Cai diploma para jornalistas. Comofas?

O Supremo Tribunal Federal decidiu, por oito votos a um, derrubar a exigência de diploma para exercer a função de jornalista. Há quem comemore, há quem chore. O jornalista Leandro Demori respondeu de forma irônica algumas das reações dos formados na área:

“E agora, a faculdade de jornalismo não serve pra nada?”. Minha filha, é AGORA que serve (ou não, depende dela). #diplomadejornalistaaproximadamente 18 horas ago from twhirl

@deysicioccari Fim da vida mágica nas redações, dos altos salários, da baixa carga horária e da proteção da classe. #diplomadejornalistaaproximadamente 18 horas ago from twhirl in reply to deysicioccari

“Sem diploma nossos salários serão horríveis!”. Claro! O diploma é que garantia o teu salário de marajá, agora fodel! #diplomadejornalistaaproximadamente 18 horas ago from twhir

“Mas o padeiro VAI querer roubar o meu emprego?”. Não. #diplomadejornalistaaproximadamente 18 horas ago from twhirl

“Agora um padeiro pode roubar o meu emprego?” Se depois de 4 anos na faculdade tu escreve pior do que o padeiro, sim. #diplomadejornalistaaproximadamente 18 horas ago from twhirl

As empresas, claro, irão contratar semi-analfabetos para escrever nos jornais (ops, isso algumas já fazem). #diplomadejornalistaaproximadamente 18 horas ago from twhirl

Agora que caiu exigência do diploma, todo mundo vai querer ser jornalista pra ganhar milhões.aproximadamente 19 horas ago from twhirl

Brincadeiras à parte, Marcelo Soares, outro repórter de respeito, também acredita que o ensino formal continuará valendo muito na busca por um emprego como jornalista. A verdade, como indicam as manifestações de ambos, é que trabalho para gente realmente qualificada nunca falta — pelo contrário, falta é gente qualificada. E por qualificada não se compreenda apenas um foca com um canudo na mão, mas um jornalista que correu atrás de uma formação cultural mais sólida em paralelo à faculdade e, principalmente, burilou sua habilidade narrativa continuamente ao longo dos quatro anos de estudos.

Como informa a biografia aí na coluna da direita, sou professor de jornalismo na Famecos/PUCRS. Alguns poderiam pensar que minha recente defesa do diploma foi um ato desesperado de manter o emprego. Pois não foi, porque não vejo ameaça aos empregos de professores da área. Acredito que os vocacionados para o jornalismo continuarão procurando os cursos universitários sérios, como forma de imergir na cultura da profissão desejada e aprender técnicas básicas que lhes garantam alguma vantagem no mercado. E — por que não? — para fazer contatos com outros aspirantes a jornalistas e profissionais que possam lhes abrir as portas da carreira. Afinal, o estabelecimento de contatos é uma parte importante de uma faculdade.

Essa certeza vem de minha atuação no curso de Publicidade. Nunca houve exigência de diploma para ser publicitário, mas nem por isso a procura pelos cursos universitários deixou de ser alta. O motivo é simples: qual empresário contrataria uma pessoa completamente ignorante a respeito da cultura e dos conceitos básicos de uma profissão, quando pode contratar uma pessoa que já detém esse conhecimento? Treinamento custa caro, dificilmente as empresas de comunicação vão querer assumir esse ônus. Apenas empresas de fundo de quintal se dão o luxo de privilegiar candidatos sem formação. Tanto que a Globo, por exemplo, já se manifestou, afirmando que continuará a privilegiar diplomados em jornalismo.

Hás duas posturas típicas entre os estudantes. Alguns encaram qualquer faculdade como um tipo de purgatório que os separa da atividade profissional. Por causa dessa perspectiva, evidentemente, adotam uma postura passiva frente aos estudos e limitam-se a fazer saques de conhecimento quando o professor, visto como um guichê, impõe alguma exigência. Sua atitude poderia ser expressa com algo como “OK, estou aqui, agora me ensine alguma coisa”.  Outros alunos adotam uma atitude mais ativa e seguem adiante por si mesmos nos caminhos indicados pelos professores — por mais que um docente se esforce para atender às necessidades individuais de seus estudantes, é humanamente impossível e os discentes têm a responsabilidade de adquirir certos conhecimentos por iniciativa própria.

É esse segundo tipo de profissional, dotado de autonomia, que as empresas jornalísticas sempre valorizaram e continuarão valorizando. O ato de obter um diploma, mesmo sem a exigência de um para atuar como jornalista, é um indício forte de compromisso com a qualidade. Portanto, quem já tirou ou está em vias de tirar um diploma em jornalismo terá vantagens na busca por um emprego mais tarde. Também não custa lembrar que os estágios, a principal porta de entrada para qualquer profissão, são vantajosos para as empresas de comunicação e somente universitários podem ser contratados sob esse regime.

Os diplomas não se tornaram inválidos pela decisão do STF, nem jornalismo deixou de ser uma profissão. Na verdade, o conhecimento sobre processos de comunicação oferecido pela universidade será cada vez mais necessário para o desempenho das tarefas jornalísticas, à medida que a convergência de mídias se aprofundar.

9 ideias sobre “Cai diploma para jornalistas. Comofas?

  1. Raquel

    Oi Trasel!

    Concordo parcialmente contigo. Talvez por viver no interior e ter percepções um pouco diferentes. Eu acho que tens razão na parte da formação. Mas o buraco é mais embaixo. De uma certa forma, concordo com o Palacios: no Brasil, tirando alguns estados, a maioria da população ainda tem pouco acesso à informação, com poucos jornais/canais de TV/rádio. A maior parte do acesso ainda é via mídia de massa. E como sabemos, há um interesse político muito grande no controle desse tipo de mídia. De uma certa forma, a não necessidade do diploma gera sim uma maior interferência na produção de informações nesses espaços, onde redações inteiras poderão ser formadas por “amigos” de um determinado político, sem qqr noção/espírito crítico. Não que isso não acontecesse antes, mas agora isso é LEGAL. E isso me entristece, pois embora exista um movimento alternativo, por exemplo, dia Internet, ainda vai demorar para que as pessoas tenham, em sua maioria, esse tipo de acesso “plural” à informação. De uma certa forma, acho essa liberalidade perigosa. Não era ainda o momento desta abertura.

    A conseqüência prática para a maior parte dos jornalistas de redação, no entanto, vai ser só uma: o fim do piso. Que era, no fim das contas, o motivo “oculto” por trás da ADIN. Sem piso, e sem a necessidade de contratar jornalistas formados, temo que se instaure uma prática que já era corrente em vários veículos: um jornalista formado, ganhando pouco, e milhares de estagiários, estudantes, ganhando menos ainda. Com o fim do piso e o aumento da concorrência, há também um certo desestímulo para quem quer trabalhar em redação. Acho que essa conseqüência será inevitável, ao menos no interior. A maior parte dos jornalistas, diferentemente dos publicitários que estão numa função mais empreendedora, não vai trabalhar como dono de negócio, ou criador de empresa. Vai trabalhar como empregado, seja de instituição, seja de redação. É por isso que o fim do piso, de um certo, modo, fornece a desculpa que muitas empresas esperavam para contratar o máximo de estagiários e reduzir o salario do jornalista.

    Como tu, também não acho que o jornalismo vai acabar. Defendo que com o advento da Sociedade da Informação, precisamos, mais do que nunca, de filtros. E acho que já há uma necessidade muito maior de especilidades do jornalismo e de filtros mais críticos. O jornalismo local, por exemplo, nunca foi tão exigido. E sim, a técnica faz diferença, ao contrário do que acreditam nossos ilustres ministros. Pena que talvez demore muito pro Brasil perceber isso.

  2. Träsel Autor do post

    Raquel, concordo com a sua avaliação sobre os riscos da derrubada da exigência de diploma para lugares onde a maioria das empresas funciona na base do apadrinhamento. Na verdade, estou preparando um texto que comenta a decisão em si, para publicar semana que vem. Estou apenas esperando o acórdão, para poder criticar com maior propriedade. Nesse texto aqui, o objetivo era mais dar minha opinião sobre o ensino e a carreira. Achei que devia isso aos meus alunos.

    Agora, tenho uma certa dúvida quanto à questão do piso. Ele não é definido em negociação do sindicato com os patrões? Porque o fim da exigência de diploma não elimina os sindicatos, pelo que entendo. Afinal, a função, a profissão de jornalista continua existindo, e todo profissional tem o direito a se associar num sindicato.

    Acho importante o que você falou sobre empreendedorismo. Insisto com os alunos sempre sobre esse ponto. Antigamente um jornalista tinha de ser rico de nascença para ser empreendedor, porque para ter um jornal, revista ou emissora era preciso gastar muito dinheiro. Hoje, com a Internet, se abriu um vasto campo de oportunidades para os jornalistas, mas a maioria ainda sai da faculdade esperando ser empregado, não empresário. Creio que incentivar o empreendedorismo deve ser uma das primeiras mudanças nos cursos de jornalismo no atual contexto.

  3. João Campos

    Sou compassivo com esta crise de diploma ou não para jornalista. Não vejo razão para tanto debate.
    Presidente da República precisa de habilitação para governar uma nação? Pois é!
    Continuando: vereador, deputado, senador tem necessidade de um diploma para emitir leis, modificar códigos, introduzir portarias, etc?
    Pois é!
    Os jornalistas contam com uma ‘auditoria inata’ que é o seu próprio discurso. Suas palavras, suas ações ficam expostas e impressas como registro de sua atuação.
    Diferente dos políticos que tem ferramentas indecentes como ‘atos secretos’, amantes semiescondidas, etc e ganham um diploma de representação chamado mandato que o torna inimputável em um montão de prerogativas de uma exagerada e permissiva legislação de cunho corporativista.
    Alguém deseja exigir dos políticos um currículo de conhecimentos, de guardião de insumos éticos, portador de experiências no campo da difusão de leis de organização da sociedade…?
    Pois é!

  4. Graziele

    Eu vejo inúmeras razões para o debate, bem como creio que deveria ser debatido o fato da falta de escolaridade dos políticos. Eu era ainda criança quando soube disso, e fiquei chocada, pois tive uma educação que sempre valorizou o conhecimento e o estudo, e o próprio Brasil diz incentivar o estudo mas deixa que semi-analfabetos candidatem-se ao poder, e, não raro, o conquistem. Aliás, se os ministros tivessem uma visão um pouco mais ampla da sociedade e do resultado de suas ações, não cometeriam tanta injustiça, e pior, dizendo que é justiça! Porém, senso crítico e visão global só podem ser adquiridos através do conhecimento e, portanto, muitas pessoas nunca saberão o que é isso, e a sociedade irá se tornando cada vez mais ignorante, passiva e alienada.

  5. Hertes Ivolela

    Não há razão para pânico.
    Quem realmente ama o que faz sempre irá progredir e encontrar o seu espaço profissional para se expressar e mostrar seu valor.
    Formei-me em Publicidade em 1972 e ainda estudando consegui meu primeiro estágio em uma agência de Publicidade. A fome de aprender era tanta que em 6 meses já estava contratado. Dai para a frente foi uma sucessão de aprendizado, absorvendo tudo que podia junto aos mais experientes os quais convivia. Aí descobri que não tínhamos registro profissional e o curso que havia feito oficialmente não era reconhecido. Passado o dissabor inicial, toquei em frente. Foram mais de 30 anos na área até me aposentar e abrir meu próprio negócio e nele estou há mais de 10 anos. Sinto-me realizado profissionalmente e trabalho utilizando tudo que aprendi com as pessoas mais capazes e inteligentes que tive o privilégio de conviver nas agências de propaganda, nos veículos de comunicação e nos clientes que atendi.
    Então é isso: vocês jovens devem se convcentrar em expandir a cultura pessoal, estudar, se aperfeiçoar para serem pessoas honestas e éticas. Tenham certeza de que a vida irá retribui com muito sucesso pessoal e profissional.

  6. Pingback: dois ouvidos » Blog Archive » o diploma, o Jornalista e a diferença entre eles

  7. reginaldo romanini

    sim sou camofa!! nao sei que e isso, nem vou procurar no dicionario, tenho um jornal, pois sou jornalista, risossss sem faculdade, estava na farra , e agora posso dizer sou jornalista, obrigado JEOVA

  8. Laura Toscani

    Oi Marcelo.
    Sou aluna da Famecos, estou na divulgação das reportagens da cadeira de jornalismo online I.
    Uma das matérias de lá é sobre o 1 ano sem diplomas, esse triste aniversário.
    Então fica aqui meu convite para dar uma lida nessa matéria.
    O link: http://migre.me/RFcV
    O twitter: http://twitter.com/cmykonline

    Valeuzão

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