Para que serve um curso de Humanas?

A resposta à pergunta “para que serve um curso de Humanas?” depende, basicamente, da visão de mundo da pessoa à qual a questão é dirigida. Pela mesma razão, a própria pergunta denuncia a ideologia do questionador. Em geral, quem questiona a serventia das humanidades vê o mundo sob uma perspectiva utilitarista, muitas vezes associada a uma posição política reacionária.

Como bem apontou a minha amiga Katarina Peixoto no Facebook, não se responde ao que não deve ser questionado:

A universidade existe para ser excelente e isso deveria bastar. Não basta porque o Brasil resolveu dar um tiro na cabeça e agora estamos às voltas com esse inferno que é lidar com suicida. Realmente, não sei e não tenho tempo, agora, de enfrentar o problema de se devemos ou não prestar contas do que fazemos, à sociedade. No que me concerne, a tarefa é rematadamente impossível. Em primeiro lugar, não é praticável e, em segundo, eu não quero perder minhas amizades.

A quem, em sã consciência, fora da filosofia, pode interessar saber o que é um predicado e por que a estrutura clássica da proposição perdeu o seu enjeu? E as razões por que isso ocorreu, e por que podemos antever a obsolescência lógica da cópula, na LAP? A quem interessa escavar a prioridade semântica sobre as vestimentas gramaticais, em Port-Royal? E a natureza da mente, vamos lá, em Elisabeth da Bohemia? A filósofa seria uma humeana avant la lettre (como uma comentadora fina detecta) ou seria uma cartesiana hard-core (como eu penso que era)? Quem, na fila do pão, quer saber do argumento da distinção real e da leitura que a filósofa da Bohemia fez desse argumento? E a vontade, ela incide direta, ou indiretamente, na asserção? Qual a implicação de uma leitura ou de outra? Vale dizer, na Quarta Meditação e em Port-Royal (também em Spinoza, na Ética)?

Isso dito, mas considerando a guerra do governo Bolsonaro contra as universidades, talvez valha a pena fazer um esforço para explicar a relevância do ensino de Humanas e contradizer a visão reacionária utilitarista mais pedestre. A partir dessa perspectiva, somente os cursos universitários com alguma “aplicação prática” devem ser incentivados ou receber investimento público, por dois pressupostos principais:

  • No nível individual, oferecem mais oportunidades de emprego ao egresso da universidade
  • No nível social, a educação de engenheiros, programadores, farmacêuticos, agrônomos e outros profissionais do gênero gera riqueza

Noutras palavras, as humanidades, artes e outras disciplinas seriam inúteis porque não formariam empreendedores nem técnicos para trabalhar em bancos, empreiteiras, metalúrgicas, latifúndios, entre outras empresas de setores economicamente importantes. Como é necessário gerar riqueza, para gerar postos de trabalho, para empregar a população, para fazer a economia girar, para gerar impostos, para financiar o Estado, os utilitaristas consideram um desperdício investir dinheiro público nessas áreas.

É claro, nem todo utilitarista considera as Ciências Humanas uma perda de tempo — apenas os utilitaristas ignorantes ou ingênuos pensam assim.

Em primeiro lugar, algumas das disciplinas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), consideradas pelos utilitaristas cursos “sérios” e valorizadas pelo mercado, estão cheias de pesquisas sem nenhuma aplicação prática direta ou mesmo aparente. A diferença entre uma tese ridícula na Matemática e uma tese ridícula nas Letras é que pessoas sem nenhuma formação universitária relevante conseguem decifrar pelo menos o título do trabalho no segundo caso e desmerecer o tema de pesquisa.

Esse tipo de crítica em geral parte de reacionários se apropriando de uma perspectiva utilitarista para criticar campos de estudo científico considerados progressistas, como os estudos de gênero ou a teoria crítica, por exemplo. Curiosamente, esses conservadores ignoram as ideias de seus próprios ídolos sobre a ciência. Friedrich Hayek, por exemplo, entendia a evolução cultural em termos darwninistas. De seu ponto de vista, a variedade na cultura era essencial, porque nunca se pode saber qual inovação biológica ou cultural vai oferecer uma vantagem a uma espécie ou grupo.

Pesquisas sem nenhuma aplicação clara no presente podem se mostrar úteis no futuro. A natureza produz todo tipo de características biológicas possíveis, ao acaso. Algumas delas se mostram úteis e permanecem, enquanto outras desaparecem sob os estratos geológicos. Podemos encarar as universidades como máquinas de produção de ideias variadas, algumas das quais vão se mostrar adequadas ao ambiente, outras, não. Assim como na natureza, para se encontrar um traço biológico útil, é preciso arcar com o excesso, com o erro, nas ciências também se deve aceitar a produção de uma variedade exuberante de ideias, para garantir a geração daquelas capazes de aplicação prática no futuro.

Além disso, muitas das contribuições das humanidades para o empreendimento científico em geral e para a economia em particular são frequentemente obscurecidas. Há muitos estudos antropológicos sobre as culturas de povos indígenas, por exemplo. Alguns desses estudos podem parecer bizantinos aos olhos de utilitaristas — por que deveríamos nos preocupar com a filosofia dos mbyá-guarany, se vivemos numa sociedade urbana pós-industrial?

Talvez porque, ao observar a atividade dos karaí, ou curandeiros, o antropólogo pode registrar o uso de certas ervas medicinais. A seguir, um pesquisador de farmacologia pode se basear nesses registros para encontrar o princípio ativo de determinada erva e criar uma nova droga, a qual pode gerar riqueza. Quando isso acontece, porém, a disciplina de Farmácia ganha “pontos” na escala utilitarista, enquanto a Antropologia segue considerada uma atividade, na melhor das hipóteses, capaz de gerar leituras pitorescas.

Numa perspectiva cotidiana e de curto prazo, também, as Ciências Humanas também apresentam contribuições. O cientista da computação Shane Parrish, cujo weblog sobre modelos mentais e processo decisório influencia muitos executivos de Wall Street, relatou em entrevista recente a Sam Harris como as humanidades lhe fizeram falta quando entrou no mercado de trabalho:

Parrish assumiu um emprego num escritório de inteligência canadense logo após sair da faculdade, poucos dias antes dos atentados de 11/9. Em meio ao caos na agência, com a entrada de centenas de novos funcionários, ele se viu promovido a gerente em pouco tempo. Neste ponto, descobriu que a matemática e a programação, as quais tinham sido o foco de seu curso universitário e lhe arranjado um emprego, não eram suficientes para desempenhar suas novas funções, e se voltou para as artes e humanidades.

É um bom negócio para as empresas, porque elas podem contratar pessoas capazes de contribuir quase imediatamente, mas, dentro de quatro ou cinco anos, você está numa função diferente e essa função pode ser ou não afim às suas habilidades aos conteúdos que aprendeu na faculdade. O problema é que você fica inclinado a ver o mundo através dessas lentes. Existe o provérbio antigo segundo o qual “todo problema se parece com um prego para quem tem um martelo”. Para mim foi muito útil, assim como para outras pessoas com quem trabalhei, me abrir para um mundo mais amplo, pois isso não apenas ajuda a entender e a ver interconexões, mas, como vim a descobrir depois, ajuda você a entender outras pessoas, os modelos mentais delas — ajuda você a se comunicar com outras pessoas, se relacionar com elas e desenvolver relacionamentos significativos.


Executivos no Vale do Silício descobriram a mesma coisa, após vários anos se focando nas disciplinas do acrônimo STEM, e vêm contratando funcionários das humanidades e outras graduações “menos sérias”, basicamente porque eles são capazes de se comunicar com outras pessoas.

Finalmente, as humanidades, ao procederem a uma crítica profunda dos valores, costumes, crenças e ideologias, podem servir como uma espécie de “assessoras de vai dar merda” da sociedade. Marx denunciou as contradições do capitalismo no século XIX, muitas das quais se mostraram previsões acertadas ao longo dos conflitos sociais do século XX. Heidegger alertou para a possibilidade da tecnologia ganhar autonomia em relação ao ser humano e vir a suplantá-lo e hoje nos debatemos com a perspectiva de ocupação da maior parte dos postos de trabalho por máquinas. O despropósito de hoje pode ser a análise acertada de amanhã.

Nota de solidariedade

O jornalista e meu colega de diretoria na ABRAJI Guilherme Amado, repórter da revista Época, está sofrendo perseguição das milícias virtuais da família Bolsonaro, por noticiar o sequestro da conta do presidente da República no Twitter — um meio de divulgação tornado oficial por Bolsonaro — por seu filho Carlos, após uma briga de família.

Infelizmente, ele é apenas mais uma vítima da família do presidente e seus apaniguados. Ataques como esse têm sido recorrentes.

É inaceitável um presidente coordenar um ataque contra um jornalista, seja qual for a razão. Mesmo se a notícia fosse absolutamente mentirosa, ainda seria imoral e nojento abusar do poder de presidente da República para perseguir um cidadão.

Aliás, também é inaceitável que a comunicação de um presidente da República fique a cargo de amadores desequilibrados. Assim como é inaceitável a família de um presidente da República apitar em assuntos de governo. Isso é coisa de republiqueta de bananas.

Infelizmente, a população e mesmo os jornalistas parecem estar derivando para enxergar esse tipo de comportamento como normal. Não é. Esse tipo de comportamento por parte do presidente é uma abominação em qualquer democracia séria.

Nunca deixe de corrigir valores pela inflação

Há pouco mais de uma semana, expliquei por que jamais se deve usar números absolutos para comparar populações de tamanhos muito diferentes. Neste artigo, mostro que deixar de corrigir valores pela inflação, além de ser enganoso, pode fazer um jornalista perder boas manchetes.

Tomem como exemplo esta notícia do Jornal do Comércio de Porto Alegre sobre os investimentos da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul nos primeiros trimestres de 2007 a 2019. A notícia traz a tabela abaixo:

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A partir desses números, o repórter afirma que o investimento em educação no primeiro trimestre de 2019 foi o mais baixo em 12 anos, ou seja, o mais baixo da série histórica exceto pelo ano de 2007.

Em nenhum ponto do texto há menção a uma possível correção monetária. No entanto, para verificar se o jornalista havia corrigido os valores pela inflação do período, tentei encontrar os dados no portal de transparência do governo do Estado. Aparentemente, não foi realizada uma correção, se levarmos em conta a coincidência de valores no ano de 2013:

A ausência de correção monetária é um equívoco muito comum de se encontrar no noticiário. É triste, porque muitas vezes se perde a oportunidade de encontrar um furo muito mais interessante. Vejam como ficariam os valores se corrigidos pelo IPCA de março de 2019 — o mesmo índice usado para calcular a meta de inflação do Brasil e por isso o mais adequado para este tipo de operação — usando a Calculadora do Cidadão oferecida pelo Banco Central:

AnoValor nominalValor corrigido
2007R$ 2.781.418,24R$ 5.458.742,18
2008R$ 5.805.877,78R$ 11.018.938,28
2009R$ 8.390.142,22R$ 14.862.879,37
2010R$ 11.740.459,39R$ 19.839.312,40
2011R$ 9.927.122,79R$ 15.823.438,63
2012R$ 6.061.717,00R$ 9.128.217,18
2013R$ 28.522.668,04R$ 40.401.244,04
2014R$ 17.166.732,42R$ 23.009.143,11
2015R$ 13.417.482,59R$ 16.697.870,58
2016R$ 7.885.033,96R$ 8.891.938,60
2017R$ 10.116.905,46R$ 10.890.557,36
2018R$ 5.917.431,89R$ 6.193.745,19
2019R$ 3.492.361,63R$ 3.492.361,63

Agora, vejamos como fica o ranking de maiores investimentos em educação no primeiro trimestre se organizarmos as duas colunas por ano, a partir da ordem decrescente do valor investido:

PosiçãoValor nominalValor corrigido
120132013
220142014
320152010
420102015
520172011
620112009
720092008
820162017
920122012
1020182016
1120082018
1220192007
1320072019

Percebem como vários anos mudam de posição no ranking corrigido?

Ao atualizar os valores nominais encontrados no portal de transparência do Estado, podemos perceber que, na verdade, o investimento em educação no primeiro trimestre de 2019 foi o mais baixo da série histórica. De fato, o investimento neste ano foi 36% menor do que em 2007. Esses números renderiam manchetes muito mais dramáticas.

Além disso, a correção evita a injustiça de se considerar a ex-governadora Yeda Crusius a responsável pelo pior primeiro trimestre na educação.

Um motivo adicional para sempre se corrigir valores monetários é o fato de muitos políticos se aproveitarem da diferença de poder de compra de cada real entre um ano e outro para enrolar a população.

Digamos que um governo tenha investido em janeiro de 2018 R$ 10 milhões em segurança pública e mais R$ 10,3 milhões na mesma área em janeiro de 2019. O governador vai dizer que aumentou os recursos para a segurança de um ano para outro, mas, se corrigirmos o valor antigo pelo IPCA, podemos verificar que apenas para cobrir a inflação e manter o mesmo nível de investimento, o montante atual deveria ser de R$ 10,4 milhões. Na verdade, o Estado estaria investindo menos do que no ano anterior em valores corrigidos.

Jamais compare números absolutos se pode criar uma taxa

Uma das minhas implicâncias favoritas em relação ao jornalismo é a mania de usar números absolutos para comparar populações de tamanhos muito diferentes. É um erro básico e fácil de se evitar na interpretação de números.

Num exemplo recente, o ciberjornal Poder360 reproduziu uma tabela de número de seguidores de diferentes líderes de Estado em redes sociais, a partir de um relatório elaborado pela consultoria Bites, que se apresenta como “data-driven”.

O líder com mais seguidores no Facebook é também o primeiro-ministro do segundo país mais populoso da Terra. A China não permite o uso de Facebook, Twitter e outras redes sociais capitalistas, enquanto a Indonésia não aparece na tabela. O terceiro país mais populoso da Terra, os Estados Unidos, tem seu presidente como segundo do ranking. Já a Turquia é o 19º país mais populoso do planeta e seu presidente ocupa a terceira posição em seguidores nas redes sociais, mesmo sem poder contar com o YouTube.

O leitor mais atento já terá notado que nem mesmo faz sentido somar os seguidores em diferentes redes sociais, uma vez que muitos deles serão duplicados — a mesma pessoa pode seguir o presidente no Twitter e no YouTube –, enquanto outros serão bots.

Além deste problema básico de concepção da análise, resta a comparação entre países de populações muito discrepantes, como Índia e Brasil, fator que pode inserir vários tipos de distorções na informação. A proporção de usuários da Internet é a mesma em todos os países? Os indianos favorecem algum tipo de rede social em detrimento de outras? Os brasileiros são mais aficionados por tecnologia do que os turcos?

A transformação dos números absolutos em taxas pode resolver, pelo menos em parte, essas distorções e o cálculo é muito simples, se tivermos os dados à disposição. Basta dividir o número de eventos pelo tamanho da população e multiplicar por uma unidade padrão, em geral 10.000 ou 100.000 “habitantes”. No caso acima, é preciso dividir o número de seguidores em cada rede social pelo número de usuários totais da mesma rede social num determinado país e depois multiplicar pela unidade padrão, com o que teremos a taxa de seguidores por, digamos, 10.000 usuários.

Usando dados de janeiro de 2019 — e sem preocupação com a fidedignidade dos mesmos — a coluna relativa ao Facebook ficaria assim:

  1. Modi: 14.528 seguidores por 10.000 usuários
  2. Trump: 11.384
  3. Bolsonaro: 7.238
  4. Obrador: 6.715

O ranking não muda, mas enquanto Modi tinha quatro vezes mais seguidores no Facebook do que Bolsonaro na tabela, ele tem apenas o dobro da taxa de seguidores por 10.000 mil usuários da rede social em relação ao presidente brasileiro. O gráfico abaixo mostra como a diferença entre os líderes fica menos dramática quando usamos taxas:

Os exemplos de uso de números absolutos no lugar de taxas abundam no noticiário. Um exemplo é este ranking do total de multas de trânsito no Rio Grande do Sul no ano de 2013 publicado por Zero Hora:

  1. Prefeitura de Porto Alegre – 199.958
  2. Prefeitura Passo Fundo – 24.328
  3. Prefeitura Caxias do Sul – 14.740
  4. Prefeitura Campo Bom – 10.563
  5. Prefeitura Cachoeirinha – 9.850
  6. Prefeitura Rio Grande – 8.798
  7. Prefeitura Canoas – 7.997
  8. Prefeitura São Leopoldo – 7.802

A frota de Porto Alegre em 2016 era de 851.150 veículos, contra 122.582 em Passo Fundo. Neste caso, basta calcular a razão entre um número e outro, sem multiplicar por uma unidade padrão. Se ignorarmos as diferenças de tamanho das frotas entre 2013 e 2016 apenas para fins didáticos, a razão ou média de multas por veículo seria de 0,23 multas na capital, contra 0,19 multas por veículo em Passo Fundo. Já Caxias do Sul, com uma frota de 305.323 veículos, mais do que o dobro da frota de Passo Fundo, teria uma média de multas de apenas 0,04 por veículo. Enquanto isso, Campo Bom, com uma frota de 40.488 veículos, apresentaria uma média de multas de 0,26. O ranking correto das cidades com mais infrações de trânsito, portanto, seria:

  1. Campo Bom – 0,26 multas por veículo
  2. Porto Alegre – 0,23
  3. Passo Fundo – 0,19
  4. Caxias do Sul – 0,04

Amigos não deixam amigos cometerem esse tipo de erro.

Sou de esquerda e apoio o projeto de aumento do IPTU em Porto Alegre

O prefeito Nelson Marchezan voltou a lutar pela aprovação na Câmara de Vereadores de Porto Alegre do PLCE 005/18, que tramita há dois anos e está parado desde o final de 2018. Embora o prefeito me inspire sentimentos pouco republicanos, devido à sua ligação com o MBL e posturas reacionárias, como cidadão sou obrigado a admitir que o projeto de revisão da planta do Imposto Predial e Territorial Urbano vai trazer benefícios para a capital. A última revisão ocorreu em 1991, durante o mandato de Olívio Dutra. Além disso, o projeto é bastante justo, instituindo diferentes faixas de cobrança conforme o valor do imóvel.

A Secretaria Municipal da Fazenda criou um material muito bom explicando a situação atual e permitindo simular o impacto da mudança para cada imóvel, mas infelizmente está fora do ar no momento. Apenas 1% dos imóveis tiveram os reajustes simulados até julho de 2018. A simulação do imóvel onde vivo previu uma redução no IPTU — e vivo num bairro de classe média alta. O resultado me deixou surpreso, porque esperava pagar mais, considerando ter boa renda e viver num prédio bem localizado — a possível explicação é ser antigo.

Se essa informação anedótica serve para alguma coisa, é de se supor que os mais abastados vão arcar com o maior peso da revisão. Hoje existem muitas distorções nos valores do IPTU, com terrenos e prédios em bairros que se tornaram enclaves das classes altas ao longo destes 27 anos pagando relativamente pouco em relação a bairros mais antigos, mas onde a média de renda dos habitantes é menor.

Era esperado dos vereadores à direita, em especial os liberais, votarem contra um aumento de impostos. Os vereadores à esquerda, porém, também se mostraram contrários à revisão do IPTU. Em debate no ano de 2017, Sofia Cavedon (PT) reclamou de ausência de discussão com a sociedade. Roberto Robaina (PSOL), bizarramente, acusou o projeto de ter como objetivo aumentar a arrecadação. Alex Fraga (PSOL) disse que Marchezan não prestou explicações suficientes. A prefeitura respondeu em 2018 apresentando análises e criando o simulador, pelo qual poucos cidadãos demonstraram interesse.

A revisão periódica da planta do IPTU foi uma bandeira das prefeituras do PT ao longo da década de 1990 — a última revisão ocorreu em 1991, durante o mandato de Olívio Dutra. É apenas coerente para um cidadão de esquerda apoiar um projeto de aumento do imposto, venha de onde vier. Além disso, pode ser que o próximo prefeito seja de algum partido à esquerda. O dinheiro extra da revisão da planta do IPTU viria a calhar neste cenário.

Ninguém gosta de pagar impostos — nem eu –, mas o IPTU é um dos poucos impostos que se reverte diretamente para benefícios em nosso cotidiano. É um dinheiro que fica na cidade, ao contrário dos impostos estaduais e federais. Entre janeiro de 1995, já com o sistema monetário atual, e março de 2019 a inflação no Brasil foi de 572%. Não existe mágica fiscal. Se queremos uma Porto Alegre com boa qualidade de vida, não basta reclamar nas redes sociais: precisamos contribuir.

Um ano sem Twitter me ensinou que nem eu, nem a plataforma temos salvação

Há pouco mais de um ano, decidi abandonar o uso diário do Twitter. O gatilho foi  uma crítica ao lamentável Camarote dos Atrasados do ENEM promovido pelo Cid Não Salvo, na qual cometi a infelicidade de incluir sua arroba.

O episódio evidenciou todos os problemas do Twitter enquanto plataforma de redes sociais e a pessoa horrível que ela tende a nos tornar, quando abusamos de seu uso. A seguir, discuto os principais aspectos do caso de 2017 e minhas impressões durante um breve retorno ao Twitter durante a campanha para o 2º turno das eleições presidenciais em 2018.

Poucos segundos após o meu tweet, Cid o compartilhou em sua timeline, buscando ao mesmo tempo justificar a exploração anual do sofrimento dos estudantes que perdem o horário das provas do ENEM e são impedidos de participar:

Como se pode perceber nas estatísticas de ambos os tweets, mais de 600 pessoas resolveram participar da conversa. É uma pequena parte do universo de 1,8 milhão de seguidores do Cid, mas um grupo de fãs aguerridos. A reação foi inesperada, porque sou do tempo — e Cid também é deste tempo — em que o debate no Twitter era mais parecido com um duelo do século 18 do que com uma espécie de MMA na qual, se o oponente for um influencer, a disputa se dá numa espécie de octógono cheio de ariranhas treinadas por ele.

Não vou entrar no mérito da justificativa de Cid para o camarote, mas me focar em minha resposta a ela:

Logo após esse diálogo, o relato da mãe foi questionado. Um suposto monitor e vizinho do rapaz se manifestou no Facebook para dizer que ele na verdade teria se atrasado para a prova e inventado a história do conflito com a PM como desculpa para a família.

Para fins de argumentação, vou partir do pressuposto de que o desmentido é a verdade sobre o caso. Não investiguei as credenciais do Ca Íque, assim como não investiguei o relato de Daise Oliveira antes de usar a anedota como argumento contra o Camarote dos Atrasados, mas em princípio não me parece haver motivos para acreditar mais num ou noutro, uma vez que ambos são apenas relatos no Facebook. Em todo caso, o importante é que um produtor de desinformação ligado a Jair Bolsonaro redigiu um artigo com base nisso para me atacar. Cid aproveitou este artigo para incitar suas ariranhas mais uma vez:

Embora o embate carecesse de fair play, eu precisava reconhecer que ninguém mandara criticar o sujeito e ainda incluir a arroba dele na crítica. Além disso, abrira o flanco ao me valer duma informação publicada em redes sociais enquanto digitava no celular em algum aeroporto, sem tomar o tempo necessário para checar.

Optei pela redução de danos e passei a ignorar os ataques subsequentes. Além disso, bloqueei todos os fãs do Não Salvo que responderam a meus tweets com ofensas pessoais e denunciei as ameaças e outros tipos de reação que, a meu ver, infringiam as regras da plataforma. Também denunciei o artigo do Renovamídia ao Medium, que é uma subsidiária do Twitter.

A resposta do Twitter às denúncias pode ser resumida pelo GIF abaixo:

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Entendi o recado e, alguns dias depois, ao ser lembrado pelo próprio Twitter do aniversário de meu perfil, decidi encerrar minhas atividades na plataforma, exceto para compartilhar informações profissionais:

Uma fábrica de babacas

A experiência ressaltou alguns efeitos colaterais do uso continuado do Twitter na minha personalidade, os quais já vinha percebendo, mas fingia ignorar porque a plataforma havia se tornado, ao longo de dez anos de uso, um de meus principais passatempos, veículos de expressão e canais de interação com amigos. O Twitter era uma grande diversão. Bebida e outras drogas também podem ser uma grande diversão, mas causam um monte de problemas para o usuário e para as pessoas no entorno.

Um dos efeitos colaterais do uso continuado do Twitter foi a degradação de minhas noções de civilidade na Internet. A querela com o Cid exemplifica bem o ponto: você questionaria em voz alta, numa rodinha de amigos durante uma festa, uma terceira pessoa presente ao evento que estivesse ouvindo suas afirmações? Foi exatamente o que fiz. Releia meu tweet assoberbado de probidade, se acha que estou exagerando. É de uma rudeza atroz. Se fosse um evento isolado, seria apenas uma infelicidade. Porém, eu vinha percebendo com incômodo cada vez maior esse tipo de atitude em minha timeline — e na de quase todo mundo mais no Twitter.

Não é uma questão de ser avesso a conflitos e discussões. Pelo contrário, eu adoro debates acalorados. Poucas coisas me dão mais alegria do que arrastar um adversário na lama com o poder da palavra. Esse era, justamente, o problema. Seja por mudanças no design e funcionalidades da plataforma, no sentido de favorecer a interação direta, seja pelo desenvolvimento de uma cultura nociva de confronto, o Twitter atiça os instintos mais primitivos de seus usuários. Os mais propensos à agressividade encontram recompensa imediata para o sarcasmo, a ironia, o conflito, na forma de retweets e likes.

Quando dei por mim, estava lamentando palavras ditas a outras pessoas ou à multidão anônima algumas horas antes com frequência alarmante. Estava me tornando um babaca.

Não apenas isso, mas estava me tornando um babaca displicente. A necessidade de participar de todas as discussões, de não perder a piada, a réplica espertinha, a sinalização de virtude mediante o endosso de uma posição, estava me levando a cada vez mais vezes compartilhar informação duvidosa, ou fazer afirmações pedestres. É uma questão de probabilidade: em meio a 15 tweets por dia, ou 56,9 mil em dez anos, é garantido dizer alguma bobagem.

É também uma questão de design: o Twitter, assim como o Facebook, o WhatsApp e outras redes sociais, tem como objetivo principal fomentar a produção de conteúdo e a interação entre os usuários. Quanto mais conteúdo se produz e mais tempo se passa nestes serviços, mais dados podem ser coletados e vendidos para anunciantes. Para conseguir isso, seus designers se valem dos mesmos métodos aplicados por Pavlov a seus cachorros: sinais luminosos ou sonoros. Ao longo do tempo, o condicionamento operante nos torna viciados em abrir os aplicativos e checar as timelines, para obter recompensas psicológicas como curtidas, comentários e visualizações.

Resistir a pegar o smartphone e abrir um aplicativo quando se recebe uma notificação é tão difícil quanto resistir a um pote de Nutella ou pacote de batatas fritas, porque ambos foram engenhados para apelar às fraquezas da psique humana relacionadas às necessidades básicas de alimentação, num caso, e socialização, no outro.

Além disso, a velocidade da movimentação na timeline demanda decisões muito rápidas sobre quais tweets compartilhar, curtir ou criticar, de modo a abrir espaço na fila para o próximo assunto e sob pena de perder a oportunidade de entrar no vagão de determinado assunto com todo mundo. A ansiedade para inaugurar uma discussão, introduzindo uma informação ainda invisível para a nossa rede imediata de contatos muitas vezes se sobrepõe ao juízo.

As redes sociais são desenhadas como caixas acústicas nas quais o viés de confirmação é amplificado. Por ser alinhado à esquerda e crítico da discriminação de negros e pobres por parte de policiais, tendo a crer imediatamente no relato de que um estudante foi impedido de chegar no horário ao local de prova do ENEM devido a uma abordagem. Pessoas com crenças opostas tenderão a acreditar imediatamente em relatos que desacreditem essa narrativa. Esse comportamento é natural no ser humano, mas se torna muito mais pernicioso na Internet, onde é possível encontrar “evidências” para sustentar qualquer crença e receber reforço positivo de dezenas, centenas ou milhares de pessoas com mentalidade semelhante.

Em resumo, o Twitter é uma fábrica de babacas levianos.

No meu caso, não existe nível seguro de uso de redes sociais. A estrutura da minha personalidade parece ser propensa a abusar das recompensas psíquicas fornecidas pelo Twitter. Durante a campanha eleitoral de 2018, decidi que era um mal necessário voltar a participar da plataforma. Em poucos dias, havia retornado aos piores hábitos de um ano antes. Como um alcoólatra, o primeiro gole me leva direto para o fundo da toca do coelho. Esse é um motivo forte para evitar o contato com esse tipo de rede social. Por isso, optei por apagar todo meu arquivo de tweets e manter o perfil apenas para divulgação de informações profissionais.

Crime ocore nada acotece feijoada

Um motivo secundário para deixar de usar o Twitter é de ordem política. A organização vem se mostrando incapaz ou desinteressada em evitar linchamentos e perseguições através dos serviços que oferece. Não é um grande problema quando se trata de uma briga de moleques, como a relatada acima. Porém, jornalistas vem sendo linchados e ameaçados sistematicamente por militantes de Jair Bolsonaro nos últimos meses e o Twitter não toma nenhuma atitude a respeito do problema, sob o pretexto de respeitar a liberdade de informação e expressão.

A justificativa é um embuste para desviar a atenção do fato de que a empresa se esforça para evitar qualquer ação passível de ser interpretada como julgamento editorial. Facebook, Twitter e assemelhadas querem evitar ao máximo serem consideradas empresas de mídia, porque assim passariam a ser obrigadas a respeitar a legislação pertinente, muito mais restrita do que a legislação sob a qual empresas de tecnologia operam.

As possibilidades de denúncia se restringem a casos muito específicos: publicação de dados pessoais como número de telefone ou endereço, incentivo ao suicídio ou automutilação, ofensas a categorias protegidas — entre as quais não consta, é claro, orientação política — e ameaças claras de dano físico. É possível denunciar um perfil ou tweet por promover assédio direcionado, mas, como relatado acima, em geral as denúncias não dão em nada. No caso do Cid Não Salvo, a empresa até respondeu, após alguns dias, que não via nada de mais nos tweets, é verdade. Enviei um email solicitando uma reavaliação, mas os funcionários do Twitter levaram vários dias mais para dar retorno e àquela altura desisti de seguir adiante, pois já havia me decidido a abandonar a plataforma. Era apenas uma briga de moleques, mas a mesma resistência do Twitter a assumir responsabilidade acontece em casos graves envolvendo colegas jornalistas.

As regras são vagas e o Twitter faz uma análise caso a caso, a qual pode levar muitos dias. Na maioria das ocorrências, porém, o linchamento dura algumas horas, então a eventual retirada de um tweet ou suspensão de conta acaba não trazendo nenhum benefício à pessoa assediada. Fica a impressão de que a organização faz corpo mole para retirar esse tipo de conteúdo do ar porque, na verdade, a mobilização de militantes para perseguir jornalistas e outros tipos de abuso são lucrativos para a empresa. Algoritmos de distribuição de anúncios são incapazes de compreender o significado dos conteúdos aos quais associam publicidade, afinal. Todo tweet é uma oportunidade comercial, por mais nocivo que seja.

Tenho certeza de que o Twitter poderia identificar linchamentos através de algoritmos e tomar medidas para os interromper. Se não o fazem, é por falta de compromisso com a sanidade da plataforma. O mesmo ocorre com o Facebook, que permite direcionar anúncios para antissemitas, mas nega ser capaz de identificar racistas e os expelir da plataforma. O argumento contra esse tipo de filtragem é que poderia gerar falsos positivos e bloquear perfis inocentes. É um bom argumento, mas a política atual peca no sentido contrário, expondo usuários inocentes a todo tipo de abuso.

Em resumo, essas empresas se apresentam como plataformas para a interação social, mas são na verdade máquinas de conversão de atenção em dinheiro. Todas os seus movimentos são e serão, necessariamente, no sentido de preservar essa função primordial. Se esse objetivo for melhor atingido com linchamentos e assédio, tanto pior para a sociedade.

Na Reeperbahn, à meia noite e meia

O ator e cantor alemão Hans Albers era ligado à boemia anárquica de Hamburgo e foi a maior estrela do cinema alemão entre 1930 e 1945. Albers criava músicas para os seus papéis e uma das mais famosas é Auf der Reeperbahn Nachts um halb Eins, uma elegia à famosa zona de teatros de revista e meretrício do bairro Sankt Pauli. A canção é apresentada numa noite de ano novo, num bordel frequentado por marinheiros no filme Große Freiheit Nr. 7, um dos mais relevantes em que Albers atuou. A cultura dos marinheiros é um dos temas mais frequentes do cantor e os cabarés eram parte importante dessa cultura no início do século XX.

Auf der Reeperbahn Nachts um halb Eins é até hoje uma das canções em alemão mais conhecidas. Abaixo, o trecho relevante do filme homônimo, uma espécie de refilmagem de Große Freiheit Nr. 7, que só está disponível no YouTube sem som, a letra da música em alemão e uma tradução livre.

Auf der Reeperbahn Nachts um halb Eins

Silbern klingt und springt die Heuer,
heut’ speel ick dat feine Oos.
Heute ist mir nichts zu teuer,
morgen geht die Reise los.
Langsam bummel ich ganz alleine
die Reeperbahn nach der Freiheit ‘rauf,
treff ich eine recht blonde, recht feine,
die gabel ich mir auf.

Komm doch, liebe Kleine, sei die meine, sag’ nicht nein!
Du sollst bist morgen früh um neune meine Herz allerliebste sein.
Ist dir’s recht, na dann bleib’ ich dir treu sogar bis um zehn.
Hak’ mich unter, wir wollen jetzt zusammen mal bummeln geh’n.

Auf der Reeperbahn nachts um halb eins,
ob du’n Mädel hast oder hast kein’s,
amüsierst du dich,
denn das findet sich
auf der Reeperbahn nachts um halb eins.
Wer noch niemals in lauschiger Nacht
einen Reeperbahnbummel gemacht,
ist ein armer Wicht,
denn er kennt dich nicht,
mein Sankt Pauli, Sankt Pauli bei Nacht.

Kehr ich heim im nächsten Jahre,
braungebrannt wie zo’n Hottentott;
hast du deine blonden Haare
schwarz gefärbt, vielleicht auch rot,
grüßt dich dann mal ein fremder Jung’,
und du gehst vorüber und kennst ihn nicht,
kommt dir vielleicht die Erinnerung wieder,
wenn leis’ er zu dir spricht:

Komm doch, liebe Kleine, sei die meine, sag’ nicht nein!
Du sollst bist morgen früh um neune meine Herz allerliebste sein.
Ist dir’s recht, na dann bleib’ ich dir treu sogar bis um zehn.
Hak’ mich unter, wir wollen jetzt zusammen mal bummeln geh’n.

Auf der Reeperbahn nachts um halb eins,
ob du’n Mädel hast oder hast kein’s,
amüsierst du dich,
denn das findet sich
auf der Reeperbahn nachts um halb eins.
Wer noch niemals in lauschiger Nacht
einen Reeperbahnbummel gemacht,
ist ein armer Wicht,
denn er kennt dich nicht,
mein Sankt Pauli, Sankt Pauli bei Nacht.

À meia noite e meia na Reeperbahn

A prata soa e o ano vira
Hoje ganho uma boa massagem
Hoje nada me é caro demais
Amanhã partimos em viagem
Devagar eu perambulo sozinho
Pela Reeperbahn até a liberdade
Encontro uma bem loira, bem gata
Essa vou levar para mim

Vem, queridinha, seja minha, não digas que não
Tu vais ser até amanhã às nove a dona do meu coração
Se quiser, também posso me manter fiel até as dez
Agarra minha cintura, vamos passear juntos de vez

À meia noite e meia na Reeperbahn,
Tanto faz se você tem ou não uma garota
Tu te divertes
Já que estás
À meia noite e meia na Reeperbahn
Quem nunca passou uma noite acolhedora
Fazendo um passeio pela Reeperbahn
É um pobre coitado
Pois não te conhece
Sankt Pauli, meu Sankt Pauli à noite

Quando eu voltar para cá daqui um ano
Bronzeado como um hotentote
Você pintou seus cabelos loiros
De preto, ou talvez de vermelho
Um jovem estrangeiro vai te chamar
E tu chegas perto e não o reconheces
Mas talvez as lembranças voltem
Quando ele te disser suave:

Vem, queridinha, seja minha, não digas que não
Tu vais ser até amanhã às nove a dona do meu coração
Se quiser, também posso me manter fiel até as dez
Agarra minha cintura, vamos passear juntos de vez

À meia noite e meia na Reeperbahn,
Tanto faz se você tem ou não uma garota
Tu te divertes
Já que estás
À meia noite e meia na Reeperbahn
Quem nunca passou uma noite acolhedora
Fazendo um passeio pela Reeperbahn
É um pobre coitado
Pois não te conhece
Sankt Pauli, meu Sankt Pauli à noite

O jornalismo diário precisa incorporar a checagem de fatos

A presidência de Jair Bolsonaro, a julgar pela campanha e pelas atitudes do eleito nos primeiros dias após a vitória, promete um vazamento incalculável de chorume — e as redações serão as estações de tratamento de todo o esgoto.

Por enquanto, Bolsonaro parece estar copiando a estratégia do presidente Donald Trump, da mesma forma que copiou as táticas do candidato Donald Trump. Até a posse e durante o tempo em que permanecer com a faixa, o presidente eleito vai criar factóides e afirmar barbaridades sobre direitos humanos, na esperança de que o ultraje causado desvie a atenção das pautas relacionadas à economia, infraestrutura, segurança e outros temas caros a seu eleitorado. Como argumentei num texto anterior, o ultraje só vai alimentar o extremismo e galvanizar os apoiadores de Bolsonaro.

Além disso, o presidente eleito vem adotando a tática de minar a credibilidade restante da imprensa com o lançamento de balões de ensaio através de subalternos ou fontes anônimas, as quais são desmentidos nos canais de comunicação direta de Bolsonaro quando a proposta é mal recebida. Essa tática permite a ele testar a recepção de medidas entre a população e, ao mesmo tempo, reforçar o discurso contra o jornalismo. Quando desautoriza algum rumor ou volta atrás, Bolsonaro conclama a população a buscar informação diretamente em seus perfis “oficiais” em redes sociais e aproveita para criticar os “erros” da imprensa.

É melhor já ir abandonando qualquer esperança de que o futuro governo opere segundo as regras e costumes de civilidade desenvolvidos na interação entre jornalistas e autoridades desde 1985. Os presidentes eleitos até agora podiam ter maior ou menor boa vontade para com a imprensa, mas respeitaram as regras do jogo. Lidar com Bolsonaro é como jogar com aquele seu primo chato, que escondia cartas na canastra, pegava notas subrepticiamente no Banco Imobiliário ou misturava todas as peças e jogava o tabuleiro para cima quando estava perdendo no War.

Infelizmente, o jornalismo contemporâneo parece cada vez mais suscetível a declarações abomináveis e “furos” embasados em rumores que prometam alguns cliques. Dois anos de governo Trump mostraram ser muito difícil rediscutir valores e normas editoriais  para seguir o conselho abaixo:

Qual norma editorial poderia evitar que repórteres e redações se vejam enredados na estratégia de comunicação bolsonarista?

Jason Reifler, professor da Universidade de Exeter que há anos pesquisa desinformação e fact checking, forneceu uma boa pista durante o 13º congresso da Abraji. A proposta mais importante oferecida por ele, na minha opinião, é incorporar a checagem de fatos às rotinas produtivas da notícia e apresentar qualquer declaração vinda de Bolsonaro atrelada a um qualificador, quando não se puder garantir sua veracidade. Vale a pena assistir à palestra inteira (se não entende inglês, as legendas automáticas em português funcionam razoavelmente bem):

A verificação de fatos é, ou deveria ser, uma etapa normal da produção de notícias. Publicações como a New Yorker são famosas por manterem uma equipe dedicada a conferir a apuração dos repórteres, perguntando a fontes se as aspas usadas em textos são fidedignas, ou checando se datas, locais ou números estão corretos. Esse tipo de checagem ex ante é muito útil para evitar a veiculação de equívocos, os quais são cada vez mais difíceis de corrigir após ganharem o mundo. Em geral, todavia, essa verificação prévia não procura avaliar a veracidade das informações ou declarações em si mesmas, mas apenas garantir sua precisão.

A avaliação da veracidade das declarações de políticos tem sido realizada ex post por agências especializadas em checagem de fatos, como Lupa e Aos Fatos. O objetivo desse tipo de verificação posterior é corrigir as crenças equivocadas causadas por declarações falsas veiculadas pela imprensa, bem como outras formas de desinformação, como boatos. Infelizmente, como Reifler deixa claro em sua palestra, é muito difícil neutralizar falsidades depois de elas se disseminarem em redes sociais e na mídia.

A solução ideal seria ignorar qualquer alegação sem substância feita por qualquer fonte. Porém, essa tática funcionaria apenas se uma massa crítica de redações adotasse a mesma regra. Caso contrário, além do veículo ser furado pela concorrência constantemente, a desinformação acabaria difundida de qualquer maneira. Como Bolsonaro já granjeou apoio de diversas empresas de comunicação, é impensável uma coordenação entre a comunidade profissional para mudar as rotinas de trabalho no futuro próximo. Além disso, essa recomendação não é uma novidade, mas tem sido feita por jornalistas e acadêmicos da área há décadas, sem sucesso.

A solução factível seria a comunidade adotar a norma de qualificar a veracidade das declarações de autoridades no momento de sua publicação. Dessa maneira, é possível ao mesmo tempo registrar o acontecimento em ressonância com a concorrência e neutralizar a desinformação no berçário.

A recente afirmação de Bolsonaro de que o método de cálculo do desemprego aplicado pelo IBGE seria uma “farsa” forneceu bons exemplos da prática acima. Em primeiro lugar, um contraexemplo de manchete que toma a declaração por seu valor de face:

Abaixo, três exemplos de manchetes matam a desinformação no nascedouro:

 

 

Embora seja uma solução simples do ponto de vista técnico, ela pode ser complicada da perspectiva organizacional, porque demanda consenso entre direção, editores e repórteres, bem como a revisão de rotinas de trabalho estabelecidas. Apesar disso, é a resposta mais eficaz disponível a curto prazo para as redações que não pretendem repetir os erros da imprensa estadunidense com Donald Trump.

Conselho de Yuval Noah Harari aos brasileiros

Há algumas semanas, Sam Harris publicou em seu podcast uma conversa com o historiador Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus. Durante a sessão de perguntas da plateia, um brasileiro questionou Harari sobre a polarização política em nosso país, mencionando a atitude confrontacional de apoiadores e detratores de Bolsonaro. Como a resposta me pareceu um conselho útil para o momento, resolvi traduzir e editar o texto da melhor maneira que pude, para benefício de todos os meus concidadãos.

Tomei algumas liberdades na tentativa de deixar o texto escrito mais claro, mas posso ter me equivocado em algum ponto. O trecho em questão pode ser conferido no “vídeo” abaixo. Vale a pena escutar a conversa toda.

PERGUNTA: Então, eu sou originalmente do Brasil. Nós temos uma eleição em três semanas lá e o cara que está liderando a é um personagem tipo Trump. Ele está sendo muito combatido, da mesma forma que Trump foi combatido aqui, de uma maneira muito ineficiente, com muita gente se recusando a debater com o outro campo. Muito preocupante para todos de nós que somos de lá. Estou curioso sobre a sua opinião: onde devemos traçar a linha entre dar espaço para algumas pessoas que não são civilizadas e se envolver com pessoas de quem nós realmente discordamos, mas precisamos nos envolver de alguma forma, ou nos arriscarmos a enfrentar consequências ainda piores.

HARARI: É muito difícil traçar uma linha. Idealmente, eu acho que uma sociedade deve se manter. Eu não estou familiarizado com a situação específica no Brasil, mas geralmente, para uma sociedade continuar funcionando, você precisa ter a capacidade de falar com a maioria de seus vizinhos, colegas e familiares. Isso também é verdade quanto aos Estados Unidos. […] De um modo geral, se você chegar a um ponto em que toda conversa falha, então a sociedade já está tão dividida que a democracia não pode realmente funcionar. Como eu disse no começo, a democracia não é uma espécie de panaceia que funciona em qualquer lugar a qualquer momento, precisa de algumas condições básicas para funcionar, precisa de certas tecnologias, precisa de um certo nível de educação e precisa de um certo nível de consenso. Infelizmente, você não pode ter democracia se tiver uma situação em que não há mais consenso sobre os valores fundamentais de uma sociedade. A democracia não funciona. Democracias funcionam apenas quando você tem esta condição inicial de consenso sobre o fundamental e, em seguida, você pode construir uma democracia em cima disso, mas, se você não tiver essa condição inicial, a democracia não pode realmente funcionar, então logo vai ou na direção da guerra civil, ou na direção da separação, ou na direção da ditadura, mas simplesmente não funciona. É também por isso que tenho medo do que está acontecendo agora nos EUA. Está chegando ao ponto em que simplesmente não há consenso quanto básico. Eu me preocupo muito, por exemplo, com os pedidos de impeachment de Trump e, em especialmente, se os democratas, digamos, tomarem o controle do Congresso nas próximas eleições, o que é uma grande dúvida, mas me preocupa muito se houver um forte movimento em favor do impeachment, porque se isso tem sucesso uma parte muito significativa da população dos EUA perderá toda a fé no sistema. Agora, você pode dizer o que quiser sobre Trump e sobre o seus apoiadores, mas eles ainda são parte de sociedade, eles ainda são seus vizinhos, seus colegas, sua família em alguns casos. Se chegarmos a um ponto em que 25% a 30% da população americana acaba por perder sua confiança básica – “nós finalmente colocamos nosso cara lá e o sistema o assinalou e eliminou” – eles vão perder toda a confiança. Então, é uma situação muito perigosa. […] A questão chave é a confiança. Sistemas humanos em grande escala, no fundo, funcionam na base da confiança. Isso nos traz de volta ao começo de nossa fala de hoje sobre histórias e ficções e assim por diante, algo como o fato de que o dólar funciona com base na confiança e também nações inteiras, no fundo. Se você não tiver mais confiança, então a única coisa que pode funcionar é um regime autoritário, senão tudo se decompõe em guerra civil ou algo parecido. Precisamos fazer todos os esforços. Se ainda há alguma confiança, é melhor preservá-la.

Abrindo o voto para as eleições de 2018

Como venho fazendo há alguns anos, divulgo abaixo algumas recomendações de candidatos para votar nas próximas eleições. Ao contrário dos anos anteriores, porém, em 2018 só vou sugerir candidatos a cargos legislativos. Considero, ainda mais à luz do golpe contra Dilma Rousseff, a escolha de bons parlamentares muito mais importante do que a escolha do presidente ou governador.

No fim das contas, cabe ao Congresso e às Assembleias Legislativas decidirem sobre os limites do mandato presidencial, na forma de leis, emendas ao orçamento, ou mesmo eventuais processos de impeachment. O foco das campanhas e da cobertura jornalística em geral recai sobre os candidatos a cargos do executivo, o que causa ao eleitor a impressão de que eles sejam mais importantes. Muitos brasileiros consideram o presidente plenipotenciário, mas ele frequentemente se vê amarrado pelo Congresso.

Os candidatos a cargos executivos causam ainda mais confusão, ao fazerem propostas que seriam da alçada dos parlamentares. Qualquer candidato a presidente que prometa permitir o porte de armas a todo cidadão ou legalizar a maconha, por exemplo, está blefando. Ambas as medidas só podem ir adiante com aprovação do Congresso Nacional.

Incentivo todos os leitores a concentrarem seus esforços nas campanhas para deputado estadual, deputado federal e senador. Pode ser menos emocionante, mas a boa notícia é que, como ninguém dá muita bola para esses votos, pode ser muito mais fácil convencer familiares e colegas a escolherem um candidato no qual você confie.

Além disso, tenho adotado o critério de votar, sempre que possível, em mulheres, negros, indígenas, queers ou uma combinação destas qualidades. No entanto, minhas crenças se alinham à esquerda do espectro político, então, na falta de candidatas que preencham esses requisitos nas chapas de esquerda, meu voto vai para um homem branco.

Todos devem fazer sua própria pesquisa, mas ofereço as sugestões abaixo.

Deputado estadual

Cacique Saci 50789 — Os indígenas são pouco representados na política brasileira, embora sejam os habitantes originais do país e possam contribuir para decisões políticas que favoreçam uma relação mais saudável com o meio ambiente. O Cacique Saci talvez seja o único candidato indígena a deputado estadual no Rio Grande do Sul e concorre pelo PSOL, um partido que merece mais espaço na Assembleia Legislativa. Caso ele mesmo não seja eleito, o voto ajuda a colocar na Assembleia Luciana Genro ou Pedro Ruas, políticos com bom histórico de defesa dos direitos humanos e interesses dos trabalhadores.

Deputado federal

Gaudêncio Fidelis 1308 — Curador da mostra Queermuseu, fechada pelo Santander Cultural após protestos do MBL, o candidato a deputado federal pelo PT será um defensor da liberdade de expressão. Ao ser conduzido coercitivamente para depor no Senado, enfrentou com fleuma o senador Magno Malta e outros conservadores. Embora seja sua primeira candidatura, tem experiência política como assessor de Maria do Rosário. Nasceu pobre na zona rural de Gravataí, filho de mãe professora e pai caminhoneiro. É homossexual, outro grupo subrepresentado na esfera legislativa. Tem experiência de vida necessária para defender os direitos destes grupos na Câmara dos Deputados.

Fernanda Melchionna 5050 — Para quem tem dificuldade de votar no PT após todos os acontecimentos dos últimos anos, a vereadora de Porto Alegre mais votada em 2016 também tem um ótimo histórico de defesa dos direitos humanos e aumentaria o número de mulheres no Congresso, que hoje é pífio. Se conseguir repetir o fenômeno Manuela Dávila e for a candidata a deputada federal mais votada da eleição, pode levar junto consigo mais alguns bons quadros do PSOL, para contrabalançar a bancada do Boi, Bíblia e Bala.

Senador

Abigail 651 e Marli Schaule 161  — Há alguns anos, firmei o compromisso de votar sempre que possível em mulheres. Há duas concorrendo pela esquerda, Abigail, pelo PC do B, e Marli Schaule, pelo PSTU, mas, francamente, nenhuma delas parece ter muitas chances de se eleger. Em todo caso, sou contra o voto útil, então o meu vai para elas. Para quem prefere o voto útil, normalmente recomendaria o Paulo Paim (131), experiente senador negro do PT que concorre à reeleição, tem um bom histórico de defesa dos interesses dos trabalhadores. Paim, todavia, se retirou do meu rol de candidatos ao assinar a PEC que criminaliza o aborto desde a concepção, mas ainda pode ser viável para quem não se importa muito com a questão. Por outro lado, Paim está com 68 anos, o mandato de senador é de oito anos e as substitutas da chapa são todas mulheres…