Jornalismo brasileiro adota a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais

No dia 31 de março último, o golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart e instalou um regime autoritário no Brasil completou 50 anos. A imprensa produziu os cadernos, websites, cronologias e documentários de costume, mas um novo tipo de material jornalístico ganhou bastante destaque: a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais — no caso, o Twitter.

Reencenações históricas não são uma novidade. O cinema e os nerds vêm reencenando batalhas importantes ao vivo ou em filme há décadas, várias delas com grande atenção aos detalhes. Em 2011, no aniversário de 30 anos do título mundial, a rádio Globo retransmitiu o jogo Flamengo X Liverpool. Na Web, circula há anos a reconstrução da Segunda Guerra Mundial em versões para IRC e Facebook. No Twitter, mesmo, já existem há tempos o perfil @RealTimeWWII e outros do mesmo tipo, como o diário da rainha Vitória.

Neste 31 de março, pelo menos cinco instituições brasileiras promoveram uma reencenação histórica do golpe de Estado de 1964: O Globo, o grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, o Instituto Moreira Salles e o laboratório de jornalismo da Famecos/PUCRS, o Editorial J, usando o perfil @Golpe1964. O portal Terra também reencenou em tempo real o putsch contra Jango, mas, em vez de usar o Twitter, aproveitou o momento para estrear sua nova ferramenta de narração ao vivo.

Cronologia do Golpe  golpe1964  no Twitter

 

A resposta do público, no caso do Editorial J, foi surpreendente. Se a proposta interessasse a 500 pessoas, já consideraríamos um sucesso.  O perfil, porém, atingiu a marca de 2 mil seguidores na primeira semana e no dia 2 de abril amanheceu com uma audiência de mais de 5 mil pessoas. A resposta também foi excelente em termos de comentários: não apenas muitos seguidores elogiaram e disseminaram o @Golpe1964, como diversos veículos de nos entrevistaram e publicaram notícias sobre a iniciativa. Ficamos estupefatos.

A ideia nasceu do dilema sobre como competir com a imprensa profissional na cobertura dos 50 anos do golpe dispondo de muito menos recursos. Como sou fã dos perfis de reencenação histórica, propus ao Victor Rypl, editor de Web do Editorial J, fazermos algo parecido. Ele comprou a ideia e usou parte das férias de verão para pesquisar o livro 1964: Golpe ou Contragolpe?, de Hélio Silva. Também usamos outras fontes, como os acervos online de jornais existentes na época, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e até mesmo o Departamento de Estado americano. Nos últimos dias, ganhamos a ajuda da Sofia Schuck, nova estagiária do laboratório.

A partir dessas fontes, foram criados as centenas de tweets, escritos como se os eventos estivessem acontecendo no presente, e armazenadas as imagens necessárias. Um dos acertos foi iniciar, devagarinho, duas semanas antes de 31 de março, porque o intervalo de tempo permitiu que o perfil se disseminasse pelas redes sociais e houvesse uma audiência já cadastrada para acompanhar a narração na data mais importante. Também levamos em conta a vantagem de assinar a ideia antes de todos os outros — não é uma proposta tão original assim, afinal, e parecia óbvio que alguém maior do que nós iria fazer algo parecido. Com isso, obtivemos muito mais repercussão do que se iniciássemos no dia 31 de março, junto com O Globo e o Instituto Moreira Salles.

Outra diferença para as demais iniciativas é que pretendemos permanecer publicando conteúdo sobre as principais efemérides da ditadura. Esta foi uma das razões para termos criado um perfil dedicado apenas aos 50 anos do golpe, em vez de usar o @EditorialJ. Um perfil específico tem ainda a vantagem permitir a divulgação normal das matérias na conta oficial, sem atrapalhar a reencenação histórica, e evitar a confusão.

O Globo, por exemplo, narrou a rebelião no perfil @oglobopolitica, o qual seguiu publicando outros tipos de conteúdo, como uma sessão de perguntas e respostas com Miriam Leitão. Além de misturar textos de naturezas diferentes, essa decisão do Globo quebrou o encanto da reencenação. Afinal, o primeiro requisito para o sucesso desse tipo de iniciativa é manter ao máximo a suspensão da descrença. É como na cena do filme Em Algum Lugar do Passado em que Christopher Reeve se hospeda num hotel antigo e usa roupas de época, para criar um ambiente propício a um retorno ao ano de 1912.

Esse modelo obrigou o Globo a usar uma hashtag: #aovivo1964. São 11 caracteres valiosos. Um pefil dedicado, ou ao menos uma suspensão de todos os outros tipos de publicações, permitem evitar o uso de palavras-chave e deixar mais espaço para narrar os eventos. Um pouco de espaço livre nos tweets também favorece a repercussão e a interação, pois facilita que os leitores insiram comentários próprios antes do RT.

Uma ideia que gostaria de ter tido foi usar um código para indicar a fonte de cada tweet, como fez o Instituto Moreira Salles. É um dado útil para os leitores, que podem assim buscar as referências para se aprofundar, ou então questionar a exatidão das informações.

Uma ideia que gostei de ter tido foi retweetar os eventos dos quais não dispúnhamos em nosso arquivo. O grupo Tortura Nunca mais também embarcou no espírito esportivo e republicou o nosso material. Ambos ganharam em qualidade e ofereceram uma experiência melhor para o público com essa atitude, porque os perfis jornalísticos costumam retweetar informações de outras fontes quando estão realizando uma cobertura em tempo real. Aumentamos a verossimilhança.

Finalmente, essa experiência teve o mérito de mostrar à equipe do Editorial J que mesmo redações com poucos recursos, hoje em dia, podem competir por atenção do público com as grandes empresas de comunicação — é necessário apenas planejamento e um pouco de sorte.

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A mesquinharia do PMDB pode derrubar a neutralidade de rede

Há cerca de duas semanas, o deputado carioca Eduardo Cunha, do PMDB, prometeu derrubar os pontos principais do projeto de lei do Marco Civil da Internet. As declarações do parlamentar foram feitas, ironicamente, um dia após o criador da World Wide Web — aquilo que os jovens hoje entendem por Internet –, Tim Berners-Lee, fazer um apelo pela criação de uma carta magna da Internet.

A questão mais importante em jogo é o princípio da neutralidade de rede, segundo o qual os provedores de acesso à Internet são proibidos de discriminar o tráfego de dados com base no conteúdo ou na fonte. Traduzindo: mesmo não havendo, hoje, uma legislação específica, a NET, GVT, Telefônica e outros provedores devem garantir ao consumidor a mesma velocidade para o acesso ao Netflix e ao Vimeo, a este blog e à Folha de São Paulo, a torrents e ao iTunes. Nos Estados Unidos, a regra da neutralidade de rede caiu recentemente, devido a uma barbeiragem — ou má-fé — da Comissão Federal de Comunicações. O resultado foi um acordo no qual o serviço de streaming de vídeo Netflix se comprometeu a pagar pedágio ao provedor Comcast.

O abandono de neutralidade de rede seria ruim por uma série de motivos. Em primeiro lugar, diminuiria a capacidade de competição de start-ups contra corporações gigantes. Se os provedores resolverem cobrar uma compensação de serviços de streaming de vídeo, como aconteceu com o Netflix, empresas com menor capacidade de investimento terão uma barreira a mais para entrar no mercado. O cidadão comum, por outro lado, também pode ser prejudicado, na medida em que o conteúdo amador pode ser relegado a uma faixa mais lenta de transferência de dados do que o conteúdo produzido pela mídia comercial.

Um outro aspecto em que o fim da neutralidade de rede pode prejudicar o cidadão é a oferta de pacotes variados de acesso à Internet. Um provedor poderia cobrar uma assinatura maior das pessoas que têm um website próprio, ou produzem podcasts e programas em vídeo distribuídas via YouTube, por exemplo. Os críticos da neutralidade de rede no Congresso afirmam que isso beneficiaria o consumidor mais pobre, pois ele poderia adquirir pacotes mais baratos para o uso de recursos mais simples, como o correio eletrônico. O argumento é, porém, ignorante, porque na verdade cerca de 80% dos usuários da Internet no Brasil têm o costume de assistir a vídeos e 16% das famílias com renda até um salário mínimo dispõem de acesso à rede em casa — número que tende a crescer. Basta entrar em qualquer lan house na periferia após o horário comercial para constatar o hábito de assistir a vídeos das classes D e E.

Na prática, sem neutralidade de rede os provedores de acesso à Internet vão escolher quais serviços, conteúdos e aplicativos os clientes podem usar. Levando-se em conta a tendência à concentração econômica em poucos conglomerados, a situação se torna muito perigosa. A Telefônica e a Vivo, por exemplo, teriam todos os incentivos para reduzir a velocidade de tráfego de dados do Skype, que é seu concorrente direto na área de telefonia. A NET teria todo o interesse em dificultar o acesso ao Netflix e tornar o mais lento possível o download de arquivos torrent. Alternativamente, o consumidor poderia ser obrigado a pagar um valor extra na assinatura de acesso à Internet para usar serviços concorrentes dos produtos de uma determinada operadora e suas empresas irmãs.

Em tese, a discriminação de tráfego também poderia ser usada pelos governos para dificultar o acesso a publicações online que os critiquem. Bastaria, para isso, um telefonema do Planalto para o presidente de um provedor de acesso, ou mesmo a pressão econômica através da proposição de auditorias da Receita Federal, questionamento de concessões, eliminação de subsídios — enfim, usem a imaginação, ou assistam a House of Cards.

Em resumo, a ausência de neutralidade de rede é um convite ao dumping comercial, ao fortalecimento de corporações de mídia e telefonia já poderosas demais e à supressão de vozes dissonantes na esfera pública.

A escolha nas mãos do Congresso Nacional pode ser dividida binariamente, então, entre duas opções:

  1. Manter a neutralidade de rede, atendendo ao interesse público e a todos os valores humanistas mais elevados.
  2. Permitir a discriminação de tráfego pelos provedores de acesso à Internet, atendendo aos interesses das grandes operadoras de telefonia, produtoras de conteúdo comercial e de eventuais governos autoritários.

Existem diversos outros pontos importantes e discutíveis no projeto de lei do Marco Civil da Internet, é claro, mas o fundamental neste momento histórico é garantir a manutenção da neutralidade de rede.

E a neutralidade de rede está em risco por conta da mesquinharia do PMDB. O líder do partido na Câmara, deputado federal Eduardo Cunha, vem fazendo o jogo das operadoras de telefonia, da Rede Globo e outras corporações e tentando derrubar a neutralidade de rede. Trata-se, além de um agrado a potenciais financiadores de campanhas, de uma tentativa de chantagear o governo federal e garantir o espaço de seu partido na política brasileira.

Esse tipo de movimento, apesar de enojante, faz parte da política representativa. Todavia, uma coisa é a bancada do PMDB pressionar a presidência da República instalando CPIs para investigar estatais e constrangendo ministros com intimações para depoimentos. Outra, bem diferente, é se aliar ao obscurantismo e à selvageria capitalista mais baixa para garantir apenas o interesse de seus correligionários. Em vez de tentar conquistar os corações dos eleitores defendendo seus interesses, o PMDB está prejudicando a toda a sociedade para garantir a continuidade de seu parasitismo dos governos de outros partidos. Em vez de colocar o Brasil na vanguarda mundial da defesa dos valores humanistas, o PMDB está tentando nos colocar ao lado da vanguarda do atraso: ao lado dos Estados Unidos, do poder dos lobbies, da espionagem da NSA e do fim de tudo o que é bom e belo.

A única resposta adequada a uma situação como essa é mostrar ao PMDB e a todo o resto do Congresso Nacional que não se brinca com a Internet — lição que o ex-senador Eduardo Azeredo aprendeu amargamente. É preciso deixar muito claro a todos os parlamentares que os cidadãos não pretendem tolerar um atentado à liberdade de uso do sistema de comunicação mais potencialmente democrático já inventado pelo homem. É preciso deixar claro que não vamos tolerar retrocessos.

É preciso deixar claro que faremos de tudo para enterrar a carreira política de quem derrubar a neutralidade de rede.

Minha sugestão é que você baixe os contatos dos deputados federais neste link e envie mensagens a todos eles, por correio eletrônico, carta ou telefone, exigindo a aprovação do Marco Civil da Internet com a manutenção da neutralidade de rede total. Além disso, aporrinhe o máximo possível o deputado Eduardo Cunha nas redes sociais. Compartilhe este e outros textos a respeito do Marco Civil da Internet. Comprometa-se publicamente a nunca mais votar em nenhum candidato do PMDB. Enfim, promova um estardalhaço.

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Usando o Google Acadêmico para se manter em dia com a bibliografia

Uma das melhores ferramentas do Google — e que inexplicavelmente é pouco valorizada pela empresa — é o sistema de alertas por correio eletrônico para palavras-chave determinadas pelo usuário. Basta cadastrar os termos de interesse, para receber uma mensagem sempre que o motor de buscas indexar uma nova página condizente com eles.

Se pouca gente sabe dos Alertas dos Google, menos ainda sabe que é possível cadastrar alertas que só retornem resultados do Google Acadêmico. É importante usar operadores de busca para refinar os gatilhos de alerta. Abaixo, alguns exemplos:

  • Para alertas com mais de um termo, coloque-os entre aspas: “data-driven journalism”
  • Para alertas relacionados a um autor específico: autor: “Marcelo Träsel”
  • Para alertas cujos termos devem constar no título do artigo ou livro: tudonotítulo: “jornalismo guiado por dados”

Também é interessante criar um perfil no Google Acadêmico e listar sua produção científica. Com isso, o sistema passa a varrer a Web em busca de referências relevantes para o seu foco de pesquisa.

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Abraji realiza seminário regional em Porto Alegre

No dia 22 de março, sábado, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo realiza seu primeiro seminário regional de 2014. O dia será dividido entre palestras e oficinas, todas sobre jornalismo investigativo e/ou jornalismo guiado por dados.

É uma excelente oportunidade de aprender com repórteres experientes e conhecer os meandros da investigação jornalística. O preço é camarada: R$ 50 para estudantes, R$ 75 para profissionais e de graça para os sócios da Abraji.

Inclusive, pode ser uma boa oportunidade para se filiar à associação, cuja anuidade custa R$ 220 para profissionais e R$ 110 para estudantes. Há vários benefícios, como acesso a bancos de dados, a tutoriais e à comunidade de repórteres investigativos brasileiros. Além disso, há a satisfação de contribuir para a manutenção de uma entidade que defende os interesses dos jornalistas — é uma das maiores responsáveis pela existência de uma Lei de Acesso à Informação, por exemplo.

Confira abaixo a programação, que traz luminares como Cláudio W. Abramo, Gil Castello Branco, José Roberto de Toledo e Mauri König:

9h00 – 10h30
(Auditório) LAI no Lide – o bom uso da Lei de Acesso no jornalismo regional
Jonathas Costa (O Alvoradense), Juliana Bublitz (Zero Hora) e Paula Sperb (O Caxiense)

(Laboratório) Crime sem Castigo – visualização no Tableau
Guilherme Storck (Gazeta do Povo)

11h00 – 12h30
(Auditório) Mobilidade urbana: para onde (e como) vamos
Daniela Facchini (Embarq Brasil), Clarisse Linke (ITDP) e André Mags (Zero Hora)

(Laboratório) Poder econômico e financiamento eleitoral no Brasil
Claudio Weber Abramo (Transparência Brasil)

14h00 – 15h30
(Auditório) Boas histórias: Dragagem ilegal no Rio Jacuí e Arquivos Secretos do Coronel do DOI-CODI
Fabio Almeida (RBS TV) e Renata Colombo (Rádio Gaúcha); Nilson Mariano e Humberto Trezzi (Zero Hora)

(Laboratório) Investigação do orçamento federal
Gil Castello Branco e Carlos Blener (Contas Abertas)

16h00 – 17h30
(Auditório) Boas histórias: Polícia Fora da Lei e reportagens
Mauri König (Gazeta do Povo) e Giovanni Grizotti (TV Globo)

(Laboratório) DataPOA: dados abertos municipais de Porto Alegre

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De onde vem a potência do jornalismo guiado por dados?

Em 2011, a jornalista e acadêmica alemã Mercedes Bunz publicou na Berliner Gazette  um resumo de seu artigo “O segredo aberto: sobre a política da verdade no jornalismo de dados”, incluído num livro sobre o WikiLeaks. O texto não se detém muito sobre o caso do WikiLeaks propriamente dito, mas aponta as características principais do jornalismo guiado por dados e suas consequências para a imprensa como um todo.

Para Bunz, o jornalismo guiado por dados se caracteriza por abstrair conhecimento de grandes volumes de dados, levando em conta cinco fatores:

  1. Os dados só preenchem critérios jornalísticos quando é possível obter conhecimento de interesse público a partir dos mesmos;
  2. além disso, é preciso classificar estes dados conforme sua confiabilidade, a partir pergunta “estes dados são confiáveis?”;
  3. assim como montanhas são frequentemente instransponíveis sem mapas, montanhas de dados também o são e o jornalismo deve cumprir seu papel de mediação cartografando-os;
  4. este tipo de jornalismo também se caracteriza pela apresentação visual da informação;
  5. finalmente, a disponibilidade parcial ou total dos dados ao leitor é um aspecto fundamental do jornalismo guiado por dados.

A emergência deste tipo de jornalismo seria um efeito, para Bunz, da digitalização: “Enquanto a industrialização permitiu que o jornalismo atingisse as massas, a digitalização permite que o jornalismo trabalhe com as massas.” Noutras palavras: crowdsourcing. As pessoas, as testemunhas deixam de ser o principal portador de informação para a reportagem e os documentos e meios de comunicação, como as redes sociais, assumem também o papel de fontes legítimas. Noutras palavras: algoritmos. O jornalismo guiado por dados seria também uma reação à crise do jornalismo investigativo, como propõem Lovink e Riemens na quinta de suas doze teses sobre o WikiLeaks.

A autora reconhece que a maioria dos dados divulgados pelo WikiLeaks não traz informação necessariamente nova. Assim como a Papelada do Pentágono não dizia nada de novo sobre a tragédia e o fracasso da Guerra do Vietnã, ninguém que acompanhe a política internacional pode se declarar realmente surpreso com o teor dos relatórios diplomáticos de embaixadas americanas vazados pelo WikiLeaks. Bunz se pergunta, então, de onde vem a força destas duas denúncias, que causaram comoção na imprensa e uma forte reação dos governos envolvidos?

O segredo estaria no caráter mesmo de materiais originais: “O material original é particularmente explosivo, uma força explosiva que ele empresta da realidade, do conhecimento e de sua materialidade.”  Verdade e realidade são termos problemáticos do ponto de vista filosófico, pois algo pode nos parecer verdadeiro ou real sem de fato o ser, podem haver erros em nossa interpretação dos dados disponíveis no mundo. Os dados precisam ser, então, validados através da produção de conhecimento, do método científico:

Na medida em que o material original é verificado, os dados de tornam fatos. Não existem fatos incorretos, no máximo fatos incongruentes, isto é, fatos colocados no lugar errado. O fato, ele não é inverídico, ele não pode ser inverídico, no máximo falsificado — por isso ele precisa ser estabilizado através do conhecimento. A realidade do material original é atestada como genuína e se torna fato através do conhecimento — o segundo momento da força explosiva do material original.

Porém, isso que é atestado pelo processo de validação não é a informação contida no material original, mas a autenticidade do material. Os dados se tornam as testemunhas dos fatos — testemunhas muito melhores do que as humanas, aliás, porque não são mortais e não podem ser pressionados ou assassinados. Seu juízo não se modifica ao longo do tempo. “O material original é caracterizado por três momentos: ele documenta a realidade, é atestado como fato através do conhecimento e, devido à sua materialidade, permanece com substancial tenacidade.”

Bunz encerra o texto com uma discussão sobre o problema da despolitização e a transparência do poder. Ela acredita que o poder segue sendo poder, despolitizado ou não, e que o jornalismo guiado por dados, em sua forma explosiva de apresentação de material original, é uma das formas restantes de se revelar e responsabilizar o poder. Os dados são, hoje, um problema político.

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Abraji abre chamada de trabalhos para seminário de pesquisa em jornalismo investigativo

O 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo incluirá pela primeira vez um eixo destinado à apresentação e discussão de pesquisas científicas em torno do tema.

A iniciativa é da nova diretoria da Abraji, da qual participo como conselheiro fiscal e uma espécie de liaison com a academia. Há uma grande abertura dos repórteres, hoje, para o debate com pesquisadores do jornalismo, em grande parte, me parece, devido ao aporte científico necessário para praticar o jornalismo guiado por dados.

Por um lado, grande parte da tecnologia e, principalmente, o conhecimento sobre estatística e matemática usados pelas redações têm origem na academia. Pesquisadores da comunicação, como a equipe do Labic, por exemplo, têm contribuído com expertise na área de análise de redes sociais.

Por outro lado, as redações são laboratórios por excelência para o teste de tecnologia e novas propostas de formatos jornalísticos. Parcerias entre jornalistas profissionais e pesquisadores podem render grandes benefícios ao campo como um todo e, quem sabe, encontrar uma forma de ajudar a salvar essa importante instituição democrática que é a imprensa.

De fato, a era digital oferece a primeira oportunidade na história do jornalismo para que a academia tome a frente na proposição de novas formas de organizar a produção e a distribuição de notícias.

Hoje, bastam computadores, software open source e conexão à Internet para que pesquisadores criem jornais-laboratório capazes de adotar e testar as tecnologias mais recentes. Antigamente, era preciso arcar com custos de impressão ou radiodifusão, o que sempre é um problema para as ciências humanas, em geral tratadas como secundárias pelas agências de fomento.

Além disso, jornais-laboratório não têm compromisso com audiência ou acionistas e podem, por isso, errar bastante ao aplicar tecnologias e propor novas formas de narrativa jornalística. Redações profissionais não podem se dar ao luxo de quebrar o contrato de leitura o tempo todo.

Enfim, os pesquisadores interessados em debater os caminhos da investigação jornalística, a situação das vias de acesso à informação pública, o jornalismo guiado por dados, os desafios do ensino e outros temas serão bem vindos no próximo congresso da Abraji, entre os dias 24 e 26 de julho de 2014, em São Paulo.

Veja aqui o call for papers para o I Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo da Abraji.

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O jornalismo guiado por dados de acordo com Giannina Segnigni

O jornal El País divulgou uma palestra sobre jornalismo guiado por dados proferida pela repórter costa-riquenha Giannina Segnigni. A jornalista recebeu recentemente o prêmio Gabriel García Márquez e é especializada em investigação de tráfico e contrabando.

Segnini divide o jornalismo guiado por dados (JGD) em cinco etapas:

  1. Obtenção dos dados — Por um lado, é preciso conhecer os tipos de formatos e arquivos usados para a armazenagem de dados pelo setor público, para poder fazer pedidos de acesso à informação eficazes. Por outro, é preciso conhecer o marco jurídico que rege o a disponibilidade dos bancos de dados governamentais.
  2. Limpeza dos dados — É essencial, porque dados com ruído inviabilizam ou engendram erros na etapa seguinte, de análise.
  3. Análise dos dados — Para Segnini, esta é a etapa eminentemente jornalística do JGD. Envolve comparar, cruzar e correlacionar dados para encontrar tendências, padrões, comportamentos atípicos e explicações de fenômenos sociais.
  4. Verificação dos dados — O fato de uma base de dados ser produzida por uma instituição pública não garante a consistência da informação. É preciso tratar os dados com ceticismo, como se faz com qualquer outra fonte.
  5. Visualização dos dados — “Entrevistar” os dados e encontrar informação pode não ser suficiente, em geral é preciso apresentar as descobertas de forma atrativa para o leitor.

Durante a palestra, ela critica o que Paul Bradshaw chama de “data porn”: visualizações com muita pirotecnia, mas que não oferecem ao leitor a possibilidade de explorar ou comparar dados, ou mesmo apresentam pouco valor informativo. A seu ver, uma boa peça de JGD não deixa perguntas no ar — porque encontrar respostas é, afinal, o trabalho dos jornalistas — e não deixa o leitor perdido num oceano de dados.

A principal vantagem do JGD para o jornalismo, para Segnini, é a criação de informação inteligente, diferenciada, num mundo em que a maior parte da informação é agregada de terceiros e muito pouco contextualizada.

Ao final, a costa-riquenha lembra o adágio sobre ver o bosque e não se focar nas árvores, para dizer que, com o JGD, é possível ver as duas coisas ao mesmo tempo. O leitor comum pode desfrutar das visualizações, enquanto os nerds podem ter acesso às bases de dados completas e explorá-las por si mesmos. Com isso, aumenta a transparência da reportagem, mas do jornalista passa a ser exigida uma abdicação do controle total sobre a narrativa.

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Um depoimento sobre a vida na periferia

Um amigo enviou por correio eletrônico um texto sobre o debate a respeito dos rolezinhos. Ele chegou a pensar em publicar em seu blog, mas desistiu por escassez de paciência para lidar com as inevitáveis respostas pedestres e com a Lei de Godwin. Como é um dos poucos relatos de uma pessoa que realmente conhece a periferia, pois cresceu numa favela do Rio de Janeiro, pedi autorização para publicar aqui o depoimento.

Não concordo necessariamente com os pontos de vista — inclusive porque, para concordar ou discordar, precisaria conhecer a realidade de alguma periferia de grande metrópole.

Há algum tempo, quando ainda tinha blog, risquei a linha que não ia mais cruzar — dar opiniões sobre temas polêmicos, principalmente de política. Mas o debate sobre os rolezinhos mexe com questões pessoais.

Todo mundo que está denunciando apartheid possivelmente nunca ficou na fila para pegar ônibus para a praia e aí a gurizada chega fora da fila invadindo o ônibus pelas janelas e toma o lugar dos outros, pobres, que estavam ali esperando. Nunca tiveram vergonha dos seus vizinhos tocando horror profundo em Copacabana e Ipanema e humilhando balconistas de padaria.

O jovem típico da periferia foi responsável em grande parte pelo inferno que foi viver numa favela carioca chamada Águia de Ouro entre 85 e 95. Um tempo sem a menor regra de convivência. Um aprendizado de como o pobre essencialmente bom é uma idealização. Imagina-se um mundo de opressão social, que havia de algumas formas, mas se esquece que não é só a polícia ou o Estado a oprimir um favelado. Quase sempre, mesmo, é seu vizinho, que se vale do pacifismo ou do medo de quem não reage.

Tinha 20, 21 anos e foi uma fase bem pobre por umas questões de família, mas parecia que era só eu a me solidarizar com os trabalhadores e com os comerciantes passando terror por trabalhar em um domingo na mão do pessoal que invadia tudo, destruía tudo, se comportava como se a praia, a casa, a quadra, a rua, a vida, o baile, o shopping devessem ser um lugar sem regras. A acuar moradores nas ruas. Não era revolta. Esse é um erro típico desse tipo de análise. Era puro e simples vandalismo pela diversão de vandalizar.

A cada volta ao Rio — meus pais ainda estão lá — retorno ao subúrbio para ver que, se há mais prosperidade e mudanças na paisagem, a civilidade nunca chegou. As pessoas se vestem melhor — um grande avanço dos últimos dez anos é esse: as pessoas felizmente não parecem mais pobres –, mas ainda impera nas relações entre os moradores a lei da força, a esperteza, a intimidação. E vai continuar enquanto a sociologia for usada para justificar qualquer comportamento.

Esse é um texto que se presta a certa generalização. Até certo limite a situação é diferente, mas não consigo deixar de ver aqueles empregados de lojas nos funcionários e donos das lojas dos shoppings. Parece que só um arrastão seria condenável. Isso não é apoio à violência da PM e a liminares da Justiça, mas a questão está longe de ser como tenho lido. É mais complexa e tem bem menos a ver com preconceito e racismo do que se coloca. É sobre quem cada um prefere ser – e não ser.

Ano passado, reencontrei um amigo de adolescência e rememoramos as dificuldades de vivermos na época, filhos de pais que nos ensinaram a ser educados e civilizados, em que parecia que as regras eram só para nós. As coisas eram difíceis, mas sobreviveu melhor quem entendeu que não é porque o Estado é escroto que é preciso sê-lo. Eu, pessoalmente, fugia para os livros. Quando não tinha grana, quase sempre em um período, ia ler na biblioteca pública – há boas na zona norte do Rio. Não deixei a barbárie definir quem eu devia ser.

Pensei bastante, por horas, sobre a conveniência de escrever isso. Não tenho nada a ganhar, muito a me incomodar. Mas teria sido um alento em 1986 alguém dizer o que estou dizendo agora, que não estava sozinho. Então devo isso a mim e, talvez, a uma versão minha, mais jovem, com as mesmas questões.

Agora vejo o debate colocado de uma maneira tão idealizada que me faz pensar que a questão sempre será assim. Que no fundo o errado era eu. No entanto, com todas as implicações de uma afirmação destas, continuo achando que favela é um estado de espírito.

Outro depoimento recomendável a respeito dos rolezinhos é o do Leandro Beguoci, também oriundo de uma periferia.

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Rede de acolhimento para mulheres viajando a negócios

Uma aluna do curso de especialização em Jornalismo Digital da PUCRS criou um dos projetos de conclusão de curso mais interessantes até o momento. Maria do Carmo Barreiros tem uma longa carreira como consultora, que a obriga a viajar pelo país. Nessas viagens, percebeu que ela mesma e muitas colegas acabam evitando sair do hotel nas horas de folga, porque há pouca receptividade a mulheres sozinhas em restaurantes, bares e outros estabelecimentos de lazer.

De fato, até há pouco tempo, segundo ela, uma mulher jantando sozinha num restaurante era tratada como prostituta, mesmo em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir do contato com o conceito de redes sociais, Maria do Carmo teve a ideia de criar um grupo de acolhimento para mulheres viajando sozinhas a trabalho: Mulheres Viajando a Negócios. Além do grupo no LinkedIn, há outro no Facebook. Trecho do release:

Mesmo que não haja coincidência das agendas, vale muito a troca de informações sobre opções de lazer, cultura e serviços: um taxista de confiança, um restaurante que costuma frequentar, um hotel bem localizado, com serviços por perto, e ainda solicitar referências que nos dê mais segurança caso venhamos a enfrentar algum tipo de dificuldade.

E por que não são suficientes as recomendações voltadas aos turistas em geral? Porque não cumprem as necessidades específicas de profissionais e ainda partem do pressuposto de que temos disponibilidade total de tempo para aproveitar a cidade. As dicas pessoais são mais apropriadas às nossas viagens pela similaridade das experiências e pela restrição de horários disponíveis.

Estamos reunindo essas mulheres. Juntas, poderemos ter e oferecer apoio, especialmente durante estadias em metrópoles e grandes aglomerados urbanos, locais que provocam forte sensação de insegurança e receio.

É um projeto interessante porque usa um dos principais aspectos benéficos das redes sociais, que é a possibilidade de auto-organização em grande escala, para mitigar um problema social pouco conhecido por quem não vive a situação dessas trabalhadoras. Ou seja, responde diretamente a uma necessidade do mercado.

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Como checar fontes e identificar manipulações em redes sociais

Recentemente, a disputa pelo destino de um casario na rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre, encontrou um desfecho no compromisso da construtora Goldsztein — parte do grupo Cyrela — em demolir apenas três dos seis imóveis, restaurar estes três preservados e ainda realizar uma doação de R$ 2 milhões para a conclusão das obras na Casa do Menino Jesus de Praga. Uma legítima solução salomônica, que provavelmente agradará à maioria dos descontentes com mais um caso de estupro urbanístico em Porto Alegre. Legal, não?

A Goldsztein, todavia, parece não ter achado suficiente a mídia espontânea garantida pela preservação de metade das casas e doação de milhões a uma instituição de caridade. Para reforçar sua disposição em deixar de degradar a paisagem urbana de Porto Alegre, resolveram degradar a paisagem virtual usando perfis falsos no Twitter para espalhar a notícia do acordo com o Ministério Público.

O astroturfing é uma prática a ser combatida porque causa a degeneração da esfera pública eletrônica criada pelas redes de computadores. Sabe como você não pode mais assistir a um vídeo incrível sem suspeitar que se trata de um viral criado para divulgar alguma marca, ou como você não pode mais ver um blogueiro elogiando uma marca, produto ou serviço sem se perguntar se está diante de um post pago? Esse cinismo generalizado é um efeito do abuso da confiança do leitor por parte de empresas e pessoas sem o menor respeito pelo patrimônio comum que é a Internet.

Agências de publicidade e assessorias de imprensa que se dizem especialistas ou fanáticos pela cultura digital, mas se valem do astroturfing, não são uma coisa nem outra. Primeiro, porque essa estratégia, como qualquer mentira, tem pernas curtas. Segundo, porque ninguém que ame a Internet contribuiria voluntariamente para sua degradação através de manipulações baratas. Já bastam os spammers, phishers e outros vermes à solta na rede. Se você é um anunciante, fique longe desse tipo de agência ou profissional.

Trata-se, além disso, de uma estratégia preguiçosa. Toma atalhos perigosos para disseminar informação e coloca em risco a imagem do cliente — que certamente não pagou pouco pelo serviço. Por exemplo, se o responsável por esta ação houvesse se dado o trabalho de me conhecer apenas superficialmente, saberia que não é boa ideia tentar esse tipo de coisa por perto. De fato, uma das principais motivações para este artigo é, provavelmente, ter me ofendido por me julgarem um alvo adequado.

Todo mundo precisa comer e pagar a conta do bar, mas profissionais que coadunam com o astroturfing estão tornando o mercado de trabalho muito mais miserável para si e para todos os outros. São o equivalente de fura-greves. Ninguém está exigindo de você que cure o câncer, mas que pelo menos não ajude a disseminá-lo. A única exigência do cosmos é que tenhamos responsabilidade; não é muita coisa e quem não consegue nem isso deveria ser punido com a ignomínia.

Como forma de contribuir para o fim do astroturfing, sock-puppetry e outros flagelos, aí embaixo está um tutorial com dicas para identificar perfis falsos em redes sociais, seguidas pelos passo-a-passo de minha investigação a respeito dos perfis usados por alguma agência de publicidade por delegação da Goldsztein. Recomendo acionar o modo de tela cheia, para ver melhor as imagens, ou baixar os slides em seu computador.

ATUALIZAÇÃO: Entrei em contato com Cláudio Goldsztein, fundador da agência Embrace e filho de Sérgio Goldsztein, para verificar as relações entre as duas firmas. Conforme o empresário, os perfis falsos usados para disseminar mensagens favoráveis à construtora homônima não são de responsabilidade da Embrace. Tampouco há qualquer pessoa chamada Sofia Martins no quadro de funcionários da Embrace ou da Goldsztein. O publicitário supõe que os perfis falsos podem ter sido criados por corretores de imóveis com interesse em negociar o empreendimento, independentemente. O perfil @luciana_verdade no Twitter, porém, é gerenciado pela Embrace.

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