do Tumblr dedicado a expor supostos casos de assédio psicológico ou sexual protagonizados pelo professor de literatura Idelber Avelar. O episódio foi analisado por centenas de ângulos diferentes nos últimos meses, com maior ou menor grau de sensatez. Mereceu pouca discussão até agora, entretanto, o papel que o próprio Avelar teve na construção de uma esfera pública ciberespacial na qual o escracho se tornou um instrumento socialmente aceito de interação entre grupos opositores.

Considero a melhor análise a realizada por Francisco Bosco na edição 19 da revista Serrote, embora tenha um ou outro reparo a fazer a respeito da forma do argumento. Bosco se detém em traçar um perfil psicológico das acusadoras de Avelar, embora existam poucos elementos para esse tipo de empreendimento, mas limita suas inferências a respeito da psiquê de Avelar a notas de rodapé e algumas poucas linhas, apesar de existir um banco de dados muito mais rico a respeito do desgraçado professor na Internet. Neste sentido, concordo com as reclamações de que Bosco foi excessivamente cordial com Avelar em seu artigo. Nem mesmo que fosse apenas para dar a impressão de equanimidade, deveria ter se esforçado mais em mostrar como o alvo do escracho pode ter atraído este tipo de vingança.

Em todo caso, Bosco toca num ponto essencial (numa nota de rodapé, aliás):

22. Acredito que a atuação pública rigorosa de Ibelber Avelar, sempre pronto a apontar as falhar morais ou intelectuais na conduta alheia, tenha se revertido contra ele no processo de seu julgamento nas redes sociais.

Com efeito, Avelar, uma das vozes pioneiras na “blogosfera” nacional, construiu para si ao longo dos últimos dez anos a imagem de paladino do progressismo político de esquerda — ou patrulheiro, a depender do ponto de vista. Manifestava-se a respeito de todas as pautas queridas da esquerda e até 2010 era alinhado ao Partido dos Trabalhadores, o que motivou, inclusive, alguns a identificarem nas acusações uma conspiração petista por conta de sua “traição” à causa. Suas manifestações eram sempre contundentes e em geral reduziam as opiniões e comportamento dos opositores à canalhice ou à ignorância, ou às duas juntas. Além disso, costumava oferecer à larga instruções para o comportamento considerado correto à luz da ideologia de esquerda contemporânea. Em resumo, a persona pública de Avelar era a de um caga-regra.

Eu mesmo costumava ler o ora desativado O biscoito fino e a massa, até o final dos anos 2010, mais ou menos. Nos anos dourados da Internet, interagi vez ou outra com Avelar, mas nunca o encontrei pessoalmente. Lá pelas tantas, porém, a cagação de regras começou a me incomodar, assim como o discurso autoritário da maioria dos outros blogueiros de esquerda cuja produção costumava acompanhar. Desgostoso, deixei de ler blogs sobre política de maneira geral, muito menos me dispus a acompanhar quando as discussões pedestres migraram para as redes sociais. Reduzi os debates sobre política às conversas ao vivo e a trocas via correio eletrônico com alguns poucos amigos com os quais nem sempre concordo, mas com quem posso desenvolver um argumento num clima de civilidade.

Se Bosco se desse o trabalho de analisar melhor a figura pública de Avelar, talvez identificasse nele a mesma tendência ao microfascismo que enxerga em suas acusadoras. Pessoalmente, fiquei surpreso com as revelações a respeito de suas preferências sexuais, de fato um “teatro regressivo do desejo” de tons rodrigueanos, como escreve Bosco, dada a sua fixação no personagem do corno e no adultério. Não me surpreendi, porém, com a arrogância e hipocrisia denotadas por sua intimidade, uma vez que estes são traços típicos do caráter autoritário. Bosco até vê esse traço, na nota de rodapé 26, quando diz que “a contundência de Idelber Avelar se voltou contra ele mesmo”, mas o despreza, porque “a generalização cometida por Idelber Avelar […] não deve ser mobilizada contra ele próprio”, pois “ela é falsa, tanto quanto seu aproveitamento”.

O autor do melhor artigo a respeito do caso perde aqui a oportunidade de oferecer ao leitor uma melhor compreensão das razões pelas quais Avelar sofreu um escracho tão vitriólico. Avelar criou os corvos que vieram a lhe comer os olhos. Ao longo de uma década, ele e seus correligionários alimentaram um estado de caça às bruxas no ciberespaço ocupado pela opinião pública brasileira, mobilizando webrings e, mais tarde, redes sociais contra os críticos das políticas de esquerda implementadas pelo Executivo e pelo Legislativo — nas quais vejo apenas razões para comemorar, diga-se de passagem, pois como os leitores deste blog sabem me alinho à esquerda. À medida em que as contradições dos governos petistas, principalmente, foram se mostrando desde a primeira eleição de Lula, os atores políticos de esquerda foram agindo cada vez mais como camisas negras virtuais contra os críticos, usando quase sempre argumentos ad hominem ou uma suposta canalhice direitista intrínseca como espantalho.

Neste sentido, Avelar pode ser visto como um expoente dos grupos que jogaram lenha na fogueira da polarização do debate público no ciberespaço. Se hoje as caixas de comentários de jornais eletrônicos se limitam ao lançamento de acusações como “petralha” ou “PIG” entre os leitores, em grande parte a situação se deve à obstinação pouco civil destes grupos na defesa de suas ideologias contra uma suposta conspiração da direita. A direita, evidentemente, não está isenta de responsabilidade, uma vez que jornalistas como Reinaldo Azevedo se reinventaram como blogueiros e passaram a adotar uma postura ainda mais tacanha, gerando filhos como Felipe Moura Brasil e Rodrigo Constantino. Por não escreverem em grandes veículos de imprensa, os filhos de Avelar são relativamente anônimos, mas tão corrosivos quanto a prole de Azevedo e Olavo de Carvalho para a esfera pública.

Não penso que o escracho sofrido por Avelar tenha sido proporcional a seus possíveis desvios de comportamento, se é que os houve — seria como culpar a vítima de estupro por causa de suas roupas provocantes. Entretanto,  não creio que seja possível compreender o fenômeno do escracho virtual sem levar em conta o atitude dos atores da esquerda no ciberespaço nos últimos dez anos e Avelar sempre foi um líder e um símbolo neste grupo. Além disso, é irresistível apontar a ironia de ele, devido à própria hipocrisia, se tornar vítima dos corvos que alimentou com sua verve agressiva.

Paz no ciberespaço aos homens de boa vontade

Nos dois casos discutidos acima, pode-se identificar como traço comum a total ausência de boa vontade entre os envolvidos. Se o tweet infeliz de Justine Sacco houvesse sido recebido com boa vontade, teria sido visto como uma gafe lamentável, talvez ensejado um pedido de desculpas, mas provavelmente seu emprego teria sido poupado. Se Avelar, seus correligionários e seus opositores não houvessem se comportado sem boa vontade ao longo de uma década, quem sabe o escracho seguisse hoje como o último recurso de satisfação para as vítimas de torturadores da ditadura brasileira, não como uma forma de vingança mesquinha contra pessoas com quem tivemos relações amorosas infelizes.

Falta boa vontade a todos os participantes do debate público contemporâneo. Eu certamente poderia avançar neste quesito, pois ainda preciso me policiar muito para não gritar “lobo!” ao ver uma ovelha se aproximando no lusco-fusco. Brinco com meus alunos que as atualizações nas redes sociais são um dos poucos fenômenos naturais mais velozes do que o pensamento: ainda estamos no meio do processo de raciocínio e nossos dedos já apertaram “publicar” ou no botão de “retweet”. Desenvolvemos, como sociedade, o hábito da agressividade e do autoritarismo na conversação em rede. Extirpá-lo é difícil, mas precisamos tentar, sob pena de a esfera pública se tornar uma algaravia de solipsistas e fazer desandar a política até mesmo no mundo concreto.

O caso Idelber Avelar, em particular, deveria chamar a atenção de todos e cada um para a necessidade de não alimentar uma cultura de agressividade no ciberespaço. Cedo ou tarde, todos podemos nos tornar vítimas da má vontade, da incompreensão, do voluntarismo, da irreflexão que investirmos nas interações com outros cidadãos na esfera pública virtual. Boa vontade gera boa vontade.