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Asno em pele de leão

O burro em pele de leão

Uma fábula de Esopo muito apropriada para o contexto político do Brasil dos dias 28 e 29 de outubro de 2019:

Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais irracionais. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: “Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!”

Assim, algumas pessoas ignorantes que, graças à empáfia, dão a impressão de serem as tais, são desmascaradas pela própria tagarelice.

Esopo: fábulas completas, p. 85

Na mesma toada, Esopo oferece esta outra fábula com o mesmo personagem principal:

[A fábula mostra] que você, que é pobre e gente comum, não deve imitar o comportamento dos ricos, para não ser alvo de caçoadas nem correr riscos.

Envolto numa pele de leão, um burro fazia todo mundo pensar que ele era um leão e, assim, punha em fuga homens e rebanhos. Mas, logo que soprou uma rajada de vento, a pele se despegou e o burro ficou nu. Aí, então, todos acorreram e o surraram com varas e porretes.

Esopo: fábulas completas, p. 84

O capitalismo e a sobrevivência da espécie humana são contraditórios

Hoje começa a semana de Mobilização Global pelo Clima — a cordialização encontrada pelos brasileiros para traduzir a Global Climate Strike, ou greve global pelo clima. O movimento é encabeçado pela estudante secundarista sueca Greta Thunberg, que desde 2018 vem faltando às aulas nas sextas-feiras para protestar em frente ao parlamento de seu país contra a imobilidade dos adultos frente ao desastre climático iminente.

Ninguém melhor do que ela mesma para explicar suas ideias. O vídeo abaixo é de seu discurso na Conferência das Nações Unidas para o Clima em 2018:

Acione a tradução em português clicando no ícone da engrenagem e depois em “legendas”

A situação é grave. Se a humanidade já houvesse parado de emitir CO2 na atmosfera, ainda assim os efeitos do estrago até o momento se fariam sentir nas próximas décadas, até o sistema retornar ao equilíbrio. Todavia, não apenas seguimos usando combustíveis fósseis, criando rebanhos e nos engajando noutras atividades econômicas geradoras de gases do efeito estufa, como, segundo o Instituto Scripps de Oceanografia, a concentração de CO2 na atmosfera segue em tendência de alta, mesmo após chegar ao nível alarmante de 415ppm alguns anos atrás.

Média anual de temperatura da Terra entre 1850 e 2018 (showyourstripes.info)

A essa altura, somente pessoas desinformadas duvidam que a atividade econômica humana é a causa do aquecimento global — não é culpa delas, pois são vítimas da propaganda dos lobbies do petróleo, do carvão, do agronegócio e outros, como mostram Naomi Oreskes e Erik Conway no livro Merchants of doubt. Os acionistas e executivos dessas empresas não esperam convencer ninguém de que o aquecimento global é mentira, mas apenas semear dúvida suficiente para emperrar qualquer tipo de iniciativa política prejudicial a seus planos de comprar uma nova casa na praia ou mais um Camaro.

Infelizmente, os representantes do povo nos parlamentos costumam ter ouvidos muito sensíveis a qualquer ideia proferida por potenciais doadores de campanha, então o lobby vem tendo sucesso em barrar a transição para um sistema econômico adequado ao planeta onde vivemos. Os diplomatas discutem e assinam cartas de intenções, protocolos ou tratados sobre o aquecimento global há mais de 30 anos. Nesse período só vimos a exploração dos recursos naturais e as emissões de gases do efeito estufa crescerem. Os governos de quase todo o mundo falharam para com seus cidadãos nessa questão.

Soluções tampouco virão de qualquer empreendimento comprometido com os ideais capitalistas. Os liberais econômicos e os conservadores garantem que o mercado vai encontrar uma forma de se evitar o apocalipse sem a necessidade de abrirmos mão de nenhum conforto proporcionado pela sociedade de consumo. De fato, o contexto oferece enormes oportunidades para se fazer dinheiro com produtos e serviços “sustentáveis” — desde “ecobags” até o mercado de créditos de carbono. A maior parte do discurso sobre “sustentabilidade” é apenas mais um parasitismo da vitalidade social por interesses econômicos, como ocorreu com os hippies e com o movimento punk. Esse discurso também serve para dar a impressão de compromisso do capital com o planeta e desarmar os espíritos quanto à exploração inconsequente dos recursos naturais.

Todas as promessas de proteção ao meio ambiente celebradas em acordos internacionais são quebradas sistematicamente pelas grandes corporações, porque seus incentivos vão no sentido de agradar aos acionistas. Uma investigação recente demonstrou, por exemplo, que o mercado de créditos de carbono, através do qual nações poluidoras podem pagar a países como o Brasil para reduzir o desmatamento, virou uma balbúrdia.

Os socialistas e, em particular, os comunistas também são incapazes de oferecer alguma solução mais permanente. Como bem observaram Deleuze e Guattari, o contrário do capitalismo não é o comunismo, mas a esquizofrenia. O comunismo é tão comprometido com a racionalidade moderna quanto o capitalismo — a mesma racionalidade moderna que inventou a indústria e aposta suas fichas na tecnologia para resolver todo e qualquer problema da humanidade. Não devemos jamais nos esquecer de que o comunista Aldo Rebelo, ministro da Ciência e Tecnologia de Dilma Rousseff, era um negacionista do aquecimento global.

A péssima notícia é que mesmo as soluções propostas por muitas organizações ambientalistas são na melhor das hipóteses paliativas: trocar o automóvel pela bicicleta, reduzir o consumo de carne, evitar o consumismo, tomar banhos mais curtos no chuveiro elétrico, plantar árvores. O indivíduo costuma ser o foco das tentativas de sensibilização. Embora as empresas sejam as maiores fontes de poluição, elas em geral passam incólumes pelo bom-mocismo das campanhas de governos, entidades supranacionais e algumas organizações ambientalistas. Quando muito, há algum chamado a boicotes a corporações específicas, ou alguma observação sobre infrações à legislação ambiental. Adotar hábitos sustentáveis em nível individual não é pouco, mas também não é o suficiente.

Somente os grupos de ecologistas mais radicais, como a Sociedade Secreta Silvestre ou Extinction Rebellion, costumam apontar a verdade inconveniente de que o problema é o capitalismo.

Embora as famosas palavras atribuídas ao chefe Seattle tenham na verdade sido escritas por um roteirista de cinema nos anos 1970, elas oferecem um diagnóstico preciso do espírito humano sob o racionalismo moderno:

Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come

Outra boa descrição de como o espírito empreendedor se relaciona com a natureza está no desenho animado Lórax, de 2012. Assistam.

Estou aqui citando falsos discursos de sábios indígenas e animações de Hollywood porque a questão, no fundo, é muito simples de compreender, mas quem quiser algo mais profundo pode tentar Achille Mbembe, Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, ou mesmo Heidegger. Todos explicam como o mercado se mostrou absolutamente incapaz de lidar com os problemas ambientais causados pela atividade econômica baseada em tecnologia e voltada à sociedade de consumo.

É claro, o ser humano causa impactos no meio ambiente desde o neolítico. Os gelos eternos da Antártida guardam registros dos fornos metalúrgicos romanos. Todas as florestas europeias são recentes, no sentido de terem sido cortadas e renascido várias vezes ao longo da ocupação do continente. Antes da Modernidade, no entanto, a capacidade humana de degradar a natureza era inferior à capacidade da natureza se regenerar. Primeiro, porque nossos números eram baixos e teriam ficado assim se a ciência não inventasse antibióticos, fertilizantes e outras formas de garantir e prolongar a nossa existência. Segundo, porque antes do espírito tecnocientífico predominar não tínhamos meios tão facilmente reprodutíveis e pouco dependentes de mão de obra para dominar a natureza.

Tampouco havia tecnologias de comunicação e administração capazes de sustentar o funcionamento de corporações multinacionais gigantescas. Enquanto o artesão ou até mesmo as empresas locais médias estão sujeitas a prestar contas diretamente aos habitantes do local onde operam, as sociedades anônimas contemporâneas têm por objetivo, justamente, evitar qualquer responsabilização. Quem produzisse cerveja contaminada na Alemanha medieval era condenado à morte por afogamento num barril da própria cerveja. Alguém pode se sentir tentado a linchar o CEO da Vale do Rio Doce por causa dos desastres em Mariana e Brumadinho, mas ele, no fim das contas, é apenas um testa de ferro para redes de empresas e indivíduos que se expandem e interconectam, privatizando o lucro e socializando o prejuízo.

Patrões e empregados obedecendo a padrões formulados por ideologias tão alienadas da realidade cotidiana de humanos enquanto seres humano, e tão focadas na ideia de ausência de sentido (fora o lucro pelo lucro), que nem mesmo dialogam com ou respondem aos interesses peculiarmente humanos. O contrato foi formulado e entramos nele abdicando da humanidade que nos permitiria avaliá-lo e modificá-lo. Ele é um mecanismo que se autossustenta: uma forma de inteligência independente da vontade humana.

Eduardo Pinheiro, Tzal

Não há como se evitar o desastre climático dentro dos sistemas políticos propostos pela racionalidade moderna, porque, como um câncer, seu único objetivo é o crescimento desenfreado. Embora alguns seres humanos se vejam como o volante da máquina e outros se vejam como suas engrenagens, todos nós somos, na verdade, o combustível. Não somos nós que precisamos aumentar a população em 2,1 filhos por mulher todos os anos para manter nosso número estável, ou fazer o PIB crescer 1 ponto percentual a cada 2 milhões de empregos a serem criados. Quem precisa disso é essa inteligência independente a que costumamos chamar de capitalismo.

Se quisermos ter algum futuro como espécie, precisamos encontrar alternativas aos modelos econômicos embasados na noção de progresso eterno e ilimitado derivados do racionalismo moderno. Isso significa abrir mão de muitos confortos e até mesmo de noções profundamente arraigadas sobre família, entre outros enormes desafios pessoais e sociais. Não tenho imaginação suficiente para pensar nesses caminhos possíveis, mas tenho certeza de uma coisa: ou mudamos nossos valores e comportamento agora, já, imediatamente, ou nossos filhos e netos vão sofrer no futuro.

O noticiário apresenta estatísticas de modo simplório

A manchete do jornal Zero Hora de 10 de setembro é alarmante:

É de fato motivo para alarme a possibilidade de uma interpretação totalmente equivocada de números passar por todo o processo editorial de um diário tradicional e relevante como a Zero Hora e acabar na manchete. Infelizmente, o jornal em questão não é o único a tratar dados e estatísticas de maneira simplória no Brasil.

O leitor mais atento já terá percebido um dos problemas à primeira vista: seria de se esperar a ocorrência de mais mortes em trechos de pista simples das rodovias, porque a proporção de rodovias duplicadas é muito baixa no Rio Grande do Sul. Conforme a própria reportagem:

O Estado conta com apenas 623 quilômetros de rodovias de pista dupla, segundo dados da última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada em 2018. A soma representa somente 7,1% dos 8.855 quilômetros avaliados pelo órgão em solo gaúcho.

Se as rodovias duplicadas representam apenas 7,1% do total, seria improvável elas concentrarem uma proporção muito alta das mortes em acidentes automobilísticos. O fato de 84% das mortes ocorrerem nas estradas de pista simples não oferece nenhuma informação relevante ao leitor. A manchete está, no mínimo, mal redigida. Porém, ela está errada? A resposta a essa pergunta exigiria uma análise que não tenho condições de realizar no momento, mas posso das algumas indicações.

Em primeiro lugar, os números apresentados pela reportagem são irrelevantes, porque comparam maçãs com bananas. Uma rodovia só é passível de duplicação quando está saturada, ou seja, quando um número muito alto de carros transitam nela. Muitas das rodovias de pista simples são pouco usadas. A probabilidade de acidentes aumenta junto com o número de veículos transitando. Uma estrada na qual circulam 20 mil veículos por dia não pode ser comparada a outra na qual circulam apenas mil sem algum ajuste matemático, assim como não podemos comparar o número absoluto de homicídios de municípios com populações tão desproporcionais quanto Porto Alegre e Cacique Doble.

Uma abordagem mais sensata para saber se morrem mais pessoas em rodovias de pista simples ou nas duplicadas é criar uma taxa de mortes por veículo. O levantamento mais recente do Volume Diário Médio (VDM) de tráfego nas estradas gaúchas oferecido pelo DAER é de 2017. Com esses dados, é possível criar uma taxa de mortes para mil ou 10 mil veículos por rodovia e comparar a taxa média das duplicadas com a das não duplicadas. Infelizmente, os relatórios do DAER estão em formato PDF, o que torna a análise muito trabalhosa.

Além disso, no relatório do DAER as rodovias estão divididas em trechos e nem todas têm o VDM medido. Com sorte, os trechos das estradas de pista simples onde ocorrem mortes merecem mais interesse do Estado e têm seus VDMs medidos, caso contrário seria necessário realizar ainda outro ajuste — talvez extrapolando as mortes por quilômetro para o número de quilômetros totais existentes, ou algo do gênero. Também seria necessário descobrir os trechos exatos de cada morte. Como não há dados consolidados à mão e os disponíveis são uma bagunça, é complicado fazer essa análise.

Embora as taxas calculadas dessa maneira oferecessem uma aproximação maior à realidade do que a comparação de números absolutos ou porcentagens, ainda seria necessário confirmar se a principal variável para a ocorrência de acidentes fatais é a presença ou ausência de duplicação na pista. Embora seja um fator importante, ele não é isolado, pois em geral as rodovias duplicadas recebem mais investimentos e maior atenção à manutenção do que estradas de pista simples nos grotões do estado. Talvez uma taxa de mortalidade mais alta nas rodovias sem duplicação, caso verificada, pudesse ser explicada por outros fatores, como a má qualidade da sinalização ou do asfalto. Ou, se verificada uma taxa de mortalidade maior nas rodovias duplicadas, ela talvez pudesse ser explicada pela velocidade média mais alta dos veículos. Ou, ainda, a mortalidade poderia ser explicada por variáveis sem relação alguma com a rodovia, como o nível de álcool no sangue do condutor.

Se alguma das considerações acima foi levada em conta, a reportagem de capa da Zero Hora não informa. Em todo caso, estatísticas costumam descrever fenômenos complexos e o jornalismo é avesso à complexidade. O resultado é vermos com frequência os números apresentados por instituições públicas tomados por seu valor de face.

Lavra da Mina do Recreio

A Mina Guaíba é um desatino

O cotidiano não oferece com frequência um simbolismo tão adequado para se discutir a insensatez do ser humano quanto o projeto de se construir a maior mina de carvão do Brasil bem em cima dum assentamento de Sem-Terra dedicado à agroecologia.

Localização da Mina Guaíba e outros pontos de interesse conforme o RIMA.

O lobby de executivos da Copelmi, integrantes de diferentes esferas de governo, engenheiros e outros diretamente interessados em lucrar com a extração de carvão vem se opondo às críticas de organizações de defesa do meio ambiente, pequenos agricultores e profissionais de áreas relacionadas à ecologia. Em geral, o debate vem se focando em questões técnicas apresentadas nos estudos de impacto ambiental em análise pela FEPAM. Há metais pesados no carvão? As barreiras previstas para evitar vazamento de água contaminada para o Jacuí são suficientes? O regime de ventos da região vai encher a capital de poeira? Onde serão reassentadas as famílias de pequenos agricultores?

Embora todas essas sejam questões importantes, elas se restringem aos impactos diretos da mineração de carvão. No entanto, temos nesse caso um embate entre duas visões de mundo: por um lado, uma abordagem imediatista animada por um espírito típico do capitalismo do século XIX, embasada numa visão restrita do meio ambiente; por outro lado, uma nova compreensão de progresso na qual evitar o apocalipse climático é uma prioridade acima do lucro.

Em setembro de 2018 a ONU já alertava para a “ameaça existencial direta” imposta à espécie humana pelo desastre climático iminente. Em 2013, a concentração de CO2 na atmosfera terrestre superou pela primeira vez a encontrada nos registros geológicos do plioceno, há mais de 2 milhões de anos. Noutras palavras, estamos gerando as mesmas condições de uma época na qual os oceanos estavam 25 metros acima do nível atual e as temperaturas eram muito mais altas do que lavouras desenvolvidas nos 10 mil anos de agricultura estão acostumadas.

A única maneira de se evitar esse destino é cortar pela metade, imediatamente — e “imediatamente” aqui significa “hoje mesmo” — a queima de combustível fóssil, além de reduzir a zero o uso dos derivados de carvão e petróleo para gerar energia até 2060. Como se pode perceber, já perdemos a oportunidade de evitar a degradação do clima da Terra e adentramos um período de emergência no qual o melhor que podemos esperar é uma redução de danos.

Em vista desse cenário desolador, a proposta de extrair 166 milhões de toneladas de carvão até 2050, ano em que deveríamos ter abandonado completamente os combustíveis fósseis, é um desatino.

Impactos diretos

Antes de mais nada, é preciso lembrar que não existe mineração limpa e a carbonífera é especialmente propensa a desastres. Embora os materiais de divulgação do projeto criados pela Copelmi, com seus tons de verde e vacas pastando em áreas recuperadas, possam dar a impressão de que revolver centenas de hectares de solo a profundidades de cem metros é trivial, a operação significa enterrar um petroleiro de lixo tóxico numa região onde vive quase metade da população do Rio Grande do Sul e bem ao lado de sua principal fonte de água potável.

Conforme os representantes da própria Copelmi, o carvão da Mina Guaíba seria apenas marginalmente melhor do que o disponível em Candiota, isto é, teria um teor de cinzas de “apenas” 45%. A empresa se diz capaz de beneficiar o carvão e reduzir o teor de cinzas para cerca de 25%. O problema é que este beneficiamento envolve a lavagem do siltito em que ele está entremeado, gerando um efluente rico em enxofre e, portanto, ácido.

Um estudo realizado em minas de carvão abandonadas de Santa Catarina registrou variação de pH entre 2,49 e 3,88 nos efluentes, algo entre o suco de limão e o suco de laranja. Também foram encontradas concentrações significativas de metais como alumínio, bário, cromo, cobre, magnésio e titânio, fósforo e enxofre. A lista de elementos químicos cujos traços foram encontrados nas amostras inclui quase metade da tabela periódica.

A empresa minimiza os riscos, argumentando que vai reaproveitar a água contaminada e construir diques para evitar a mistura dos efluentes com as águas de possíveis enchentes. A região do Delta do Jacuí é alagadiça — um dos motivos pelos quais é propícia à cultura do arroz, aliás –, então os temores não são infundados. Entre os cenários de “risco moderado” identificados no Estudo de Impacto Ambiental, vários envolvem algum tipo de contaminação da água, como no caso de um rompimento de adutora ou inundação da mina, por exemplo.

Página 16-61, folha 551 do EIA

A altura planejada para os diques é de dez metros, bastante acima dos níveis históricos de alagamentos na região. Todavia, as décadas durante as quais a mina deve operar vão trazer efeitos climáticos imprevistos, devidos ao efeito estufa para o qual o próprio empreendimento vai contribuir.

Além disso, conforme o Estudo de Impacto Ambiental, a estação de tratamento de efluentes vai se localizar fora do dique de proteção contra enchentes, provavelmente na área em azul da imagem abaixo:

Os diques previstos delimitam a área em vermelho, segundo o EIA.

Por se tratar de uma região de banhado, na qual existe tanto água superficial quanto no subsolo, as possibilidades de desastre se multiplicam. A própria operação da mina vai exigir a drenagem do aquífero existente debaixo do solo, desperdiçando uma reserva de água potável para abastecer Porto Alegre e outras cidades da região, em caso de seca ou acidente que inviabilize a captação no Guaíba. Essa drenagem também deve causar problemas para quem tiver poços artesianos no entorno, pois a mina vai causar um cone de depressão do lençol freático num raio de 14 quilômetros.

O processo de cavar a mina, em si, vai liberar poeira contendo enxofre, que pode gerar chuvas ácidas, e todas as outras substâncias listadas no estudo citado acima. Uma reportagem da TVE, realizada em 2004, mostra como funcionam as minas a céu aberto no Rio Grande do Sul:

A partir dos 2:30 se pode ver uma explosão jogando partículas na atmosfera.

Nos Estados Unidos, minas de carvão a céu aberto em Massachusetts e Pensilvânia provocam nuvens de poeira que podem chegar a quase 50 quilômetros de distância e conter substâncias prejudiciais ao organismo como arsênio e chumbo, além das partículas de fuligem, que causam doenças respiratórias. Conforme Flávio Lewgoy, químico e professor do Departamento de Genética da UFRGS, cada tonelada de carvão gaúcho queimado libera 300g de vapor de mercúrio na atmosfera, seis vezes mais do que o carvão estadunidense — a entrevista foi concedida em 2011, Lewgoy faleceu em 2015.

Um último impacto direto — entre inúmeros deixados de lado neste artigo para controlar a extensão do texto — é a expulsão das cerca de 70 famílias do assentamento Apolônio de Carvalho. Em dez anos, os antigos Sem-Terra implantaram a agricultura ecológica no local e participam da maior rede de produção de arroz orgânico do Brasil. O conhecimento técnico adquirido pelas famílias no período será muito provavelmente desperdiçado, porque terras adequadas para o plantio de arroz não se encontram em qualquer lugar. Além disso, mesmo quando recuperado, o terreno nunca mais será propício para o cultivo de orgânicos.

Não é preciso colocar em dúvida a seriedade da Copelmi e dos engenheiros envolvidos no projeto da Mina Guaíba quanto à proteção ambiental para se questionar a sensatez de instalar um empreendimento de grande potencial poluidor sobre um aquífero, às margens de um dos principais afluentes do lago Guaíba, ao lado de uma área de preservação ambiental. Parafraseando Carl Sagan, uma proposta extraordinária como a da Mina Guaíba exige razões extraordinárias. Como não se trata da última jazida de carvão do mundo, ou mesmo do Rio Grande do Sul, é difícil considerar os benefícios à sociedade maiores do que o passivo ambiental a ser gerado.

Impactos indiretos

Embora mencione a transformação em gás natural e outros produtos numa hipotética planta carboquímica, o plano mais concreto da Copelmi é queimar o carvão da Mina Guaíba em Candiota, ou em alguma das termelétricas da Região Metropolitana. Desde a ditadura militar, por exemplo, se tenta implantar a usina Jacuí 1 em Charqueadas, para a qual a Copelmi se comprometeu em 2001 (ver atas 31 e 35) a fornecer combustível.

Mesmo se o carvão da Mina Guaíba fosse queimado em Ouagadougou, no entanto, a Região Metropolitana de Porto Alegre viria a sofrer suas consequências, porque a atmosfera da Terra é uma só. A exportação do combustível poderia evitar as adversidades mais imediatas do uso do carvão para gerar energia, como o lançamento de enxofre e metais pesados no ar, mas não importa onde sejam emitidos os gases do efeito estufa, eles contribuem para o aquecimento global.

Se realmente a Copelmi for capaz de tornar o carvão medíocre que pretende explorar num combustível com mais ou menos 25% de cinzas, os 166 milhões de toneladas do mineral vão liberar mais de 200 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, ou cerca de metade das emissões anuais brasileiras por todas as fontes — de automóveis particulares a petroquímicas –, conforme o Sistema de Estimativa de Emissão de Gases.

A possível transformação do mineral em gás, caso a planta carboquímica venha de fato a ser construída, não elimina magicamente o carbono. Não existe “forma mais sustentável e ambientalmente eficiente de se utilizar o carvão”, como dizem os Estudos de Impacto Ambiental apresentados pela Copelmi. Existem, na melhor das hipóteses, tecnologias menos ruins para se aproveitar o pior combustível usado pela humanidade. É importante frisar que não há filtro capaz de evitar essas emissões, no máximo é possível adotar medidas paliativas, como plantar florestas para sequestrar o CO2.

Uma árvore é capaz de sequestrar 21,7 quilos de carbono por ano, ou 651 quilos em 30 anos. A Copelmi teria de plantar mais de 300 mil árvores apenas para equilibrar o carbono liberado pelo carvão da Mina Guaíba ao ser queimado, mas a operação toda ainda vai emitir CO2 no bombeamento de água para drenagem do subsolo, no maquinário de escavação, no transporte do mineral até seus compradores, no trânsito gerado todos os dias por seus mais de mil funcionários se deslocando até o trabalho e até mesmo no plantio de eventuais florestas. Além disso, os produtos da planta carboquímica vão ser usados como insumos noutras indústrias, que por sua vez vão emitir gases do efeito estufa, num ciclo que vai longe.

Na documentação apresentada à Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul (FEPAM) e nas declarações públicas de seus representantes, a Copelmi promete recuperar o terreno onde será lavrada a mina e nada mais. A área de 4,5 mil hectares, em tese, poderia acomodar mais de 5 milhões de árvores. Todavia, o plano de compensação ambiental descrito em meras três páginas entre as milhares de páginas de estudos de impacto ambiental não aborda a contribuição da Mina Guaíba para o efeito estufa, mas se limita a apresentar o cálculo previsto em lei, segundo o qual o empreendimento deverá destinar 0,45% de seu custo de implantação, ou cerca de R$ 2 milhões, na seguinte ordem de prioridade:

  1. Regularização fundiária e demarcação das terras
  2. Elaboração, revisão ou implantação de plano de manejo
  3. Aquisição de bens e serviços necessários à implantação, gestão, monitoramento e proteção da unidade, compreendendo sua área de amortecimento
  4. Desenvolvimento de estudos necessários à criação de nova unidade de conservação
  5. Desenvolvimento de pesquisas necessárias para o manejo da unidade de conservação e área de amortecimento.

O Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), disponível mais adiante no mesmo documento, prevê:

O que se propõe para o empreendimento é a reabilitação em nível parcial da mina, em sua porção elevada do bota fora, constituída por material estéril e solo vegetal. Nos taludes do bota-fora será feito plantio de herbáceas, e herbáceas/arbustivas nas bermas, onde é possível depositar uma camada de solo que suporte esta vegetação e possibilite desenvolvimento sem riscos de tombamentos. Nas demais áreas, propõe-se a reabilitação quase originais do terreno, a partir de revegetação de cobertura para que seja buscada a estabilidade geotécnica.

Página 15-17, folha 459

Nas páginas seguintes, o PRAD discute em termos genéricos as maneiras pelas quais as árvores podem vir a ser organizadas, mas não especifica uma quantidade, nem muito menos discute a questão da compensação das emissões causadas pelo produto da mina. O plano terá duração de dois anos a partir do encerramento da operação, após o que a Copelmi poderá dar outro destino ao terreno. A empresa se exime de fazer propostas, considerando “prematuro” apontar alguma possibilidade de uso futuro. Alguns exemplos de terrenos recuperados pela própria empresa incluem pastagens, lavouras de soja ou aterros sanitários.

Em suma, a empresa e muitos ambientalistas vêm discutindo apenas os efeitos diretos e imediatos da mineração de carvão, mas não seus efeitos indiretos. Após propiciar a emissão de milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, lançar poeira sobre a Região Metropolitana e efluentes no rio Jacuí durante décadas, a Copelmi vai enterrar o lixo, dispensar os funcionários, passar o terreno adiante e seguir para o próximo empreendimento, caso o desastre climático ainda permita algo parecido com a nossa sociedade em 2050.

E a economia, estúpido?

Até mesmo o Fórum Econômico Mundial concorda que as fontes de energias renováveis, como eólica e solar, são uma alternativa viável aos combustíveis fósseis. Conforme a entidade, o custo nivelado da energia (LCOE) do carvão gira em torno de US$ 100 por MWh, enquanto o custo da energia solar baixou de US$ 600 para os mesmos US$ 100 nos últimos anos, devido ao aprimoramento dos painéis e baterias. O LCOE da energia eólica é de aproximadamente US$ 50. Conforme a Resenha Energética Brasileira de 2018, o preço médio do MWh em leilões de 2017 foi de R$ 99 para a energia eólica e R$ 146 para a solar, contra R$ 196 da hidrelétrica e R$ 213 do gás natural.

O Atlas Eólico do Rio Grande do Sul, publicado em 2002, estimou o potencial eólico do Estado em 41,7 TWh por ano, ou 15% do potencial total do Brasil. A metade Sul do Estado, justo a mais pobre, é especialmente propícia a esse tipo de empreendimento. Já a irradiação solar na região da Mina Guaíba é de 4,4 KWh por metro quadrado, na média diária, conforme o Centro de Referências para as Energias Solar e Eólica. Noutras palavras, se os 4,5 mil hectares fossem cobertos de painéis solares, poderiam gerar quase 200 MWh por dia, o suficiente para suprir eletricidade a mais de 28 mil residentes na região, segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica de 2017.

A mineração de fato é, como dizem os representantes da Copelmi, uma atividade geradora de empregos essencial para diversas indústrias. Com efeito, a maioria das comodidades da vida contemporânea, como smartphones e plásticos, dependem da extração de minerais como nióbio e petróleo. Além disso, o Rio Grande do Sul se encontra em decadência econômica e a exploração das jazidas de diversos minérios, como chumbo, fosfato e titânio, poderiam reativar economias locais e ajudar a equilibrar as contas do Estado.

É uma falácia, porém, igualar a mineração de carvão na Região Metropolitana à de metais raros como o nióbio. Embora o Rio Grande do Sul esteja assentado sobre bilhões de toneladas de carvão, o mineral é de baixa qualidade. Conforme o Serviço Geológico do Brasil, a maior parte do carvão próximo da superfície se apresenta na forma de turfa e linhito, que não servem para a produção de coque, material estratégico para a metalurgia. Um relatório do mesmo órgão indica que o mineral da jazida a ser explorada pela Copelmi é de tão baixa qualidade que seu transporte para longe não seria economicamente viável.

Quanto ao suposto progresso trazido pela mineração, uma consulta à lista do IDH-M no Rio Grande do Sul não traz muitos elementos para otimismo. Das cidades onde a Copelmi tem minas, nenhuma se encontra em posição de destaque no ranking de qualidade de vida: Charqueadas é a mais bem posicionada, em 112º lugar, seguida por Cachoeira do Sul (142º), Arroio dos Ratos (321º, mesma posição de Candiota, onde opera a empresa pública Companhia Riograndense de Mineração) e, finalmente, Butiá (350º). Os índices são semelhantes aos de municípios vizinhos com outros perfis econômicos, como São Jerônimo (330º) ou General Câmara (368º).

A Copelmi também acena com geração de empregos e impostos. Conforme o RIMA, a obra vai gerar um pico de 331 empregos diretos em seu terceiro ano, enquanto 1.154 pessoas vão ser empregadas por 23 anos nas atividades de mineração — se os parceiros chineses da empresa não trouxerem operários clandestinos, como fizeram em Candiota. Cabe lembrar, porém, que no momento a agricultura ecológica emprega 72 famílias no local — ou 216 pessoas, se cada família tiver apenas um filho ajudando na lavoura –, sem gerar impacto ambiental algum. Além disso, quando a mina se esgotar, os 1.154 funcionários passarão a ser desempregados, enquanto a agricultura, em especial a familiar, vai seguir gerando empregos até a extinção do ser humano. O histórico da atividade na região carbonífera do Rio Grande do Sul, em termos de geração de riqueza para a população local, é pífio.

O RIMA também prevê o pagamento de R$ 218 milhões em tributos a cada ano, embora em audiências públicas os representantes da empresa tenham falado em R$ 148 milhões, dos quais R$ 23 milhões seriam destinados ao município de Eldorado do Sul via ISS e R$ 59 milhões, ao Estado, na forma de ICMS. A metade restante iria para os cofres federais. No entanto, a Lei 15.047/2017, que definiu a Política Estadual do Carvão Mineral e criou o Polo Carboquímico gaúcho, prevê em seu artigo 10º, inciso III, “conceder tratamento tributário diferenciado para a extração e beneficiamento do carvão mineral, bem como para a produção de seus derivados”. Exatamente as atividades que a Copelmi pretende desenvolver na Mina Guaíba.

Mesmo se a mineração gerar algumas dezenas de milhões em impostos para o Estado, é preciso incluir na avaliação do empreendimento os possíveis custos gerados aos cofres públicos por um eventual aumento na internação hospitalar causado pela poluição atmosférica. Um estudo analisou as consequências da poluição atmosférica em São Paulo e Rio de Janeiro entre 2006 e 2011, concluindo que seu custo para os cofres públicos foi de R$ 82 milhões (ou R$ 129 milhões, se o número for atualizado pelo IPCA). Qualquer atividade que lance partículas inaláveis na atmosfera, aumente o tráfego de veículos ou envolva queima de combustíveis fósseis vai penalizar em algum grau o sistema de saúde pública. Para piorar a situação, o sistema de monitoramento atmosférico da FEPAM está sucateado e relatórios de qualidade do ar não são publicados há mais de um ano.

O Pró-Carvão, como ficou conhecida a Lei 15.047, faz parte de um esforço político mais amplo para tornar o Rio Grande do Sul um Estado minerador. Desde sua aprovação no final de 2017, quatro grandes projetos de mineração começaram a ser gestados. O ex-governador José Ivo Sartori (MDB) prometeu e seu sucessor, Eduardo Leite (PSDB), assumiu o compromisso de acelerar o licenciamento ambiental dos empreendimentos do setor. Como de costume, isso se traduz em redução das oportunidades de debate com a sociedade. Uma audiência pública para discutir a Mina Guaíba foi suspensa pela Justiça Federal, porque a documentação do EIA/RIMA não estava completa. Além disso, o projeto nunca foi discutido pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente, embora tenha sido protocolado na FEPAM em 2014, como se pode confirmar pela leitura das atas de plenárias.

Curiosamente, o governo que incentiva o uso de carvão mineral por um lado tenta vender o Estado para investidores estrangeiros do outro lado com um discurso amigável às energiais renováveis. Investidores de nações ricas cada vez mais exigem respeito ao meio ambiente para colocar alocar seu dinheiro num país. É preciso reconhecer que o ex-governador Sartori criou o programa RS Energias Renováveis em 2016, garantindo linhas de crédito para empreendimentos no setor. A eletricidade eólica e a solar só não mereceram uma lei específica prevendo incentivos fiscais, como seu irmão mais velho, o carvão mineral.

Sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra

O projeto da Mina Guaíba oferece dois mundos futuros muito diferentes ao povo gaúcho. Por um lado, o retorno a uma economia do século XIX, baseada em exploração da natureza para o agrado de acionistas anônimos, sem preocupações de longo prazo com o meio ambiente. Por outro lado, o avanço para um modelo econômico preocupado em buscar atividades de menor impacto ambiental e focado em garantir qualidade de vida, através de energias renováveis e agricultura ecológica. O primeiro modelo leva ao desastre climático. O segundo contribui para o evitar e pode servir de modelo a outras regiões do mundo.

Infelizmente, tem prevalecido entre os gaúchos o modelo que leva ao apocalipse. Na contramão das recomendações de cientistas e instituições supranacionais, o Rio Grande do Sul vem incentivando a mineração, substituindo as áreas plantadas com arroz, milho, trigo, feijão e outras lavouras pela monocultura de soja e os agrotóxicos que colocam em risco abelhas e videiras, enquanto forma cérebros em sua ampla rede universitária e os envia para outras regiões do Brasil ou para o exterior. Tecnologias sociais inventadas aqui, como o Orçamento Participativo, são abandonadas em favor de arremedos tecnicistas de participação cidadã importados do Vale do Silício.

A luta contra a Mina Guaíba é a oportunidade dos gaúchos que desejam viver na visão alternativa de futuro se fazerem ouvir. Eu nunca me vi como um ambientalista — adoro o caos urbano, até gosto de passar um ou dois dias no campo, mas prefiro os animais se estiverem assados. A perspectiva de meus netos terem de lidar com as consequências da Mina Guaíba me radicalizou. Não poderia ficar quieto sobre isso frente à coragem de pessoas como a estudante sueca Greta Thunberg, sob pena de passar o resto da vida envergonhado pela covardia — na hipótese otimista da mudança climática me permitir uma vida longa.

Uma solução infalível e acessível para salvar a humanidade

Hoje, 5 de junho, é Dia Mundial do Meio Ambiente. Em 2019, a ONU escolheu como tema da campanha a poluição atmosférica, responsável por milhares de mortes todos os anos, sem falar nos ambientes urbanos miseráveis de se viver gerados pelas emissões de automóveis, termelétricas, indústrias e agropecuária. O emporcalhamento progressivo da atmosfera prejudica nossa qualidade de vida e contribui para o desastre climático iminente.

Trocar o carro pela bicicleta, separar o lixo, consumir alimentos orgânicos, comprar roupas em brechós, abandonar os canudinhos de plástico, entre outras atitudes comuns de pessoas preocupadas com o meio ambiente são todas louváveis e necessárias, mas, infelizmente, mal arranham a superfície do problema. É impossível viver sem causar algum impacto ambiental e os seres humanos são propensos a causar danos enormes em comparação com outras espécies, sobretudo hoje em dia, quando o nível de conforto esperado é muito superior ao nível de conforto de que mesmo as classes abastadas desfrutavam há 200 ou 300 anos.

Além disso, navegar os conselhos muitas vezes contraditórios sobre as melhores formas de poupar o meio ambiente é oneroso e exige muita educação formal. É melhor lavar um pote de Nutella usado, para não contaminar o lixo seco, mesmo se a lavagem vai gastar água preciosa e cada mililitro de gordura polui vários litros de água? Esse tipo de questão surge a todo momento quando se está tentando separar lixo. Outra dificuldade é a tendência do ser humano a racionalizar a própria preguiça, dizendo a si mesmo que não vale a pena usar fraldas de pano no bebê, por exemplo, se ninguém mais faz isso e todos vamos nos ver soterrados em montanhas de urina gelificada com fezes embrulhadas de qualquer maneira.

Antinatalismo moderado

A meu ver, a solução ambiental mais eficiente, simples de explicar e acessível a qualquer pessoa é adotar um antinatalismo moderado. O filósofo David Benatar e grupos como o Movimento pela Extinção Voluntária da Humanidade são contrários à concepção de filhos porque, além de contribuir para a morte de outros seres e degradação geral da Terra, seria moralmente errado trazer novos humanos ao nosso vale de lágrimas. Não vou detalhar por que acho equivocada a crença moral dos antinatalistas, mas eles estão certos pelo menos em parte. O objetivo final do antinatalismo moderado não seria extinguir a espécie humana para benefício de todo o planeta — e talvez da própria humanidade –, mas uma redução voluntária da nossa população até níveis razoáveis.

Uma redução do número de humanos pela metade dos 7,7 bilhões atuais seria um excelente objetivo inicial. Paul Ehrlich afirma que os recursos naturais são capazes de sustentar 2 bilhões de seres humanos sem entrar em colapso.

A taxa de fertilidade necessária para a população se renovar é de 2,1 filhos por mulher. Se a média de filhos por mulher caísse abaixo desse patamar, a população terrestre passaria a decrescer. Se todas as mulheres passassem a ter apenas um filho a partir de amanhã, em alguns anos a população passaria a decrescer suavemente e, assim que todas as pessoas acima dos 20 anos vivas hoje fossem comer capim pela raiz, o número de seres humanos passaria a cair pela metade a cada geração. Em cerca de cem anos seria possível atingir a meta de reduzir pela metade nossa população.

Convencer todo mundo a ter apenas um filho é, claro, uma tarefa difícil, então o projeto de reduzir a humanidade pela metade levaria vários séculos. A China levou duas décadas para baixar a taxa de fertilidade para cerca de 1,6, mas é uma ditadura. O Irã, todavia, embora tenha um governo autoritário, conseguiu reduzir as taxas de fertilidade de mais de 6 filhos por mulher para abaixo de 2 em duas décadas, através de programas educacionais, garantia de contraceptivos gratuitos, apoio no planejamento familiar e fomento à pesquisa científica relacionada ao tema.

A lição do Irã é clara: se os governos tornarem a redução populacional uma prioridade, é possível em apenas uma geração chegar a um nível abaixo do ponto de reposição. A partir daí, basta aguardar e, em poucos séculos, a humanidade chegará à população sustentável de cerca de 2 bilhões de cabeças. Infelizmente, os governos tendem a ser contrários a esse tipo de proposta, porque estão a serviço da manutenção da economia, não da Terra. Agropecuária, indústria e serviços precisam de consumidores. Os sistemas de previdência e seguridade social precisam de contribuintes. Menos gente significa menos impostos, menos soldados e menos lucro.

Se adotado, o antinatalismo moderado causaria, cedo ou tarde, o caos econômico. É impossível manter o sistema atual sem o crescimento contínuo da população. Ao mesmo tempo, o sistema atual leva necessariamente ao apocalipse climático. Pode parecer uma escolha difícil, mas a mim parece claramente melhor viver num sistema diferente do que ser extinto. No entanto, as gerações atuais vêm passando a fatura climática para os netos dos meus netos para usufruir das benesses da sociedade de consumo. De qualquer perspectiva, a decisão tem de ser nossa. Contar com alguma tecnologia futura que evite o desastre causado pelo efeito estufa é apenas raciocínio motivado e otimismo exagerado.

No sistema capitalista tecnocientífico atual, mesmo se um indivíduo adota a permacultura e procura viver uma vida com o menor impacto possível, a maioria das decisões segue dependendo de outras instituições, como governos e corporações, cujos incentivos vão no sentido de manter o status quo. O impacto é muito baixo no quadro geral e me parece muito mais difícil convencer uma pessoa a se mudar para um lugar no meio do mato, para viver numa casa de barro sem eletricidade e cagar numa latrina, do que a convencer a ter apenas um filho, nenhum filho ou adotar uma criança. Adotar a permacultura causa um desconforto enorme para alguém acostumado ao ambiente urbano, enquanto restringir o número de filhos na verdade poupa trabalho e ainda garante uma vida mais tranquila economicamente para o indivíduo.

Além disso, nada impediria as pessoas que desejassem muito ter um filho de concretizar o sonho. Quem fosse menos egoísta do que eu — tenho uma filha de nove anos — poderia abrir mão desse sonho para preservar o meio ambiente. Quem fosse realmente abnegado poderia ao mesmo tempo contribuir para o projeto antinatalista e oferecer uma vida digna aos filhos das pessoas em más condições econômicas, adotando crianças. As pessoas poderiam inclusive ter um filho natural e adotar quantas crianças mais quisessem, caso desejassem ter famílias grandes. A meu ver, todo mundo sairia ganhando.

A proposta antinatalista oferece ainda a vantagem de se alinhar às demandas das mulheres por um abandono da ideologia maternalista patriarcal, segundo a qual elas nasceriam com um instinto voltado à procriação e ao cuidado das crianças. Essa ideologia muitas vezes se manifesta na forma de pais, tias, avós e amigas questionando sobre casamento e filhos, cobranças que fazem muitas mulheres se sentirem em débito com a sociedade quando decidem nunca ter filhos. Sob o antinatalismo moderado, essas mulheres seriam celebradas como heroínas sociais.

De fato, uma das principais estratégias de comunicação do antinatalismo moderado seria incentivar com veemência toda mulher ou casal que se mostrasse propenso a não produzir filhos. Ao mesmo tempo, repreender a parentalha que insiste em cobrar netos, sobrinhos, ou casamento. Os antinatalistas moderados com acesso a algum canal de comunicação influente poderiam multiplicar essa inversão do discurso sobre a família na esfera pública.

A segunda estratégia principal consistiria em incentivar programas de planejamento familiar, seja votando em parlamentares comprometidos com o tema, demandando governos por maior atenção ao problema, ou contribuindo com organizações da sociedade civil focadas na questão através de voluntariado ou doações.

Eu sei. O antinatalismo moderado, se não parece uma proposta radical demais, soa a um plano fantasioso, porque vai contra fatores biológicos, psicológicos, religiosos, filosóficos, políticos e até mesmo econômicos. No entanto, as propostas atuais para se evitar o desastre climático não sofrem dos mesmos defeitos, dependendo da boa vontade não apenas das pessoas, mas dos governos e corporações? E mesmo as pessoas de maior boa vontade, as que decidem viver usando a menor quantidade possível de recursos naturais, causam um impacto pífio no quadro geral.

Abrir mão de ter filhos, ou pelo menos mais de um filho, depende somente dos indivíduos e tem uma influência muito mais longa e profunda sobre o ecossistema. A contribuição de cada potencial vida humana que deixa de vir ao mundo para evitar a extinção da espécie é infalível.

Para que serve um curso de Humanas?

A resposta à pergunta “para que serve um curso de Humanas?” depende, basicamente, da visão de mundo da pessoa à qual a questão é dirigida. Pela mesma razão, a própria pergunta denuncia a ideologia do questionador. Em geral, quem questiona a serventia das humanidades vê o mundo sob uma perspectiva utilitarista, muitas vezes associada a uma posição política reacionária.

Como bem apontou a minha amiga Katarina Peixoto no Facebook, não se responde ao que não deve ser questionado:

A universidade existe para ser excelente e isso deveria bastar. Não basta porque o Brasil resolveu dar um tiro na cabeça e agora estamos às voltas com esse inferno que é lidar com suicida. Realmente, não sei e não tenho tempo, agora, de enfrentar o problema de se devemos ou não prestar contas do que fazemos, à sociedade. No que me concerne, a tarefa é rematadamente impossível. Em primeiro lugar, não é praticável e, em segundo, eu não quero perder minhas amizades.

A quem, em sã consciência, fora da filosofia, pode interessar saber o que é um predicado e por que a estrutura clássica da proposição perdeu o seu enjeu? E as razões por que isso ocorreu, e por que podemos antever a obsolescência lógica da cópula, na LAP? A quem interessa escavar a prioridade semântica sobre as vestimentas gramaticais, em Port-Royal? E a natureza da mente, vamos lá, em Elisabeth da Bohemia? A filósofa seria uma humeana avant la lettre (como uma comentadora fina detecta) ou seria uma cartesiana hard-core (como eu penso que era)? Quem, na fila do pão, quer saber do argumento da distinção real e da leitura que a filósofa da Bohemia fez desse argumento? E a vontade, ela incide direta, ou indiretamente, na asserção? Qual a implicação de uma leitura ou de outra? Vale dizer, na Quarta Meditação e em Port-Royal (também em Spinoza, na Ética)?

Isso dito, mas considerando a guerra do governo Bolsonaro contra as universidades, talvez valha a pena fazer um esforço para explicar a relevância do ensino de Humanas e contradizer a visão reacionária utilitarista mais pedestre. A partir dessa perspectiva, somente os cursos universitários com alguma “aplicação prática” devem ser incentivados ou receber investimento público, por dois pressupostos principais:

  • No nível individual, oferecem mais oportunidades de emprego ao egresso da universidade
  • No nível social, a educação de engenheiros, programadores, farmacêuticos, agrônomos e outros profissionais do gênero gera riqueza

Noutras palavras, as humanidades, artes e outras disciplinas seriam inúteis porque não formariam empreendedores nem técnicos para trabalhar em bancos, empreiteiras, metalúrgicas, latifúndios, entre outras empresas de setores economicamente importantes. Como é necessário gerar riqueza, para gerar postos de trabalho, para empregar a população, para fazer a economia girar, para gerar impostos, para financiar o Estado, os utilitaristas consideram um desperdício investir dinheiro público nessas áreas.

É claro, nem todo utilitarista considera as Ciências Humanas uma perda de tempo — apenas os utilitaristas ignorantes ou ingênuos pensam assim.

Em primeiro lugar, algumas das disciplinas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), consideradas pelos utilitaristas cursos “sérios” e valorizadas pelo mercado, estão cheias de pesquisas sem nenhuma aplicação prática direta ou mesmo aparente. A diferença entre uma tese ridícula na Matemática e uma tese ridícula nas Letras é que pessoas sem nenhuma formação universitária relevante conseguem decifrar pelo menos o título do trabalho no segundo caso e desmerecer o tema de pesquisa.

Esse tipo de crítica em geral parte de reacionários se apropriando de uma perspectiva utilitarista para criticar campos de estudo científico considerados progressistas, como os estudos de gênero ou a teoria crítica, por exemplo. Curiosamente, esses conservadores ignoram as ideias de seus próprios ídolos sobre a ciência. Friedrich Hayek, por exemplo, entendia a evolução cultural em termos darwninistas. De seu ponto de vista, a variedade na cultura era essencial, porque nunca se pode saber qual inovação biológica ou cultural vai oferecer uma vantagem a uma espécie ou grupo.

Pesquisas sem nenhuma aplicação clara no presente podem se mostrar úteis no futuro. A natureza produz todo tipo de características biológicas possíveis, ao acaso. Algumas delas se mostram úteis e permanecem, enquanto outras desaparecem sob os estratos geológicos. Podemos encarar as universidades como máquinas de produção de ideias variadas, algumas das quais vão se mostrar adequadas ao ambiente, outras, não. Assim como na natureza, para se encontrar um traço biológico útil, é preciso arcar com o excesso, com o erro, nas ciências também se deve aceitar a produção de uma variedade exuberante de ideias, para garantir a geração daquelas capazes de aplicação prática no futuro.

Além disso, muitas das contribuições das humanidades para o empreendimento científico em geral e para a economia em particular são frequentemente obscurecidas. Há muitos estudos antropológicos sobre as culturas de povos indígenas, por exemplo. Alguns desses estudos podem parecer bizantinos aos olhos de utilitaristas — por que deveríamos nos preocupar com a filosofia dos mbyá-guarany, se vivemos numa sociedade urbana pós-industrial?

Talvez porque, ao observar a atividade dos karaí, ou curandeiros, o antropólogo pode registrar o uso de certas ervas medicinais. A seguir, um pesquisador de farmacologia pode se basear nesses registros para encontrar o princípio ativo de determinada erva e criar uma nova droga, a qual pode gerar riqueza. Quando isso acontece, porém, a disciplina de Farmácia ganha “pontos” na escala utilitarista, enquanto a Antropologia segue considerada uma atividade, na melhor das hipóteses, capaz de gerar leituras pitorescas.

Numa perspectiva cotidiana e de curto prazo, também, as Ciências Humanas também apresentam contribuições. O cientista da computação Shane Parrish, cujo weblog sobre modelos mentais e processo decisório influencia muitos executivos de Wall Street, relatou em entrevista recente a Sam Harris como as humanidades lhe fizeram falta quando entrou no mercado de trabalho:

Parrish assumiu um emprego num escritório de inteligência canadense logo após sair da faculdade, poucos dias antes dos atentados de 11/9. Em meio ao caos na agência, com a entrada de centenas de novos funcionários, ele se viu promovido a gerente em pouco tempo. Neste ponto, descobriu que a matemática e a programação, as quais tinham sido o foco de seu curso universitário e lhe arranjado um emprego, não eram suficientes para desempenhar suas novas funções, e se voltou para as artes e humanidades.

É um bom negócio para as empresas, porque elas podem contratar pessoas capazes de contribuir quase imediatamente, mas, dentro de quatro ou cinco anos, você está numa função diferente e essa função pode ser ou não afim às suas habilidades aos conteúdos que aprendeu na faculdade. O problema é que você fica inclinado a ver o mundo através dessas lentes. Existe o provérbio antigo segundo o qual “todo problema se parece com um prego para quem tem um martelo”. Para mim foi muito útil, assim como para outras pessoas com quem trabalhei, me abrir para um mundo mais amplo, pois isso não apenas ajuda a entender e a ver interconexões, mas, como vim a descobrir depois, ajuda você a entender outras pessoas, os modelos mentais delas — ajuda você a se comunicar com outras pessoas, se relacionar com elas e desenvolver relacionamentos significativos.


Executivos no Vale do Silício descobriram a mesma coisa, após vários anos se focando nas disciplinas do acrônimo STEM, e vêm contratando funcionários das humanidades e outras graduações “menos sérias”, basicamente porque eles são capazes de se comunicar com outras pessoas.

Finalmente, as humanidades, ao procederem a uma crítica profunda dos valores, costumes, crenças e ideologias, podem servir como uma espécie de “assessoras de vai dar merda” da sociedade. Marx denunciou as contradições do capitalismo no século XIX, muitas das quais se mostraram previsões acertadas ao longo dos conflitos sociais do século XX. Heidegger alertou para a possibilidade da tecnologia ganhar autonomia em relação ao ser humano e vir a suplantá-lo e hoje nos debatemos com a perspectiva de ocupação da maior parte dos postos de trabalho por máquinas. O despropósito de hoje pode ser a análise acertada de amanhã.

Nota de solidariedade

O jornalista e meu colega de diretoria na ABRAJI Guilherme Amado, repórter da revista Época, está sofrendo perseguição das milícias virtuais da família Bolsonaro, por noticiar o sequestro da conta do presidente da República no Twitter — um meio de divulgação tornado oficial por Bolsonaro — por seu filho Carlos, após uma briga de família.

Infelizmente, ele é apenas mais uma vítima da família do presidente e seus apaniguados. Ataques como esse têm sido recorrentes.

É inaceitável um presidente coordenar um ataque contra um jornalista, seja qual for a razão. Mesmo se a notícia fosse absolutamente mentirosa, ainda seria imoral e nojento abusar do poder de presidente da República para perseguir um cidadão.

Aliás, também é inaceitável que a comunicação de um presidente da República fique a cargo de amadores desequilibrados. Assim como é inaceitável a família de um presidente da República apitar em assuntos de governo. Isso é coisa de republiqueta de bananas.

Infelizmente, a população e mesmo os jornalistas parecem estar derivando para enxergar esse tipo de comportamento como normal. Não é. Esse tipo de comportamento por parte do presidente é uma abominação em qualquer democracia séria.

Nunca deixe de corrigir valores pela inflação

Há pouco mais de uma semana, expliquei por que jamais se deve usar números absolutos para comparar populações de tamanhos muito diferentes. Neste artigo, mostro que deixar de corrigir valores pela inflação, além de ser enganoso, pode fazer um jornalista perder boas manchetes.

Tomem como exemplo esta notícia do Jornal do Comércio de Porto Alegre sobre os investimentos da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul nos primeiros trimestres de 2007 a 2019. A notícia traz a tabela abaixo:

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A partir desses números, o repórter afirma que o investimento em educação no primeiro trimestre de 2019 foi o mais baixo em 12 anos, ou seja, o mais baixo da série histórica exceto pelo ano de 2007.

Em nenhum ponto do texto há menção a uma possível correção monetária. No entanto, para verificar se o jornalista havia corrigido os valores pela inflação do período, tentei encontrar os dados no portal de transparência do governo do Estado. Aparentemente, não foi realizada uma correção, se levarmos em conta a coincidência de valores no ano de 2013:

A ausência de correção monetária é um equívoco muito comum de se encontrar no noticiário. É triste, porque muitas vezes se perde a oportunidade de encontrar um furo muito mais interessante. Vejam como ficariam os valores se corrigidos pelo IPCA de março de 2019 — o mesmo índice usado para calcular a meta de inflação do Brasil e por isso o mais adequado para este tipo de operação — usando a Calculadora do Cidadão oferecida pelo Banco Central:

AnoValor nominalValor corrigido
2007R$ 2.781.418,24R$ 5.458.742,18
2008R$ 5.805.877,78R$ 11.018.938,28
2009R$ 8.390.142,22R$ 14.862.879,37
2010R$ 11.740.459,39R$ 19.839.312,40
2011R$ 9.927.122,79R$ 15.823.438,63
2012R$ 6.061.717,00R$ 9.128.217,18
2013R$ 28.522.668,04R$ 40.401.244,04
2014R$ 17.166.732,42R$ 23.009.143,11
2015R$ 13.417.482,59R$ 16.697.870,58
2016R$ 7.885.033,96R$ 8.891.938,60
2017R$ 10.116.905,46R$ 10.890.557,36
2018R$ 5.917.431,89R$ 6.193.745,19
2019R$ 3.492.361,63R$ 3.492.361,63

Agora, vejamos como fica o ranking de maiores investimentos em educação no primeiro trimestre se organizarmos as duas colunas por ano, a partir da ordem decrescente do valor investido:

PosiçãoValor nominalValor corrigido
120132013
220142014
320152010
420102015
520172011
620112009
720092008
820162017
920122012
1020182016
1120082018
1220192007
1320072019

Percebem como vários anos mudam de posição no ranking corrigido?

Ao atualizar os valores nominais encontrados no portal de transparência do Estado, podemos perceber que, na verdade, o investimento em educação no primeiro trimestre de 2019 foi o mais baixo da série histórica. De fato, o investimento neste ano foi 36% menor do que em 2007. Esses números renderiam manchetes muito mais dramáticas.

Além disso, a correção evita a injustiça de se considerar a ex-governadora Yeda Crusius a responsável pelo pior primeiro trimestre na educação.

Um motivo adicional para sempre se corrigir valores monetários é o fato de muitos políticos se aproveitarem da diferença de poder de compra de cada real entre um ano e outro para enrolar a população.

Digamos que um governo tenha investido em janeiro de 2018 R$ 10 milhões em segurança pública e mais R$ 10,3 milhões na mesma área em janeiro de 2019. O governador vai dizer que aumentou os recursos para a segurança de um ano para outro, mas, se corrigirmos o valor antigo pelo IPCA, podemos verificar que apenas para cobrir a inflação e manter o mesmo nível de investimento, o montante atual deveria ser de R$ 10,4 milhões. Na verdade, o Estado estaria investindo menos do que no ano anterior em valores corrigidos.

Jamais compare números absolutos se pode criar uma taxa

Uma das minhas implicâncias favoritas em relação ao jornalismo é a mania de usar números absolutos para comparar populações de tamanhos muito diferentes. É um erro básico e fácil de se evitar na interpretação de números.

Num exemplo recente, o ciberjornal Poder360 reproduziu uma tabela de número de seguidores de diferentes líderes de Estado em redes sociais, a partir de um relatório elaborado pela consultoria Bites, que se apresenta como “data-driven”.

O líder com mais seguidores no Facebook é também o primeiro-ministro do segundo país mais populoso da Terra. A China não permite o uso de Facebook, Twitter e outras redes sociais capitalistas, enquanto a Indonésia não aparece na tabela. O terceiro país mais populoso da Terra, os Estados Unidos, tem seu presidente como segundo do ranking. Já a Turquia é o 19º país mais populoso do planeta e seu presidente ocupa a terceira posição em seguidores nas redes sociais, mesmo sem poder contar com o YouTube.

O leitor mais atento já terá notado que nem mesmo faz sentido somar os seguidores em diferentes redes sociais, uma vez que muitos deles serão duplicados — a mesma pessoa pode seguir o presidente no Twitter e no YouTube –, enquanto outros serão bots.

Além deste problema básico de concepção da análise, resta a comparação entre países de populações muito discrepantes, como Índia e Brasil, fator que pode inserir vários tipos de distorções na informação. A proporção de usuários da Internet é a mesma em todos os países? Os indianos favorecem algum tipo de rede social em detrimento de outras? Os brasileiros são mais aficionados por tecnologia do que os turcos?

A transformação dos números absolutos em taxas pode resolver, pelo menos em parte, essas distorções e o cálculo é muito simples, se tivermos os dados à disposição. Basta dividir o número de eventos pelo tamanho da população e multiplicar por uma unidade padrão, em geral 10.000 ou 100.000 “habitantes”. No caso acima, é preciso dividir o número de seguidores em cada rede social pelo número de usuários totais da mesma rede social num determinado país e depois multiplicar pela unidade padrão, com o que teremos a taxa de seguidores por, digamos, 10.000 usuários.

Usando dados de janeiro de 2019 — e sem preocupação com a fidedignidade dos mesmos — a coluna relativa ao Facebook ficaria assim:

  1. Modi: 14.528 seguidores por 10.000 usuários
  2. Trump: 11.384
  3. Bolsonaro: 7.238
  4. Obrador: 6.715

O ranking não muda, mas enquanto Modi tinha quatro vezes mais seguidores no Facebook do que Bolsonaro na tabela, ele tem apenas o dobro da taxa de seguidores por 10.000 mil usuários da rede social em relação ao presidente brasileiro. O gráfico abaixo mostra como a diferença entre os líderes fica menos dramática quando usamos taxas:

Os exemplos de uso de números absolutos no lugar de taxas abundam no noticiário. Um exemplo é este ranking do total de multas de trânsito no Rio Grande do Sul no ano de 2013 publicado por Zero Hora:

  1. Prefeitura de Porto Alegre – 199.958
  2. Prefeitura Passo Fundo – 24.328
  3. Prefeitura Caxias do Sul – 14.740
  4. Prefeitura Campo Bom – 10.563
  5. Prefeitura Cachoeirinha – 9.850
  6. Prefeitura Rio Grande – 8.798
  7. Prefeitura Canoas – 7.997
  8. Prefeitura São Leopoldo – 7.802

A frota de Porto Alegre em 2016 era de 851.150 veículos, contra 122.582 em Passo Fundo. Neste caso, basta calcular a razão entre um número e outro, sem multiplicar por uma unidade padrão. Se ignorarmos as diferenças de tamanho das frotas entre 2013 e 2016 apenas para fins didáticos, a razão ou média de multas por veículo seria de 0,23 multas na capital, contra 0,19 multas por veículo em Passo Fundo. Já Caxias do Sul, com uma frota de 305.323 veículos, mais do que o dobro da frota de Passo Fundo, teria uma média de multas de apenas 0,04 por veículo. Enquanto isso, Campo Bom, com uma frota de 40.488 veículos, apresentaria uma média de multas de 0,26. O ranking correto das cidades com mais infrações de trânsito, portanto, seria:

  1. Campo Bom – 0,26 multas por veículo
  2. Porto Alegre – 0,23
  3. Passo Fundo – 0,19
  4. Caxias do Sul – 0,04

Amigos não deixam amigos cometerem esse tipo de erro.

Sou de esquerda e apoio o projeto de aumento do IPTU em Porto Alegre

O prefeito Nelson Marchezan voltou a lutar pela aprovação na Câmara de Vereadores de Porto Alegre do PLCE 005/18, que tramita há dois anos e está parado desde o final de 2018. Embora o prefeito me inspire sentimentos pouco republicanos, devido à sua ligação com o MBL e posturas reacionárias, como cidadão sou obrigado a admitir que o projeto de revisão da planta do Imposto Predial e Territorial Urbano vai trazer benefícios para a capital. A última revisão ocorreu em 1991, durante o mandato de Olívio Dutra. Além disso, o projeto é bastante justo, instituindo diferentes faixas de cobrança conforme o valor do imóvel.

A Secretaria Municipal da Fazenda criou um material muito bom explicando a situação atual e permitindo simular o impacto da mudança para cada imóvel, mas infelizmente está fora do ar no momento. Apenas 1% dos imóveis tiveram os reajustes simulados até julho de 2018. A simulação do imóvel onde vivo previu uma redução no IPTU — e vivo num bairro de classe média alta. O resultado me deixou surpreso, porque esperava pagar mais, considerando ter boa renda e viver num prédio bem localizado — a possível explicação é ser antigo.

Se essa informação anedótica serve para alguma coisa, é de se supor que os mais abastados vão arcar com o maior peso da revisão. Hoje existem muitas distorções nos valores do IPTU, com terrenos e prédios em bairros que se tornaram enclaves das classes altas ao longo destes 27 anos pagando relativamente pouco em relação a bairros mais antigos, mas onde a média de renda dos habitantes é menor.

Era esperado dos vereadores à direita, em especial os liberais, votarem contra um aumento de impostos. Os vereadores à esquerda, porém, também se mostraram contrários à revisão do IPTU. Em debate no ano de 2017, Sofia Cavedon (PT) reclamou de ausência de discussão com a sociedade. Roberto Robaina (PSOL), bizarramente, acusou o projeto de ter como objetivo aumentar a arrecadação. Alex Fraga (PSOL) disse que Marchezan não prestou explicações suficientes. A prefeitura respondeu em 2018 apresentando análises e criando o simulador, pelo qual poucos cidadãos demonstraram interesse.

A revisão periódica da planta do IPTU foi uma bandeira das prefeituras do PT ao longo da década de 1990 — a última revisão ocorreu em 1991, durante o mandato de Olívio Dutra. É apenas coerente para um cidadão de esquerda apoiar um projeto de aumento do imposto, venha de onde vier. Além disso, pode ser que o próximo prefeito seja de algum partido à esquerda. O dinheiro extra da revisão da planta do IPTU viria a calhar neste cenário.

Ninguém gosta de pagar impostos — nem eu –, mas o IPTU é um dos poucos impostos que se reverte diretamente para benefícios em nosso cotidiano. É um dinheiro que fica na cidade, ao contrário dos impostos estaduais e federais. Entre janeiro de 1995, já com o sistema monetário atual, e março de 2019 a inflação no Brasil foi de 572%. Não existe mágica fiscal. Se queremos uma Porto Alegre com boa qualidade de vida, não basta reclamar nas redes sociais: precisamos contribuir.