Arqueologia da cibercultura

Relendo A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, publicado por Walter Benjamin em 1936, um trecho que passou despercebido nas leituras anteriores chamou a atenção na tese “Exigência de ser filmado”:

Durante séculos, houve uma separação rígida entre um pequeno número de escritores e um grande número de leitores. No fim do século passado, a situação começou a modificar-se. Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente de leitores começou a escrever, a princípio esporadicamente. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção “Cartas dos leitores”. Hoje em dia, raros são os europeus inseridos no processo de trabalho que em princípio não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional, uma reclamação ou uma reportagem. Com isso, a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor. Num processo de trabalho cada vez mais especializado, cada indivíduo se torna bem ou mal um perito em algum setor, mesmo que seja num pequeno comércio, e como tal pode ter acesso à condição de autor.

Não há quase nenhuma questão atual da Comunicação sobre a qual a Escola de Frankfurt não se tenha debruçado, ou ao menos comentado en passant. A citação de Benjamin resume a lógica da comunicação mediada por computador, cujo aprofundamento é responsável pelos debates em torno de webjornalismo participativo, blogs, Web 2.0, construção colaborativa do conhecimento e situação profissional do jornalista que hoje se travam.

7 ideias sobre “Arqueologia da cibercultura

  1. Sergio

    Melhor cadeira que eu tive na faculdade foi com uma professora muito foda que passou uns 4 meses só colocando a gente a estudar Walter Benjamin.

    Acho que é uma das únicas coisas que eu lembro da faculdade, fora a cerveja no bar ali na frente.

  2. Fabrício Muriana

    Não lembrava desse trecho também.
    Tem tudo a ver com uma fala da Iná Carmargo Costa sobre o papel do revolucionário ao longo da revolução. Ela argumenta que nesse momento, o escritor vira professor, poeta, jornalista, revisor, crítico. Que as posições não se distinguem. E nessa fala ela não coloca um argumento original, mas cita o Benjamin.
    Bem legal relembrar isso.

  3. Emiliano

    Na real, esse trecho também me impressiona pelo grau de desenvolvimento da Alemanha (assim interpreto os “europeus”). Como assim, é raro que eles “não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional”? Pior que, né.

  4. Erica

    Li Walter Benjamin na disciplina Estética e Cultura de Massas, no curso de Comunicação Social. Lembro especialmente deste texto, que na minha opinião, é atualíssimo. Os exemplos são incontáveis.
    abs,

  5. Pingback: A ideologia do autor « BaixaCultura

  6. Pingback: Queime depois de ler « Noves fora

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