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	<title>träsel/blog</title>
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		<title>Curso online gratuito sobre jornalismo digital e interesse público</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Apr 2013 03:20:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[assuntos pessoais]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público]]></category>
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		<description><![CDATA[Estão abertas as inscrições para o curso Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público, oferecido pelo International Center For Journalists e do qual sou instrutor, junto o repórter especializado em transparência pública Fabiano Angélico. O curso é gratuito, a &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=566">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Estão abertas as inscrições para o curso Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público, oferecido pelo <a href="http://www.icfj.org/" target="_blank">International Center For Journalists</a> e do qual sou instrutor, junto o repórter especializado em transparência pública <a href="https://twitter.com/FAngelico" target="_blank">Fabiano Angélico</a>.</p>
<p>O curso é gratuito, a distância e voltado a jornalistas e ativistas comprometidos com questões sociais. Fui aluno deste curso em 2012 e posso dizer que é muito produtivo &#8212; e, espero, se mantenha assim com a minha contribuição.</p>
<p>Segue o release:</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">Data limite para inscrições: 10 de maio de 2013 (<a href="http://e-learn.icfj.org/enrol/index.php?id=222">Clique aqui para se inscrever</a>)</p>
<p dir="ltr">Curso: 27 de maio a 28 de junho de 2013</p>
<p dir="ltr">O <a href="http://www.icfj.org/">International Center for Journalists (ICFJ)</a> está oferecendo um programa de treinamento de cinco semanas para 35 jornalistas brasileiros, patrocinado pela AT&amp;T: &#8220;Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público&#8221;. O curso é focado no desenvolvimento de projetos multimídia sobre temas relacionados às principais dificuldades enfrentadas por comunidades pobres, como saneamento básico, educação, saúde pública e desastres naturais.</p>
<p dir="ltr">A versão brasileira do curso, ministrada em português, será dirigida por Fabiano Angélico, jornalista especializado em transparência pública, e por Marcelo Träsel, professor de Jornalismo Digital na PUCRS. Os participantes vão aprender sobre a importância das ferramentas digitais e mídias móveis, para fornecer informação de qualidade e respeitando princípios eticos em suas atividades diárias. O objetivo é a aquisição de habilidades permanentes em narrativas multimídia, que os auxiliarão em seu futuro trabalho jornalístico. Além disso, espera-se que muitos dos projetos e relatórios criados pelos participantes como atividades do currículo se tornem duradouros.</p>
<p dir="ltr">Algumas das técnicas a ser apresentadas aos participantes são o refinamento de buscas, o uso de mapas para descobrir informação, preparação de fotografias e vídeos para publicação na Web e criação de weblogs. O currículo é estruturado para encorajar os alunos a desenvolver um projeto multimídia capaz de causar um impacto positivo em sua comunidade. O curso também vai ensinar melhores práticas de uso de habilidades multimídia e plataformas durante coberturas jornalísticas.</p>
<h3 dir="ltr">Currículo</h3>
<p dir="ltr">Semana 1: Jornalismo de interesse público<br />
Semana 2: Internet &#8211; Uma ferramenta de serviço público<br />
Semana 3: Ferramentas digitais<br />
Semana 4: Como tornar seu projeto viável<br />
Semana 5: Discussão de projetos em jornalismo de interesse público</p>
<p dir="ltr">Durante as duas últimas semanas do curso, os participantes serão convidados a propor um projeto voltado ao jornalismo de interesse público. Os ministrantes vão colaborar na definição do foco dos projetos e ajudar a definir metas e resultados concretos, assim como indicar as ferramentas digitais mais adequadas a cada projeto.</p>
<p dir="ltr">Os coordenadores vão selecionar até 15 dos participantes que apresentarem as melhores propostas e acompanhá-los em seu desenvolvimento por um mês após o término do curso. Seu papel será oferecer sugestões, críticas e encorajamento.</p>
<p>Em caso de dúvidas, entre em contato pelo email <a href="mailto:brasil@icfj.org">brasil@icfj.org</a>. Para se inscrever, <a href="http://e-learn.icfj.org/enrol/index.php?id=222">clique aqui</a>.</p></blockquote>
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		<title>Lançamento do livro &#8220;Interações em rede&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Apr 2013 23:08:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[academia]]></category>
		<category><![CDATA[assuntos pessoais]]></category>
		<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Alex Primo]]></category>
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		<category><![CDATA[SIMC 2013]]></category>
		<category><![CDATA[Star Trek]]></category>
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		<description><![CDATA[Na próxima quarta-feira, às 18h30, na Faculdade de Comunicação Social da UFRGS, será lançado o livro Interações em rede, organizado pelo mestre Alex Primo. Na ocasião, haverá uma mesa redonda com os autores, na qual eu apresentarei meu artigo &#8220;Toda &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=564">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Na próxima quarta-feira, às 18h30, na Faculdade de Comunicação Social da UFRGS, será lançado o livro <a href="http://www.ufrgs.br/simc2013/?page_id=302#onclick=returnfalse" target="_blank">Interações em rede</a>, organizado pelo mestre <a href="https://twitter.com/alexprimo" target="_blank">Alex Primo</a>. Na ocasião, haverá uma mesa redonda com os autores, na qual eu apresentarei meu artigo &#8220;Toda resistência é fútil: o jornalismo, da inteligência coletiva  à inteligência artificial&#8221;.</p>
<p>O livro reúne artigos de alunos e ex-alunos do Laboratório de Interação Mediada por Computador da Fabico/UFRGS, capitaneado pelo Alex, que foi meu orientador de mestrado. É uma comemoração pelos dez anos do LIMC, assim como o <a href="http://www.ufrgs.br/simc2013/" target="_blank">Seminário de Interação Mediada por Computador</a>, evento que será fechado pela mesa-redonda.</p>
<p>Segue o resumo do meu artigo:</p>
<blockquote><p>O predomínio do pensamento tecnológico trouxe o mundo ocidental à era da cibercultura, caracterizada pela busca de soluções técnicas nas mais diversas instâncias da experiência humana: políticas, econômicas, existenciais e deontológicas, entre outras. Neste contexto, a noção de inteligência coletiva viabilizada pela técnica, especialmente a telemática, tem sido cada vez mais indicada e usada como instrumento de resolução de problemas sociais. Por outro lado, a automação, inicialmente circunscrita a processos mecânicos, tem sido aplicada nos últimos anos a atividades intelectuais, com o desenvolvimento de robôs e inteligências artificiais capazes de coletar e analisar informação. A prática profissional do jornalismo não escapa destas circunstâncias, adotando diversas técnicas de captação de inteligência coletiva e repórteres-robôs para atrair audiência e compensar a escassez de mão-de-obra nas redações, como forma de combater a crise econômica causada pela digitalização do noticiário. Estas soluções podem ser compreendidas como uma introdução de tendências pós-humanistas na prática do jornalismo, movimento que vai de encontro ao caráter humanista da profissão.</p></blockquote>
<p>Em breve, o livro estará disponível no catálogo da <a href="http://www.editorasulina.com.br/" target="_blank">Editora Sulina</a>, por R$ 35.</p>
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		<title>Indústria dos jornais perde oportunidade com o Vale-Cultura</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Mar 2013 20:47:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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		<description><![CDATA[Nas últimas semanas, a indústria e os consumidores de jogos eletrônicos se mobilizaram para que essa categoria de bens culturais seja incorporada na portaria do Vale-Cultura, a ser publicada a qualquer momento pelo Ministério da Cultura. A ministra Marta Suplicy &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=556">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Nas últimas semanas, <a href="http://www.ebc.com.br/tecnologia/2013/02/gamers-querem-inclusao-de-jogos-no-vale-cultura" target="_blank">a indústria e os consumidores de jogos eletrônicos se mobilizaram</a> para que essa categoria de bens culturais seja incorporada na portaria do <a href="http://blogs.cultura.gov.br/valecultura/" target="_blank">Vale-Cultura</a>, a ser publicada a qualquer momento pelo <a href="http://www.cultura.gov.br/site/" target="_blank">Ministério da Cultura</a>. A ministra Marta Suplicy está completamente equivocada ao desconsiderar os jogos eletrônicos como produtos culturais &#8212; é uma proposição tão absurda para quem tem um mínimo de familiaridade com videogames, que faz o sujeito se perguntar como a assessoria da ministra pôde babar na gravata nessa escala diluviana. Sobretudo quando <a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1216228-marta-diz-que-vale-cultura-podera-ser-usado-para-comprar-revista-porcaria.shtml" target="_blank">Marta Suplicy já havia até considerado &#8220;revistas porcaria&#8221; como cultura</a>.</p>
<p>Há uma outra categoria de bens culturais, entretanto, cuja ausência nos pronunciamentos do Minc e nos editoriais e notícias da imprensa sobre o Vale-Cultura é tão escandalosa que chega a fazer os olhos doerem: jornais diários. É bizarro que um setor em luta pela sobrevivência, como o dos jornais impressos, não esteja tentando arrancar com unhas e dentes um quinhão dos mais de R$ 10 bilhões estimados para despejo pelo governo na indústria cultural. Não me lembro de ter lido um editorial levantando essa possibilidade, nem mesmo uma linha no pé de uma notícia sobre essa lacuna. Será possível que nenhum executivo de jornal se deu conta de pedir à ministra a inclusão de assinaturas de diários impressos na portaria do Vale-Cultura? Nenhum jornalista pensou em defender seu emprego lançando a idéia para o debate público? Está todo mundo comendo mosca?</p>
<p>Nos círculos acadêmicos de Comunicação Social, do qual posso falar com maior propriedade, tampouco algum pesquisador se lembrou de fazer cobranças a respeito da inclusão das assinaturas de jornais como uma possibilidade para o trabalhador investir seu benefício.</p>
<p>É uma oportunidade de ouro para garantir sobrevida às redações e ainda atender ao interesse público, agregando as camadas de menor renda da população ao espaço privilegiado de mediação política composto pelos jornais. Além disso, atenderia ao interesse do público, pois um dos primeiros investimentos realizados por famílias em ascenção das classes D e E para a classe C é a assinatura de jornais. Os pais de classe média tendem a considerar o consumo de notícias uma vantagem na educação dos filhos, de modo que esse grupo social tem sido um dos grandes responsáveis por <a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed734_crise_dos_jornais_impressos_chega_aos_paises_emergentes" target="_blank">um aumento da circulação de jornais impressos nos países em desenvolvimento até 2010</a>.</p>
<p>Além disso, <a href="http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2013/02/vale-cultura-podera-ser-usado-para-pagar-tv-por-assinatura-diz-ministra.html" target="_blank">Marta Suplicy já anunciou o uso do Vale-Cultura para comprar assinaturas de TV</a>. Conforme as colunas de fofocas sobre política, a razão para isso foi uma pressão para não deixar as operadoras de TV por assinatura de fora dessa festa &#8212; embora não se diga de onde partiu a pressão, se das empresas, ou de dentro do próprio governo federal. Onde está o lobby da Associação Nacional de Jornais? O lobby da Federação Nacional de Jornalistas? A pressão editorial da Folha de São Paulo, Estadão, Globo?</p>
<p>A <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12761.htm" target="_blank">Lei 12.761 de 2012</a>, em seu artigo segundo, parece incluir o jornalismo entre as áreas culturais, no inciso IV:</p>
<blockquote><p>§ 2o Consideram-se áreas culturais para fins do disposto nos incisos I e II do § 1o:</p>
<p>I &#8211; artes visuais;</p>
<p>II &#8211; artes cênicas;</p>
<p>III &#8211; audiovisual;</p>
<p>IV – literatura, humanidades e informação;</p>
<p>V &#8211; música; e</p>
<p>VI &#8211; patrimônio cultural.</p></blockquote>
<p>Portanto, ainda é possível convencer o Minc e o Planalto a incluírem assinaturas de jornais impressos ou digitais entre os produtos nos quais os beneficiários podem gastar seu Vale-Cultura. Com os R$ 50 previstos, pode-se tranquilamente adquirir uma assinatura de jornal, digital ou impresso, e ainda contar com uma pequena sobra. Seria bom para todo mundo.</p>
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		<title>Não basta investir no jornalismo digital, é preciso pensar digitalmente</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Feb 2013 22:24:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A leitura do release sobre o lançamento do novo aplicativo de Zero Hora para o iPad é tão chocante que me levou a desenvolver, abaixo, um pequeno exercício de descontrução. Em poucas frases, o autor &#8212; ou autores &#8212; do &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=546">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A leitura do <a href="http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2013/02/zero-hora-inova-no-aplicativo-para-ipad-4046831.html" target="_blank">release sobre o lançamento do novo aplicativo de Zero Hora para o iPad</a> é tão chocante que me levou a desenvolver, abaixo, um pequeno exercício de descontrução. Em poucas frases, o autor &#8212; ou autores &#8212; do texto conseguiu a façanha de cristalizar os equívocos que levaram o jornalismo digital ao estado de penúria econômica e intelectual de hoje em dia. Vamos analisar o texto por pontos:</p>
<p>1. O título do release é &#8220;Zero Hora inova no aplicativo para iPad&#8221;, com a linha de apoio &#8220;A versão 2.0 apresenta notícias com a cara do jornal impresso e atualizadas em tempo real&#8221; e a cartola &#8220;Papel digital&#8221;. Estes elementos já demonstram a perspectiva da diretoria de Zero Hora e do Grupo RBS em relação ao jornalismo contemporâneo e às mídias móveis em particular: <em>tablets</em>, leitores eletrônicos e <em>smartphones</em> são veículos para o jornalismo impresso sem papel. São, em duas palavras, &#8220;papel digital&#8221;. A primeira implicação importante disso é que o conteúdo produzido para mídias móveis não está submetido ao website de Zero Hora, mas ao jornal impresso. Por conseguinte, as decisões editoriais e comerciais devem ser condicionadas às necessidades do jornalismo impresso, não do jornalismo digital, muito embora aplicativos para iPad sejam, evidentemente, baseados em código binário. Não apenas isso, como inovador no jornalismo, mais de 20 anos após o lançamento do primeiro webjornal, é ter &#8220;cara de jornal impresso&#8221;. Não custa lembrar que era exatamente essa a abordagem da imprensa em 1995, quando os webjornais apenas republicavam, às vezes até em PDF, como fazia o <a href="http://www.correiodopovo.com.br/" target="_blank">Correio do Povo</a>, as notícias do jornal impresso. Essa proposta revela uma nostalgia dos &#8220;bons tempos&#8221; das redações esfumaçadas, máquinas de escrever, paicas, linotipo, aquele imaginário todo de <a href="http://www.imdb.com/title/tt0043338/" target="_blank">A Montanha dos Sete Abutres</a>.</p>
<p>2. A primeira frase do release é &#8220;A leitura de Zero Hora no iPad está mais próxima da profundidade do jornal impresso e da instantaneidade e dos recursos multimídia dos meios digitais&#8221;. De saída, o texto já se filia ao grupo de defensores do argumento indefensável de que o suporte papel, em si, favorece a redação de notícias mais profundas e gera leituras mais aprofundadas por parte do público. Não é necessário nem mesmo comparar o noticiário impresso e o digital para descartar esse tipo de determinismo tecnológico. É bastante improvável que a simples passagem de um texto do papel para a tela prejudique a reportagem ou a compreensão do leitor. Sim, o computador desafia nossa atenção com diversas distrações, como alertas de correio eletrônico, redes sociais etc., como descreve Nicholas Carr em <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/externo/index.asp?id_link=3724&amp;destino=http://www.livrariacultura.com.br/Produto/LIVRO/GERACAO-SUPERFICIAL-A-O-QUE-A-INTERNET-ESTA/22997025" target="_blank">Geração Superficial</a>. Porém, é discutível o quanto essas distrações prejudicam a compreensão de notícias e, de qualquer modo, não é como se os leitores de jornais impressos se isolassem em câmaras à prova de som para ler o noticiário todas as manhãs. Ler jornal no ônibus, ou com filhos gritando em volta, ou tentando ao mesmo tempo comer granola e beber café é muito diferente de ler um webjornal com alertas do Facebook agredindo os ouvidos? <em>Tablets</em> e <em>smartphones</em> em geral permitem a execução de apenas um aplicativo por vez, o que de fato evita distrações e aproxima a experiência à da leitura em papel. É um aspecto a favor do argumento exposto no release, mas ainda assim, longe do cerne da questão. Se há ou houve diferença de qualidade no jornalismo produzido para a Web em comparação ao jornalismo produzido para veiculação em papel, é porque poucas redações investiram seriamente nas operações digitais durante as duas últimas décadas. O &#8220;online&#8221; sempre foi o patinho feio, muitas vezes limitado à republicação de conteúdo de outras plataformas e sem verba própria para reportagem. Esperar qualidade de uma redação sem recursos financeiros e humanos é como esperar feijões de uma planta deixada sem água e sem sol &#8212; e culpar a planta quando ela não produz nenhum grão! Em termos estritamente técnicos, as plataformas digitais permitem maior profundidade, uma vez que os textos podem ser tão longos quanto necessário e complementados por multimídia e referências a material de apoio em outros websites. Se essas características foram pouco aproveitadas, a culpa certamente não é da Web, mas das escolhas administrativas e editoriais de empresas jornalísticas.</p>
<p>3. Em seguida, o release informa que &#8220;O novo aplicativo 2.0 de ZH, lançado neste domingo, une a identidade visual do papel com a visão editorial e a atualização constante de zerohora.com&#8221;. Aqui, pode-se perceber a total ausência de embasamento da defesa do jornalismo impresso como bastião da qualidade pelo argumento tecnológico. A principal característica do veículo impresso adicionada ao aplicativo para iPad de Zero Hora não são repórteres experientes, não é mais dinheiro para reportagens de fôlego, não é um processo editorial mais cuidadoso, mas&#8230; A identidade visual! Na visão de Zero Hora, portanto, o que confere profundidade ao noticiário não é o talento dos repórteres e editores, ou as boas condições materiais e institucionais para a realização de reportagens, mas a identidade visual. Essa frase corrobora o ponto número 2, comprovando que, para o autor do release, a qualidade do jornalismo está ligada a seus aspectos materiais, ou seja, ao suporte. Ironicamente, o texto destaca a &#8220;visão editorial&#8221; de Zerohora.com, junto da &#8220;atualização constante&#8221;. Noutras palavras, identidade visual parece ser um fator mais importante do que visão editorial na produção de bom jornalismo, para o autor do release.</p>
<p>4. O restante do texto se dedica a listar as funcionalidades do aplicativo para iPad de Zero Hora. Apenas uma é diretamente ligada ao jornal impresso: a possibilidade de ler uma reprodução digital do jornal em papel. Por outro lado, a possibilidade de &#8220;ver os assuntos mais relevantes do momento na Capa e Contracapa do aplicativo, com a velocidade do site do jornal&#8221; parece se relacionar com os assuntos em pauta na edição impressa do dia, mas, na verdade, essa Capa e Contracapa espelham as manchetes de Zerohora.com. Temos aqui um defeito de design, pois aplicativos podem até ter capas, mas certamente não podem ter contracapas, ao menos no iPad, que não tem telas dos dois lados. É claro, pode ser apenas uma forma lúdica de fazer uma ponte entre o jornal impresso e sua reencarnação em <em>tablet. </em>Seria uma forma de agradar aos leitores mais conservadores, mas às custas de um design mais centrado nas características do suporte digital, cujas funcionalidades nativas, aliás, são as mais profusas e interessantes: previsão do clima em tempo real, personalização editorial, vídeos e galerias de fotos. Exceto pelas mesmas fontes usadas na versão impressa e a leitura da edição impressa, não há nenhuma outra característica do jornal impresso no aplicativo. Inclusive, a arquitetura de informação não se afasta muito da arquitetura padrão de webjornais. De modo que, mesmo aceitando como verdadeiros os argumentos dos defensores do impresso, este aplicativo não cumpriria as promessas de maior profundidade, porque claramente segue uma estética mais próxima da Web. Existem aplicativos que permitem uma maior aproximação com a experiência de leitura em papel, como o <a href="http://www.readability.com" target="_blank">Readability</a>, mas estes são completamente diferentes do aplicativo de ZH.</p>
<h3>Conclusão</h3>
<p>Zero Hora parece estar sofrendo de certa esquizofrenia institucional. Por um lado, realizam investimentos na área digital e, inclusive, desenvolveram uma das melhores operações digitais da imprensa brasileira. Excluindo os jornais nacionais, como Folha, Estadão, Globo e Valor, talvez a RBS produza o melhor jornalismo digital do Brasil. Por outro lado, a instituição se vê obrigada a prestar tributo ao jornal impresso. Não tenho conhecimento algum da intimidade da RBS, mas arriscaria o palpite de que há gestores ligados ao impresso tentando defender enquanto for possível seu feudo e, com alguma sorte, seguir no trono após a inevitável migração para o digital e abandono do papel. É o que tem ocorrido na maioria das redações mundo afora. O principal sintoma disso é o aparente contrasenso da produção de conteúdo para mídias móveis estar subordinada ao corpo editorial do jornal impresso, e não da redação digital, em grande parte dos casos.</p>
<p>O problema é que essa doença pode acabar matando o jornalismo, porque a maior parte dos repórteres, editores e gestores das redações voltadas a veículos impressos passou as duas últimas décadas fingindo não ver ou, pior, hostilizando abertamente as mídias digitais. Serão mesmo as pessoas certas para capitanear a substituição da celulose pelos bits? A mentalidade retrógrada dos defensores do papel tende a ignorar as possibilidades e constrangimentos das mídias digitais, ao tentar enquadrá-las nos modelos obsoletos de jornalismo. Com isso, perde-se duplamente: as liberdades do código binário são subaproveitadas e as qualidades do jornalismo impresso acabam sacrificadas.</p>
<p>É claro, há sempre o risco de se tratar meramente de um release infeliz divulgado por Zero Hora. Por outro lado, como ele segue publicado, sem alterações, o leitor se sente obrigado a inferir que essa seja realmente a opinião da empresa &#8212; um release é, afinal, a voz de uma instituição. As críticas acima também servem para quase todos as organizações jornalísticas que contam com veículos impressos e suas versões digitais. Esse exemplo foi usado porque estava à mão.</p>
<p>É um problema de cultura profissional, não desta ou daquela empresa especificamente. A própria BBC teve dificuldades em construir uma redação voltada para o digital, mesmo contando, potencialmente, com os melhores recursos humanos que o jornalismo tem a oferecer, no mundo inteiro. A única saída encontrada pela BBC para superar os obstáculos da cultura profissional foi removê-los, ou seja, demitir os funcionários refratários à atualização das rotinas produtivas. Nem toda redação pode se dar a esse luxo.</p>
<p>Mas nem toda a nostalgia do mundo vai evitar o fim dos jornais impressos, simplesmente porque o papel é uma tecnologia superada para distribuir notícias. Ainda se presta muito bem a jornalismo investigativo, cultural, opinião e infografia, mas, para o feijão-com-arroz das <em>hard news</em>, os suportes digitais são muito mais adequados. Hoje, ainda se pode vencer algumas batalhas cedendo à nostalgia do papel no design de produtos digitais, mas duvido que seja possível vencer a guerra com essa estratégia.</p>
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		<title>Como obter do Twitter seu arquivo pessoal e passar a arquivar tweets você mesmo</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Jan 2013 19:37:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[Copyright]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
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		<category><![CDATA[dados abertos]]></category>
		<category><![CDATA[direito do consumidor]]></category>
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		<category><![CDATA[termos de uso]]></category>
		<category><![CDATA[Twitter]]></category>

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		<description><![CDATA[ATUALIZAÇÃO: O Twitter criou uma funcionalidade para baixar os arquivos dos perfis, que ainda não está disponível para todos os clientes. É gratuito e basta ir até a página de configurações, rolar até o final e ver se o botão &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=527">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>ATUALIZAÇÃO: O <a href="http://blog.twitter.com/2012/12/your-twitter-archive.html">Twitter criou uma funcionalidade para baixar os arquivos dos perfis</a>, que ainda não está disponível para todos os clientes. É gratuito e basta ir até a página de <a href="https://twitter.com/settings/account">configurações</a>, rolar até o final e ver se o botão &#8220;Request your archive&#8221; está lá.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>No ano passado, o <a href="http://tecnologia.ig.com.br/2012-07-25/twitter-tera-recurso-para-baixar-arquivo-de-mensagens-publicadas.html" target="_blank">Twitter decidiu impor diversas restrições ao uso de sua API</a>, tornando inviáveis vários serviços de arquivamento, <a href="http://updates.ifttt.com/post/31945038639/upcoming-changes-to-twitter-triggers" target="_blank">como o IFTTT</a>, por exemplo. A mudança ocorreu no momento em que a empresa <a href="http://tecnologia.ig.com.br/2012-07-25/twitter-tera-recurso-para-baixar-arquivo-de-mensagens-publicadas.html" target="_blank">anuncia um serviço para baixar os arquivos de atualizações</a> &#8211; mediante pagamento, conforme alguns relatos.</p>
<p>Com isso, todos os produtos baseados na exportação de tweets para bancos de dados na nuvem (como <a href="http://friendfeed.com/" target="_blank">Friendfeed</a>, por exemplo) se tornam inviáveis. A nova política de uso da API só permite operações equivalentes a &#8220;salvar como&#8221; ou capturar a tela em PDF ou algum formato de arquivo de imagem. Na prática, não se pode mais criar quase nenhum tipo de mash-up a partir de tweets, ainda mais levando-se em conta que a partir de março de 2013 os fluxos Atom e RSS também serão abandonados à própria sorte, ou desligados, ainda não está muito claro.</p>
<p>Com essas mudanças, afirmam os executivos do Twitter, o serviço poderá oferecer uma &#8220;experiência mais consistente ao usuário&#8221;. Em tradução livre, significa que o Twitter está aderindo à contra-revolução iniciada pela Apple e se fechando cada vez mais, em busca de maior controle sobre seus produtos. Exceto que, ao contrário da App Store, no caso do Twitter o produto é composto principalmente de conteúdo gratuito gerado por seus clientes e pelas próprias subjetividades dos clientes, vendidas para anunciantes. Dave Winer, que nunca teme assumir o papel de Cassandra e avisar sobre os riscos de deixar propriedade intelectual sob a tutela de corporações, <a href="http://scripting.com/stories/2012/07/07/twitterIsACorporateApi.html" target="_blank">resume a indignação dos desenvolvedores de aplicativos para o Twitter</a>:</p>
<blockquote><p>Yes, this was unfair. Twitter had been telling developers, for years, that they should develop all kinds of clients. That was when Twitter was just a website and had no clients of its own. It bought a few of the developer products, and the advice changed. Really bad planning, and/or carelessness of the worst kind. I&#8217;m surprised there weren&#8217;t any lawsuits.</p></blockquote>
<p>Se nunca se preocupou em tratar bem os desenvolvedores &#8212; a não ser quando precisava deles &#8212; muito menos o Twitter se preocupa em permitir aos usuários do serviço maior controle sobre seu arquivo de mensagens e imagens. Na verdade, sempre foi uma das piores plataformas de redes sociais neste aspecto: não apenas ficam disponíveis apenas os últimos 3200 tweets, como mesmo estes são acessíveis somente mediante operações técnicas relativamente complexas para o usuário comum. A maioria dos tweets desaparece das linhas de tempo entre uma e duas semanas após a publicação. Boa sorte tentando encontrá-los depois, sem saber a URL exata.</p>
<p>Tampouco o Twitter é transparente quanto a essas restrições. Normalmente, fica-se sabendo pela imprensa especializada sobre estas características. Por conta disso, só fui perceber o problema após ultrapassar a barreira dos 3200 tweets e me vi sem acesso ao conteúdo produzido por mim mesmo. <em>Caveat emptor</em>, é claro, mas não deixa de ser no mínimo antipático criar um modelo de negócios baseado em trabalho gratuito dos clientes e não oferecer aos escrav&#8230; &#8212; perdão! &#8212; colaboradores controle nem mesmo sobre a produção intelectual de sua propriedade.</p>
<h3>Como obter todos os seus tweets</h3>
<p>Buscando uma forma de obter meu arquivo de tweets, cheguei a <a href="http://www.annehelmond.nl/2012/04/17/what-does-twitter-know-about-me-my-zip-file-with-50mb-of-data/">este artigo da holandesa Anne Helmond</a>, com um passo-a-passo para solicitar uma cópia de todos os seus dados junto ao setor jurídico do Twitter.</p>
<p>O texto com a solicitação é baseado numa lei européia, mas imaginei que eles não devem conhecer a lei brasileira, então mudei o artigo usado como argumento para um artigo do <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm">Código de Defesa do Consumidor</a>. O texto abaixo foi enviado ao endereço Twitter-Legal@twitter.com.</p>
<blockquote><p>NOME<br />
RUA<br />
CIDADE<br />
CEP<br />
PAÍS</p>
<p>DATA</p>
<p>To the Twitter Legal Department,</p>
<p>Re: @trasel</p>
<p>This is a request to access my personal data under Section VI of the LEI Nº 8.078, DE 11 DE SETEMBRO DE 1990, known as Brazilian Consumer Protection Act.</p>
<p>As a Twitter user based in Brazil I request records of the following:</p>
<p>All personal data that Twitter holds about me, inter alia<br />
All logs of IP addresses associated with my account (because these are bound to my password-authenticated account and are thus identifiable)<br />
Any records of the contacts stored on my mobile device that may have been collected by Twitter via the &#8216;Find Friends&#8217; function, or any other information collected from a Twitter mobile client<br />
Any records of disclosures of personal data to other parties, including law enforcement (such records of disclosures themselves constitute personal data)</p>
<p>I request this information to be delivered in machine-readable form, to the e-mail address registered to my Twitter account.</p>
<p>Data Subject Authentication</p>
<p>My name: Marcelo Ruschel Träsel</p>
<p>My current Twitter handle: @trasel</p>
<p>My e-mail address: XXXXXXXXXXXX@gmail.com</p>
<p>Please inform me, prior to processing this request, if you require a fee to be paid.</p>
<p>I look forward to receiving this information within 30 days. If you have any queries or questions regarding my request, please contact me by e-mail.<br />
Yours faithfully,</p></blockquote>
<p>Após o recebimento, o setor jurídico do Twitter envia uma mensagem com número de protocolo, à qual você deve apenas responder, sem acrescentar nada, para dar início ao processo. No mesmo dia, já recebi uma mensagem de um ser humano, oferecendo mais informações e confirmando o início do processo. Nesta mensagem, pediram o envio de um FAX de um documento de identidade com foto. Há serviços gratuitos de FAX online que permitem anexar arquivos e mandar para qualquer telefone no mundo. Tomei o cuidado de  rasurar todos os dados da carteira de identidade que não fossem minha foto e nome completo, para não dar mais informação do que o necessário.</p>
<p>Dentro de dois ou três dias, você deve receber no endereço de correio eletrônico vinculado a sua conta no Twitter uma cópia em PDF do pedido e a solicitação de que confirme, por e-mail mesmo, ter realizado o pedido de acesso à informação. Basta responder algo como &#8220;Yes, I confirm this request to disclose information was sent by me&#8221;.</p>
<p>Após este último passo, em cerca de uma semana você receberá uma mensagem com o endereço do link para baixar um arquivo ZIP com todas as informações solicitadas. O ZIP é um banco de dados em JSON, salvo engano, então será preciso usar algum aplicativo para uma leitura mais amigável. Por outro lado, o texto dos tweets está completo, com data, nesse banco, podendo ser lido com um esforço mínimo. O importante mesmo é que você terá em suas mãos todo o conteúdo criado para o Twitter durante anos como cliente do serviço.</p>
<h3>Como arquivar seus tweets</h3>
<p>Resta a questão de como arquivar seus tweets vindouros. A maneira mais fácil, sem ter de instalar nada num servidor próprio, é assinar o fluxo RSS num aplicativo adequado. Estou usando o próprio <a href="http://www.mozilla.org/pt-BR/thunderbird/">Thunderbird</a> para tanto. Além disso, criei duas receitas no IFTTT, que exportam os tweets <a href="https://ifttt.com/recipes/73427">para o Dropbox</a> e <a href="https://ifttt.com/recipes/73428">uma planilha no Google Docs</a>, a partir do fluxo RSS.</p>
<p>O problema é que não se sabe o futuro dos fluxos RSS de contas do Twitter, então esses recursos podem deixar de funcionar em breve.</p>
<p>Para <a href="http://seo-alien.com/tips-and-tricks/find-twitter-rss-feed/">gerar o fluxo RSS de sua conta no Twitter</a>, basta substituir os XXXX ao final da URL abaixo pelo seu nome de usuário:</p>
<blockquote><p>http://api.twitter.com/1/statuses/user_timeline.rss?screen_name=xxxxx</p></blockquote>
<p>Depois, é só cadastrar a URL com seu nome de usuário numa das receitas do IFTTT, ou no seu leitor de RSS favorito.</p>
<p>Bônus: caso você use listas em sua conta do Twitter, <a href="http://sociable.co/social-media/as-twitter-protects-its-ecosystem-heres-how-to-create-an-rss-feed-of-a-twitter-list/">aqui há um tutorial de como gerar o link para o fluxo RSS dessas listas</a>.</p>
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		<title>Adeus, Facebook. Há quanto tempo, blog?</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jul 2012 19:28:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[web 2.0]]></category>
		<category><![CDATA[Facebook]]></category>
		<category><![CDATA[facebookcídio]]></category>
		<category><![CDATA[Jaron Lanier]]></category>
		<category><![CDATA[nematelminto]]></category>
		<category><![CDATA[orkuticídio]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Zuckerberg]]></category>

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		<description><![CDATA[Estou deixando o Facebook.* A razão principal é a necessidade de assumir uma posição contra os princípios éticos duvidosos, para dizer o mínimo, com que a diretoria deste serviço de rede social opera. A gota d&#8217;água ocorreu recentemente, quando, ao &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=514">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Estou deixando o <a href="http://www.facebook.com/trasel" target="_blank">Facebook</a>.*</p>
<p>A razão principal é a necessidade de assumir uma posição contra os princípios éticos duvidosos, para dizer o mínimo, com que a diretoria deste serviço de rede social opera. A gota d&#8217;água ocorreu recentemente, quando, ao entrar no Facebook, fui apresentado a uma janela de diálogo instando-me a confirmar a identidade de um contato. A empresa proíbe o uso de pseudônimos e está em seu direito &#8212; além do mais, tenho certa tendência a concordar com essa política. Por outro lado, transformar os usuários em alcaguetes para manter essa política, sobretudo sem explicar na janela de diálogo as consequências de se confirmar ou desconfirmar a identidade de um contato, é verminoso.</p>
<p>E verminose é o que não falta ao Facebook, como evidenciam os exemplos abaixo:</p>
<ul>
<li><a href="http://www.gizmodo.com.br/o-facebook-mudou-seu-email-sem-lhe-perguntar-nada-veja-aqui-como-consertar-isso/" target="_blank">O Facebook mudou seu email sem lhe perguntar nada</a></li>
<li><a href="http://blogs.estadao.com.br/alexandre-matias/2012/06/03/o-dia-em-que-minha-conta-do-facebook-foi-desativada/">O dia em que minha conta do Facebook foi desativada</a></li>
<li><a href="http://glo.bo/GVp1Co">Facebook censura página de ONG por conter dois homens se beijando</a></li>
<li><a href="http://www.readwriteweb.com/archives/why_facebooks_seamless_sharing_is_wrong.php">Why Facebook&#8217;s Seamless Sharing is Wrong</a></li>
<li><a href="http://blogs.estadao.com.br/radar-tecnologico/2011/11/18/como-o-facebook-rastreia-seus-800-milhoes-de-usuarios/">Como o Facebook rastreia seus 800 milhões de usuários</a></li>
<li><a href="http://www.trezentos.blog.br/?p=5898">Facebook deleta conta de jogador brasileiro por sua defesa da Palestina</a></li>
<li><a href="http://exame.abril.com.br/mercados/ipos/noticias/acionistas-processam-facebook-por-fraude-em-ipo" target="_blank">Acionistas processam Facebook por &#8220;fraude&#8221; em IPO</a></li>
</ul>
<p>E isso para ficar apenas nos casos mais recentes. Não apenas as práticas do Facebook são verminosas, mas o próprio Zuckerberg, apesar da postura de bom-moço (<a href="http://www.nybooks.com/articles/archives/2010/nov/25/generation-why/?pagination=false" target="_blank">alguns diriam coxinha</a>), é ele próprio um verme que <a href="http://gawker.com/5636765/facebook-ceo-admits-to-calling-users-dumb-fucks/" target="_blank">já admitiu considerar seus clientes &#8220;pobres estúpidos&#8221;</a> e usar ativamente arquiteturas de informação e design maliciosos para levá-los a compartilhar mais dados pessoais do que têm consciência.</p>
<p>Além de não concordar com o capitalismo selvagem promovido pelo Facebook e considerar a usabilidade péssima &#8212; com especial predileção pela impossibilidade de bloquear convites para eventos, i.e., spam &#8211;, tenho objeções filosóficas ao conformismo incentivado por seus formulários. Sobre isso, porém, prefiro ficar com as palavras de Jaron Lanier, pioneiro da computação e filósofo, retiradas do livro <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22137621&amp;sid=7717301291478856162344653" target="_blank">Gadget: você não é um aplicativo</a> (li em inglês, comprem o livro em português, se quiserem saber mais):</p>
<blockquote><p>Something like missionary reductionism has happened to the internet with the rise of web 2.0. The strangeness is being leached away by the mush-making process. Individual web pages as they first appeared in the early 1990s had the flavor of personhood. MySpace preserved some of that flavor, though a process of regularized formatting had begun. Facebook went further, organizing people into multiple-choice identities, while Wikipedia seeks to erase point of view entirely. If a church or government were doing these things, it would feel authoritarian, but when technologists are the culprits, we seem hip, fresh, and inventive. People will accept ideas presented in technological form that would be abhorrent in any other form. It is utterly strange to hear my many old friends in the world of digital culture claim to be the true sons of the Renaissance without realizing that using computers to reduce individual expression is a primitive, retrograde activity, no matter how sophisticated your tools are.</p></blockquote>
<p>A acusação de Lanier, é claro, pode ser dirigida a quase todos os serviços de redes sociais e outras ferramentas, não apenas ao Facebook &#8212; no livro, ele critica até mesmo o Unix &#8211;, mas a rede de Zuckerberg é o pior caso até agora. Não posso curar a verminose, mas posso ao menos tentar não disseminá-la. Sair do Facebook é uma política de redução de danos.</p>
<p>Em termos estritamente pessoais, por outro lado, eliminar a conta no Facebook é uma forma de diminuir a dispersão e dedicar o pouco tempo livre a coisas mais permanentes, como este blog. Se é para gastar os intervalos de trabalho nos quais poderia estar com minha família ou amigos, que seja com algo realmente meu, não produzindo conteúdo para o bilionário Sr. Zuckerberg vender a anunciantes. Então, esperem a retomada deste espaço nas próximas semanas, com novas e emocionantes aventuras!</p>
<p>Além disso, será um canal a menos para publicar bobagens das quais me arrependerei depois. Um blog exige ao menos uma releitura do texto antes de se apertar o &#8220;publicar&#8221;. E será uma forma a menos de estar acessível a todo tipo de desconhecido com demandas descabidas, porque, <a href="http://faustini.siteoficial.ws/blog/Comentarios_Hitler.jpg" target="_blank">enfim</a>.</p>
<p>*Na verdade, vou manter uma conta sem nenhuma informação pessoal, porque meu emprego exige que gerencie páginas e esteja disponível para alunos no Facebook. Todavia, manterei a atualização dessa conta restrita ao mínimo possível.</p>
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		<item>
		<title>As cotas raciais em universidades públicas são bom negócio</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 16:33:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[academia]]></category>
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		<description><![CDATA[O melhor que os brasileiros contrários às cotas raciais em universidades públicas e outros tipos de ações afirmativas têm a fazer é ficar de boca fechada enquanto o Superior Tribunal Federal vota a constitucionalidade desse tipo de iniciativa. As atuais &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=505">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O melhor que os brasileiros contrários às cotas raciais em universidades públicas e outros tipos de ações afirmativas têm a fazer é ficar de boca fechada enquanto o <a href="http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=205888" target="_blank">Superior Tribunal Federal</a> vota a constitucionalidade desse tipo de iniciativa. As atuais políticas de cotas são uma pechincha! Em troca de terem sido mortos, torturados, estuprados, condenados aos piores trabalhos braçais do mundo, para fazer a economia brasileira crescer e enriquecer os colonizadores portugueses, os negros e índios estão pedindo apenas uma dúzia de vagas em cada curso universitário público do país. Poderiam exigir muito mais. Nenhum negro ou índio está pedindo para se deitar com a minha mulher, ou vender minha filha para angolanos, ou me aplicar algumas chibatadas. Nenhum negro ou índio bateu à porta da minha casa pedindo 80% do meu patrimônio a título de indenização pelos salários, horas extras e INSS devidos a seus tataravós desde o século XVI.</p>
<p>Então, recomendo aos meus colegas de etnia que fechem negócio com as cotas raciais imediatamente e sem regatear, porque os negros e índios estão nos oferecendo uma barganha chinesa.</p>
<p>Muita gente argumenta que não tem culpa pelas atitudes de seus antepassados e, portanto, não é justo ter de pagar a conta agora. Creio que o cartum abaixo resume bem melhor do que eu poderia escrever os contra-argumentos a essa proposição:</p>
<p><img src="http://a4.sphotos.ak.fbcdn.net/hphotos-ak-snc7/402540_356820277662290_1831022688_n.jpg" alt="" /></p>
<p>Chegou o momento de estendermos a mão para os negros e índios e ajudá-los a subir na escala social e econômica. Se nenhum de nossos antepassados tomou essa responsabilidade humanitária para si, temos agora uma excelente oportunidade de corrigir seus erros e nos tornarmos mais honrados.</p>
<p>Apoio essa compensação mesmo vindo de famílias de colonos alemães, que normalmente não usavam escravos na lavoura. Meus antepassados podem não ter sido proprietários de escravos, mas ganharam terras roubadas dos índios e foram beneficiados pelo crescimento econômico baseado no trabalho dos negros. Eu mesmo, até hoje, sou beneficiado pela cultura racista do Brasil, que me abre todas as oportunidades e sempre me passa à frente dos negros e índios em qualquer fila. Então, sim, sinto que é minha responsabilidade compensar essas etnias pelo mal que lhes causo, ainda que involuntariamente.</p>
<p>Além do processo iniciado pelo Partido Democratas contra a política de cotas da UnB &#8212; um dos paladinos dessa iniciativa é o famoso senador Demóstenes Torres, cujos argumentos são do quilate <a href="http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=115&amp;Numero=158&amp;Caderno=0&amp;Editoria=110&amp;Noticia=108075" target="_blank">desse aqui</a>: &#8220;As negras foram estupradas no Brasil. A miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. Gilberto Freyre, que hoje é renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual.&#8221; &#8211;, há também um <a href="http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/politica/noticia/2012/04/merito-intelectual-todos-tem-de-disputar-de-igual-para-igual-diz-gaucho-autor-de-acao-contra-sistema-de-cotas-3738219.html" target="_blank">processo de um ex-candidato gaúcho ao curso de Administração da UFRGS</a>. Examinemos seus argumentos.</p>
<blockquote><p>Tem no processo alguns argumentos que considero eficientes, como a questão de que esse tipo de diferença (social) já é reduzido no Imposto de Renda progressivo. Assim como se eu estudei em uma escola particular, já foi compensado porque eu não utilizei o serviço público durante 11 anos.</p></blockquote>
<p>De todos os argumentos absurdos dos contrários às cotas, esse deve ganhar o prêmio principal. Em primeiro lugar, a Receita Federal permite que os gastos com educação sejam descontados do imposto sobre a renda. Ou seja, o que existe é uma compensação do Estado aos ricos que preferem usar o serviço privado, em vez do serviço público. Estudar em escola particular não compensa a sociedade por nada.</p>
<p>Em segundo lugar, os ricos podem até pagar mais imposto de renda no Brasil, mas recebem isenções e descontos em diversas operações econômicas. Por exemplo, o imposto de renda sobre negociação de ações nas bolsas de valores é zero para quem vender menos de R$ 20 mil em ativos no mês. Os operadores da Bovespa estão sendo compensados pelo quê, exatamente? E empresas como a General Motors, que recebem isenção fiscal para produzir seus carros, estão sendo compensadas por qual tipo de sofrimento imposto pela sociedade brasileira?</p>
<p>Além do mais, os trabalhadores isentos de pagar imposto de renda ganham tão pouco que costumam gastar todos os seus ganhos em moradia, alimentação, vestuário e outras necessidades. Ao usarem sua renda, acabam pagando direta ou indiretamente impostos como ICMS, IPI, ISSN, entre outros. Enquanto isso, o dinheiro depositado em investimentos financeiros não paga imposto algum e recebe desconto progressivo sobre a renda gerada.</p>
<p>O próximo argumento é o da meritocracia:</p>
<blockquote><p>Mas mérito intelectual, todos tem de disputar de igual para igual.</p></blockquote>
<p>Este é um dos principais sofismas apresentados pelos contrários às cotas. O argumento confunde o <a href="http://trasel.com.br/?p=477" target="_blank">caráter igualitário e universal dos concursos vestibulares</a> com igualdade de condições entre todos os candidatos. Sob esta ótica, todos os brasileiros têm as mesmas oportunidades para se preparar intelectualmente para o vestibular.</p>
<p>Todos os que acreditam nesse argumento deveriam assinar um jornal qualquer com urgência, porque estão completamente alienados da realidade. O ensino público fundamental e médio no Brasil é uma piada de humor negro. Os alunos recebem um péssimo acompanhamento pedagógico e têm de lidar com falta de professores, despreparo de alguns profissionais, ausência de estrutura mínima para o ensino etc.</p>
<p>Ainda que as escolas públicas brasileiras fossem muito boas, há o contexto social dos alunos. Por melhores que sejam a estrutura e os professores, nenhum aluno aprende se não estiver em boas condições físicas e psicológicas. Uma fração muito maior dos alunos da rede pública passam fome ou vêm de famílias desestruturadas, que não podem apoiá-los, quando comparados aos alunos da rede privada. Os negros e índios ainda têm de lidar com o preconceito dos colegas e professores, em adição aos problemas econômicos e familiares. Afirmar que estes candidatos podem disputar uma vaga no vestibular em condições de igualdade com egressos de escolas privadas e famílias burguesas não é apenas equivocado: é desumano.</p>
<p>Além de sofismático, esse argumento é falacioso, porque ignora a lógica da competição pelas vagas num vestibular com sistema de cotas. Os alunos candidatos às vagas de acesso universal não disputam com os alunos candidatos às vagas de cotas sociais e raciais. Existe um número de vagas definido para cada grupo e os candidatos disputam essas vagas entre seus iguais.</p>
<p>De modo que, se alguém não consegue ser aprovado no vestibular, seja para uma vaga de acesso universal ou destinada a cotistas, é mesmo por falta de mérito. Vejam bem: os cotistas também necessitam demonstrar maior mérito em relação a outros cotistas. Só os negros, índios e egressos de escolas públicas com mais capacidade são aprovados. Nada impede, inclusive, que o grupo de cotistas possa um dia ter notas mais altas que as do grupo de acesso universal nas provas do vestibular.</p>
<p>Se isso não ocorre, é mais uma evidência de que a reserva de vagas foi uma decisão acertada, por comprovar que os egressos de escolas públicas, negros e índios realmente não têm condições de disputar vagas com egressos de escolas particulares. Porém, isso não indica falta de mérito.</p>
<p>As universidades em geral não divulgam as notas dos cotistas, provavelmente para evitar represálias. Isso significa, inclusive, que alguns cotistas podem ter notas superiores às dos aprovados para vagas de acesso universal, mas ninguém sabe. Uma das poucas<a href="http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/vestibular/Vest2012_1/Relatorios/Nota_de_corte_final_1.pdf" target="_blank"> tabelas</a> disponíveis é da Universidade Federal de São João Del-Rei, em Minas Gerais. Analisando os números, pode-se perceber que a diferença média entre as notas de corte dos grupos de acesso universal e ação afirmativa fica entre 10% e 20%. Será que as escolas públicas são apenas 20% piores do que as escolas particulares? E como incluir nesse cálculo a desnutrição, o preconceito, a estrutura familiar prejudicada?</p>
<p>Em suma, o mérito é uma qualidade contextual, relativa, impossível de ser aferida somente pela nota de uma prova. Sob qualquer ponto de vista, um negro, índio ou egresso de escola pública tem muito mais mérito em simplesmente chegar a se inscrever para um concurso vestibular do que um candidato de classe média, que comeu três refeições por dia a vida inteira e teve pais que puderam lhe pagar uma escola particular, livros, aulas de reforço e férias na Disney.</p>
<p>O que nos leva a outro argumento comum contra as ações afirmativas na universidade pública:</p>
<blockquote><p>Esse é um compromisso social de todos, de sempre buscar governantes que tenham a proposta de levantar a educação pública. A intenção social só pode ser de que todos tenham a mesma condição. E não que um passe na frente de outro por necessidade ou porque a educação pública não tem qualidade.</p></blockquote>
<p>Algum dos leitores aceitaria trabalhar todos os dias, mas recebendo uma nota promissória para daqui dez anos, em vez do salário em dinheiro? Pois é exatamente essa a proposta que os contrários às cotas estão fazendo aos negros, índios e egressos de escolas públicas quando defendem a melhoria do ensino público como solução mais desejável.</p>
<p>Uma vez definido que os negros, índios e pobres merecem alguma compensação da sociedade brasileira, por terem sido privados de seus direitos ao longo dos séculos em que o Brasil se desenvolveu a ponto de deixar a situação de colônia subdesenvolvida e se tornar uma economia maior que o Reino Unido, é preciso pagar a conta imediatamente. O sistema de cotas sociais e raciais pode ser visto como um financiamento sob tabela SAC, em que primeiro se paga a maior parte dos juros, depois o valor do dinheiro emprestado. As ações afirmativas são os juros que a sociedade vai pagando, enquanto não melhora as condições para que todos os candidatos a uma vaga em universidade pública possam efetivamente competir em pé de igualdade.</p>
<p>Por outro lado, no fundo, quem propõe deixar de lado as ações afirmativas em prol do esforço do Estado para melhorar o ensino na rede pública quer mesmo é manter o <em>status quo</em>. É muito difícil crer que os proponentes desta solução realmente acreditem na sua execução em uma década, ou mesmo duas. Na verdade, estão pouco ligando para justiça social, ou pensam que os negros, índios e pobres são imbecis completos e vão topar fazer mais um empréstimo a fundo perdido para a elite brasileira &#8212; bastante conhecida por não honrar seus compromissos, aliás.</p>
<p>O Brasil precisa melhorar as condições de vida de sua população agora. O ensino superior é um dos poucos fatores que comprovadamente geram desenvolvimento social, em qualquer lugar do mundo. Garantir que negros, índios e pobres tenham acesso à universidade pública é a maneira mais rápida e eficiente de distribuir renda e diminuir os preconceitos sociais e raciais. E toda a sociedade, inclusive os críticos das ações afirmativas, vão se beneficiar dos resultados. O projeto Bolsa-Família tem demonstrado, nos últimos anos, o imenso impacto positivo do desenvolvimento social sobre a economia como um todo. As cotas são mais um passo para tornar o Brasil um país sólido para todos nós.</p>
<p>ATUALIZAÇÃO: A <a href="http://www.lenara.com/" target="_blank">Lenara Verle</a> me enviou esse <a href="http://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=53" target="_blank">ótimo FAQ da UFMG sobre ação afirmativa</a>. Vale a pena consultar, aborda algumas questões não contempladas no texto acima.</p>
<p>ATUALIZAÇÃO 2: O <a href="http://afinaldecontas.blogfolha.uol.com.br/2012/04/26/olhando-os-dados-das-cotas-em-uma-universidade/" target="_blank">Marcelo Soares indica alguns estudos da UFBA</a> sobre o impacto acadêmico da adoção de cotas sociais e raciais.</p>
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		<title>SOPA e PIPA são apenas o início do cerco à Internet</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 04:43:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não se iluda com o recuo do Congresso americano na questão do Stop Online Piracy Act. É apenas uma retirada estratégica, enquanto a indústria do entretenimento reorganiza suas prioridades e seu lobby para tentar passar algum projeto de lei que &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=486">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Não se iluda com o <a href="http://blogs.estadao.com.br/link/sopa-e-retirada-da-pauta-do-congresso-dos-eua/">recuo do Congresso americano na questão do Stop Online Piracy Act</a>. É apenas uma retirada estratégica, enquanto a indústria do entretenimento reorganiza suas prioridades e seu lobby para tentar passar algum projeto de lei que facilite o combate à pirataria. Pode ser, inclusive, que a proposta <a href="http://www.masurlaw.com/projects/summary-of-sopa-and-pipa/" target="_blank">SOPA e sua irmã PIPA</a> sejam bodes na esfera pública: cria-se um projeto de lei ridículo e absurdo, mas esse projeto absurdo se torna o diapasão que dá o tom ao debate, mesmo com a retirada dos projetos. Uma discussão que começa em premissas absurdas dificilmente termina num consenso baseado em premissas dotadas de coerência lógica.</p>
<p>Além disso, o projeto SOPA pode ter sido arquivado, mas o PIPA continua em andamento. Os dois projetos são muito parecidos. A diferença é que o SOPA foi proposto pelo equivalente da Câmara de Deputados, enquanto o PIPA é criação do Senado americano.</p>
<p>Governos no mundo inteiro ficariam extremamente felizes em ter mais controle sobre as atividades de seus cidadãos na rede mundial. Todo Estado tem como objetivo ampliar seu poder ao máximo &#8212; e este máximo é definido pela resistência dos cidadãos. O SOPA pode ter nascido da insatisfação da indústria do entretenimento com a pirataria, mas é certo que muitos políticos americanos viram no projeto uma oportunidade para ampliar os poderes do Estado sob uma justificativa razoável: proteger a propriedade e consequentemente, dizem seus defensores, empregos.</p>
<p>No Brasil, temos o projeto da <a href="http://trasel.com.br/?s=azeredo">Lei Azeredo</a>, que morreu em 2009 e ressuscitou ano passado, com muitas características semelhantes à SOPA/PIPA. Em ambos os casos, criam-se novos crimes no Código Penal, específicos para o mundo digital, mesmo que já existam leis tratando de crimes como estelionato, invasão de privacidade, violação de correspondência e infração de direitos autorais. No Brasil, o projeto de lei busca registrar toda atividade de um cidadão na Internet, criando um arquivo de informações que podem ser abusadas de várias formas, tanto pelo Estado, quanto pelos provedores de acesso. Nos Estados Unidos, a SOPA/PIPA facilita o estrangulamento das vozes que incomodem aos poderes políticos e econômicos, uma vez que permite a detentores de direitos autorais cortarem o financiamento ou sequestrar a URL de qualquer website acusado de infração de direitos autorais (sem precisar provar a infração na Justiça).</p>
<p>A verdade é que já existem instrumentos para a defesa dos direitos autorais nos Estados Unidos, como o <a href="https://www.eff.org/issues/dmca" target="_blank">Digital Millenium Copyright Act</a>, ou DMCA &#8212; que tem redundado em <a href="http://chillingeffects.org/" target="_blank">constantes abusos de poder</a>. Em vez de punir as pessoas e empresas que distribuem conteúdo protegido por direitos autorais para obter lucro com publicidade ou assinaturas &#8212; com o que concordo, pois pirataria é crime e crimes devem ser punidos &#8211;, o DMCA tem sido mais usado para obrigar desavisados que usam fotos sob copyright a mudar seus fundos de tela no Twitter. <a href="http://www.vice.com/read/pipa-supporters-copyright-violations" target="_blank">Crime que até mesmo defensores do SOPA/PIPA cometem</a>. Eu mesmo já recebi uma carta solicitando a remoção de material deste blog, através do DMCA (não lembro do que se tratava, devia ser alguma imagem).</p>
<p>Então, o que a indústria do entretenimento quer com o SOPA/PIPA, se já existe o DMCA? Quer mais poder para causar danos econômicos e tirar do ar os parasitas que armazenam arquivos ou divulgam links para arquivos de conteúdo protegido pelas leis de propriedade intelectual. Até aí, tudo bem. A indústria tem o direito de proteger seu capital e de reinvindicar melhores mecanismos para tanto.</p>
<p>O problema é que vão tentar tirar do ar também aqueles outros perigosos piratas que usam fotos protegidas em seus perfis do Twitter e Facebook, ou pessoas que editam um vídeo com música de fundo sob copyright e publicam no YouTube, porque o projeto de lei não dispõe penalidades contra denúncias equivocadas. Se um detentor de direito autoral envia um pedido de retirada de um blog ao Blogspot, por exemplo, e depois de uma longa e custosa batalha judicial conclui-se que não houve infração alguma, a multa é pífia. Lembram de quando o <a href="http://webinsider.uol.com.br/2007/01/09/youtube-bloqueado-conheca-boas-alternativas/" target="_blank">YouTube foi bloqueado no Brasil por causa de Daniela Cicarelli</a>? Pois esse tipo de acontecimento arrisca de se tornar cotidiano com a aprovação do SOPA ou PIPA.</p>
<p>O mecanismo do SOPA funciona mais ou menos assim:</p>
<ul>
<li>O procurador-geral dos Estados Unidos pode iniciar uma ação contra qualquer website estrangeiro que esteja infringindo direitos autorais detidos por americanos (digamos, o <a href="http://www.pcworld.com/businesscenter/article/248469/megaupload_takedown_proves_sopa_and_pipa_are_unnecessary.html" target="_blank">Megaupload</a>), ou que esteja facilitando essa infração (digamos, o Google, que lista resultados do Megaupload em sua busca). Seu escritório pode solicitar o bloqueio do website, ou o bloqueio de serviços de hospedagem usados pelo website, o bloqueio de resultados de buscas contendo links para o website, o bloqueio de transferências financeiras para os proprietários do website, ou o bloqueio de anúncios gerados automaticamente naquelas páginas.</li>
<li>Alternativamente, o próprio detentor dos direitos autorais pode enviar requisições a empresas de transações financeiras e de anúncios automáticos, para que parem de prestar serviços a um website que esteja roubando propriedade intelectual. Não é preciso uma ordem judicial para isso. As empresas de transações financeiras e de gerenciamento de anúncios podem aceitar ou não a requisição. Se não aceitarem interromper o fornecimento de serviços e for provado que houve infração de copyright, a empresa pode sofrer processos por não ter feito nada a respeito. Se interromperem a prestação do serviço, por outro lado, e se acabar provando que não houve infração alguma, essas empresas terão imunidade contra qualquer medida penal tomada pelo website prejudicado.</li>
</ul>
<div>
<p>Se você fosse uma empresa prestadora de serviços de transações financeiras (PayPal) ou gerenciamento de publicidade (Google Ads), que atitude tomaria ao receber uma requisição sob os auspícios do SOPA? O objetivo, neste caso, é cessar a transferência de recursos para websites que estejam cometendo crimes, de modo que tenham de cessar suas operações. Sabem em que outro caso a mesma estratégia foi usada? No caso do <a href="http://www.bbc.co.uk/news/business-11945875" target="_blank">vazamento de relatórios diplomáticos e militares do governo americano pelo Wikileaks</a>.</p>
<p>Além desses dois mecanismos principais, o SOPA ainda prevê penas maiores para espionagem industrial, penas ainda maiores para vazamentos de propriedade intelectual ligada ao governo americano e cria o cargo de adido de propriedade intelectual nas embaixadas dos Estados Unidos mundo afora.</p>
<p>O PIPA funciona de forma um pouco diferente, mas tem efeitos semelhantes ao SOPA. Mediante ordem judicial, websites acusados de infringirem direitos autorais terão seus endereços WWW amigáveis bloqueados e substituídos por uma tela como essa abaixo:</p>
<p><a title="SOPA/PIPA by marcelo träsel, on Flickr" href="http://www.flickr.com/photos/trasel/6738436927/"><img class="aligncenter" src="http://farm8.staticflickr.com/7166/6738436927_5e773ef975.jpg" alt="SOPA/PIPA" width="500" height="375" /></a></p>
<p>A ordem judicial também pode ser dirigida a serviços de transações financeiras e de compra de espaço publicitário, como no caso do SOPA. Além disso, o PIPA prevê que websites oferecendo &#8220;ferramentas de localização de informação&#8221; também possam ser ordenados a bloquear resultados de buscas. Como no caso SOPA, os serviços que tomarem as medidas ordenadas estarão imunes contra qualquer processo iniciado pelo website prejudicado.</p>
<p>O meu colega André Pase escreveu um bom <a href="http://www.andrepase.com.br/?p=84" target="_blank">FAQ sobre o impacto dessas leis no cotidiano</a>. Vou me dedicar à discussão das possíveis consequências políticas da aprovação destes mecanismos legais.</p>
<p>Em primeiro lugar, há uma disputa econômica no cerne dessas propostas de leis. A indústria do entretenimento quer proteger seus direitos autorais, os serviços baseados na Web querem continuar aproveitando os lucros gerados pelo imenso tráfego atraído por websites que oferecem conteúdo protegido sob copyright de forma gratuita. Em resumo, o SOPA/PIPA é um mecanismo que protege o dinheiro de Hollywood e de gravadoras em detrimento das liberdades civis não apenas dos americanos, mas de habitantes de todos os países do mundo.</p>
<p>Este ataque às liberdades civis é o ponto realmente importante. O resto é briga entre duas gangues corporativas. Não se pode deixar que as balas perdidas atinjam a democracia.</p>
<p>O primeiro risco da aprovação dessas propostas seria a proibição ou restrição do uso de ferramentas que permitem a um indivíduo acessar a Internet sem ser rastreado. Ferramentas como o navegador <a href="https://www.torproject.org/" target="_blank">Tor</a>, usado por dissidentes em ditaduras do mundo todo para acessar informações proibidas por seus governos sem risco de prisão ou morte. Basta algum advogado em Hollywood decidir que o Tor &#8220;facilita&#8221; a infração de copyright e a rede de colaboradores pode ser desligada, deixando a luta contra ditaduras aleijada.</p>
<p>Nos países democráticos, o mecanismo SOPA/PIPA pode ser usado para calar vozes divergentes. Suponhamos que um pequeno jornal ou blog esteja denunciando desmandos do governo ou de corporações. Ou mesmo publicando material sensível sobre um candidato num ano de eleições. Suponhamos que esse website financia suas operações com anúncios contextuais do Google Ads e recebe doações via PayPal. Bastaria o político ou empresa envolvidos enviarem avisos de infração de direitos autorais a esses dois serviços, para cortar a fonte de recursos do website divergente e prejudicar ou inviabilizar suas operações.</p>
<p>O PayPal e o Google não seriam nem mesmo obrigados a avisar antes de interromper os serviços, ou mesmo a levar em conta um esclarecimento do website prejudicado quanto à suposta infração. Se não for ouvido por seus prestadores de serviços, o website teria de buscar a liberação de seus recursos na Justiça, o que custa muito dinheiro e se arrasta por semanas e meses. Provavelmente, receberia uma compensação ao provar que o político ou empresa denunciante agiu de má-fé. Porém, a compensação nem sempre cobre os custos de um processo e, de qualquer forma, até a situação se resolver, o website poderia ter sua capacidade de denúncia prejudicada pela falta de verba. Ou poderia simplesmente retirar as informações sensíveis da Web, para deixar de ser perseguido.</p>
<p>Para forjar uma infração de direitos autorais, bastaria a um político ou empresa deixar um comentário com link para a cópia de um filme ou disco. Empresas e políticos com mais recursos poderiam adotar estratégias mais sofisticadas, inclusive com invasão de sistemas de publicação. O jogo político e o jogo corporativo são pesados. Por exemplo, na época do #forasarney, o senador <a href="http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2009/07/28/interna_politica,130133/index.shtml" target="_blank">contratou uma equipe de jornalistas para publicar comentários falsos</a> em seu apoio nas redes sociais e blogs.</p>
<p>Em resumo, os projetos SOPA/PIPA oferecem ao governo americano e a corporações multinacionais um mecanismo para calar seus adversários. Não admira que o Congresso americano tenha abraçado as propostas com carinho, até a reação popular fazê-los recuar. Esse tipo de lei é o sonho de qualquer poderoso.</p>
<p>Infelizmente, mesmo que o SOPA/PIPA seja arquivado, outros projetos virão. Os governos e empresas vão promover ataques constantes às liberdades civis na Internet, sempre na esperança de pegar o povo distraído. É preciso estar atento e não esmorecer na resistência. Acompanhar processos legislativos é chato e cansativo, mas tanto no caso da Lei Azeredo, quanto no caso do SOPA/PIPA, a reação popular tem mantido o poder do Estado sobre a Internet em cheque.</p>
</div>
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		<title>O patrimonialismo brasileiro e os ataques ao vestibular</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Jan 2012 19:36:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais um vestibular da UFRGS passou e mais uma vez há choro e ranger de dentes pela dificuldade das provas. É bastante ilustrativo ler o artigo de um pai indignado com o enunciado da redação, publicado em Zero Hora, e &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=477">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mais um vestibular da UFRGS passou e mais uma vez há choro e ranger de dentes pela dificuldade das provas. É bastante ilustrativo ler <a href="http://wp.clicrbs.com.br/clicvestibular/2012/01/12/pai-critica-prova-de-redacao-da-ufrgs/?topo=77,1,1,,,77">o artigo de um pai indignado com o enunciado da redação, publicado em Zero Hora, e os respectivos comentários</a>.</p>
<p>O tal pai indignado parece ver uma conspiração de intelectuais de esquerda para humilhar os estudantes gaúchos &#8212; os de direita ou &#8220;centro&#8221;, supõe-se, pois os de esquerda certamente teriam sido devidamente corrigidos politicamente em casa:</p>
<blockquote><p>Para dividir as tarefas de eliminação, nos anos anteriores podem ter sido as questões de física, matemática, química ou todas elas juntas&#8230; Este ano, tudo indica que o destaque será a redação, mas tem que parecer politicamente correto, de preferência exaltando nossa nacionalidade, nossas origens lusófonas, quem sabe, a nossa língua!</p></blockquote>
<p>O argumento principal deste pai é tão pedestre que nem merece uma refutação a sério. É mais interessante analisar o argumento subjacente não apenas a este, mas à maioria dos artigos de cidadãos indignados com a dificuldade dos vestibulares e outros concursos públicos (provas da OAB costumam ser um bom alvo): a de que as exigências acadêmicas deveriam se rebaixar à competência média dos candidatos. Exigir desempenho excelente se tornou algo análogo ao <em>bullying</em>.</p>
<p>É um sintoma da visão patrimonialista que a elite brasileira tem do Estado. O ingresso na universidade pública é visto pelas classes média e alta, cujos adultos com filhos em idade universitária em grande maioria foram alunos dessas instituições, como um tipo de cargo hereditário. É como um título de nobreza. O vestibular é apenas uma formalidade útil para manter o<em> campus</em> livre de egressos do ensino público.</p>
<p>As mesmas pessoas que lamentam a dificuldade do vestibular, muitas vezes, criticam o sistema de cotas. Conferir privilégios é antidemocrático, a isonomia está prevista na Constituição, trata-se de racismo reverso blablablá. Todavia, o desejo de que as provas do vestibular tenham a dificuldade &#8220;adequada&#8221; à capacidade dos candidatos é quase uma proposta de cotas. Cotas para &#8220;esforçados&#8221;. Ou seja, cotas para jovens de classe média ou alta que cumpriram direitinho seu papel social em boas escolas e bons cursinhos e boas famílias e como assim, Papai Noel não deixou presente?</p>
<p>As pessoas dizem a verdade quando afirmam criticar as cotas sem base em racismo. Brasileiros têm preconceito contra pobres de todas as cores e etnias. O problema das cotas não é tanto favorecer negros, índios, cafuzos e mamelucos &#8212; por acaso, a maioria dos pobres &#8212; quanto outorgar privilégios a pobres. Privilégios são para a elite. A ralé que fique com os brioches.</p>
<p>As cotas raciais têm por objetivo compensar justamente o desequilíbrio social causado pelo excesso de privilégios da elite, que se apossou do Estado desde a época das capitanias hereditárias e ainda mantém feudos em determinadas esferas. A compensação nem mesmo está sendo concedida às pessoas que sofreram mais diretamente com a exclusão, mas a seus filhos e netos. É uma forma de reequilibrar a sociedade, garantindo a igualdade de oportunidades para todos que a democracia exige.</p>
<p>Conceder uma vantagem aos setores excluídos econômica, social e politicamente é o contrário de adequar a dificuldade das provas à capacidade intelectual média. Passar a mão na cabeça dos estudantes esforçados não é democracia, é seu oposto. É tornar o social particular, o público, privado. Um cidadão que se preze deveria ter vergonha de sequer cogitar fazer com que as instituições sociais se adaptem a seus problemas pessoais. (De fato, na Alemanha descobri que os brasileiros são conhecidos por tentarem esse tipo de coisa, incorrendo no desprezo dos nativos.)</p>
<p>Num país onde não haja a visão do Estado como um patrimônio particular, as pessoas talvez pudessem perceber que alguns recursos são limitados e, no caso das vagas em universidades públicas, o interesse social recomenda sua distribuição aos mais intelectualmente competentes. Uma prova difícil seleciona as pessoas mais capazes de usar os recursos públicos para o desenvolvimento da sociedade. Ponto. Não importa sua origem social. Quem não tiver a competência exigida pode se esforçar mais e ter sucesso no ano seguinte. Isso é democracia, isso é igualdade de oportunidades.</p>
<p>O argumento mais perigoso presente nessas catilinárias contra o vestibular é o de que os pobres jovens se esforçam e acabam humilhados pelo fracasso. Os adultos que dizem essas coisas estão prestando um desserviço aos jovens.</p>
<p>Em primeiro lugar, a vida é dura. Descobrir que existem coisas além de nossa competência é muito saudável. De fato, algumas coisas estarão para sempre além da competência de algumas pessoas. No meu caso, por exemplo, jogar futebol e ficar milionário ainda jovem. Faz parte. Essa percepção incentiva o aprimoramento das próprias capacidades e a regulação das próprias expectativas.</p>
<p>Em segundo lugar, não há humilhação alguma em fracassar num concurso. É frustrante esforçar-se e não atingir os objetivos, mas também faz parte. Algumas pessoas têm mais talento para determinadas coisas e as obtém com mais facilidade. Bom para elas. O choque de ter o ego arrastado na lama por uma questão que outras pessoas parecem responder sem maiores dificuldades pode ser uma boa fonte de energia para nos esforçarmos mais. Algumas coisas realmente são muito difíceis e não podemos obtê-las por mais que desejemos e nos esforcemos. Triste, mas apenas os seus pais se importam. O cosmos não está nem aí. Melhor mudar de objetivos.</p>
<p>Em resumo, o vestibular é uma excelente oportunidade para os jovens se tornarem adultos. E os adultos não deveriam lhes negar essa oportunidade.</p>
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		<title>Ainda sobre a foto de Dilma</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Dec 2011 21:28:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Träsel</dc:creator>
				<category><![CDATA[assuntos pessoais]]></category>
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		<description><![CDATA[Este artigo foi enviado à Zero Hora como resposta ao artigo de Moisés Mendes sobre esta fotografia da presidente Dilma Roussef. O texto não foi publicado, nem creio que será, então reproduzo-o aqui. Ao final, há o artigo original de &#8230; <a href="http://trasel.com.br/?p=473">Continue lendo <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Este artigo foi enviado à Zero Hora como resposta ao artigo de Moisés Mendes sobre <a href="http://sul21.com.br/jornal/2011/12/tortura-em-branco-e-preto-tempos-de-noite-e-nevoa/">esta fotografia da presidente Dilma Roussef</a>. O texto não foi publicado, nem creio que será, então reproduzo-o aqui. Ao final, há o artigo original de Moisés Mendes, para quem não leu.</em></p>
<p>Em novembro de 1970, eu não havia nascido e, na verdade, meus pais nem mesmo se conheciam. Nasci em 1978 e minha primeira lembrança política é assistir ao funeral de Tancredo Neves na televisão.</p>
<p>Em 1989, fazia boca de urna o candidato a presidente Luís Inácio Lula da Silva em Lajeado, junto a um tio sindicalista, quando fomos abordados por um fiscal do Tribunal Regional Eleitoral e até hoje creio que meu tio só não foi detido porque estava acompanhado de uma criança.</p>
<p>Em 1992, aos quinze anos, além de dormir lendo clássicos da literatura e acordar pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara, acompanhava as notícias sobre o escândalo envolvendo o presidente Fernando Collor. Por alguma razão, não participei da passeata pelo impeachment. Devo ter ficado em casa lendo Cem Anos de Solidão.</p>
<p>Em 1996, com a redução para 16 anos da idade mínima para obter título eleitoral, pude votar em Raul Pont para prefeito de Porto Alegre, após quase uma década de colaboração espontânea em campanhas para o Partido dos Trabalhadores. Em 1998, com a eleição de Olívio Dutra para governador, participei do carnaval fora de época que tomou conta de Porto Alegre.</p>
<p>Com o PT no poder, vieram as decepções. Acabei me afastando da militância partidária descomprometida que mantivera até então. Passei a dirigir essa energia para causas mais específicas, como a resistência ao projeto da Lei de Cibercrimes do senador Eduardo Azeredo, em 2008.</p>
<p>Nada disso rendeu uma imagem que revelasse minha alma, que dispensasse legendas, que estivesse para mim como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras. Não tenho uma foto enfrentando generais da ditadura, como a imagem da presidente Dilma, nem haveria por quê: minha contribuição para a história da política brasileira foi circunstancial e modesta. Não tenho vantagens para contar.</p>
<p>Todavia, não acredite na conversa de que é preciso ser torturado e enfrentar o poder com altivez e destemor, para que valha a pena deixar de lado o Luan Santana e o tratamento da acne em nome da participação política. Mesmo uma contribuição bissexta e molenga como a que dei à construção da democracia no Brasil rende memórias que conferem um pouco de paz de espírito e satisfação consigo mesmo na vida adulta. Nem todos podem ser heróis, mas todos podem e devem ser cidadãos.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>11 de dezembro de 2011 | N° 16914<br />
ARTIGOS<br />
A foto de Dilma, por Moisés Mendes*</p>
<p>Enquanto alguém fotograva Dilma Rousseff naquele interrogatório da Auditoria Militar do Rio, você fazia o quê? Você que era jovem, com idade para duelar com a ditadura e cometer loucuras em nome da democracia ou de uma revolução, o que você fazia naquele novembro de 1970 enquanto Dilma encarava os militares com o nariz empinado e você nem sabia que Dilma existia?</p>
<p>Admita: você, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos não faziam quase nada. Eu confesso: tinha 17 anos, dormia escutando as baladas da Rádio El Mundo de Buenos Aires e acordava pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara. Como nos empurraram para a alienação naquele 1970, em Alegrete ou em Porto Alegre!</p>
<p>E agora você, que tem hoje a idade de Dilma em 1970, que tem 22 aninhos, que já postou mais de mil fotos suas no Facebook: você já tem uma foto síntese como aquela de Dilma? Tem a imagem que revele sua alma, que dispense legendas, que esteja para você como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras? Você tem uma imagem que tenha condensado tudo de você?</p>
<p>Se ainda não produziu a foto reveladora de sua presença neste mundo, não se penitencie. A foto de Dilma é única. Não acredite na conversa de que todos os jovens daquele 1970 enfrentavam a ditadura com o olhar de laser de Dilma. Os jovens de 1970 estavam anestesiados por quatro anos de regime militar, pelo Tri no México, pela censura.</p>
<p>A edição número 115 de Veja, de 18 de novembro daquele 1970, trazia esta capa: Em quem os jovens votaram. A reportagem tratava de uma pesquisa com mil jovens de 18 a 22 anos, de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, que votavam pela primeira vez no dia 15 daquele mês para eleger senadores e deputados.</p>
<p>Algumas revelações da pesquisa: 52% não sabiam por que os militares fizeram o golpe de 64; outros 25% disseram que o golpe evitara o comunismo; 71% achavam que o povo estava feliz com a situação do país; 51% dos jovens gaúchos votariam na Arena (o partido do governo) e 44% no MDB (da oposição); e 55% de todos os pesquisados no país votavam “por obrigação” (só 10% entendiam que votar era um direito). E quem tinha sido Oswaldo Aranha? 83% não tinha a menor noção. E qual seria a nota para o presidente Médici? Um 8,4. E assim por diante.</p>
<p>Na eleição, de 70, o MDB levou uma lambada de dois votos por um da Arena. A Arena elegeu 41 senadores e 223 deputados federais. O MDB, apenas seis senadores e 87 deputados. No Estado, Daniel Krieger e Tarso Dutra, arenistas, foram eleitos senadores com o dobro de votos dos emedebistas Paulo Brossard e Geraldo Brochado da Rocha.</p>
<p>Foi uma goleada do partido do governo, com o voto faceiro dos jovens. Vão dizer que havia a campanha do voto nulo, que o país ainda estava confuso, que faltava coesão ao MDB, aos democratas e às esquerdas. Nessa confusão, os jovens eram, como escreveu Mino Carta, o diretor de Veja, “pouco politizados, muito práticos e eventualmente ingênuos”.</p>
<p>Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto do regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.</p>
<p>A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra.</p>
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