Câmara retoma novela do Pontal

Ano passado, o projeto Pontal do Estaleiro foi vetado pelo prefeito José Fogaça. Não que tenha sido uma tomada de posição: na verdade, Fogaça resolveu diluir a responsabilidade com toda a população de Porto Alegre, sugerindo um referendo sobre o tema. Hoje o projeto que prevê o referendo entra na pauta da Câmara.

É uma palhaçada. O governo municipal está se eximindo de suas responsabilidades  e tenta esconder sua inépcia com uma fantasia democrática. É uma estratégia insidiosa, porque qualquer vereador que recuse ou critique a idéia de um referendo será tachado imediatamente de antidemocrático, será tornado uma evidência do atavismo e da aversão ao diálogo dos opositores ao projeto.

Antidemocrático é transferir à população a responsabilidade de resolver uma questão técnica e política apenas pela via política. Quem deve decidir o futuro da área é a prefeitura em conjunto com urbanistas, arquitetos e outros técnicos, ouvindo representantes da sociedade para entender a vontade dos porto-alegrenses. Ainda assim, embora a Câmara e organizações civis tenham de ter voz nas discussões, a vontade popular deve ser validada pela análise técnica. Nem todas as demandas são possíveis ou razoáveis. É para realizar essas análises que o governo contrata especialistas com o dinheiro dos contribuintes.

A verdade dura é que o povo (eu inclusive) não entende nada de urbanismo, arquitetura ou engenharia e por isso não pode decidir diretamente sobre o projeto Pontal do Estaleiro.

Se é para realizar um referendo, a proposta da vereadora Maria Celeste, ampliando a consulta para toda a orla, é a mais razoável.  O cidadão médio pode não ter conhecimento das especificidades técnicas para definir o futuro de uma área tão pequena quanto a do Pontal, mas pode muito bem responder a uma pergunta simples: queremos ou não queremos viver em uma Porto Alegre separada da orla do Guaíba por uma muralha de edifícios?

5 ideias sobre “Câmara retoma novela do Pontal

  1. lucas c.

    Não gosto nem um pouco do Fogaça, mas parece que ele é contra o projeto embora saiba que caso vete, os vereadores empurrarão goela abaixo. Assim ele jogou pra uma força maior: a população por meio de referendo. Foi inteligente.

    Mas uma coisa que fica me matutando é o seguinte: legalmente se podemos fazer um referendo somente para uma empresa privada, eu também posso pedir um referendo pra fazer um puxadinho lá em casa (é grosseira a comparação, mas legalmente é a mesma coisa). E aí a coisa vira patifaria. É ridículo a prefeitura gastar tanto dinheiro no referendo que só beneficia um interesse.

  2. Träsel Autor do post

    Sim, o caso todo é uma patifaria, na medida em que visa beneficiar apenas o Saul Boff e seus futuros (poucos) clientes. O referendo deixa o projeto todo ainda mais antirrepublicano, porque o contribuinte vai gastar dinheiro para decidir se alguns poucos cidadãos de Porto Alegre poderão comprar um apartamento com vista para o Guaíba.

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