Transparência pública passivo-agressiva

Na ciência política, a transparência pública pode ser considerada passiva ou ativa. No primeiro caso, o governo recebe pedidos de informações dos cidadãos via algum tipo de mecanismo jurídico, como a Lei de Acesso à Informação. No segundo caso, que é o ideal, o governo se antecipa aos desejos do cidadão, ou se baseia neles, para oferecer dados, de preferência em formato aberto.

Embora o Brasil tenha aprovado uma Lei de Acesso à Informação há pouco mais de dois anos e, de uma forma geral, hajam avanços constantes na adoção e expansão do mecanismo, ainda há muito a melhorar, em especial no que tange à transparência ativa.

Um dos principais problemas é o que chamo de “transparência passivo-agressiva”. Trata-se dos casos em que o Estado atende de forma ativa à LAI e sua predecessora, a Lei de Transparência, mas a experiência do usuário em busca de informação é tão ruim e complicada que implora pela conclusão de que, na verdade, o Estado não está de fato disposto a abrir os dados.

Noutras palavras, uma “uma resistência difusa em satisfazer expectativas de relações interpessoais ou envolvendo o cumprimento de tarefas, caracterizado por atitudes negativas indiretas e oposição velada”, para usar a definição da Wikipedia para o comportamento passivo-agressivo.

Um exemplo é o website da Lei de Incentivo à Cultura do Rio Grande do Sul. Embora exista um banco de dados digital e inclusive seja possível acessar os projetos submetidos por artistas e produtores culturais, o sistema obriga o cidadão a clicar em um por um para obter as informações sobre o proponente, sobre quanto dinheiro foi captado, sobre o período de realização etc..

Mesmo que esteja interessado apenas na lista completa de projetos aprovados e na localidade de cada um, ainda assim é preciso clicar em 31 páginas e copiar e colar todos os dados a mão, porque não há uma mísera planilha eletrônica que possa ser baixada.

Noutras palavras, é um caso de transparência ativa, porque basta acessar o website para consultar os projetos, que foram colocados à disposição pelo governo. Mas trata-se de transparência passivo-agressiva, pois o sistema impõe um calvário para que o cidadão tenha um visão completa das informações.

A possibilidade de acessar apenas um projeto por vez serve apenas aos clientes da LIC, isto é, a produtores, patrocinadores e gestores públicos, que em geral estão em busca de um dado específico. Para um cidadão ou jornalista que pretende ter uma noção panorâmica de como o dinheiro da renúncia fiscal está sendo investido em cultura, o sistema não presta um bom serviço.

Há casos de má usabilidade involuntária, devida à ausência de preocupação com usuários que não sejam clientes do órgão, e há casos de má usabilidade intencional, cujo objetivo é, de fato, interpor o maior número de obstáculos possível entre o cidadão e a informação. É difícil distinguir entre ambos e, no fim, o cidadão fica sempre com a segunda — e pior —  impressão.

A LAI foi um avanço enorme para o Brasil e, nestes dois anos, todas as esferas de governo e os três poderes desenvolveram muito os serviços relacionados à transparência. Para os próximos dois anos, uma conscientização a respeito de dados abertos e uma terapia contra a agressividade passiva poderiam ser boas políticas públicas.

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Famecos tem grupo de estudos para curso online de introdução ao jornalismo guiado por dados

No dia 19 de maio, começa o MOOC Doing journalism with data, um curso a distância introdutório sobre jornalismo guiado por dados. Entre os professores estão o veterano da Reportagem Assistida por Computador Steve Doig; o antigo editor de dados do Guardian e hoje analista do Twitter, Simon Rogers, autor de Facts are sacred; o infografista Alberto Cairo, autor de The functional art; o professor Paul Bradshaw, autor de Scraping for journalists e de Finding stories with spreadsheets; e Nicolas Kayser-Bril, fundador da agência Journalism++.

O programa inclui:

  • Módulo 1 — Jornalismo guiado por dados na redação
  • Módulo 2 — Encontrando dados para embasar notícias
  • Módulo 3 — Desenvolvendo ideias de pauta com análise de dados
  • Módulo 4 — Como limpar dados bagunçados
  • Módulo 5 — Contando histórias com visualizações

Os inscritos poderão participar do grupo de estudos gratuito organizado por mim na Famecos/PUCRS, em Porto Alegre, a convite da Escola de Dados. O grupo terá quatro encontros ao longo do curso, sempre entre 16 e 19h, em quatro sextas-feiras:

  • 23 de maio
  • 6 de junho
  • 13 de junho
  • 20 de junho

A proposta do grupo de estudos é trocar experiências e tirar dúvidas de forma colaborativa. Isto significa que não vou dar aulas sobre jornalismo guiado por dados, mas oferecer um espaço para as discussões e — tomara! — aprender com os outros participantes.

Os interessados podem entrar em contato pelo correio eletrônico professortrasel [arroba] gmail [ponto] com.

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Reflexões sobre o Dia do Trabalho

Nunca li O Capital. Não tenho uma trajetória clássica na esquerda, embora participe da política. De fato, o mais próximo que já cheguei do sentimento de participar de uma greve foi pelo tédio durante uma paralisação na universidade federal onde cursei a graduação. Noutras palavras: não tenho conhecimento teórico ou prático em lutas trabalhistas. Qualquer membro iniciante da Federação Anarquista Gaúcha tem mais méritos acumulados nessa área. Nem mesmo acho que participaria ativamente duma greve, porque sou pacato e preguiçoso. No máximo, faria o que vou fazer a seguir: tentar sintetizar, através da escrita, a posição do proletário no mundo atual. Cada um contribui conforme sua capacidade e vontade. Mas quem arrisca sua integridade física para garantir mais direitos aos trabalhadores merece muito, muito mais respeito do que quem, como eu, fica só torcendo da arquibancada.

A situação

1. Crescendo nos anos 1990, pude testemunhar o momento em que o capital venceu a guerra pelos corações e mentes. Depois da queda do Muro de Berlim e da desintegração da União Soviética, a esquerda entrou em parafuso e a direita aproveitou para levar adiante o projeto neoliberal de reinventar o trabalhador como um empreendedor de si mesmo. Planos de Demissão Voluntária foram aceitos em troca de recursos para comprar carrocinhas de pipoca. Funcionários se tornaram colaboradores. Vestir a camiseta se tornou mais importante do que ser competente. O trabalho deixou de ser trabalho para se tornar um veículo de satisfação pessoal, em vez duma relação comercial entre patrão e empregado. Exigir dinheiro pelas horas vendidas ao patrão passou a ser considerado filistinismo, porque todos estavam lá para materializar seus sonhos e fazer amigos, não para produzir mais-valia. Os benefícios foram trocados por jogos eletrônicos e comida grátis à disposição no escritório. O trabalho deixou de ser um tipo de imposto sobre a vida, para se tornar a vida em si mesma. As classes deixaram de existir e a luta entre elas perdeu o sentido.

2. Com o fim da história e do sentido da luta de classes, a política representativa se tornou um debate entre variações do ideário neoliberal. Enxergar uma oposição, ou mesmo uma separação, entre capital e trabalho se tornou um anacronismo.

3. Todavia, esta oposição seguiu existindo e segue sendo combustível para a ação direta e movimentos políticos, embora eles em geral tenham sido ignorados na esfera pública.

4. A era industrial terminou com o século XX, mas o trabalho não se adaptou à economia do conhecimento. O modelo de trabalho e os direitos seguem sendo mais ou menos os mesmos conquistados pelas demandas colocadas no final do século XIX.

5. Enquanto a informática aumenta a produtividade do trabalho, o capital se faz de João-sem-braço, aproveitando a síndrome de Estocolmo que se abateu sobre os trabalhadores nos anos 1990. Não apenas novos direitos não são concedidos, como há retrocessos em vários aspectos.

6. O aumento da produtividade e riqueza geral acelera o consumo dos recursos naturais e o envenenamento do planeta. O capital garante que a tecnologia vai dar conta de neutralizar os efeitos da poluição e do estupro da Terra. Adota medidas cosméticas e as chama de “planos de sustentabilidade”.

7. A colonização da educação pela ideologia neoliberal arranca do ensino o seu caráter humanista e torna o cumprimento de metas a principal preocupação. A eficiência toma o lugar do incentivo ao espírito crítico como o valor máximo nas escolas.

8. As propostas políticas radicais são tachadas de jurássicas e abandonadas em favor de metas objetivas e pontuais. Em vez de marchar em conjunto contra o sistema, marcha-se em separado pelo direito de fumar maconha, andar de bicicleta nas ruas ou vestir roupas ínfimas.

9. A Internet favorece a fragmentação da classe trabalhadora em grupos dedicados a causas específicas e erode a agenda pública comum. As bolhas ideológicas criadas pelas redes sociais se atomizam cada vez mais. A rede perde seu caráter anárquico e se torna a cada dia mais tomada pelo mercantilismo.

10. A defasagem entre a produtividade do sistema e a distribuição dos resultados, aliada ao comportamento cada vez mais extravagante e ridículo dos privilegiados, sacode a classe trabalhadora e ela parece acordar de seu sono após duas décadas. O fracasso na solução dos problemas ambientais leva uma nova geração a duvidar do capital e questionar as bases do sistema.

A solução

É preciso imaginar e debater na esfera pública um novo modelo de trabalho, adequado à economia do conhecimento e ao conhecimento atual sobre o equilíbrio ecológico do planeta.

Qualquer mudança depende, todavia, de uma revolução na própria mentalidade dos trabalhadores. É preciso abandonar o desejo de acumular dinheiro em favor do desejo de dispor do próprio tempo.

O capital mente ao vender a imagem de roupas de grife, carros possantes, casas imensas, férias no exterior e clubes do vinho como luxo. O verdadeiro luxo é dispor de tempo livre para se dedicar à família, à amizade e ao desenvolvimento de atividades de interesse pessoal.

Luxo é ter tempo de cuidar dos próprios filhos, cozinhar a própria comida — produzi-la, se possível! –, deslocar-se a pé, dormir o suficiente, participar dos esportes e da cultura, observar uma religião, criar laços comunitários e dedicar-se à política local num clima de parrésia. Luxo é ter tempo para o cuidado de si.

Devemos abandonar o progresso econômico como objetivo principal do trabalho e substituí-lo pela diminuição progressiva das horas trabalhadas. A meta deve ser garantir a maior quantidade de tempo livre possível, não o maior saldo bancário possível.

Trabalhar oito horas por dia não é mais necessário para manter o mundo funcionando. Dê um passeio no shopping center e observe as vitrines. Quantos dos produtos à venda você consideraria lixo desnecessário? O capitalismo precisa constantemente inventar produtos ridículos e absurdos, do ponto de vista prático, para manter a rotação do sistema em alta velocidade. Não porque alguém tenha um fim específico em mente, mas porque a velocidade se tornou um hábito e, como é preciso arranjar uma desculpa para manter as pessoas trabalhando, inventam-se produtos e serviços absolutamente desnecessários. Os trabalhadores, por hábito, aceitam a farsa.

O problema desta farsa é que, além de tornar a existência humana miserável para a maioria da população, ela aprofunda os problemas ambientais da Terra.

Diminuir as horas trabalhadas tornaria a raça humana um pouco mais sustentável não somente pela redução do uso de insumos na produção de lixo destinado à Fast Shop e lojas de R$ 1,99, com todos os seus subprodutos poluentes, mas também porque adotar hábitos pessoais sustentáveis exige muito tempo livre.

Frequentar feiras orgânicas exige tempo livre. Cozinhar em casa, para evitar alimentos processados, exige tempo livre. Andar a pé ou pedalar em vez de tirar o carro da garagem exige tempo livre. Separar o lixo exige tempo livre. Compostagem caseira exige tempo livre. Lavar fraldas de pano exige tempo livre. Fabricar a própria cerveja exige tempo livre. Plantar as próprias verduras exige tempo livre.

Hoje em dia, apenas os privilegiados podem adotar hábitos sustentáveis, porque têm os recursos financeiros para dispor de seu tempo. Este benefício deveria ser estendido a todos no planeta.

A meu ver, esta é a luta que vale a pena hoje em dia. Este poderia ser o novo significado do primeiro de maio.

Ou vocês nunca perceberam como sempre se vê na televisão reportagens sobre o sujeito que era corretor da bolsa e encontrou a felicidade plantando moranga num sítio, mas nunca sobre o sujeito que ia de bicicleta todo dia para seu trabalho satisfatório como instrutor de yoga e largou tudo para encontrar a felicidade na bolsa de valores?


Alguns autores interessantes que ajudaram a desenvolver minha opinião sobre o tema:

David Graeber

Thomas Piketty

Eduardo Viveiros de Castro

Aldous Huxley

Hakim Bey

Epiteto

Chogyam Trungpa

Erich Fromm

Dark Mountain Project

Mackenzie Wark

Sugiram outras obras no espaço para comentários e conheçam a filosofia do Anarchistische Pogo-Partei Deutschlands.

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Jornalismo brasileiro adota a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais

No dia 31 de março último, o golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart e instalou um regime autoritário no Brasil completou 50 anos. A imprensa produziu os cadernos, websites, cronologias e documentários de costume, mas um novo tipo de material jornalístico ganhou bastante destaque: a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais — no caso, o Twitter.

Reencenações históricas não são uma novidade. O cinema e os nerds vêm reencenando batalhas importantes ao vivo ou em filme há décadas, várias delas com grande atenção aos detalhes. Em 2011, no aniversário de 30 anos do título mundial, a rádio Globo retransmitiu o jogo Flamengo X Liverpool. Na Web, circula há anos a reconstrução da Segunda Guerra Mundial em versões para IRC e Facebook. No Twitter, mesmo, já existem há tempos o perfil @RealTimeWWII e outros do mesmo tipo, como o diário da rainha Vitória.

Neste 31 de março, pelo menos cinco instituições brasileiras promoveram uma reencenação histórica do golpe de Estado de 1964: O Globo, o grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, o Instituto Moreira Salles e o laboratório de jornalismo da Famecos/PUCRS, o Editorial J, usando o perfil @Golpe1964. O portal Terra também reencenou em tempo real o putsch contra Jango, mas, em vez de usar o Twitter, aproveitou o momento para estrear sua nova ferramenta de narração ao vivo.

Cronologia do Golpe  golpe1964  no Twitter

 

A resposta do público, no caso do Editorial J, foi surpreendente. Se a proposta interessasse a 500 pessoas, já consideraríamos um sucesso.  O perfil, porém, atingiu a marca de 2 mil seguidores na primeira semana e no dia 2 de abril amanheceu com uma audiência de mais de 5 mil pessoas. A resposta também foi excelente em termos de comentários: não apenas muitos seguidores elogiaram e disseminaram o @Golpe1964, como diversos veículos de nos entrevistaram e publicaram notícias sobre a iniciativa. Ficamos estupefatos.

A ideia nasceu do dilema sobre como competir com a imprensa profissional na cobertura dos 50 anos do golpe dispondo de muito menos recursos. Como sou fã dos perfis de reencenação histórica, propus ao Victor Rypl, editor de Web do Editorial J, fazermos algo parecido. Ele comprou a ideia e usou parte das férias de verão para pesquisar o livro 1964: Golpe ou Contragolpe?, de Hélio Silva. Também usamos outras fontes, como os acervos online de jornais existentes na época, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e até mesmo o Departamento de Estado americano. Nos últimos dias, ganhamos a ajuda da Sofia Schuck, nova estagiária do laboratório.

A partir dessas fontes, foram criados as centenas de tweets, escritos como se os eventos estivessem acontecendo no presente, e armazenadas as imagens necessárias. Um dos acertos foi iniciar, devagarinho, duas semanas antes de 31 de março, porque o intervalo de tempo permitiu que o perfil se disseminasse pelas redes sociais e houvesse uma audiência já cadastrada para acompanhar a narração na data mais importante. Também levamos em conta a vantagem de assinar a ideia antes de todos os outros — não é uma proposta tão original assim, afinal, e parecia óbvio que alguém maior do que nós iria fazer algo parecido. Com isso, obtivemos muito mais repercussão do que se iniciássemos no dia 31 de março, junto com O Globo e o Instituto Moreira Salles.

Outra diferença para as demais iniciativas é que pretendemos permanecer publicando conteúdo sobre as principais efemérides da ditadura. Esta foi uma das razões para termos criado um perfil dedicado apenas aos 50 anos do golpe, em vez de usar o @EditorialJ. Um perfil específico tem ainda a vantagem permitir a divulgação normal das matérias na conta oficial, sem atrapalhar a reencenação histórica, e evitar a confusão.

O Globo, por exemplo, narrou a rebelião no perfil @oglobopolitica, o qual seguiu publicando outros tipos de conteúdo, como uma sessão de perguntas e respostas com Miriam Leitão. Além de misturar textos de naturezas diferentes, essa decisão do Globo quebrou o encanto da reencenação. Afinal, o primeiro requisito para o sucesso desse tipo de iniciativa é manter ao máximo a suspensão da descrença. É como na cena do filme Em Algum Lugar do Passado em que Christopher Reeve se hospeda num hotel antigo e usa roupas de época, para criar um ambiente propício a um retorno ao ano de 1912.

Esse modelo obrigou o Globo a usar uma hashtag: #aovivo1964. São 11 caracteres valiosos. Um pefil dedicado, ou ao menos uma suspensão de todos os outros tipos de publicações, permitem evitar o uso de palavras-chave e deixar mais espaço para narrar os eventos. Um pouco de espaço livre nos tweets também favorece a repercussão e a interação, pois facilita que os leitores insiram comentários próprios antes do RT.

Uma ideia que gostaria de ter tido foi usar um código para indicar a fonte de cada tweet, como fez o Instituto Moreira Salles. É um dado útil para os leitores, que podem assim buscar as referências para se aprofundar, ou então questionar a exatidão das informações.

Uma ideia que gostei de ter tido foi retweetar os eventos dos quais não dispúnhamos em nosso arquivo. O grupo Tortura Nunca mais também embarcou no espírito esportivo e republicou o nosso material. Ambos ganharam em qualidade e ofereceram uma experiência melhor para o público com essa atitude, porque os perfis jornalísticos costumam retweetar informações de outras fontes quando estão realizando uma cobertura em tempo real. Aumentamos a verossimilhança.

Finalmente, essa experiência teve o mérito de mostrar à equipe do Editorial J que mesmo redações com poucos recursos, hoje em dia, podem competir por atenção do público com as grandes empresas de comunicação — é necessário apenas planejamento e um pouco de sorte.

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A mesquinharia do PMDB pode derrubar a neutralidade de rede

Há cerca de duas semanas, o deputado carioca Eduardo Cunha, do PMDB, prometeu derrubar os pontos principais do projeto de lei do Marco Civil da Internet. As declarações do parlamentar foram feitas, ironicamente, um dia após o criador da World Wide Web — aquilo que os jovens hoje entendem por Internet –, Tim Berners-Lee, fazer um apelo pela criação de uma carta magna da Internet.

A questão mais importante em jogo é o princípio da neutralidade de rede, segundo o qual os provedores de acesso à Internet são proibidos de discriminar o tráfego de dados com base no conteúdo ou na fonte. Traduzindo: mesmo não havendo, hoje, uma legislação específica, a NET, GVT, Telefônica e outros provedores devem garantir ao consumidor a mesma velocidade para o acesso ao Netflix e ao Vimeo, a este blog e à Folha de São Paulo, a torrents e ao iTunes. Nos Estados Unidos, a regra da neutralidade de rede caiu recentemente, devido a uma barbeiragem — ou má-fé — da Comissão Federal de Comunicações. O resultado foi um acordo no qual o serviço de streaming de vídeo Netflix se comprometeu a pagar pedágio ao provedor Comcast.

O abandono de neutralidade de rede seria ruim por uma série de motivos. Em primeiro lugar, diminuiria a capacidade de competição de start-ups contra corporações gigantes. Se os provedores resolverem cobrar uma compensação de serviços de streaming de vídeo, como aconteceu com o Netflix, empresas com menor capacidade de investimento terão uma barreira a mais para entrar no mercado. O cidadão comum, por outro lado, também pode ser prejudicado, na medida em que o conteúdo amador pode ser relegado a uma faixa mais lenta de transferência de dados do que o conteúdo produzido pela mídia comercial.

Um outro aspecto em que o fim da neutralidade de rede pode prejudicar o cidadão é a oferta de pacotes variados de acesso à Internet. Um provedor poderia cobrar uma assinatura maior das pessoas que têm um website próprio, ou produzem podcasts e programas em vídeo distribuídas via YouTube, por exemplo. Os críticos da neutralidade de rede no Congresso afirmam que isso beneficiaria o consumidor mais pobre, pois ele poderia adquirir pacotes mais baratos para o uso de recursos mais simples, como o correio eletrônico. O argumento é, porém, ignorante, porque na verdade cerca de 80% dos usuários da Internet no Brasil têm o costume de assistir a vídeos e 16% das famílias com renda até um salário mínimo dispõem de acesso à rede em casa — número que tende a crescer. Basta entrar em qualquer lan house na periferia após o horário comercial para constatar o hábito de assistir a vídeos das classes D e E.

Na prática, sem neutralidade de rede os provedores de acesso à Internet vão escolher quais serviços, conteúdos e aplicativos os clientes podem usar. Levando-se em conta a tendência à concentração econômica em poucos conglomerados, a situação se torna muito perigosa. A Telefônica e a Vivo, por exemplo, teriam todos os incentivos para reduzir a velocidade de tráfego de dados do Skype, que é seu concorrente direto na área de telefonia. A NET teria todo o interesse em dificultar o acesso ao Netflix e tornar o mais lento possível o download de arquivos torrent. Alternativamente, o consumidor poderia ser obrigado a pagar um valor extra na assinatura de acesso à Internet para usar serviços concorrentes dos produtos de uma determinada operadora e suas empresas irmãs.

Em tese, a discriminação de tráfego também poderia ser usada pelos governos para dificultar o acesso a publicações online que os critiquem. Bastaria, para isso, um telefonema do Planalto para o presidente de um provedor de acesso, ou mesmo a pressão econômica através da proposição de auditorias da Receita Federal, questionamento de concessões, eliminação de subsídios — enfim, usem a imaginação, ou assistam a House of Cards.

Em resumo, a ausência de neutralidade de rede é um convite ao dumping comercial, ao fortalecimento de corporações de mídia e telefonia já poderosas demais e à supressão de vozes dissonantes na esfera pública.

A escolha nas mãos do Congresso Nacional pode ser dividida binariamente, então, entre duas opções:

  1. Manter a neutralidade de rede, atendendo ao interesse público e a todos os valores humanistas mais elevados.
  2. Permitir a discriminação de tráfego pelos provedores de acesso à Internet, atendendo aos interesses das grandes operadoras de telefonia, produtoras de conteúdo comercial e de eventuais governos autoritários.

Existem diversos outros pontos importantes e discutíveis no projeto de lei do Marco Civil da Internet, é claro, mas o fundamental neste momento histórico é garantir a manutenção da neutralidade de rede.

E a neutralidade de rede está em risco por conta da mesquinharia do PMDB. O líder do partido na Câmara, deputado federal Eduardo Cunha, vem fazendo o jogo das operadoras de telefonia, da Rede Globo e outras corporações e tentando derrubar a neutralidade de rede. Trata-se, além de um agrado a potenciais financiadores de campanhas, de uma tentativa de chantagear o governo federal e garantir o espaço de seu partido na política brasileira.

Esse tipo de movimento, apesar de enojante, faz parte da política representativa. Todavia, uma coisa é a bancada do PMDB pressionar a presidência da República instalando CPIs para investigar estatais e constrangendo ministros com intimações para depoimentos. Outra, bem diferente, é se aliar ao obscurantismo e à selvageria capitalista mais baixa para garantir apenas o interesse de seus correligionários. Em vez de tentar conquistar os corações dos eleitores defendendo seus interesses, o PMDB está prejudicando a toda a sociedade para garantir a continuidade de seu parasitismo dos governos de outros partidos. Em vez de colocar o Brasil na vanguarda mundial da defesa dos valores humanistas, o PMDB está tentando nos colocar ao lado da vanguarda do atraso: ao lado dos Estados Unidos, do poder dos lobbies, da espionagem da NSA e do fim de tudo o que é bom e belo.

A única resposta adequada a uma situação como essa é mostrar ao PMDB e a todo o resto do Congresso Nacional que não se brinca com a Internet — lição que o ex-senador Eduardo Azeredo aprendeu amargamente. É preciso deixar muito claro a todos os parlamentares que os cidadãos não pretendem tolerar um atentado à liberdade de uso do sistema de comunicação mais potencialmente democrático já inventado pelo homem. É preciso deixar claro que não vamos tolerar retrocessos.

É preciso deixar claro que faremos de tudo para enterrar a carreira política de quem derrubar a neutralidade de rede.

Minha sugestão é que você baixe os contatos dos deputados federais neste link e envie mensagens a todos eles, por correio eletrônico, carta ou telefone, exigindo a aprovação do Marco Civil da Internet com a manutenção da neutralidade de rede total. Além disso, aporrinhe o máximo possível o deputado Eduardo Cunha nas redes sociais. Compartilhe este e outros textos a respeito do Marco Civil da Internet. Comprometa-se publicamente a nunca mais votar em nenhum candidato do PMDB. Enfim, promova um estardalhaço.

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Usando o Google Acadêmico para se manter em dia com a bibliografia

Uma das melhores ferramentas do Google — e que inexplicavelmente é pouco valorizada pela empresa — é o sistema de alertas por correio eletrônico para palavras-chave determinadas pelo usuário. Basta cadastrar os termos de interesse, para receber uma mensagem sempre que o motor de buscas indexar uma nova página condizente com eles.

Se pouca gente sabe dos Alertas dos Google, menos ainda sabe que é possível cadastrar alertas que só retornem resultados do Google Acadêmico. É importante usar operadores de busca para refinar os gatilhos de alerta. Abaixo, alguns exemplos:

  • Para alertas com mais de um termo, coloque-os entre aspas: “data-driven journalism”
  • Para alertas relacionados a um autor específico: autor: “Marcelo Träsel”
  • Para alertas cujos termos devem constar no título do artigo ou livro: tudonotítulo: “jornalismo guiado por dados”

Também é interessante criar um perfil no Google Acadêmico e listar sua produção científica. Com isso, o sistema passa a varrer a Web em busca de referências relevantes para o seu foco de pesquisa.

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Abraji realiza seminário regional em Porto Alegre

No dia 22 de março, sábado, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo realiza seu primeiro seminário regional de 2014. O dia será dividido entre palestras e oficinas, todas sobre jornalismo investigativo e/ou jornalismo guiado por dados.

É uma excelente oportunidade de aprender com repórteres experientes e conhecer os meandros da investigação jornalística. O preço é camarada: R$ 50 para estudantes, R$ 75 para profissionais e de graça para os sócios da Abraji.

Inclusive, pode ser uma boa oportunidade para se filiar à associação, cuja anuidade custa R$ 220 para profissionais e R$ 110 para estudantes. Há vários benefícios, como acesso a bancos de dados, a tutoriais e à comunidade de repórteres investigativos brasileiros. Além disso, há a satisfação de contribuir para a manutenção de uma entidade que defende os interesses dos jornalistas — é uma das maiores responsáveis pela existência de uma Lei de Acesso à Informação, por exemplo.

Confira abaixo a programação, que traz luminares como Cláudio W. Abramo, Gil Castello Branco, José Roberto de Toledo e Mauri König:

9h00 – 10h30
(Auditório) LAI no Lide – o bom uso da Lei de Acesso no jornalismo regional
Jonathas Costa (O Alvoradense), Juliana Bublitz (Zero Hora) e Paula Sperb (O Caxiense)

(Laboratório) Crime sem Castigo – visualização no Tableau
Guilherme Storck (Gazeta do Povo)

11h00 – 12h30
(Auditório) Mobilidade urbana: para onde (e como) vamos
Daniela Facchini (Embarq Brasil), Clarisse Linke (ITDP) e André Mags (Zero Hora)

(Laboratório) Poder econômico e financiamento eleitoral no Brasil
Claudio Weber Abramo (Transparência Brasil)

14h00 – 15h30
(Auditório) Boas histórias: Dragagem ilegal no Rio Jacuí e Arquivos Secretos do Coronel do DOI-CODI
Fabio Almeida (RBS TV) e Renata Colombo (Rádio Gaúcha); Nilson Mariano e Humberto Trezzi (Zero Hora)

(Laboratório) Investigação do orçamento federal
Gil Castello Branco e Carlos Blener (Contas Abertas)

16h00 – 17h30
(Auditório) Boas histórias: Polícia Fora da Lei e reportagens
Mauri König (Gazeta do Povo) e Giovanni Grizotti (TV Globo)

(Laboratório) DataPOA: dados abertos municipais de Porto Alegre

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De onde vem a potência do jornalismo guiado por dados?

Em 2011, a jornalista e acadêmica alemã Mercedes Bunz publicou na Berliner Gazette  um resumo de seu artigo “O segredo aberto: sobre a política da verdade no jornalismo de dados”, incluído num livro sobre o WikiLeaks. O texto não se detém muito sobre o caso do WikiLeaks propriamente dito, mas aponta as características principais do jornalismo guiado por dados e suas consequências para a imprensa como um todo.

Para Bunz, o jornalismo guiado por dados se caracteriza por abstrair conhecimento de grandes volumes de dados, levando em conta cinco fatores:

  1. Os dados só preenchem critérios jornalísticos quando é possível obter conhecimento de interesse público a partir dos mesmos;
  2. além disso, é preciso classificar estes dados conforme sua confiabilidade, a partir pergunta “estes dados são confiáveis?”;
  3. assim como montanhas são frequentemente instransponíveis sem mapas, montanhas de dados também o são e o jornalismo deve cumprir seu papel de mediação cartografando-os;
  4. este tipo de jornalismo também se caracteriza pela apresentação visual da informação;
  5. finalmente, a disponibilidade parcial ou total dos dados ao leitor é um aspecto fundamental do jornalismo guiado por dados.

A emergência deste tipo de jornalismo seria um efeito, para Bunz, da digitalização: “Enquanto a industrialização permitiu que o jornalismo atingisse as massas, a digitalização permite que o jornalismo trabalhe com as massas.” Noutras palavras: crowdsourcing. As pessoas, as testemunhas deixam de ser o principal portador de informação para a reportagem e os documentos e meios de comunicação, como as redes sociais, assumem também o papel de fontes legítimas. Noutras palavras: algoritmos. O jornalismo guiado por dados seria também uma reação à crise do jornalismo investigativo, como propõem Lovink e Riemens na quinta de suas doze teses sobre o WikiLeaks.

A autora reconhece que a maioria dos dados divulgados pelo WikiLeaks não traz informação necessariamente nova. Assim como a Papelada do Pentágono não dizia nada de novo sobre a tragédia e o fracasso da Guerra do Vietnã, ninguém que acompanhe a política internacional pode se declarar realmente surpreso com o teor dos relatórios diplomáticos de embaixadas americanas vazados pelo WikiLeaks. Bunz se pergunta, então, de onde vem a força destas duas denúncias, que causaram comoção na imprensa e uma forte reação dos governos envolvidos?

O segredo estaria no caráter mesmo de materiais originais: “O material original é particularmente explosivo, uma força explosiva que ele empresta da realidade, do conhecimento e de sua materialidade.”  Verdade e realidade são termos problemáticos do ponto de vista filosófico, pois algo pode nos parecer verdadeiro ou real sem de fato o ser, podem haver erros em nossa interpretação dos dados disponíveis no mundo. Os dados precisam ser, então, validados através da produção de conhecimento, do método científico:

Na medida em que o material original é verificado, os dados de tornam fatos. Não existem fatos incorretos, no máximo fatos incongruentes, isto é, fatos colocados no lugar errado. O fato, ele não é inverídico, ele não pode ser inverídico, no máximo falsificado — por isso ele precisa ser estabilizado através do conhecimento. A realidade do material original é atestada como genuína e se torna fato através do conhecimento — o segundo momento da força explosiva do material original.

Porém, isso que é atestado pelo processo de validação não é a informação contida no material original, mas a autenticidade do material. Os dados se tornam as testemunhas dos fatos — testemunhas muito melhores do que as humanas, aliás, porque não são mortais e não podem ser pressionados ou assassinados. Seu juízo não se modifica ao longo do tempo. “O material original é caracterizado por três momentos: ele documenta a realidade, é atestado como fato através do conhecimento e, devido à sua materialidade, permanece com substancial tenacidade.”

Bunz encerra o texto com uma discussão sobre o problema da despolitização e a transparência do poder. Ela acredita que o poder segue sendo poder, despolitizado ou não, e que o jornalismo guiado por dados, em sua forma explosiva de apresentação de material original, é uma das formas restantes de se revelar e responsabilizar o poder. Os dados são, hoje, um problema político.

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Abraji abre chamada de trabalhos para seminário de pesquisa em jornalismo investigativo

O 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo incluirá pela primeira vez um eixo destinado à apresentação e discussão de pesquisas científicas em torno do tema.

A iniciativa é da nova diretoria da Abraji, da qual participo como conselheiro fiscal e uma espécie de liaison com a academia. Há uma grande abertura dos repórteres, hoje, para o debate com pesquisadores do jornalismo, em grande parte, me parece, devido ao aporte científico necessário para praticar o jornalismo guiado por dados.

Por um lado, grande parte da tecnologia e, principalmente, o conhecimento sobre estatística e matemática usados pelas redações têm origem na academia. Pesquisadores da comunicação, como a equipe do Labic, por exemplo, têm contribuído com expertise na área de análise de redes sociais.

Por outro lado, as redações são laboratórios por excelência para o teste de tecnologia e novas propostas de formatos jornalísticos. Parcerias entre jornalistas profissionais e pesquisadores podem render grandes benefícios ao campo como um todo e, quem sabe, encontrar uma forma de ajudar a salvar essa importante instituição democrática que é a imprensa.

De fato, a era digital oferece a primeira oportunidade na história do jornalismo para que a academia tome a frente na proposição de novas formas de organizar a produção e a distribuição de notícias.

Hoje, bastam computadores, software open source e conexão à Internet para que pesquisadores criem jornais-laboratório capazes de adotar e testar as tecnologias mais recentes. Antigamente, era preciso arcar com custos de impressão ou radiodifusão, o que sempre é um problema para as ciências humanas, em geral tratadas como secundárias pelas agências de fomento.

Além disso, jornais-laboratório não têm compromisso com audiência ou acionistas e podem, por isso, errar bastante ao aplicar tecnologias e propor novas formas de narrativa jornalística. Redações profissionais não podem se dar ao luxo de quebrar o contrato de leitura o tempo todo.

Enfim, os pesquisadores interessados em debater os caminhos da investigação jornalística, a situação das vias de acesso à informação pública, o jornalismo guiado por dados, os desafios do ensino e outros temas serão bem vindos no próximo congresso da Abraji, entre os dias 24 e 26 de julho de 2014, em São Paulo.

Veja aqui o call for papers para o I Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo da Abraji.

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O jornalismo guiado por dados de acordo com Giannina Segnigni

O jornal El País divulgou uma palestra sobre jornalismo guiado por dados proferida pela repórter costa-riquenha Giannina Segnigni. A jornalista recebeu recentemente o prêmio Gabriel García Márquez e é especializada em investigação de tráfico e contrabando.

Segnini divide o jornalismo guiado por dados (JGD) em cinco etapas:

  1. Obtenção dos dados — Por um lado, é preciso conhecer os tipos de formatos e arquivos usados para a armazenagem de dados pelo setor público, para poder fazer pedidos de acesso à informação eficazes. Por outro, é preciso conhecer o marco jurídico que rege o a disponibilidade dos bancos de dados governamentais.
  2. Limpeza dos dados — É essencial, porque dados com ruído inviabilizam ou engendram erros na etapa seguinte, de análise.
  3. Análise dos dados — Para Segnini, esta é a etapa eminentemente jornalística do JGD. Envolve comparar, cruzar e correlacionar dados para encontrar tendências, padrões, comportamentos atípicos e explicações de fenômenos sociais.
  4. Verificação dos dados — O fato de uma base de dados ser produzida por uma instituição pública não garante a consistência da informação. É preciso tratar os dados com ceticismo, como se faz com qualquer outra fonte.
  5. Visualização dos dados — “Entrevistar” os dados e encontrar informação pode não ser suficiente, em geral é preciso apresentar as descobertas de forma atrativa para o leitor.

Durante a palestra, ela critica o que Paul Bradshaw chama de “data porn”: visualizações com muita pirotecnia, mas que não oferecem ao leitor a possibilidade de explorar ou comparar dados, ou mesmo apresentam pouco valor informativo. A seu ver, uma boa peça de JGD não deixa perguntas no ar — porque encontrar respostas é, afinal, o trabalho dos jornalistas — e não deixa o leitor perdido num oceano de dados.

A principal vantagem do JGD para o jornalismo, para Segnini, é a criação de informação inteligente, diferenciada, num mundo em que a maior parte da informação é agregada de terceiros e muito pouco contextualizada.

Ao final, a costa-riquenha lembra o adágio sobre ver o bosque e não se focar nas árvores, para dizer que, com o JGD, é possível ver as duas coisas ao mesmo tempo. O leitor comum pode desfrutar das visualizações, enquanto os nerds podem ter acesso às bases de dados completas e explorá-las por si mesmos. Com isso, aumenta a transparência da reportagem, mas do jornalista passa a ser exigida uma abdicação do controle total sobre a narrativa.

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