Adeus, Facebook. Há quanto tempo, blog?

Estou deixando o Facebook.*

A razão principal é a necessidade de assumir uma posição contra os princípios éticos duvidosos, para dizer o mínimo, com que a diretoria deste serviço de rede social opera. A gota d’água ocorreu recentemente, quando, ao entrar no Facebook, fui apresentado a uma janela de diálogo instando-me a confirmar a identidade de um contato. A empresa proíbe o uso de pseudônimos e está em seu direito — além do mais, tenho certa tendência a concordar com essa política. Por outro lado, transformar os usuários em alcaguetes para manter essa política, sobretudo sem explicar na janela de diálogo as consequências de se confirmar ou desconfirmar a identidade de um contato, é verminoso.

E verminose é o que não falta ao Facebook, como evidenciam os exemplos abaixo:

E isso para ficar apenas nos casos mais recentes. Não apenas as práticas do Facebook são verminosas, mas o próprio Zuckerberg, apesar da postura de bom-moço (alguns diriam coxinha), é ele próprio um verme que já admitiu considerar seus clientes “pobres estúpidos” e usar ativamente arquiteturas de informação e design maliciosos para levá-los a compartilhar mais dados pessoais do que têm consciência.

Além de não concordar com o capitalismo selvagem promovido pelo Facebook e considerar a usabilidade péssima — com especial predileção pela impossibilidade de bloquear convites para eventos, i.e., spam –, tenho objeções filosóficas ao conformismo incentivado por seus formulários. Sobre isso, porém, prefiro ficar com as palavras de Jaron Lanier, pioneiro da computação e filósofo, retiradas do livro Gadget: você não é um aplicativo (li em inglês, comprem o livro em português, se quiserem saber mais):

Something like missionary reductionism has happened to the internet with the rise of web 2.0. The strangeness is being leached away by the mush-making process. Individual web pages as they first appeared in the early 1990s had the flavor of personhood. MySpace preserved some of that flavor, though a process of regularized formatting had begun. Facebook went further, organizing people into multiple-choice identities, while Wikipedia seeks to erase point of view entirely. If a church or government were doing these things, it would feel authoritarian, but when technologists are the culprits, we seem hip, fresh, and inventive. People will accept ideas presented in technological form that would be abhorrent in any other form. It is utterly strange to hear my many old friends in the world of digital culture claim to be the true sons of the Renaissance without realizing that using computers to reduce individual expression is a primitive, retrograde activity, no matter how sophisticated your tools are.

A acusação de Lanier, é claro, pode ser dirigida a quase todos os serviços de redes sociais e outras ferramentas, não apenas ao Facebook — no livro, ele critica até mesmo o Unix –, mas a rede de Zuckerberg é o pior caso até agora. Não posso curar a verminose, mas posso ao menos tentar não disseminá-la. Sair do Facebook é uma política de redução de danos.

Em termos estritamente pessoais, por outro lado, eliminar a conta no Facebook é uma forma de diminuir a dispersão e dedicar o pouco tempo livre a coisas mais permanentes, como este blog. Se é para gastar os intervalos de trabalho nos quais poderia estar com minha família ou amigos, que seja com algo realmente meu, não produzindo conteúdo para o bilionário Sr. Zuckerberg vender a anunciantes. Então, esperem a retomada deste espaço nas próximas semanas, com novas e emocionantes aventuras!

Além disso, será um canal a menos para publicar bobagens das quais me arrependerei depois. Um blog exige ao menos uma releitura do texto antes de se apertar o “publicar”. E será uma forma a menos de estar acessível a todo tipo de desconhecido com demandas descabidas, porque, enfim.

*Na verdade, vou manter uma conta sem nenhuma informação pessoal, porque meu emprego exige que gerencie páginas e esteja disponível para alunos no Facebook. Todavia, manterei a atualização dessa conta restrita ao mínimo possível.

14 ideias sobre “Adeus, Facebook. Há quanto tempo, blog?

  1. Giuseppe Zani

    Apoiado. Me identifico especialmente com o trecho sobre “diminuir a dispersão e dedicar o pouco tempo livre a coisas mais permanentes”. Volta pro blog!
    ab Zani

  2. marcus

    Eu já havia tomado esta mesma decisão no ano passado. Não pelo mesmo motivo que o teu, mas simplesmente para deixar minha presença na web, em sites de cunho não-profissional, a menor possível.

  3. Douglas S.

    Fiquei curioso a respeito da crítica ao Unix.

    Quanto ao publicar bobagens, veio no `fortune’ de hoje:
    “Write drunk; edit sober.”
    ? Ernest Hemingway

  4. wille

    Você leu o relato do Tiago Dória sobre o livro “Confissões de uma ex-funcionária do Facebook”? http://ur1.ca/9ri1y Eu já não tinha conta no facebook, mas fiquei ainda mais enojado depois de saber quanto o ambiente de trabalho da empresa é machista.

    O que mais me preocupa no Facebook é a tendência de toda a web estar indo para dentro dele. Hoje muitos sites e blogs usam exclusivamente o sistema de comentários do Facebook. Já vi até site que exige login no facebook para poder ser acessado, eventos (inclusive protestos!) divulgados exclusivamente no facebook e banda que exige um “Curtir” para poder baixar o disco. Muita gente abandonou blogs, instant messengers, flickr, etc pela “facilidade” do facebook.

    A riqueza da web vem justamente da descentralização e da liberdade de colocar conteúdo na rede. Não precisamos pedir permissão para ninguém para colocar um site online e podemos acessar o que quisermos. Porém quando uma única ferramenta centraliza toda a interação do usuário na rede, se abre margem para vários perigos.

  5. Träsel Autor do post

    Pois é, Wille, gostaria de ter elaborado um pouco mais o meu texto de crítica ao Facebook, inclusive para incluir essa questão de como eles estão destruindo tudo o que é bom e belo na Web. Aliás, é a mesma objeção que tenho a aplicativos para tablets.

  6. Fabricio

    Puxa, muito obrigado. Prestou ótimo serviço! Me perguntam vez ou outra sobre Facebook, nunca tenho paciência de explicar, mas agora basta mandar o link desse post. Aliás, não era você que escrevia aquele Garfada? Pô, aproveita e retoma ele também!

  7. Helena

    Concordo 100% com os teus argumentos. Eu saí no ano passado porque ia começar uma faculdade nova e, com tempo apertado para trabalhar-estudar-cuidar da vida pessoal, precisava me concentrar em coisas realmente importantes. Além disso, fiquei revoltada com uma história que tinha lido sobre um rapaz entrou com um processo contra o facebook e pediu que revelassem todas as informações que tinham sobre ele. O que surpreendeu é que informações e fotos que ele tinha apagado do perfil estavam gravadas no “arquivo” do facebook. Ou seja, mesmo que a gente saia, apague, as informações já estão todas à disposição do Zuckerberg. Ainda bem que nunca usei meu nome e sobrenome verdadeiros no facebook, mas não posso concordar em dar informações a um site sobre minha vida e não poder apagá-las.

  8. ana luiza

    Nem sabia que você tinha Facebook… só sigo no Twitter…
    O “Face” tá um saco mesmo, mas você bem que podia ter mantido uma conta com a opção de curtir já que os seus conteúdos são sempre interessantes. Mas enfim, existe vida fora do Facebook e se você começar a postar mais no blog vai ser até melhor… Eu acompanhava o antigo blog e agora vou ficar mais de olho nesse.

  9. Carmencita Descalça da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

    ¡Ay, Schatzi!
    Que triste!

  10. adelson clayton da silva

    o face book esta me pedindo pra reconhecer as pessoas na lista de amigos para indentificar minha indentidade como eu vou lembrar o nome de cada uma me ajuda como faço para identificar minha identidade de um jeito mais façil

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>