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Declaração de apoio ao professor Felipe Boff

Na noite de 7 de março, sábado, na cerimônia de formatura do curso de Jornalismo da Unisinos em São Leopoldo, pessoas da plateia, aos gritos e vaias, tentaram impedir o paraninfo, professor Felipe Boff, de prosseguir seu discurso. A virulência desse ataque foi tão grande, que a instituição teve que colocar seguranças para o acompanharem na saída do auditório. Em sua fala corajosa e necessária, principalmente na ocasião em que jovens colegas chegam ao mercado de trabalho, Felipe, embasado em dados e exemplos, alertava para o que deveria ser óbvio: o presidente da República vem constantemente ofendendo e destratando jornalistas. “No ano passado, segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas, o presidente da República atacou a imprensa 116 vezes em postagens nas suas redes sociais, pronunciamentos e entrevistas. Um ataque a cada três dias”, destacou o professor.

Como também salientou o paraninfo, o atual presidente da República vem ameaçando não só o jornalismo: “Ameaça a democracia, a arte, a ciência, a educação, a natureza, a liberdade, o pensamento. Ameaça a todos, até aqueles que hoje apenas o aplaudem”. Esses que na formatura tentaram calar um jornalista por dizer o que é fato não enxergam que estão abrindo mão de um direito básico e constitucional de todos os cidadãos brasileiros: o de serem informados. Não existe democracia sem jornalismo livre. Jornalistas já foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados durante o período de ditadura militar no Brasil, como também lembrou Felipe. Mas não nos deixaremos intimidar com ameaças.

Por isso, nós, pesquisadores, pesquisadoras, jornalistas, professores e professoras de jornalismo abaixo assinados, declaramos total apoio e solidariedade ao professor e jornalista Felipe Boff, que conseguiu, em sua fala verdadeira, representar a todos e todas nós neste momento tão difícil que o país atravessa. Também, pelos alunos e alunas de jornalismo, temos o dever de dizer: cada ataque nos tornará mais fortes. Por fim, reafirmamos o que o professor Felipe disse no encerramento de sua fala: “Não deixaremos que a tirania nos cale mais uma vez”.

Porto Alegre, 9 de março de 2020

  1. Adriana Cristina Alves do Amaral
  2. Adriana Martorano
  3. Adriana Rosa do Amaral – Unisinos
  4. Alberto Efendy Maldonado – Unisinos
  5. Alexandre de Santi
  6. Álvaro Almeida
  7. Ana Carine García Montero – UFSC
  8. Ana Gruszynski – UFRGS
  9. Ana Paula Penkala – UFPel
  10. Andriolli de Brites da Costa
  11. Angela Felippi – Unisc
  12. Angela Maria Farah – UNIUV
  13. Angela Prysthon – UFPE
  14. Ângela Zamin – UFSM
  15. Ângelo Chemello
  16. Ania Chala
  17. Arlete Taboada – FAPCOM
  18. Aroeira
  19. Aquiles Lins
  20. Basilio Sartor – UFRGS
  21. Beatriz Becker – UFRJ
  22. Beatriz Dornelles – PUCRS
  23. Beatriz Sallet – Unisinos
  24. Bruno Leites – UFRGS
  25. Bruno Lima Rocha – Unisinos
  26. Cárlida Emerim – UFSC
  27. Carlos Alberto Zanotti – PUC Campinas
  28. Carlos Eduardo Franciscato – UFS
  29. Carmem Daniella Spínola Da Hora – UFRN
  30. Caru Schwingel
  31. Charles Florczak
  32. Christa Berger – UFRGS
  33. Cida Golin – UFRGS
  34. Clarice Speranza – UFRGS
  35. Cláudia Herte de Moraes – UFSM
  36. Claudia Lago – USP
  37. Claudia Quadros – UFPR
  38. Cristiane Freitas Gutfreind – PUCRS
  39. Cristiane Lindemann – Unisc
  40. Cybeli Almeida Moraes – Unisinos
  41. Daniel Bittencourt – Unisinos
  42. Daiane Bertasso Ribeiro – UFSC
  43. Débora Lapa Gadret – Unisinos
  44. Denise Assis
  45. Denise Avancini Alves – UFRGS
  46. Edelberto Behs
  47. Eduardo Meditsch – UFSC
  48. Eduardo Seidl – PUCRS
  49. Eduardo Veras – UFRGS
  50. Eliege Fante
  51. Elizete de Azevedo Kreutz – Univates
  52. Eric Nepomuceno
  53. Everton Cardoso – Unisinos
  54. Fábian Chelkanoff Thier – PUCRS
  55. Fabiana Piccinin – Unisc
  56. Fabiane Sgorla – UFRGS
  57. Fabio Kraemer – Univates
  58. Fábio Canatta – PUCRS
  59. Fabricio Silveira – UFRGS
  60. Felipe de Oliveira – UFRGS
  61. Fernando Resende – UFF
  62. Flávio Dutra – Unisinos
  63. Flávio Ilha
  64. Flavio Meurer – Univates
  65. Francisco Giovanni Rodrigues – UERN
  66. Freda Indursky – UFRGS
  67. Frederico Tavares – UFOP
  68. Gabriel Grossi
  69. Gerson Luiz Martins – UFMS
  70. Gilmar Adolfo Hermes – UFPel
  71. Giovanna Benedetto Flores – Unisul
  72. Gisele Dotto Reginato
  73. Gisele Fredericci
  74. Gislene Silva – UFSC
  75. Gustavo Diehl
  76. Gustavo Fischer – Unisinos
  77. Hildegard Angel
  78. Ilza Girardi – UFRGS
  79. Isaltina Gomes – UFPE
  80. Ivone Cassol – PUCRS
  81. Ivonete Pinto – UFPel
  82. Jacira Cabral da Silveira
  83. Jacques Mick – UFSC
  84. Jair Giacomini – Unisc
  85. Jairo Ferreira – Unisinos
  86. Jane Mazzarino – Univates
  87. Jaqueline Chala
  88. Joana Brandão Tavares – UFSB
  89. João Batista de Abreu – UFF
  90. José Antonio Rocha – UFSM
  91. José Ricardo da Silveira – UERN
  92. Josenildo Guerra – UFS
  93. Juliana Doretto – PUC-Campinas
  94. Júnia Martins – UERN
  95. Karla Maria Müller – UFRGS
  96. Kati Caetano – UTP
  97. Krishma Anaisa Coura Carreira – FAPCOM
  98. Laura Storch – UFSM
  99. Laura Wottrich – UFRGS
  100. Leonel Aires – Unisc
  101. Leonel de Oliveira – Univates
  102. Liliane Dutra Brignol – UFSM
  103. Lúcia Helena Mendes Pereira – UFT
  104. Luciana Kraemer – Unisinos
  105. Lucio Siqueira Amaral Filho – Unisc e Univates
  106. Luiz Antônio Araújo – PUCRS
  107. Luiz Artur Ferraretto – UFRGS
  108. Luís Augusto Fischer – UFRGS
  109. Maicon Elias Kroth – UFSM
  110. Mara Rovida – UNISO
  111. Marcela Donini
  112. Marcelo Auler
  113. Marcelo Engel Bronosky – UEPG
  114. Marcelo Träsel – UFRGS
  115. Marcia Benetti – UFRGS
  116. Marcia De Toni – Cásper Líbero e Mackenzie
  117. Márcia Franz Amaral – UFSM
  118. Márcia Lopes Duarte – Unisinos
  119. Marcilia Luzia Gomes da Costa Mendes – UERN
  120. Marcos Palacios – UFBA
  121. Marcus Staudt – Univates
  122. Maria Bernardete Toneto – USJT
  123. Maria Clara de Aquino Bittencourt – Unisinos
  124. Maria Cristina Leandro Ferreira – UFRGS
  125. Maria Lúcia Badejo
  126. Mariana Sirena
  127. Mario Victor
  128. Martha Dreyer de Andrade Silva – Unisinos
  129. Miriam Barradas
  130. Marília Gehrke
  131. Marli dos Santos – Cásper Líbero
  132. Marta Maia – UFOP
  133. Mateus Yuri Passos – UMESP
  134. Micael Vier Behs – Unisinos
  135. Miguel Paiva
  136. Milena Freire de Oliveira-Cruz – UFSM
  137. Miriam Barradas
  138. Moreno Osório – PUCRS
  139. Miriam Rossini – UFRGS
  140. Myrian Del Vecchio – UFPR
  141. Naira Hofmeister
  142. Nicole Trevisol
  143. Nikão Duarte – Unisinos
  144. Nisia Alejandra Rizzo de Azevedo – UNEB
  145. Nísia Martins do Rosário – UFRGS
  146. Patrícia Lima
  147. Patrícia Regina Schuster – Unisc
  148. Paula Melani Rocha – UEPG
  149. Paulo César Vialle Munhoz – UFSM
  150. Pedro Aguiar – UFF
  151. Pedro Osório – Unisinos
  152. Porã Bernardes – Unisinos
  153. Rafael Guimaraens
  154. Raquel Ritter Longhi – UFSC
  155. Renata Lohmann – Univates
  156. Ricardo Romanoff
  157. Rita Lenira de Freitas Bittencourt – UFRGS
  158. Roberto Villar Belmonte – UniRitter
  159. Rogério Christofoletti – UFSC
  160. Ronaldo Cesar Henn – Unisinos
  161. Rosana de Lima Soares – USP
  162. Rosane Rosa – UFSM
  163. Rosiane Moro – UMESP
  164. Rudimar Baldissera – UFRGS
  165. Sabrina Franzoni – Unisinos
  166. Samuel Pantoja Lima- UFSC
  167. Sandra Bitencourt – IPA
  168. Sandra de Deus – UFRGS
  169. Sandro Kirst – Univates
  170. Sean Hagen – UFRGS
  171. Sebastião Squirra – UMESP
  172. Sergio Endler – Unisinos
  173. Sérgio Gadini – UEPG
  174. Sérgio Xavier Filho
  175. Silvio Alves – Unisinos
  176. Solange Mittmann – UFRGS
  177. Sonia Aguiar – UFS
  178. Sonia Montano – Unisinos
  179. Suzana Barbosa – UFBA
  180. Silvia Lisboa
  181. Sylvia Moretzsohn – UFF
  182. Taís Seibt – Unisinos
  183. Thais de Mendonça Jorge – UnB
  184. Thaís Helena Furtado – UFRGS
  185. Ticiano Paludo – PUCRS
  186. Valci Regina Mousquer Zuculoto – UFSC
  187. Vera Martins – UFSM
  188. Veruska Sayonara de Góis – UERN
  189. Virginia Fonseca – UFRGS
  190. Viviane Borelli – UFSM
  191. Washington José de Souza Filho – UFBA
  192. Willian Fernandes Araújo – Unisc
  193. Zélia Leal Adghirni – UnB

Portaria do Ministério da Educação põe mais um prego no caixão da pesquisa brasileira

Enquanto a correção do ENEM colocava em jogo o futuro de milhares de jovens e evidenciava a incompetência do governo na área, o ministro da Educação estava aparentemente muito ocupado pensando em formas de dificultar o trabalho dos professores das universidades federais.

A mais nova maldade é a portaria 2.227/2019, que “dispõe sobre os procedimentos para afastamento da sede e do país e concessão de diárias e passagens em viagens nacionais e internacionais, a serviço, no âmbito do Ministério da Educação”. Ela descreve as regras e procedimentos para funcionários do MEC solicitarem afastamento do cargo para, entre outras coisas, acompanhar o ministro em viagens ou se deslocar para visitar escolas e universidades país afora; para a aquisição de passagens aéreas; para a concessão de diárias. Questões cotidianas e comuns a todos os ministérios, esferas de governo e poderes, até mesmo a empresas privadas.

O MEC, porém, tem entre seus servidores os docentes do magistério superior federal, os quais, além de poderem desempenhar as atividades listadas acima, ainda precisam, no cumprimento de suas funções, se afastar para apresentar trabalhos em congressos, participar de bancas de mestrado e doutorado, visitar laboratórios noutras instituições, ou ir a campo coletar dados e materiais de pesquisa. Portanto, os professores universitários muito provavelmente viajam mais do que a média dos servidores federais e de outras profissões em geral.

A portaria apresenta dois problemas principais: aumenta a burocracia para a concessão de autorização para afastamentos e limita o número de professores que podem se afastar por evento a apenas dois — cinco se os gestores justificarem a necessidade. O texto trata as viagens para eventos como “representação do MEC”, o que é um equívoco grave. Pesquisadores não frequentam eventos para fazer papel de Rainha da Inglaterra para o ministério ou para a universidade. Participam de eventos para trabalhar.

Um dos motivos principais para se afastar é a participação em congressos, seminários, conferências, simpósios e outros tipos de eventos acadêmicos. É um momento no qual, além de apresentar os resultados de pesquisas desenvolvidas a seus pares, os docentes fazem contato com colegas de outras instituições e, com sorte, encontram algum objetivo em comum que permita firmar parcerias para futuras investigações.

A importância desse tipo de contato fica evidenciada pelos próprios editais de fomento à pesquisa da Capes e do CNPq, que com cada vez mais frequência exigem a participação de pesquisadores não apenas de diferentes instituições, mas diferentes regiões ou países, como requisito mínimo nas propostas a serem submetidas. A “internacionalização” da pesquisa, item cobrado dos programas de pós-graduação na avaliação do MEC, é outra evidência de que viajar para congressos faz parte das funções dos professores universitários.

Tais exigências sempre foram um tanto hipócritas, considerando a dificuldade em se obter recursos para adquirir passagens, cobrir hospedagem, traduzir artigos, pagar bolsas e outros custos envolvidos na internacionalização e colaboração. A maioria dos docentes paga esses custos do próprio bolso, ao menos em parte, ou pelo menos no início da carreira.

Até mesmo quando os custos são cobertos por alguma instituição de ensino ou organização privada, se afastar do cargo demanda tempo para se dedicar à burocracia. É preciso solicitar uma autorização formal, que no caso de viagens dentro do Brasil necessita apenas autorização da chefia direta ou aprovação em plenária do departamento, em geral, mas no caso de viagens para o exterior exige análise pelo setor de recursos humanos da universidade. De qualquer forma, a autorização precisa ser publicada no Diário Oficial da União.

Num congresso internacional de jornalismo a que compareci na condição de convidado e com despesas pagas por uma organização não-governamental, acabei sendo obrigado a usar alguns dias de férias em haver. Embora houvesse solicitado autorização com dois meses de antecedência, a um mês de embarcar meu caso ainda estava numa fila de espera e os responsáveis previam que só seria analisado uma semana antes do voo pretendido. Para não correr o risco de desperdiçar a passagem, ou forçar a ONG a torrar dinheiro comprando o tíquete com uma semana de antecedência — se ainda houvesse lugar no voo — acabei pedindo férias.

Se uma viagem sem custo para o contribuinte oferece esse tipo de dificuldade burocrática, imaginem o pesadelo que se configura quando o docente viaja com passagens e diárias pagas pelo Estado. Perguntem a qualquer professor de universidade federal que conheçam, eles com certeza devem ter histórias de horror. Apesar de tudo, essas chateações normalmente ficam em segundo plano, porque participar de congressos ou bancas e trocar ideias com colegas é uma das melhores partes do trabalho.

A portaria emitida pelo MEC adiciona mais camadas de burocracia a um sistema já complicado. Conforme nota técnica produzida pelo Fórum de Pró-Reitores de Planejamento e Administração, as medidas previstas devem ter impacto sobre a atividade acadêmica:

Salientamos que os novos procedimentos poderão, em análise preliminar, trazer dificuldades, limitações e perda de agilidade na realização de atividades administrativas e acadêmicas, podendo eventual ou praticamente inibir a atual atividade regular e necessária de intercâmbio acadêmico e divulgação de resultados científicos, que passa a condicionar.

Embora o Forplad tenha apontado que a restrição a dois representantes de cada unidade existe desde 2009, a portaria 403 daquele ano não obrigava o registro dos afastamentos domésticos com ônus limitado ou sem ônus no sistema de concessão de diárias e passagens — isto é, as viagens cujo custo direto não é coberto pelo Estado. Se não houvesse custeio de passagens ou diárias, portanto, os procedimentos de liberação dos servidores poderiam ser resolvidos internamente pela universidade. Agora, será preciso preencher formulários mais detalhados, os quais deverão ser apreciados pela direção da faculdade, no caso da maioria das federais, em alguns casos será necessária uma autorização de Brasília e, quiçá, na volta da viagem mesmo quem não recebeu dinheiro vai ter de preencher um relatório.

Portanto, na maioria dos casos pelo menos um professor e a diretora ou diretor da faculdade terá de gastar tempo com atividades burocráticas cujas vantagens para o contribuinte não estão muito claras. Em alguns casos, alguém em Brasília terá seu tempo consumido por mais essa tarefa. Não seria um grande problema, se a sociedade não fosse pagar bom dinheiro para todas essas pessoas gastarem horas de seu dia preenchendo formulários e carimbando papelada. É a própria definição de trabalho embusteiro.

Um possível argumento em favor dessa medida seria conceder maior controle sobre o uso do tempo pelos servidores públicos e evitar que os docentes passem a vida fazendo turismo com o salário pago pelo contribuinte, protegidos pelo corporativismo. É uma perspectiva razoável, mas sem muita base na realidade. Existem casos de corpo mole nas instituições de ensino federais — como em qualquer outra organização pública ou privada –, mas a observação de meus colegas e minha própria experiência mostram que, em geral, as viagens para eventos não fazem as tarefas cotidianas desaparecerem, ou serem desempenhadas por outra pessoa, mas, sim, se acumularem para o dia do retorno.

A limitação do número de servidores que podem “representar” o MEC em eventos acadêmicos a duas pessoas, ou cinco se houver justificativa, à primeira vista é problemática. O Departamento de Comunicação da UFRGS, para se ter uma ideia, conta com 46 professores, dos quais 10 participaram do 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação em 2019. Eles e elas não apenas apresentaram trabalhos resultantes de pesquisas, mas coordenaram grupos de pesquisa, assistiram às apresentações de outros pesquisadores e proferiram conferências — não foram a Belém falar por 15 minutos e passar o resto do tempo comendo açaí ou dançando no Treme Terra Tupinambá.

O congresso da Intercom é o mais importante do ano no Brasil e reúne o maior número de participantes, por isso é muito importante apresentar pesquisas lá. Uma pesquisa científica sem difusão não cumpre sua função social e o ideal é apresentar ao maior número possível de colegas, uma vez que o custo da viagem esteja pago. Sob as atuais regras, metade dos professores que tiveram condições de cruzar o Brasil com recursos públicos ou pagando do próprio bolso seriam obrigados a apresentar em eventos de escopo mais restrito — o que não é demérito para tais eventos, eu mesmo costumo privilegiar os específicos da área de jornalismo.

Mesmo os eventos com foco mais restrito, como o Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo ou o Congresso Internacional de Ciberjornalismo, dos quais costumo participar, serão prejudicados se o padrão de partipação de cada universidade federal passar a ser de apenas dois pesquisadores. Provavelmente será impossível cobrir os custos de organização, com a queda no faturamento nas inscrições.

A nota técnica do Forplad dá a entender que os reitores serão capazes de autorizar as viagens de até cinco professores por evento:

Em análise técnico-administrativa, a Portaria 2.227/2019, delega aos dirigentes máximos das IFES e IFS, autárquicas e fundacionais, competência para autorizar no âmbito de suas instituições viagens nacionais e internacionais para até 5 pessoas para o mesmo evento…

Em princípio, é uma boa notícia, mas ao mesmo tempo a portaria torna essas autoridades responsáveis no caso de o MEC julgar as justificativas insuficientes, por exemplo. Na melhor das hipóteses, se deve esperar maior rigor na análise dos casos em que não há recursos públicos envolvidos e, portanto, um aumento na burocracia para se obter autorização de afastamento. Na pior, alguns reitores vão preferir evitar problemas e negar por padrão o afastamento de mais de dois pesquisadores para um mesmo evento.

Considerando os constantes ataques do ministro da Educação contra os professores das universidades públicas, fica a impressão de que a portaria foi usada como cavalo de Troia para dificultar a atividade de pesquisa e inviabilizar a realização de eventos científicos no Brasil — os quais já vinham sofrendo com o sumiço dos recursos da Capes e do CNPq e contavam hoje em dia basicamente com o dinheiro das inscrições. O novo escolhido para presidir a Capes é adepto do criacionismo, então desse mato é bom não esperar coelhos.

A militância do governo federal, porém, vai dizer que se trata apenas de paranoia esquerdista, como os problemas do ENEM.

Para que serve um curso de Humanas?

A resposta à pergunta “para que serve um curso de Humanas?” depende, basicamente, da visão de mundo da pessoa à qual a questão é dirigida. Pela mesma razão, a própria pergunta denuncia a ideologia do questionador. Em geral, quem questiona a serventia das humanidades vê o mundo sob uma perspectiva utilitarista, muitas vezes associada a uma posição política reacionária.

Como bem apontou a minha amiga Katarina Peixoto no Facebook, não se responde ao que não deve ser questionado:

A universidade existe para ser excelente e isso deveria bastar. Não basta porque o Brasil resolveu dar um tiro na cabeça e agora estamos às voltas com esse inferno que é lidar com suicida. Realmente, não sei e não tenho tempo, agora, de enfrentar o problema de se devemos ou não prestar contas do que fazemos, à sociedade. No que me concerne, a tarefa é rematadamente impossível. Em primeiro lugar, não é praticável e, em segundo, eu não quero perder minhas amizades.

A quem, em sã consciência, fora da filosofia, pode interessar saber o que é um predicado e por que a estrutura clássica da proposição perdeu o seu enjeu? E as razões por que isso ocorreu, e por que podemos antever a obsolescência lógica da cópula, na LAP? A quem interessa escavar a prioridade semântica sobre as vestimentas gramaticais, em Port-Royal? E a natureza da mente, vamos lá, em Elisabeth da Bohemia? A filósofa seria uma humeana avant la lettre (como uma comentadora fina detecta) ou seria uma cartesiana hard-core (como eu penso que era)? Quem, na fila do pão, quer saber do argumento da distinção real e da leitura que a filósofa da Bohemia fez desse argumento? E a vontade, ela incide direta, ou indiretamente, na asserção? Qual a implicação de uma leitura ou de outra? Vale dizer, na Quarta Meditação e em Port-Royal (também em Spinoza, na Ética)?

Isso dito, mas considerando a guerra do governo Bolsonaro contra as universidades, talvez valha a pena fazer um esforço para explicar a relevância do ensino de Humanas e contradizer a visão reacionária utilitarista mais pedestre. A partir dessa perspectiva, somente os cursos universitários com alguma “aplicação prática” devem ser incentivados ou receber investimento público, por dois pressupostos principais:

  • No nível individual, oferecem mais oportunidades de emprego ao egresso da universidade
  • No nível social, a educação de engenheiros, programadores, farmacêuticos, agrônomos e outros profissionais do gênero gera riqueza

Noutras palavras, as humanidades, artes e outras disciplinas seriam inúteis porque não formariam empreendedores nem técnicos para trabalhar em bancos, empreiteiras, metalúrgicas, latifúndios, entre outras empresas de setores economicamente importantes. Como é necessário gerar riqueza, para gerar postos de trabalho, para empregar a população, para fazer a economia girar, para gerar impostos, para financiar o Estado, os utilitaristas consideram um desperdício investir dinheiro público nessas áreas.

É claro, nem todo utilitarista considera as Ciências Humanas uma perda de tempo — apenas os utilitaristas ignorantes ou ingênuos pensam assim.

Em primeiro lugar, algumas das disciplinas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), consideradas pelos utilitaristas cursos “sérios” e valorizadas pelo mercado, estão cheias de pesquisas sem nenhuma aplicação prática direta ou mesmo aparente. A diferença entre uma tese ridícula na Matemática e uma tese ridícula nas Letras é que pessoas sem nenhuma formação universitária relevante conseguem decifrar pelo menos o título do trabalho no segundo caso e desmerecer o tema de pesquisa.

Esse tipo de crítica em geral parte de reacionários se apropriando de uma perspectiva utilitarista para criticar campos de estudo científico considerados progressistas, como os estudos de gênero ou a teoria crítica, por exemplo. Curiosamente, esses conservadores ignoram as ideias de seus próprios ídolos sobre a ciência. Friedrich Hayek, por exemplo, entendia a evolução cultural em termos darwninistas. De seu ponto de vista, a variedade na cultura era essencial, porque nunca se pode saber qual inovação biológica ou cultural vai oferecer uma vantagem a uma espécie ou grupo.

Pesquisas sem nenhuma aplicação clara no presente podem se mostrar úteis no futuro. A natureza produz todo tipo de características biológicas possíveis, ao acaso. Algumas delas se mostram úteis e permanecem, enquanto outras desaparecem sob os estratos geológicos. Podemos encarar as universidades como máquinas de produção de ideias variadas, algumas das quais vão se mostrar adequadas ao ambiente, outras, não. Assim como na natureza, para se encontrar um traço biológico útil, é preciso arcar com o excesso, com o erro, nas ciências também se deve aceitar a produção de uma variedade exuberante de ideias, para garantir a geração daquelas capazes de aplicação prática no futuro.

Além disso, muitas das contribuições das humanidades para o empreendimento científico em geral e para a economia em particular são frequentemente obscurecidas. Há muitos estudos antropológicos sobre as culturas de povos indígenas, por exemplo. Alguns desses estudos podem parecer bizantinos aos olhos de utilitaristas — por que deveríamos nos preocupar com a filosofia dos mbyá-guarany, se vivemos numa sociedade urbana pós-industrial?

Talvez porque, ao observar a atividade dos karaí, ou curandeiros, o antropólogo pode registrar o uso de certas ervas medicinais. A seguir, um pesquisador de farmacologia pode se basear nesses registros para encontrar o princípio ativo de determinada erva e criar uma nova droga, a qual pode gerar riqueza. Quando isso acontece, porém, a disciplina de Farmácia ganha “pontos” na escala utilitarista, enquanto a Antropologia segue considerada uma atividade, na melhor das hipóteses, capaz de gerar leituras pitorescas.

Numa perspectiva cotidiana e de curto prazo, também, as Ciências Humanas também apresentam contribuições. O cientista da computação Shane Parrish, cujo weblog sobre modelos mentais e processo decisório influencia muitos executivos de Wall Street, relatou em entrevista recente a Sam Harris como as humanidades lhe fizeram falta quando entrou no mercado de trabalho:

Parrish assumiu um emprego num escritório de inteligência canadense logo após sair da faculdade, poucos dias antes dos atentados de 11/9. Em meio ao caos na agência, com a entrada de centenas de novos funcionários, ele se viu promovido a gerente em pouco tempo. Neste ponto, descobriu que a matemática e a programação, as quais tinham sido o foco de seu curso universitário e lhe arranjado um emprego, não eram suficientes para desempenhar suas novas funções, e se voltou para as artes e humanidades.

É um bom negócio para as empresas, porque elas podem contratar pessoas capazes de contribuir quase imediatamente, mas, dentro de quatro ou cinco anos, você está numa função diferente e essa função pode ser ou não afim às suas habilidades aos conteúdos que aprendeu na faculdade. O problema é que você fica inclinado a ver o mundo através dessas lentes. Existe o provérbio antigo segundo o qual “todo problema se parece com um prego para quem tem um martelo”. Para mim foi muito útil, assim como para outras pessoas com quem trabalhei, me abrir para um mundo mais amplo, pois isso não apenas ajuda a entender e a ver interconexões, mas, como vim a descobrir depois, ajuda você a entender outras pessoas, os modelos mentais delas — ajuda você a se comunicar com outras pessoas, se relacionar com elas e desenvolver relacionamentos significativos.


Executivos no Vale do Silício descobriram a mesma coisa, após vários anos se focando nas disciplinas do acrônimo STEM, e vêm contratando funcionários das humanidades e outras graduações “menos sérias”, basicamente porque eles são capazes de se comunicar com outras pessoas.

Finalmente, as humanidades, ao procederem a uma crítica profunda dos valores, costumes, crenças e ideologias, podem servir como uma espécie de “assessoras de vai dar merda” da sociedade. Marx denunciou as contradições do capitalismo no século XIX, muitas das quais se mostraram previsões acertadas ao longo dos conflitos sociais do século XX. Heidegger alertou para a possibilidade da tecnologia ganhar autonomia em relação ao ser humano e vir a suplantá-lo e hoje nos debatemos com a perspectiva de ocupação da maior parte dos postos de trabalho por máquinas. O despropósito de hoje pode ser a análise acertada de amanhã.

O bom filho à casa torna

Em março de 2007, com apenas 28 anos de idade e concluindo o mestrado, a PUCRS me deu a oportunidade de iniciar a minha carreira como docente na área de Jornalismo. A partir de julho de 2016, entro em nova fase na carreira, com minha transferência da Famecos para o curso de Jornalismo da Fabico, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na UFRGS, vou assumir algumas das disciplinas de Ciberjornalismo, criadas para atender às novas diretrizes curriculares para o ensino do Jornalismo.

Será um prazer imenso retornar à Fabico, onde cursei a graduação entre 1997 e 2001 e, mais tarde, o mestrado, entre 2005 e 2007. Sempre tive o desejo de retribuir o investimento público em minha formação levando para lá o conhecimento que desenvolvi nesta década como pesquisador, além das habilidades práticas como jornalista digital e agitador cibercultural. No primeiro semestre, enquanto o currículo novo não é implantado, vou substituir o professor Wladimir Ungaretti na orientação dos alunos que produzem a revista Sextante e o jornal Três por Quatro. Será uma boa oportunidade de compartilhar algumas experiências do Editorial J com os alunos da Fabico.

Também vou participar do grupo de pesquisa em Jornalismo Digital, o JorDi, criado pela professora Luciana Mielniczuk.

Essa mudança é o ponto culminante de uma década de trabalho intenso como pesquisador e docente. Desde o ingresso no mestrado, havia determinado para mim mesmo o objetivo de me tornar pesquisador e docente no magistério superior federal. Se na PUCRS pude desenvolver bem as habilidades de professor e, até certo ponto, administrador, essa nova fase na carreira vai se focar em ampliar minha participação como pesquisador nos campos do Jornalismo e da Cibercultura.

Com o tempo, pretendo retomar as atividades neste weblog e no Garfada. Considerei adequado recomeçar compartilhando a alegria pelo raro privilégio de concretizar um sonho. :-)

11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Na quinta-feira, dia 23, começa o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Convido os inscritos a acompanharem as atividades da qual farei parte:

Quinta-feira, 9h – Painel “O cérebro e a notícia”, com os neurocientistas André Palmini (PUCRS) e André Martins (USP), no qual serão discutidos vieses cognitivos e outras interferências dos processos neurológicos no trabalho de reportagem

Sexta-feira, 9h e 14h – III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo

Sábado, 9h e 14h – III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo

As salas estarão indicadas nos guias que cada congressista vai receber ao fazer o credenciamento.

Famecos tem grupo de estudos para curso online de introdução ao jornalismo guiado por dados

No dia 19 de maio, começa o MOOC Doing journalism with data, um curso a distância introdutório sobre jornalismo guiado por dados. Entre os professores estão o veterano da Reportagem Assistida por Computador Steve Doig; o antigo editor de dados do Guardian e hoje analista do Twitter, Simon Rogers, autor de Facts are sacred; o infografista Alberto Cairo, autor de The functional art; o professor Paul Bradshaw, autor de Scraping for journalists e de Finding stories with spreadsheets; e Nicolas Kayser-Bril, fundador da agência Journalism++.

O programa inclui:

  • Módulo 1 — Jornalismo guiado por dados na redação
  • Módulo 2 — Encontrando dados para embasar notícias
  • Módulo 3 — Desenvolvendo ideias de pauta com análise de dados
  • Módulo 4 — Como limpar dados bagunçados
  • Módulo 5 — Contando histórias com visualizações

Os inscritos poderão participar do grupo de estudos gratuito organizado por mim na Famecos/PUCRS, em Porto Alegre, a convite da Escola de Dados. O grupo terá quatro encontros ao longo do curso, sempre entre 16 e 19h, em quatro sextas-feiras:

  • 23 de maio
  • 6 de junho
  • 13 de junho
  • 20 de junho

A proposta do grupo de estudos é trocar experiências e tirar dúvidas de forma colaborativa. Isto significa que não vou dar aulas sobre jornalismo guiado por dados, mas oferecer um espaço para as discussões e — tomara! — aprender com os outros participantes.

Os interessados podem entrar em contato pelo correio eletrônico professortrasel [arroba] gmail [ponto] com.

Usando o Google Acadêmico para se manter em dia com a bibliografia

Uma das melhores ferramentas do Google — e que inexplicavelmente é pouco valorizada pela empresa — é o sistema de alertas por correio eletrônico para palavras-chave determinadas pelo usuário. Basta cadastrar os termos de interesse, para receber uma mensagem sempre que o motor de buscas indexar uma nova página condizente com eles.

Se pouca gente sabe dos Alertas dos Google, menos ainda sabe que é possível cadastrar alertas que só retornem resultados do Google Acadêmico. É importante usar operadores de busca para refinar os gatilhos de alerta. Abaixo, alguns exemplos:

  • Para alertas com mais de um termo, coloque-os entre aspas: “data-driven journalism”
  • Para alertas relacionados a um autor específico: autor: “Marcelo Träsel”
  • Para alertas cujos termos devem constar no título do artigo ou livro: tudonotítulo: “jornalismo guiado por dados”

Também é interessante criar um perfil no Google Acadêmico e listar sua produção científica. Com isso, o sistema passa a varrer a Web em busca de referências relevantes para o seu foco de pesquisa.

Abraji realiza seminário regional em Porto Alegre

No dia 22 de março, sábado, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo realiza seu primeiro seminário regional de 2014. O dia será dividido entre palestras e oficinas, todas sobre jornalismo investigativo e/ou jornalismo guiado por dados.

É uma excelente oportunidade de aprender com repórteres experientes e conhecer os meandros da investigação jornalística. O preço é camarada: R$ 50 para estudantes, R$ 75 para profissionais e de graça para os sócios da Abraji.

Inclusive, pode ser uma boa oportunidade para se filiar à associação, cuja anuidade custa R$ 220 para profissionais e R$ 110 para estudantes. Há vários benefícios, como acesso a bancos de dados, a tutoriais e à comunidade de repórteres investigativos brasileiros. Além disso, há a satisfação de contribuir para a manutenção de uma entidade que defende os interesses dos jornalistas — é uma das maiores responsáveis pela existência de uma Lei de Acesso à Informação, por exemplo.

Confira abaixo a programação, que traz luminares como Cláudio W. Abramo, Gil Castello Branco, José Roberto de Toledo e Mauri König:

9h00 – 10h30
(Auditório) LAI no Lide – o bom uso da Lei de Acesso no jornalismo regional
Jonathas Costa (O Alvoradense), Juliana Bublitz (Zero Hora) e Paula Sperb (O Caxiense)

(Laboratório) Crime sem Castigo – visualização no Tableau
Guilherme Storck (Gazeta do Povo)

11h00 – 12h30
(Auditório) Mobilidade urbana: para onde (e como) vamos
Daniela Facchini (Embarq Brasil), Clarisse Linke (ITDP) e André Mags (Zero Hora)

(Laboratório) Poder econômico e financiamento eleitoral no Brasil
Claudio Weber Abramo (Transparência Brasil)

14h00 – 15h30
(Auditório) Boas histórias: Dragagem ilegal no Rio Jacuí e Arquivos Secretos do Coronel do DOI-CODI
Fabio Almeida (RBS TV) e Renata Colombo (Rádio Gaúcha); Nilson Mariano e Humberto Trezzi (Zero Hora)

(Laboratório) Investigação do orçamento federal
Gil Castello Branco e Carlos Blener (Contas Abertas)

16h00 – 17h30
(Auditório) Boas histórias: Polícia Fora da Lei e reportagens
Mauri König (Gazeta do Povo) e Giovanni Grizotti (TV Globo)

(Laboratório) DataPOA: dados abertos municipais de Porto Alegre

Abraji abre chamada de trabalhos para seminário de pesquisa em jornalismo investigativo

O 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo incluirá pela primeira vez um eixo destinado à apresentação e discussão de pesquisas científicas em torno do tema.

A iniciativa é da nova diretoria da Abraji, da qual participo como conselheiro fiscal e uma espécie de liaison com a academia. Há uma grande abertura dos repórteres, hoje, para o debate com pesquisadores do jornalismo, em grande parte, me parece, devido ao aporte científico necessário para praticar o jornalismo guiado por dados.

Por um lado, grande parte da tecnologia e, principalmente, o conhecimento sobre estatística e matemática usados pelas redações têm origem na academia. Pesquisadores da comunicação, como a equipe do Labic, por exemplo, têm contribuído com expertise na área de análise de redes sociais.

Por outro lado, as redações são laboratórios por excelência para o teste de tecnologia e novas propostas de formatos jornalísticos. Parcerias entre jornalistas profissionais e pesquisadores podem render grandes benefícios ao campo como um todo e, quem sabe, encontrar uma forma de ajudar a salvar essa importante instituição democrática que é a imprensa.

De fato, a era digital oferece a primeira oportunidade na história do jornalismo para que a academia tome a frente na proposição de novas formas de organizar a produção e a distribuição de notícias.

Hoje, bastam computadores, software open source e conexão à Internet para que pesquisadores criem jornais-laboratório capazes de adotar e testar as tecnologias mais recentes. Antigamente, era preciso arcar com custos de impressão ou radiodifusão, o que sempre é um problema para as ciências humanas, em geral tratadas como secundárias pelas agências de fomento.

Além disso, jornais-laboratório não têm compromisso com audiência ou acionistas e podem, por isso, errar bastante ao aplicar tecnologias e propor novas formas de narrativa jornalística. Redações profissionais não podem se dar ao luxo de quebrar o contrato de leitura o tempo todo.

Enfim, os pesquisadores interessados em debater os caminhos da investigação jornalística, a situação das vias de acesso à informação pública, o jornalismo guiado por dados, os desafios do ensino e outros temas serão bem vindos no próximo congresso da Abraji, entre os dias 24 e 26 de julho de 2014, em São Paulo.

Veja aqui o call for papers para o I Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo da Abraji.

Rede de acolhimento para mulheres viajando a negócios

Uma aluna do curso de especialização em Jornalismo Digital da PUCRS criou um dos projetos de conclusão de curso mais interessantes até o momento. Maria do Carmo Barreiros tem uma longa carreira como consultora, que a obriga a viajar pelo país. Nessas viagens, percebeu que ela mesma e muitas colegas acabam evitando sair do hotel nas horas de folga, porque há pouca receptividade a mulheres sozinhas em restaurantes, bares e outros estabelecimentos de lazer.

De fato, até há pouco tempo, segundo ela, uma mulher jantando sozinha num restaurante era tratada como prostituta, mesmo em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir do contato com o conceito de redes sociais, Maria do Carmo teve a ideia de criar um grupo de acolhimento para mulheres viajando sozinhas a trabalho: Mulheres Viajando a Negócios. Além do grupo no LinkedIn, há outro no Facebook. Trecho do release:

Mesmo que não haja coincidência das agendas, vale muito a troca de informações sobre opções de lazer, cultura e serviços: um taxista de confiança, um restaurante que costuma frequentar, um hotel bem localizado, com serviços por perto, e ainda solicitar referências que nos dê mais segurança caso venhamos a enfrentar algum tipo de dificuldade.

E por que não são suficientes as recomendações voltadas aos turistas em geral? Porque não cumprem as necessidades específicas de profissionais e ainda partem do pressuposto de que temos disponibilidade total de tempo para aproveitar a cidade. As dicas pessoais são mais apropriadas às nossas viagens pela similaridade das experiências e pela restrição de horários disponíveis.

Estamos reunindo essas mulheres. Juntas, poderemos ter e oferecer apoio, especialmente durante estadias em metrópoles e grandes aglomerados urbanos, locais que provocam forte sensação de insegurança e receio.

É um projeto interessante porque usa um dos principais aspectos benéficos das redes sociais, que é a possibilidade de auto-organização em grande escala, para mitigar um problema social pouco conhecido por quem não vive a situação dessas trabalhadoras. Ou seja, responde diretamente a uma necessidade do mercado.