Dançando no limite do bom gosto

Nos últimos dias, a matéria Homem que esfaqueou três em mercado de SP foi contido meia hora após ataque, assinada por Afonso Benites e publicada na Folha de São Paulo, vem causando a indignação de muitos leitores. O motivo é o trecho a seguir:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90).

Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

Os ofendidos pelo texto de Benites reclamam do “merchandising” ou “anúncios” em meio à história de um assassinato — por meio de outras palavras, acusam a Folha de tentar vender produtos se aproveitando da morte de um cidadão inocente.

Lamento, mas confundir a citação a produtos neste texto com publicidade é caso de extrema má-vontade ou de analfabetismo funcional. (Dica aos mais afoitos: publicidade só acontece quando alguém recebe dinheiro ou vantagens para publicar alguma coisa.)

A citação a produtos neste caso é apenas um elemento narrativo que visa dar maior vivacidade ao texto e ajudar o leitor a criar uma imagem mais clara do cenário onde o crime ocorreu. Ao ler o trecho, também estranhei, mas entendi a referência a informações banais sobre os produtos como um artifício que, em contraste com a gravidade da situação, acaba evidenciando a banalidade da violência no Brasil.

As frases “Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.” oferecem um subtexto importante, em conjunto com o “meia hora após ataque” do título: nenhum cidadão presente tomou qualquer atitude para evitar as agressões. Poderiam, sei lá, ter juntado 20 pessoas, ido até o setor de limpeza para se armar com vassouras e contido o assassino à força. Fica implícita uma crítica à atual falta de senso de comunidade e responsabilidade pelo bem-estar do próximo.

É uma boa peça narrativa e uma reportagem inteligente no sentido de inserir crítica social sem explicitar uma opinião. Mostra, em vez de dizer. Um jornalista com essa habilidade é coisa rara no mercado.

Os motivos pelos quais a matéria merece ser criticada são outros e estão apenas tangencialmente ligados à questão da citação aos produtos.

A meu ver, o problema é a espetacularização do assassinato, do crime. Nada de novo aí. A imprensa brasileira sempre gastou muita tinta para transformar bandidos em personagens, sem demonstrar a menor sensibilidade quanto às vítimas ou suas famílias, obrigadas a ver seus algozes como protagonistas de romances detetivescos — inclusive, parece haver uma relação direta entre abjeção do crime e a qualidade do texto do repórter destacado para cobri-lo.

Um amigo que trabalhou em jornais populares do Rio de Janeiro nos anos 1980 e 1990 sempre conta como os traficantes se tornaram mais violentos quando perceberam que, com isso, ganhavam as capas dos jornais. Assim como aparecer no jornal como fonte é sinal de relevância para um médico ou empresário, é sinal de relevância para um bandido, frente a seus pares e comunidade. Estar na mídia indica poder.

O espaço destinado às histórias policiais é muito maior do que a importância dos fatos a partir dos quais foram produzidas. Os crimes são muito menos comuns do que um leitor de jornais poderia supor analisando a quantidade de páginas gastas para relatá-los. Salvo por uma ou outra matéria de utilidade pública, conhecer os detalhes de crimes não traz benefício algum ao cidadão — exceto, talvez, saciar alguma pulsão sadomasoquista.

A narrativa de Benites torna a história do assassinato no supermercado muito mais chocante do que pareceria num texto burocrático, como estamos acostumados a ler. A espetacularização da criminalidade ficou muito mais evidente neste caso e talvez tenha sido esse o fator que causou tanta indignação. As pessoas ofendidas pelas referências ao modelo das facas e à promoção do supermercado podem estar ofendidas, na verdade, com o fato de a Folha estar ganhando audiência e, portanto, dinheiro com o sangue alheio. Essa é uma indignação que faz sentido.

A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários. No caso de permaneceram, seria de bom tom procurar não dramatizá-las, apresentando as informações da maneira mais burocrática possível ao público. Essa, porém, é a uma decisão comercial dos executivos das empresas jornalísticas. Sangue dá audiência e audiência dá lucro. Como cidadãos, o que podemos fazer é deixar de ler essas matérias e apontar nossa repulsa sempre que houver oportunidade.

Benites é um funcionário e foi ordenado por seu chefe a relatar o crime no supermercado. Tomou a decisão de fazer isso com toda competência. Poderia ter pensado nas famílias das vítimas ou no impacto social de seu trabalho e escrito um texto menos sensacional? É claro que poderia. O repórter inseriu publicidade em uma história de provável grande audiência? É óbvio que não. O que aconteceu, então? Acho que Benites foi apenas uma peça mais eficiente do que o normal no sistema da mídia. Devemos condená-lo? Sei lá.

Programação da semana

No sábado, das 9h às 18h, acontece o I Seminário Internacional de Jornalismo Online promovido no Brasil pelo Knight Center. O evento marcará, espera-se, a criação da seção brasileira da Online News Association. No primeiro painel, teremos a apresentação “Jornalismo Interativo no New York Times”, por Andrei Scheinkman, programador de aplicativos jornalísticos do New York Times. Às 11h, Mario Tascón, diretor e fundador de LaInformacion.com e DIXIRed e ex-diretor de conteúdo de Prisacom e ElPais.com apresenta a palestra “Jornalistas + leitores + algoritmos = meio de comunicação”. Ao longo do dia, vários outros painéis interessantes. Haverá transmissão ao vivo por este link.

A partir de amanhã, está aberta ao público a exposição Horizonte Expandido, no Santander Cultural, com diversos nomes fundamentais da arte contemporânea. Chance rara de ver essas obras em Porto Alegre. Além dos estrangeiros, a mostra traz material de Hélio Oiticica. Se você tem alguma vontade de gostar de arte contemporânea, essa é a oportunidade.

Amanhã, às 18h30, o impagável Eduardo Menezes, do Impedimento, lança o guia A Copa que Interessa, no Caminito (rua Padre Chagas, 318). Se não for útil, o guia é no mínimo divertido.

    Aula inaugural de Jornalismo Digital

    Na próxima sexta-feira, acontece a aula inaugural do curso de especialização em Jornalismo Digital da Famecos, com uma palestra da editora de treinamento da Folha de São Paulo, Ana Estela de Sousa Pinto. Ana vai falar sobre o processo de integração entre as redações online e impressa do jornal. Chance rara de conhecer esse tipo de integração em primeira mão.

    A aula inaugural, com o tema “O impacto das tecnologias digitais no cotidiano das redações”, é aberta e gratuita. Começa às 17h30 e termina às 19h, no auditório da Famecos (2º andar do prédio 7 da PUCRS). Haverá transmissão via Web, fiquem de olho no @posdigital para mais detalhes.

    Estelionato de atenção

    Capa do UOL

    No dia 22 de março, Dia da Água, a capa do UOL amanheceu pintada pelo horrendo tom de azul da reprodução acima. O portal pertencente aos grupos Folha e Abril foi um dos veículos escolhidos para uma ação de marketing da Ambev, cujo objetivo era divulgar um tal Movimento CYAN — daí o tom de azul característico. Outros jornais a aderir foram o Globo e o Estadão, sendo que estes também pintaram a capa das edições impressas.

    Não é de hoje que os grandes jornais brasileiros começaram a vender suas capas. Todo mundo sabe que a indústria do jornalismo está periclitante e é preciso ganhar dinheiro como for. Faz parte. Vivemos em uma sociedade em que o jornalismo está submetido à lógica do capital. Não é o ideal, mas ainda é melhor do que uma sociedade sem jornalismo.

    Pessoalmente, considero que esse tipo de prática deprecia a credibilidade do veículo frente aos leitores — um perigo, visto que a credibilidade é o principal ativo das empresas de comunicação. A longo prazo, pode se mostrar um tiro no pé entregar ao assinante um jornal com metade de uma capa tamanho standard tomada por ofertas de computadores parcelados em 12 vezes. Porém, não condeno a decisão de pintar as capas de azul.

    O que realmente me incomoda é ver uma ousadia como essa ser imposta pelo setor comercial, em vez de partir da redação. Os recursos hídricos são um tema de grande importância, que raramente ganha espaço no noticiário. Receber um jornal com a capa totalmente tingida ou acessar um portal e encontrar tudo azul causa um choque no leitor, que vai parar por um segundo para refletir sobre a mensagem. Nesse caso, porém, o leitor não encontrou uma justificativa para o impacto da capa. Nenhum dos veículos produziu reportagens especiais sobre o problema de garantir água potável para a humanidade. A maioria apenas publicou fotos de rios bucólicos e boletins da ONU.

    É um desperdício lamentável. Seria bom ver as empresas de comunicação brasileiras se unindo para conscientizar a população sobre esse tema, produzindo reportagens especiais aprofundadas. Por melhor que seja o material informativo oferecido pela Ambev em sua campanha, não há necessariamente um compromisso com o interesse público. A empresa convida especialistas para dar palestras sobre os recursos hídricos, propõe aos leitores ações para economizar água, mas a problematização fica na superfície. Não se discute a sustentabilidade do modelo econômico atual com maior profundidade — e nem se deve esperar isso de uma campanha publicitária.

    Para piorar, os leitores do UOL pensam que a pintura azul foi uma ação editorial. Ou seja, o conteúdo produzido pelo departamento de marketing da Ambev, para o bem ou para o mal, será considerado pela audiência um conteúdo de responsabilidade do Grupo Folha.

    Outro exemplo recente foi uma sobrecapa veiculada no jornal Correio do Povo de 31 de março. A peça publicitária tinha projeto gráfico idêntico ao do jornal, inclusive com elementos como a previsão do tempo e o logotipo da Rede Record, e a manchete era “Mestre Mamzumba chega ao Brasil”. De cara, o conjunto da manchete e foto com um africano evidentemente estereotipado me indicaram haver algo errado, mas levei algum tempo até encontrar o aviso de “informe publicitário” no material. Trata-se de uma campanha da Agência Escala para as lojas Colombo, que já vem se desenrolando há mais tempo.

    Sobrecapa publicitária do Correio

    A confusão ao deparar com a sobrecapa do Correio do Povo me fez perder tempo investigando seu significado. Se soubesse ser um anúncio, teria descartado à primeira vista e seguiria lendo as notícias do dia. O anúncio frustrou minhas expectativas enquanto leitor, pois toda a técnica jornalística desenvolvida ao longo de mais de um século de profissionalização tem como objetivo facilitar a leitura e torná-la mais rápida. Sequestrar a atenção dessa forma pode fazer todo sentido do ponto de vista da publicidade, mas é um erro do ponto de vista jornalístico.

    Nos dois anúncios comentados aqui, o leitor é interpelado pela peça gráfica e mobiliza sua atenção — o que Seth Godin chama de marketing de interrupção –, mas esse esforço não é recompensado por um conteúdo jornalístico de qualidade. A meu ver, trata-se de um verdadeiro estelionato de atenção.

    Felipe Vieira está me processando

    Os representantes legais de Felipe Vieira, apresentador da Rede Bandeirantes, apresentaram uma queixa-crime por injúria e difamação contra mim.

    O processo não corre em segredo de justiça, conforme informações disponíveis no TJ-RS na tarde de hoje. Portanto, sinto-me no direito e no dever de colocar a queixa-crime produzida pelo escritório Campos Advocacia Empresarial e assinada pelo advogado Norberto Flach à disposição dos leitores.

    Queixa-crime

    Elogio da linearidade

    A Zero Hora publicou há algumas semanas matéria especial sobre os desafios colocados pelos jovens de hoje para as escolas. Sem grandes novidades: pedagogos reconhecem a defasagem entre o modelo de educação atual e as habilidades desenvolvidas pelas crianças através do uso de computadores, telefones móveis, jogos eletrônicos e outros elementos da cibercultura. Dizem que é preciso mudar a forma de ensinar e um entrevistado, Paulo Al-Assal, vem com aquela arenga de sempre sobre a escola matar a criatividade e tudo o mais.

    Os problemas todos são pendurados na conta dos educadores, considerados anacrônicos, mas a meu ver a questão é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, é preciso admitir que, de fato, muitos professores desconhecem as ferramentas de comunicação e entretenimento digitais e passam longe das redes sociais. Em geral esse professor passa a ser desvalorizado, considerado um dinossauro.

    Cabe perguntar-se, no entanto: realmente queremos um sistema educacional reconstruído com base na personalidade da nova geração?

    A meu ver, a resposta é que devemos fazer adequações no sistema educacional, mas não reinventá-lo completamente. Isso porque o formato de aula do século XIX desenvolve uma habilidade importante e não-inata nos seres humanos: a linearidade. Como diz o pesquisador André Lemos, ser hipertextual é a configuração padrão do ser humano, a linearidade é que exige treino.

    E treino duro. Deixada à própria sorte, nossa mente passa de imediato a realizar livre-associações. Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.

    Um livro didático oferece poucas chances de dispersão, pois, em geral, é organizado em uma sequência lógica da menor para a maior concentração de conhecimento. As boas e velhas enciclopédias impressas já ofereciam risco mais alto de dispersão, pois ao lado do verbete sobre o Rio Amazonas podiam aparecer ilustrações de guerreiras sensuais montadas a cavalo, ou uma remissão a Manaus, ao Ciclo da Borracha e daí para Deus sabe onde. Ainda assim, a necessidade de folhear ou buscar outro volume na estante dava ao estudante tempo para se dar conta da dispersão e retornar ao trabalho. Na Web, basta um clique e imediatamente se está em uma nova página, com novos links e novos caminhos abertos.

    É como o fluxo do pensamento. A mente à solta deriva para todo lado. Saímos correndo atrás da primeira linha raciocínio que aparece, assim como os cachorros correm latindo atrás dos carros passando na rua.

    Diversas culturas criaram tecnologias cognitivas para evitar essa dispersão ao longo da história. No Oriente, surgiu a meditação, cujo principal objetivo é justo ensinar a mente a ficar quieta em seu lugar enquanto os carros passam. No Mediterrâneo, surgiu a retórica, com suas técnicas para organizar o discurso de forma linear. Na Europa, o códex deu uma base material à linearidade do pensamento, com a colocação organizada das idéias página após página numerada.

    O homem se esforça há milênios para tentar ser linear. A linearidade só perdeu prestígio no século XX, sob ataque das artes e da teoria literária. No momento em que os seres humanos, através da indústria cultural, sobretudo da televisão, passaram a ter  contato diário com diferentes culturas — por mais enquadrado numa determinada visão de mundo que fosse esse contato –, perceberam estar sob o domínio um discurso monolítico, de um imaginário do progresso, e sentiram-se prisioneiros. Veio o Maio de 1968, veio a contracultura americana, veio o punk e diversos outros movimentos de libertação dos discursos. Veio o Pós-modernismo e o elogio da hipertextualidade, da polissemia. Esquecemos o valor da linearidade.

    O mundo ficou muito melhor com o fim da repressão dos discursos totalitários, não se pode negar. Há muito mais liberdade hoje do que há um século. Mas convém não jogar o bebê fora com a água do banho. É bom abraçar os avanços proporcionados pelo reconhecimento do caráter hipertextual da mente, mas sem deixar de lado os benefícios da linearidade.

    Infelizmente, não há outro espaço social para desenvolver a linearidade que não seja a escola. Portanto, a escola sempre foi e sempre será castradora. Os alunos não têm culpa de se sentirem desconfortáveis com a linearidade das aulas. É mesmo uma violência obrigar-se a focar a atenção por horas a fio todos os dias — e, antes de ser adulto, é difícil enxergar o valor de sacrificar-se em nome de um objetivo. Foucault dizia, não à toa, que a educação é “deixar-se foder pelo social” — o que não significa uma recomendação para deixar a escola por parte do filósofo francês, mas apenas uma provocação para incentivar os espíritos a buscarem autonomia. Os adultos, porém, não têm desculpa, exceto a imaturidade, para não ver os benefícios proporcionados pela escola.

    Imaturidade é a chave aqui. A mente imatura detesta a linearidade. É a mente combatida, até certo ponto, pela meditação, e, às últimas consequências, pela filosofia. Pode ser difícil reconhecer o valor do treinamento na linearidade quando passamos a atuar no mundo adulto, mas ele é essencial para a maior parte das situações profissionais. O problema das técnicas cognitivas é que os novos comportamentos se tornam anteriores às ações e, assim, passamos a confundir os padrões de pensamento com nosso próprio eu. Ou seja, quem passou pela escola acredita que sempre foi linear, porque se vê capaz de focalizar a atenção numa tarefa com grande competência. Pelo retrovisor, a escola parece ensinar apenas aquilo que já sabíamos o tempo inteiro.

    Nossa cultura vem se tornando cada vez mais imatura. A juventude domina o imaginário social. A medicina luta contra o envelhecimento. A moda faz os adultos parecerem adolescentes. A falta de compromisso é sinônimo de liberdade. Infelizmente, os aspectos mais negativos da juventude parecem ser os mais valorizados. Em vez da abertura da mente de principiante de que falava Shunryu Suzuki e da seriedade ao brincar de que falava Nietzsche, temos o narcisismo típico da infância. Narcisismo que leva a considerar o individual sempre superior ao social. Neste caso, leva à conclusão de que a escola precisa se adaptar aos estudantes, não os estudantes à escola.

    A escola tem de mudar suas práticas — em alguns casos, mudar muito — sem abandonar, no entanto, os princípios fundamentais. É saudável que os alunos possam questionar os professores e que estes não se vejam mais como detentores únicos do conhecimento; é saudável que os professores deixem de ser figuras de autoridade para se tornar facilitadores do processo de aprendizagem; é saudável adotar as ferramentas oferecidas pelas tecnologias de computação e informação na sala de aula. Mas também é saudável manter ao menos um reduto da tradição ocidental de raciocínio linear, que bem ou mal nos trouxe até um momento histórico no qual as condições de vida são suficientes para passarmos a questionar a própria idéia de progresso histórico.

    Campus Party

    Na quinta-feira, às 15h45, vou mediar o debate O Direito e a Internet, na terceira edição da Campus Party. Os participantes são Flávia Penido, Alessandro Martins, Jorge Araújo e Marcel Leonardi. Na pauta, a questão da liberdade de expressão e crimes de opinião relacionados a blogs. A discussão promete ser bastante produtiva e eu realmente espero sair de lá com algum tipo de plano para criar uma organização que preste apoio jurídico a blogueiros envolvidos em processos por conta da veiculação de suas idéias e opiniões.

    Será a primeira vez que participo da Campus Party, apelidada por alguns de Woodstock Nerd. Estou realmente curioso para ver com que se parece uma conexão de 10Gb e ver se meu toque de celular com uma frase do seriado Monty Python fará sucesso. Passarei a semana inteira em São Paulo e pretendo frequentar a Campus Party em alguns dias. Se quiser marcar um encontro por lá, deixe um comentário ou envie um e-mail.

    Imprensa, público, comensalismo e simbiose

    Um estudo do ecossistema noticioso de Baltimore, publicado pelo Project for Excellence in Journalism, descobriu que 95% das informações novas veiculadas na imprensa durante uma semana vieram da mídia tradicional, sendo a maioria do jornal. Além disso, verificou-se que 80% das notícias simplesmente reapresentaram informação já conhecida. Quase metade da informação nova foi divulgada pelo Baltimore Sun, o principal jornal da cidade.

    A pesquisa traz importantes indícios para investigar as causas do declínio da imprensa como indústria e de como reinventá-la.

    O papel das redes sociais e weblogs no ecossistema noticioso, conforme o estudo, é servir principalmente como sistema de alerta e repercussão da informação desencavada pelas redações de jornais e reproduzida nos websites jornalísticos.

    Ainda assim, um dos seis principais temas do noticiário na semana abordada pelo estudo foi disparado por um blog independente. O autor do Maryland Politics Watch percebeu no website da Procuradoria distrital uma consulta da empresa de transporte público do Estado de Maryland sobre a possibilidade de instalar microfones para supervisionar as conversas de passageiros. Os veículos de imprensa local começaram a perseguir a pauta logo em seguida. O blogueiro não entrevistou ninguém, apenas o repórter do Baltimore Sun tomou esse trabalho. O resto da mídia, aparentemente, apenas copiou e colou — sem creditar.

    O caso mostra o quanto é fundamental a participação do público no atual ecossistema noticioso. Um cidadão ser o responsável por iniciar uma das principais coberturas semanais em uma cidade grande não é pouca coisa. O estudo dá a impressão de menosprezar um tanto o trabalho do blogueiro, embora ele tenha sido fundamental. A cadeia causal gerada por seu comentário acabou por matar no berço a idéia vigilantista da empresa de transporte público da região.

    Os críticos podem dizer que não houve esforço de reportagem real do blogueiro, Paul Gordon, porque ele não entrevistou ninguém, apenas apontou um link. Há aí dois problemas de avaliação. Primeiro, não é papel do público entrevistar fontes. Isso é papel dos jornalistas. Se um leitor por acaso se dá esse trabalho, ótimo, mas cobrar o mesmo nível técnico dos profissionais em material produzido por colaboradores ou jornalistas amadores é um contrasenso — a não ser que os jornalistas estejam realmente querendo abdicar de sua profissão. Em segundo lugar, descobrir uma informação nova é a parte mais importante do processo de reportagem. Sem um furo, ninguém sai do lugar. Portanto, o Gordon realizou a parte principal do trabalho — o que, aliás, deveria ser motivo de humilhação para toda a imprensa de Baltimore.

    Muitos websites jornalísticos e weblogs divulgaram informações coletadas por outros sem fornecer os devidos créditos, além disso. Esse dado corrobora uma opinião que emiti recentemente em entrevista ao Alec Duarte: não existe mais informação exclusiva. O Baltimore Sun levou três dias para perceber o texto no Maryland Politics Watch, mas outros websites levaram poucas horas para replicar a informação do Baltimore Sun. A imprensa como um todo ignorou a nota no website da Procuradoria por um mês. Se não fosse por Gordon, o público correria o risco de saber do projeto de vigilância apenas quando já estivesse implantado.

    Apesar de não existir mais informação exclusiva, ainda existem enfoques exclusivos. A imprensa deveria investir naquilo que as redes sociais e weblogs não podem investir: encontrar fontes que tragam novos argumentos e pontos de vista sobre os acontecimentos. Infelizmente, a julgar pelos resultados do estudo, não parece ser essa a abordagem dos jornais. A maioria das novas informações no período estudado teve como ponto de partida a administração pública ou organizações. Foram muito poucas as informações novas provenientes de fontes descobertas por iniciativa de repórteres.

    Os jornais devem aprender a direcionar melhor o inegável poder de fogo que mantêm, mesmo após 20 anos de World Wide Web. Há cerca de dez anos, pensava-se que a essa altura o jornal impresso estaria morto ou em coma avançado. No entanto, continua sendo o principal produtor de informação. Porém, o estudo também mostra que tem sido produzida cada vez menos informação nova. Os jornais são vencedores numa competição de várzea, não numa Copa do Mundo. Isso pode explicar o declínio da indústria e a necessidade de reinventá-la.

    O caminho para a reinvenção, a meu ver, é unir o potencial do público em levantar pautas com a técnica de reportagem e narrativa dos jornalistas. Os jornais devem criar sistemas de captação de informação gerada pela comunidade e, ao mesmo tempo, partir do princípio de que toda informação estará disponível imediatamente a toda a concorrência. Devem tomar essa informação como base e passar a investir mais na repercussão com fontes inusitadas, que dêem um enfoque especial para cada veículo, em vez de reproduzir as mesmas aspas disponíveis em todo o ecossistema midiático.

    A relação entre imprensa e o público dotado de acesso às redes sociais e ferramentas de publicação ainda é de comensalismo: os dados da pesquisa mostram que, em geral, weblogs e redes sociais reaproveitam a informação gerada pelas redações. Manchetes e links são distribuídos e trechos são comentados Web afora, mas as redes sociais raramente produzem notícias.

    Alguns poderiam considerar isso parasitismo, mas, apesar do que dizem os Rupert Murdochs da vida, a distribuição e repercussão das notícias não causa mal algum aos jornais e, às vezes, pode beneficiá-los. O parasitismo existe, é claro, mas geralmente se dá entre jornalistas. O caso do Maryland Politics Watch, aliás, mostrou que a imprensa algumas vezes parasita os blogs e redes sociais, reproduzindo informação sem fornecer os devidos créditos.

    A atual relação de comensalismo entre imprensa e público, na qual o público é levado a reboque pelos jornalistas, como as rêmoras e os tubarões, deveria se tornar uma relação de mutualismo, na qual os dois agentes se beneficiassem. Quem sabe, até mesmo evoluindo um dia para uma relação de simbiose. O público tem muito com que colaborar, mas as redações precisam se abrir a essa colaboração.

    Pós-graduação em Jornalismo Digital

    Gostaria de lhes apresentar meu filho: o curso de especialização lato sensu em Jornalismo Digital, cujas aulas começam em março na Famecos/PUCRS.

    Quem entrar no site, desenvolvido pela equipe do Espaço Experiência, vai perceber a integração com ferramentas como Delicious, Twitter e, futuramente, Flickr e Vimeo. Não é à toa: a idéia é não ficar restrito ao estudo e prática das técnicas básicas de jornalismo digital, como edição de vídeos, criação de animações e webwriting, mas incorporar as ferramentas de Web 2.0 e as redes sociais. A nosso ver, a habilidade de lidar com essas características do contexto atual da comunicação são indispensáveis para qualquer jornalista — porque a própria audiência da próxima década está sendo formada nessas redes sociais e pelo uso dessas ferramentas.

    Além de uma disciplina voltada especificamente para a sociabilidade no jornalismo digital e um seminário sobre relacionamento com o público, os alunos e professores serão incentivados a usar redes sociais e serviços de Web 2.0 em todas as atividades do curso. São características fundamentais da sociedade contemporânea e portanto são características fundamentais do projeto pedagógico.

    Outro avanço curricular que buscamos foi um aprofundamento em programação. Os alunos aprenderão ao menos o suficiente para produzir alguns mash-ups simples que possam ajudar no cotidiano de uma redação digital. Conhecer as linguagens mais usadas no jornalismo — Ajax, PHP, HTML — é também importante no momento de gerenciar projetos.

    Um terceiro ponto a ressaltar é o foco na inovação e empreendedorismo. Na última década, as ferramentas de comunicação em escala massiva se tornaram acessíveis não apenas a todos os jornalistas, mas a todas as pessoas. Se antes era preciso ter dinheiro para investir num parque gráfico ou num estúdio para ser seu próprio chefe, hoje é possível criar produtos informativos e noticiosos digitais sem a necessidade de muitos recursos. De fato, o único recurso indispensável para abrir uma empresa é o conhecimento técnico para desenvolver uma idéia.

    Para dar conta desse aspecto, foram chamados Marta Gleich, diretora de Internet, e Eduardo Lorea, gerente de pesquisa e desenvolvimento, ambos do Grupo RBS. Ambos vão assumir as disciplinas de gerenciamento e negócios do curso. Além disso, durante a especialização cada aluno deverá criar e planejar um produto digital. O trabalho de conclusão será a entrega de um protótipo do produto. Esperamos com isso fomentar a criação de novas empresas no mercado gaúcho e brasileiro e mostrar aos profissionais, com exemplos palpáveis, as novas possibilidades abertas pela Comunicação Digital.

    Além disso, vamos oferecer também uma disciplina de jornalismo em mídias móveis e entraremos na seara da televisão digital, ambos temas de pesquisa científica dos professores da Famecos e ambos temas pouco explorados nos currículos de especializações no Brasil.

    Chamo de meu filho e sou o coordenador, mas o curso foi concebido pela equipe de Comunicação Digital da faculdade em conjunto. Os professores Eduardo Pellanda, André Pase e Andréia Mallmann me ajudaram muito na preparação do projeto pedagógico e estão no corpo docente. Por sinal, o Pase está coordenando o curso de especialização em Jogos Digitais, uma parceria da Famecos e da Facin com a Ubisoft.

    Em 2010 começam também os cursos de especialização em Cinema Expandido, Branding de Conexão e Planejamento em Comunicação e em Gestão de Crises de Imagem. Todos na Famecos.

    Apuração distribuída e jornalismo no 7º SBPJor

    Nesta quinta-feira estarei participando da III Mesa Coordenada Rede JorTec – Processos Colaborativos e Narrativas Digitais, no 7º Encontro da SBPJor. O encontro deste ano será na ECA/USP, em São Paulo. A programação pode ser conferida aqui. A íntegra do trabalho está no link abaixo:

    A apuração distribuída como técnica de webjornalismo participativo

    Leia a matéria feita pela equipe de alunos do Espaço Experiência da PUCRS para o Eu sou Famecos.