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Declaração de apoio ao professor Felipe Boff

Na noite de 7 de março, sábado, na cerimônia de formatura do curso de Jornalismo da Unisinos em São Leopoldo, pessoas da plateia, aos gritos e vaias, tentaram impedir o paraninfo, professor Felipe Boff, de prosseguir seu discurso. A virulência desse ataque foi tão grande, que a instituição teve que colocar seguranças para o acompanharem na saída do auditório. Em sua fala corajosa e necessária, principalmente na ocasião em que jovens colegas chegam ao mercado de trabalho, Felipe, embasado em dados e exemplos, alertava para o que deveria ser óbvio: o presidente da República vem constantemente ofendendo e destratando jornalistas. “No ano passado, segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas, o presidente da República atacou a imprensa 116 vezes em postagens nas suas redes sociais, pronunciamentos e entrevistas. Um ataque a cada três dias”, destacou o professor.

Como também salientou o paraninfo, o atual presidente da República vem ameaçando não só o jornalismo: “Ameaça a democracia, a arte, a ciência, a educação, a natureza, a liberdade, o pensamento. Ameaça a todos, até aqueles que hoje apenas o aplaudem”. Esses que na formatura tentaram calar um jornalista por dizer o que é fato não enxergam que estão abrindo mão de um direito básico e constitucional de todos os cidadãos brasileiros: o de serem informados. Não existe democracia sem jornalismo livre. Jornalistas já foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados durante o período de ditadura militar no Brasil, como também lembrou Felipe. Mas não nos deixaremos intimidar com ameaças.

Por isso, nós, pesquisadores, pesquisadoras, jornalistas, professores e professoras de jornalismo abaixo assinados, declaramos total apoio e solidariedade ao professor e jornalista Felipe Boff, que conseguiu, em sua fala verdadeira, representar a todos e todas nós neste momento tão difícil que o país atravessa. Também, pelos alunos e alunas de jornalismo, temos o dever de dizer: cada ataque nos tornará mais fortes. Por fim, reafirmamos o que o professor Felipe disse no encerramento de sua fala: “Não deixaremos que a tirania nos cale mais uma vez”.

Porto Alegre, 9 de março de 2020

  1. Adriana Cristina Alves do Amaral
  2. Adriana Martorano
  3. Adriana Rosa do Amaral – Unisinos
  4. Alberto Efendy Maldonado – Unisinos
  5. Alexandre de Santi
  6. Álvaro Almeida
  7. Ana Carine García Montero – UFSC
  8. Ana Gruszynski – UFRGS
  9. Ana Paula Penkala – UFPel
  10. Andriolli de Brites da Costa
  11. Angela Felippi – Unisc
  12. Angela Maria Farah – UNIUV
  13. Angela Prysthon – UFPE
  14. Ângela Zamin – UFSM
  15. Ângelo Chemello
  16. Ania Chala
  17. Arlete Taboada – FAPCOM
  18. Aroeira
  19. Aquiles Lins
  20. Basilio Sartor – UFRGS
  21. Beatriz Becker – UFRJ
  22. Beatriz Dornelles – PUCRS
  23. Beatriz Sallet – Unisinos
  24. Bruno Leites – UFRGS
  25. Bruno Lima Rocha – Unisinos
  26. Cárlida Emerim – UFSC
  27. Carlos Alberto Zanotti – PUC Campinas
  28. Carlos Eduardo Franciscato – UFS
  29. Carmem Daniella Spínola Da Hora – UFRN
  30. Caru Schwingel
  31. Charles Florczak
  32. Christa Berger – UFRGS
  33. Cida Golin – UFRGS
  34. Clarice Speranza – UFRGS
  35. Cláudia Herte de Moraes – UFSM
  36. Claudia Lago – USP
  37. Claudia Quadros – UFPR
  38. Cristiane Freitas Gutfreind – PUCRS
  39. Cristiane Lindemann – Unisc
  40. Cybeli Almeida Moraes – Unisinos
  41. Daniel Bittencourt – Unisinos
  42. Daiane Bertasso Ribeiro – UFSC
  43. Débora Lapa Gadret – Unisinos
  44. Denise Assis
  45. Denise Avancini Alves – UFRGS
  46. Edelberto Behs
  47. Eduardo Meditsch – UFSC
  48. Eduardo Seidl – PUCRS
  49. Eduardo Veras – UFRGS
  50. Eliege Fante
  51. Elizete de Azevedo Kreutz – Univates
  52. Eric Nepomuceno
  53. Everton Cardoso – Unisinos
  54. Fábian Chelkanoff Thier – PUCRS
  55. Fabiana Piccinin – Unisc
  56. Fabiane Sgorla – UFRGS
  57. Fabio Kraemer – Univates
  58. Fábio Canatta – PUCRS
  59. Fabricio Silveira – UFRGS
  60. Felipe de Oliveira – UFRGS
  61. Fernando Resende – UFF
  62. Flávio Dutra – Unisinos
  63. Flávio Ilha
  64. Flavio Meurer – Univates
  65. Francisco Giovanni Rodrigues – UERN
  66. Freda Indursky – UFRGS
  67. Frederico Tavares – UFOP
  68. Gabriel Grossi
  69. Gerson Luiz Martins – UFMS
  70. Gilmar Adolfo Hermes – UFPel
  71. Giovanna Benedetto Flores – Unisul
  72. Gisele Dotto Reginato
  73. Gisele Fredericci
  74. Gislene Silva – UFSC
  75. Gustavo Diehl
  76. Gustavo Fischer – Unisinos
  77. Hildegard Angel
  78. Ilza Girardi – UFRGS
  79. Isaltina Gomes – UFPE
  80. Ivone Cassol – PUCRS
  81. Ivonete Pinto – UFPel
  82. Jacira Cabral da Silveira
  83. Jacques Mick – UFSC
  84. Jair Giacomini – Unisc
  85. Jairo Ferreira – Unisinos
  86. Jane Mazzarino – Univates
  87. Jaqueline Chala
  88. Joana Brandão Tavares – UFSB
  89. João Batista de Abreu – UFF
  90. José Antonio Rocha – UFSM
  91. José Ricardo da Silveira – UERN
  92. Josenildo Guerra – UFS
  93. Juliana Doretto – PUC-Campinas
  94. Júnia Martins – UERN
  95. Karla Maria Müller – UFRGS
  96. Kati Caetano – UTP
  97. Krishma Anaisa Coura Carreira – FAPCOM
  98. Laura Storch – UFSM
  99. Laura Wottrich – UFRGS
  100. Leonel Aires – Unisc
  101. Leonel de Oliveira – Univates
  102. Liliane Dutra Brignol – UFSM
  103. Lúcia Helena Mendes Pereira – UFT
  104. Luciana Kraemer – Unisinos
  105. Lucio Siqueira Amaral Filho – Unisc e Univates
  106. Luiz Antônio Araújo – PUCRS
  107. Luiz Artur Ferraretto – UFRGS
  108. Luís Augusto Fischer – UFRGS
  109. Maicon Elias Kroth – UFSM
  110. Mara Rovida – UNISO
  111. Marcela Donini
  112. Marcelo Auler
  113. Marcelo Engel Bronosky – UEPG
  114. Marcelo Träsel – UFRGS
  115. Marcia Benetti – UFRGS
  116. Marcia De Toni – Cásper Líbero e Mackenzie
  117. Márcia Franz Amaral – UFSM
  118. Márcia Lopes Duarte – Unisinos
  119. Marcilia Luzia Gomes da Costa Mendes – UERN
  120. Marcos Palacios – UFBA
  121. Marcus Staudt – Univates
  122. Maria Bernardete Toneto – USJT
  123. Maria Clara de Aquino Bittencourt – Unisinos
  124. Maria Cristina Leandro Ferreira – UFRGS
  125. Maria Lúcia Badejo
  126. Mariana Sirena
  127. Mario Victor
  128. Martha Dreyer de Andrade Silva – Unisinos
  129. Miriam Barradas
  130. Marília Gehrke
  131. Marli dos Santos – Cásper Líbero
  132. Marta Maia – UFOP
  133. Mateus Yuri Passos – UMESP
  134. Micael Vier Behs – Unisinos
  135. Miguel Paiva
  136. Milena Freire de Oliveira-Cruz – UFSM
  137. Miriam Barradas
  138. Moreno Osório – PUCRS
  139. Miriam Rossini – UFRGS
  140. Myrian Del Vecchio – UFPR
  141. Naira Hofmeister
  142. Nicole Trevisol
  143. Nikão Duarte – Unisinos
  144. Nisia Alejandra Rizzo de Azevedo – UNEB
  145. Nísia Martins do Rosário – UFRGS
  146. Patrícia Lima
  147. Patrícia Regina Schuster – Unisc
  148. Paula Melani Rocha – UEPG
  149. Paulo César Vialle Munhoz – UFSM
  150. Pedro Aguiar – UFF
  151. Pedro Osório – Unisinos
  152. Porã Bernardes – Unisinos
  153. Rafael Guimaraens
  154. Raquel Ritter Longhi – UFSC
  155. Renata Lohmann – Univates
  156. Ricardo Romanoff
  157. Rita Lenira de Freitas Bittencourt – UFRGS
  158. Roberto Villar Belmonte – UniRitter
  159. Rogério Christofoletti – UFSC
  160. Ronaldo Cesar Henn – Unisinos
  161. Rosana de Lima Soares – USP
  162. Rosane Rosa – UFSM
  163. Rosiane Moro – UMESP
  164. Rudimar Baldissera – UFRGS
  165. Sabrina Franzoni – Unisinos
  166. Samuel Pantoja Lima- UFSC
  167. Sandra Bitencourt – IPA
  168. Sandra de Deus – UFRGS
  169. Sandro Kirst – Univates
  170. Sean Hagen – UFRGS
  171. Sebastião Squirra – UMESP
  172. Sergio Endler – Unisinos
  173. Sérgio Gadini – UEPG
  174. Sérgio Xavier Filho
  175. Silvio Alves – Unisinos
  176. Solange Mittmann – UFRGS
  177. Sonia Aguiar – UFS
  178. Sonia Montano – Unisinos
  179. Suzana Barbosa – UFBA
  180. Silvia Lisboa
  181. Sylvia Moretzsohn – UFF
  182. Taís Seibt – Unisinos
  183. Thais de Mendonça Jorge – UnB
  184. Thaís Helena Furtado – UFRGS
  185. Ticiano Paludo – PUCRS
  186. Valci Regina Mousquer Zuculoto – UFSC
  187. Vera Martins – UFSM
  188. Veruska Sayonara de Góis – UERN
  189. Virginia Fonseca – UFRGS
  190. Viviane Borelli – UFSM
  191. Washington José de Souza Filho – UFBA
  192. Willian Fernandes Araújo – Unisc
  193. Zélia Leal Adghirni – UnB

Mulheres jornalistas lançam manifesto em apoio a Patrícia Campos Mello

Na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre “fake news”, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e parlamentares do PSL, componente da base de apoio da presidência, protagonizaram a façanha de ultrapassar os limites já elevados de mau caratismo que caracterizam a relação do bolsonarismo com os fatos e com a imprensa. Durante a sessão do dia 11 de fevereiro, organizaram uma pantomima para desacreditar as reportagens de Patricia Campos Mello, jornalista da Folha de S. Paulo, a respeito de práticas ilegais de propaganda eleitoral no WhatsApp em 2018.

No dia 12 de fevereiro, milhares de mulheres jornalistas assinaram um manifesto em desagravo à repórter:

Nós, jornalistas abaixo assinadas, repudiamos os ataques sórdidos e mentirosos proferidos em depoimento à CPMI das Fake News por Hans River, ex-funcionário da empresa Yacows, especializada em disparos em massa de mensagens de Whatsapp, à jornalista da Folha de S.Paulo Patricia Campos Mello.

Sem apresentar qualquer prova ou mesmo evidência, o depoente acusou a repórter, uma das mais sérias e premiadas do Brasil, de se valer de tentativas de seduzi-lo para obter informações e forjar publicações.

É inaceitável que essas mentiras ganhem espaço em uma Comissão Parlamentar de Inquérito que tem justamente como escopo investigar o uso das redes sociais e dos serviços de mensagens como Whatsapp para disseminar fake news.

Nós, jornalistas e mulheres de diferentes veículos, repudiamos com veemência este ataque que não é só a Patricia Campos Mello, mas a todas as mulheres e ao nosso direito de trabalhar e informar. Não vamos admitir que se tente calar vozes femininas disseminando mentiras e propagando antigos e odiosos estigmas de cunho machista.

A campanha de difamação contra Patrícia Campos Mello é duplamente nojenta, porque, além de se valer de velhas técnicas de governos autoritários e instituições de guerra desleal — como a CIA e a KGB — se baseia em misoginia e pega carona no machismo estrutural da sociedade brasileira.

É uma tradição de governos e corporações — como a indústria do tabaco ou de combustíveis fósseis — apelar ao moralismo para desacreditar fontes e jornalistas que divulgam informações contrárias a seus interesses. Daniel Ellsberg teve fotos eróticas privadas difundidas por agentes do governo estadunidense quando divulgou os Pentagon Papers, mesmo governo que usou denúncias duvidosas de abuso sexual para botar as mãos em Julian Assange, em resposta à divulgação de segredos como o vídeo Collateral Murder. A meta é lançar uma pecha de imoralidade sobre os mensageiros, na esperança de contaminar a percepção da mensagem pelo público, ao sugerir que ela tem origem profana. Além disso, a tática também pode funcionar como um aviso a futuros denunciantes.

Aplicado a uma mulher numa cultura machista, o expediente se aproveita da misoginia para amplificar seus resultados — ao mesmo tempo em que duplica seu caráter revoltante. Toda mulher com alguma posição de destaque na sociedade brasileira deve ter a experiência de ser vítima de fofocas sobre os métodos usados subir na vida. Executivas dormiram com o CEO, atrizes da televisão fizeram teste do sofá, escritoras publicadas tiveram um caso com o editor e por aí vão as fantasias machistas que buscam negar a competência das mulheres de sucesso. O pavor a reconhecer o talento feminimo é tamanho que se poderia supor uma perda de um centímetro de pinto na população brasileira a cada nova CEO, presidenta, medalhista olímpica ou cientista premiada.

A família Bolsonaro e seus asseclas, embora neguem o machismo estrutural, têm consciência suficiente dele para o instrumentalizar contra os jornalistas que divulgam os problemas e crimes do governo. Não apenas o presidente tem o costume de injuriar repórteres mulheres, mas também usa ofensas machistas contra homens. Os aplausos recebidos por Jair Bolsonaro quando xinga jornalistas com base em sua orientação sexual ou características físicas é apenas mais uma prova da existência do machismo estrutural e da misogonia. A máquina de desinformação do bolsonarismo pode considerar as questões de gênero uma ficção, mas sabe muito bem se valer de seus sintomas para fazer política às custas das mulheres e LGBTQs. O mesmo, aliás, vale para o racismo.

O manifesto assinado por milhares de jornalistas mulheres em apoio à Patricia Campos Mello e sua repercussão nas redes sociais é um consolo nestes tempos sombrios. A solidariedade é a melhor estratégia a ser adotada pelos jornalistas contra os ataques sistemáticos de militantes políticos — infelizmente, não apenas no campo da direita, mas também da esquerda.

O noticiário apresenta estatísticas de modo simplório

A manchete do jornal Zero Hora de 10 de setembro é alarmante:

É de fato motivo para alarme a possibilidade de uma interpretação totalmente equivocada de números passar por todo o processo editorial de um diário tradicional e relevante como a Zero Hora e acabar na manchete. Infelizmente, o jornal em questão não é o único a tratar dados e estatísticas de maneira simplória no Brasil.

O leitor mais atento já terá percebido um dos problemas à primeira vista: seria de se esperar a ocorrência de mais mortes em trechos de pista simples das rodovias, porque a proporção de rodovias duplicadas é muito baixa no Rio Grande do Sul. Conforme a própria reportagem:

O Estado conta com apenas 623 quilômetros de rodovias de pista dupla, segundo dados da última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada em 2018. A soma representa somente 7,1% dos 8.855 quilômetros avaliados pelo órgão em solo gaúcho.

Se as rodovias duplicadas representam apenas 7,1% do total, seria improvável elas concentrarem uma proporção muito alta das mortes em acidentes automobilísticos. O fato de 84% das mortes ocorrerem nas estradas de pista simples não oferece nenhuma informação relevante ao leitor. A manchete está, no mínimo, mal redigida. Porém, ela está errada? A resposta a essa pergunta exigiria uma análise que não tenho condições de realizar no momento, mas posso das algumas indicações.

Em primeiro lugar, os números apresentados pela reportagem são irrelevantes, porque comparam maçãs com bananas. Uma rodovia só é passível de duplicação quando está saturada, ou seja, quando um número muito alto de carros transitam nela. Muitas das rodovias de pista simples são pouco usadas. A probabilidade de acidentes aumenta junto com o número de veículos transitando. Uma estrada na qual circulam 20 mil veículos por dia não pode ser comparada a outra na qual circulam apenas mil sem algum ajuste matemático, assim como não podemos comparar o número absoluto de homicídios de municípios com populações tão desproporcionais quanto Porto Alegre e Cacique Doble.

Uma abordagem mais sensata para saber se morrem mais pessoas em rodovias de pista simples ou nas duplicadas é criar uma taxa de mortes por veículo. O levantamento mais recente do Volume Diário Médio (VDM) de tráfego nas estradas gaúchas oferecido pelo DAER é de 2017. Com esses dados, é possível criar uma taxa de mortes para mil ou 10 mil veículos por rodovia e comparar a taxa média das duplicadas com a das não duplicadas. Infelizmente, os relatórios do DAER estão em formato PDF, o que torna a análise muito trabalhosa.

Além disso, no relatório do DAER as rodovias estão divididas em trechos e nem todas têm o VDM medido. Com sorte, os trechos das estradas de pista simples onde ocorrem mortes merecem mais interesse do Estado e têm seus VDMs medidos, caso contrário seria necessário realizar ainda outro ajuste — talvez extrapolando as mortes por quilômetro para o número de quilômetros totais existentes, ou algo do gênero. Também seria necessário descobrir os trechos exatos de cada morte. Como não há dados consolidados à mão e os disponíveis são uma bagunça, é complicado fazer essa análise.

Embora as taxas calculadas dessa maneira oferecessem uma aproximação maior à realidade do que a comparação de números absolutos ou porcentagens, ainda seria necessário confirmar se a principal variável para a ocorrência de acidentes fatais é a presença ou ausência de duplicação na pista. Embora seja um fator importante, ele não é isolado, pois em geral as rodovias duplicadas recebem mais investimentos e maior atenção à manutenção do que estradas de pista simples nos grotões do estado. Talvez uma taxa de mortalidade mais alta nas rodovias sem duplicação, caso verificada, pudesse ser explicada por outros fatores, como a má qualidade da sinalização ou do asfalto. Ou, se verificada uma taxa de mortalidade maior nas rodovias duplicadas, ela talvez pudesse ser explicada pela velocidade média mais alta dos veículos. Ou, ainda, a mortalidade poderia ser explicada por variáveis sem relação alguma com a rodovia, como o nível de álcool no sangue do condutor.

Se alguma das considerações acima foi levada em conta, a reportagem de capa da Zero Hora não informa. Em todo caso, estatísticas costumam descrever fenômenos complexos e o jornalismo é avesso à complexidade. O resultado é vermos com frequência os números apresentados por instituições públicas tomados por seu valor de face.

Nota de solidariedade

O jornalista e meu colega de diretoria na ABRAJI Guilherme Amado, repórter da revista Época, está sofrendo perseguição das milícias virtuais da família Bolsonaro, por noticiar o sequestro da conta do presidente da República no Twitter — um meio de divulgação tornado oficial por Bolsonaro — por seu filho Carlos, após uma briga de família.

Infelizmente, ele é apenas mais uma vítima da família do presidente e seus apaniguados. Ataques como esse têm sido recorrentes.

É inaceitável um presidente coordenar um ataque contra um jornalista, seja qual for a razão. Mesmo se a notícia fosse absolutamente mentirosa, ainda seria imoral e nojento abusar do poder de presidente da República para perseguir um cidadão.

Aliás, também é inaceitável que a comunicação de um presidente da República fique a cargo de amadores desequilibrados. Assim como é inaceitável a família de um presidente da República apitar em assuntos de governo. Isso é coisa de republiqueta de bananas.

Infelizmente, a população e mesmo os jornalistas parecem estar derivando para enxergar esse tipo de comportamento como normal. Não é. Esse tipo de comportamento por parte do presidente é uma abominação em qualquer democracia séria.

Nunca deixe de corrigir valores pela inflação

Há pouco mais de uma semana, expliquei por que jamais se deve usar números absolutos para comparar populações de tamanhos muito diferentes. Neste artigo, mostro que deixar de corrigir valores pela inflação, além de ser enganoso, pode fazer um jornalista perder boas manchetes.

Tomem como exemplo esta notícia do Jornal do Comércio de Porto Alegre sobre os investimentos da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul nos primeiros trimestres de 2007 a 2019. A notícia traz a tabela abaixo:

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A partir desses números, o repórter afirma que o investimento em educação no primeiro trimestre de 2019 foi o mais baixo em 12 anos, ou seja, o mais baixo da série histórica exceto pelo ano de 2007.

Em nenhum ponto do texto há menção a uma possível correção monetária. No entanto, para verificar se o jornalista havia corrigido os valores pela inflação do período, tentei encontrar os dados no portal de transparência do governo do Estado. Aparentemente, não foi realizada uma correção, se levarmos em conta a coincidência de valores no ano de 2013:

A ausência de correção monetária é um equívoco muito comum de se encontrar no noticiário. É triste, porque muitas vezes se perde a oportunidade de encontrar um furo muito mais interessante. Vejam como ficariam os valores se corrigidos pelo IPCA de março de 2019 — o mesmo índice usado para calcular a meta de inflação do Brasil e por isso o mais adequado para este tipo de operação — usando a Calculadora do Cidadão oferecida pelo Banco Central:

AnoValor nominalValor corrigido
2007R$ 2.781.418,24R$ 5.458.742,18
2008R$ 5.805.877,78R$ 11.018.938,28
2009R$ 8.390.142,22R$ 14.862.879,37
2010R$ 11.740.459,39R$ 19.839.312,40
2011R$ 9.927.122,79R$ 15.823.438,63
2012R$ 6.061.717,00R$ 9.128.217,18
2013R$ 28.522.668,04R$ 40.401.244,04
2014R$ 17.166.732,42R$ 23.009.143,11
2015R$ 13.417.482,59R$ 16.697.870,58
2016R$ 7.885.033,96R$ 8.891.938,60
2017R$ 10.116.905,46R$ 10.890.557,36
2018R$ 5.917.431,89R$ 6.193.745,19
2019R$ 3.492.361,63R$ 3.492.361,63

Agora, vejamos como fica o ranking de maiores investimentos em educação no primeiro trimestre se organizarmos as duas colunas por ano, a partir da ordem decrescente do valor investido:

PosiçãoValor nominalValor corrigido
120132013
220142014
320152010
420102015
520172011
620112009
720092008
820162017
920122012
1020182016
1120082018
1220192007
1320072019

Percebem como vários anos mudam de posição no ranking corrigido?

Ao atualizar os valores nominais encontrados no portal de transparência do Estado, podemos perceber que, na verdade, o investimento em educação no primeiro trimestre de 2019 foi o mais baixo da série histórica. De fato, o investimento neste ano foi 36% menor do que em 2007. Esses números renderiam manchetes muito mais dramáticas.

Além disso, a correção evita a injustiça de se considerar a ex-governadora Yeda Crusius a responsável pelo pior primeiro trimestre na educação.

Um motivo adicional para sempre se corrigir valores monetários é o fato de muitos políticos se aproveitarem da diferença de poder de compra de cada real entre um ano e outro para enrolar a população.

Digamos que um governo tenha investido em janeiro de 2018 R$ 10 milhões em segurança pública e mais R$ 10,3 milhões na mesma área em janeiro de 2019. O governador vai dizer que aumentou os recursos para a segurança de um ano para outro, mas, se corrigirmos o valor antigo pelo IPCA, podemos verificar que apenas para cobrir a inflação e manter o mesmo nível de investimento, o montante atual deveria ser de R$ 10,4 milhões. Na verdade, o Estado estaria investindo menos do que no ano anterior em valores corrigidos.

Jamais compare números absolutos se pode criar uma taxa

Uma das minhas implicâncias favoritas em relação ao jornalismo é a mania de usar números absolutos para comparar populações de tamanhos muito diferentes. É um erro básico e fácil de se evitar na interpretação de números.

Num exemplo recente, o ciberjornal Poder360 reproduziu uma tabela de número de seguidores de diferentes líderes de Estado em redes sociais, a partir de um relatório elaborado pela consultoria Bites, que se apresenta como “data-driven”.

O líder com mais seguidores no Facebook é também o primeiro-ministro do segundo país mais populoso da Terra. A China não permite o uso de Facebook, Twitter e outras redes sociais capitalistas, enquanto a Indonésia não aparece na tabela. O terceiro país mais populoso da Terra, os Estados Unidos, tem seu presidente como segundo do ranking. Já a Turquia é o 19º país mais populoso do planeta e seu presidente ocupa a terceira posição em seguidores nas redes sociais, mesmo sem poder contar com o YouTube.

O leitor mais atento já terá notado que nem mesmo faz sentido somar os seguidores em diferentes redes sociais, uma vez que muitos deles serão duplicados — a mesma pessoa pode seguir o presidente no Twitter e no YouTube –, enquanto outros serão bots.

Além deste problema básico de concepção da análise, resta a comparação entre países de populações muito discrepantes, como Índia e Brasil, fator que pode inserir vários tipos de distorções na informação. A proporção de usuários da Internet é a mesma em todos os países? Os indianos favorecem algum tipo de rede social em detrimento de outras? Os brasileiros são mais aficionados por tecnologia do que os turcos?

A transformação dos números absolutos em taxas pode resolver, pelo menos em parte, essas distorções e o cálculo é muito simples, se tivermos os dados à disposição. Basta dividir o número de eventos pelo tamanho da população e multiplicar por uma unidade padrão, em geral 10.000 ou 100.000 “habitantes”. No caso acima, é preciso dividir o número de seguidores em cada rede social pelo número de usuários totais da mesma rede social num determinado país e depois multiplicar pela unidade padrão, com o que teremos a taxa de seguidores por, digamos, 10.000 usuários.

Usando dados de janeiro de 2019 — e sem preocupação com a fidedignidade dos mesmos — a coluna relativa ao Facebook ficaria assim:

  1. Modi: 14.528 seguidores por 10.000 usuários
  2. Trump: 11.384
  3. Bolsonaro: 7.238
  4. Obrador: 6.715

O ranking não muda, mas enquanto Modi tinha quatro vezes mais seguidores no Facebook do que Bolsonaro na tabela, ele tem apenas o dobro da taxa de seguidores por 10.000 mil usuários da rede social em relação ao presidente brasileiro. O gráfico abaixo mostra como a diferença entre os líderes fica menos dramática quando usamos taxas:

Os exemplos de uso de números absolutos no lugar de taxas abundam no noticiário. Um exemplo é este ranking do total de multas de trânsito no Rio Grande do Sul no ano de 2013 publicado por Zero Hora:

  1. Prefeitura de Porto Alegre – 199.958
  2. Prefeitura Passo Fundo – 24.328
  3. Prefeitura Caxias do Sul – 14.740
  4. Prefeitura Campo Bom – 10.563
  5. Prefeitura Cachoeirinha – 9.850
  6. Prefeitura Rio Grande – 8.798
  7. Prefeitura Canoas – 7.997
  8. Prefeitura São Leopoldo – 7.802

A frota de Porto Alegre em 2016 era de 851.150 veículos, contra 122.582 em Passo Fundo. Neste caso, basta calcular a razão entre um número e outro, sem multiplicar por uma unidade padrão. Se ignorarmos as diferenças de tamanho das frotas entre 2013 e 2016 apenas para fins didáticos, a razão ou média de multas por veículo seria de 0,23 multas na capital, contra 0,19 multas por veículo em Passo Fundo. Já Caxias do Sul, com uma frota de 305.323 veículos, mais do que o dobro da frota de Passo Fundo, teria uma média de multas de apenas 0,04 por veículo. Enquanto isso, Campo Bom, com uma frota de 40.488 veículos, apresentaria uma média de multas de 0,26. O ranking correto das cidades com mais infrações de trânsito, portanto, seria:

  1. Campo Bom – 0,26 multas por veículo
  2. Porto Alegre – 0,23
  3. Passo Fundo – 0,19
  4. Caxias do Sul – 0,04

Amigos não deixam amigos cometerem esse tipo de erro.

O jornalismo diário precisa incorporar a checagem de fatos

A presidência de Jair Bolsonaro, a julgar pela campanha e pelas atitudes do eleito nos primeiros dias após a vitória, promete um vazamento incalculável de chorume — e as redações serão as estações de tratamento de todo o esgoto.

Por enquanto, Bolsonaro parece estar copiando a estratégia do presidente Donald Trump, da mesma forma que copiou as táticas do candidato Donald Trump. Até a posse e durante o tempo em que permanecer com a faixa, o presidente eleito vai criar factóides e afirmar barbaridades sobre direitos humanos, na esperança de que o ultraje causado desvie a atenção das pautas relacionadas à economia, infraestrutura, segurança e outros temas caros a seu eleitorado. Como argumentei num texto anterior, o ultraje só vai alimentar o extremismo e galvanizar os apoiadores de Bolsonaro.

Além disso, o presidente eleito vem adotando a tática de minar a credibilidade restante da imprensa com o lançamento de balões de ensaio através de subalternos ou fontes anônimas, as quais são desmentidos nos canais de comunicação direta de Bolsonaro quando a proposta é mal recebida. Essa tática permite a ele testar a recepção de medidas entre a população e, ao mesmo tempo, reforçar o discurso contra o jornalismo. Quando desautoriza algum rumor ou volta atrás, Bolsonaro conclama a população a buscar informação diretamente em seus perfis “oficiais” em redes sociais e aproveita para criticar os “erros” da imprensa.

É melhor já ir abandonando qualquer esperança de que o futuro governo opere segundo as regras e costumes de civilidade desenvolvidos na interação entre jornalistas e autoridades desde 1985. Os presidentes eleitos até agora podiam ter maior ou menor boa vontade para com a imprensa, mas respeitaram as regras do jogo. Lidar com Bolsonaro é como jogar com aquele seu primo chato, que escondia cartas na canastra, pegava notas subrepticiamente no Banco Imobiliário ou misturava todas as peças e jogava o tabuleiro para cima quando estava perdendo no War.

Infelizmente, o jornalismo contemporâneo parece cada vez mais suscetível a declarações abomináveis e “furos” embasados em rumores que prometam alguns cliques. Dois anos de governo Trump mostraram ser muito difícil rediscutir valores e normas editoriais  para seguir o conselho abaixo:

Qual norma editorial poderia evitar que repórteres e redações se vejam enredados na estratégia de comunicação bolsonarista?

Jason Reifler, professor da Universidade de Exeter que há anos pesquisa desinformação e fact checking, forneceu uma boa pista durante o 13º congresso da Abraji. A proposta mais importante oferecida por ele, na minha opinião, é incorporar a checagem de fatos às rotinas produtivas da notícia e apresentar qualquer declaração vinda de Bolsonaro atrelada a um qualificador, quando não se puder garantir sua veracidade. Vale a pena assistir à palestra inteira (se não entende inglês, as legendas automáticas em português funcionam razoavelmente bem):

A verificação de fatos é, ou deveria ser, uma etapa normal da produção de notícias. Publicações como a New Yorker são famosas por manterem uma equipe dedicada a conferir a apuração dos repórteres, perguntando a fontes se as aspas usadas em textos são fidedignas, ou checando se datas, locais ou números estão corretos. Esse tipo de checagem ex ante é muito útil para evitar a veiculação de equívocos, os quais são cada vez mais difíceis de corrigir após ganharem o mundo. Em geral, todavia, essa verificação prévia não procura avaliar a veracidade das informações ou declarações em si mesmas, mas apenas garantir sua precisão.

A avaliação da veracidade das declarações de políticos tem sido realizada ex post por agências especializadas em checagem de fatos, como Lupa e Aos Fatos. O objetivo desse tipo de verificação posterior é corrigir as crenças equivocadas causadas por declarações falsas veiculadas pela imprensa, bem como outras formas de desinformação, como boatos. Infelizmente, como Reifler deixa claro em sua palestra, é muito difícil neutralizar falsidades depois de elas se disseminarem em redes sociais e na mídia.

A solução ideal seria ignorar qualquer alegação sem substância feita por qualquer fonte. Porém, essa tática funcionaria apenas se uma massa crítica de redações adotasse a mesma regra. Caso contrário, além do veículo ser furado pela concorrência constantemente, a desinformação acabaria difundida de qualquer maneira. Como Bolsonaro já granjeou apoio de diversas empresas de comunicação, é impensável uma coordenação entre a comunidade profissional para mudar as rotinas de trabalho no futuro próximo. Além disso, essa recomendação não é uma novidade, mas tem sido feita por jornalistas e acadêmicos da área há décadas, sem sucesso.

A solução factível seria a comunidade adotar a norma de qualificar a veracidade das declarações de autoridades no momento de sua publicação. Dessa maneira, é possível ao mesmo tempo registrar o acontecimento em ressonância com a concorrência e neutralizar a desinformação no berçário.

A recente afirmação de Bolsonaro de que o método de cálculo do desemprego aplicado pelo IBGE seria uma “farsa” forneceu bons exemplos da prática acima. Em primeiro lugar, um contraexemplo de manchete que toma a declaração por seu valor de face:

Abaixo, três exemplos de manchetes matam a desinformação no nascedouro:

 

 

Embora seja uma solução simples do ponto de vista técnico, ela pode ser complicada da perspectiva organizacional, porque demanda consenso entre direção, editores e repórteres, bem como a revisão de rotinas de trabalho estabelecidas. Apesar disso, é a resposta mais eficaz disponível a curto prazo para as redações que não pretendem repetir os erros da imprensa estadunidense com Donald Trump.

Lei antiterrorismo é aplicada contra repórter

Quando, em 2016, a ex-presidente Dilma Rousseff resolveu apoiar a tipificação do crime de terrorismo — declaradamente para evitar ataques durante os jogos olímpicos no Rio de Janeiro, mas realmente na tentativa obter mais um instrumento jurídico para coibir os protestos contra seu governo — diversos movimentos sociais avisaram que, por ser muito vago, o texto da lei nº 13.260/2016 poderia ser usado para arbitrariedades contra qualquer movimento social. Para quem já militou em favor do PT, como eu, era inacreditável a possibilidade de uma presidente filiada ao partido aprovar uma lei que jogaria movimentos como o MST, por exemplo, na criminalidade.

Todavia, assim como passou a desprezar diversas outras bandeiras históricas, o PT também passou a desprezar a liberdade no momento em que seu mandato no Planalto começou a sofrer a mais leve pressão popular. A lei foi sancionada por Dilma e, de fato, acabou sendo aplicada apenas uma vez, pelo então ministro da Justiça do golpista Michel Temer e atual ministro do STF Alexandre de Moraes, na controversa Operação Hashtag. O saldo foram dez suspeitos presos, dos quais Valdir Pereira da Rocha morreu linchado num presídio. Nenhum plano concreto de atentado terrorista contra os jogos olímpicos jamais foi desvelado.

Agora, os temores dos movimentos sociais estão sendo confirmados, com a denúncia do jornalista Felipe de Oliveira por promoção do terrorismo. O repórter se infiltrou, em 2016, nos mesmos grupos aos quais pertenciam os dez implicados na Operação Hashtag. A infiltração rendeu reportagens para a Folha de S. Paulo e para o Fantástico, as quais denunciaram as atividades deste grupo de simpatizantes do radicalismo islâmico antes mesmo de a operação da polícia federal ser deflagrada. Noutras palavras, Oliveira denunciou os grupos terroristas que o MPF o acusa de promover. Repetindo: para o MPF do Paraná, o jornalista de alguma forma teria ao mesmo tempo exposto e colaborado com supostos terroristas. Faz sentido?

A leitura da íntegra da denúncia não ajuda muito a dar sentido ao caso. Basicamente, o MPF-PR copiou e colou vários diálogos trocados entre o repórter e participantes de grupos de radicais islâmicos no WhatsApp e Telegram, sem apontar a relação direta entre as palavras de Oliveira e o artigo 3º da lei antiterrorismo, crime que afirmam ter sido cometido. O inquérito da Polícia Federal é um pouco mais esclarecedor, pois afirma que o repórter teria, durante a infiltração, apresentado potenciais terroristas de diferentes grupos uns aos outros, desta forma promovendo as atividades criminosas. Além disso, a PF diz que Oliveira só informou as autoridades sobre a apuração quando foi identificado na investigação.

A defesa responde que Oliveira informou à Polícia Federal sobre o que se passava ao longo de toda apuração. Além disso, ressalta a contradição lógica entre promover o terrorismo, atividade por definição executada em segredo, e expor os mesmos grupos em reportagens em jornais de grande circulação e num dos programas de maior audiência da TV aberta brasileira. De fato, se os terroristas fossem mesmo sérios, Oliveira estaria arriscando sua própria vida ao denunciar suas atividades em reportagens.

O procurador da República Rafael Brum Miron argumenta na denúncia que, por ter permanecido nos grupos de radicais islâmicos após a veiculação da reportagem no Fantástico, ele teria incorrido no crime de promoção do terrorismo. Este argumento evidencia ignorância sobre os métodos de trabalho dos jornalistas, pois raramente um assunto se esgota na primeira matéria publicada e, quando possível, os repórteres procuram se aprofundar na investigação de temas relevantes. Alguns jornalistas passam toda a carreira cobrindo determinadas questões.

É claro, infiltrações deste gênero sempre operam numa zona cinzenta entre o exercício legítimo da profissão e o crime. Em 2008, por exemplo, o repórter Roberto Cabrini foi detido com papelotes de cocaína durante a apuração de ligações entre policiais traficantes e Oscar Maroni Filho — mas a prisão se revelou uma armação por parte da banda podre da polícia. Há debates entre jornalistas sobre a propriedade de se realizar esse tipo de operação e em quais circunstâncias se justificaria cometer um crime para denunciar um crime, ou onde termina a apuração e onde começa o crime. A linha entre uma coisa e outra é tênue e, como em qualquer avaliação ética, depende de uma análise caso a caso, para revelar as intenções do jornalista.

Embora Oliveira possa ter adotado procedimentos temerários em algumas interações com os participantes dos grupos nos quais se infiltrou, parece bastante claro pelas atitudes subsequentes que esse hipotético cruzamento da linha do crime se deu por inexperiência ou incompetência, mas não por cumplicidade com potenciais terroristas. Na soma geral, as ações do jornalista mais prejudicaram do que promoveram o terrorismo no Brasil.

Tanto é verdade que os custos do processo estão sendo pagos pela Rede Globo e a Folha de S. Paulo atestou à PF as boas intenções de Oliveira. Além disso, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo emitiu nota com o seguinte trecho:

A Abraji considera que a atividade jornalística de Oliveira não deve ser confundida com crime. Apelamos ao juiz federal Marcos Josegrei da Silva para que use a compreensão e o respeito que certamente tem pelo trabalho da imprensa para declarar Felipe de Oliveira inocente.

O caso de Oliveira é arrepiante para todos os que trabalham com jornalismo investigativo, porque qualquer movimento social “desordeiro” pode ser considerado um grupo terrorista, conforme a atual legislação. Por exemplo, o abril vermelho do MST em defesa de Lula poderia ser enquadrado no crime de terrorismo, se um juiz entender que tem por finalidade “provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública”, ou que estas ações são praticadas “contra o interesse da União”, já que, afinal, pretendem reverter uma ordem judicial. Neste caso, um repórter infiltrado no MST, ou mesmo cobrindo as atividades do grupo abertamente, poderia ser considerado cúmplice.

Se ver um repórter confundido com integrantes dum movimento social parece um grande salto da imaginação, basta lembrar o caso do gaúcho Matheus Chaparini, denunciado pela ocupação da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. Chaparini foi detido mesmo se identificando como repórter para a Brigada Militar, na primeira prisão de repórter no exercício profissional no Estado desde 1982, quando o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.

Interceptação de dados em redes wifi e reportagem investigativa

A revista Matter recentemente publicou uma reportagem sobre a facilidade com que se pode interceptar o tráfego de dados em redes móveis públicas. Por menos de cem dólares, é possível comprar um roteador WiFi Pineapple, que permite a qualquer micreiro de boa vontade “clonar” uma rede e observar emails, navegação na Web, chats e qualquer outro tipo de comunicação entre um computador, smartphone, tablet e a Internet.

Em resumo: contrate um plano 3G e desligue o wifi de todos os seus aparelhos quando não estiver próximo de uma rede confiável. Usar redes públicas desconhecidas é o equivalente informático do sexo casual sem preservativo.

De qualquer forma, a facilidade com que se pode xeretar o tráfego de dados de qualquer pessoa hoje em dia me fez refletir sobre a possibilidade de jornalistas investigativos passarem a usar esse tipo de expediente. À primeira vista, a proposta parece uma aberração ética. Entretanto, não é, em essência, uma técnica muito diferente das campanas e câmeras escondidas.

Durante uma campana, o repórter persegue seus alvos pelas ruas e prédios, anotando os lugares onde estiveram, as pessoas com quem falaram e, eventualmente, capturando imagens. Este foi, por exemplo, o procedimento usado pela equipe da Gazeta do Povo na série Polícia Fora da Lei, que ficou em 2º lugar no Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo. Diversas outras reportagens semelhantes já mereceram reconhecimento dos pares através de prêmios. Pode-se afirmar, então, que as campanas estão dentro dos limites éticos da profissão.

O uso de câmeras escondidas, por outro lado, gera debate entre os jornalistas — e, principalmente, é lamentado pela academia. Alguns repórteres consideram o expediente antiético, porque em geral envolve construir uma situação baseada em imposturas, para levar o alvo a ser filmado cometendo um crime. A resposta, aliás razoável, é que o repórter se torna um impostor em nome do interesse público, que se sobrepõe à infração ética — ao menos, trata-se de uma infração ao código de ética da Fenaj, embora a representatividade do mesmo possa ser discutida.

Digam o que disserem os códigos de ética, porém, programas como o Fantástico vivem do uso de câmeras escondidas e ninguém é punido por isso. Então, essa técnica de reportagem pode ser considerada aceitável, dum ponto de vista pragmático, no Brasil.

Por que não seria aceitável, então, usar um roteador preparado para espionar o tráfego de, digamos, um funcionário público envolvido na venda de licenças ambientais? Observar a navegação na Web e ler os emails trocados entre o suposto funcionário corrupto e seus corruptores não é diferente, ao fim e ao cabo, de sentar ao lado dos mesmos num restaurante e gravar sua conversa. É claro, a interceptação de tráfego pode fornecer acesso a mensagens de pessoas sem nenhuma relação com a investigação, ou, mesmo, à descoberta de que o barnabé gosta de pornografia furry.

Mas, numa campana, não acontece o mesmo? No caso da série “Polícia Fora da Lei”, citado acima, alguns policiais foram vistos frequentando moteis e bordeis. Embora estivessem cometendo uma infração ao usar viaturas, sua vida pessoal, que não interessa à investigação, foi exposta. Casamentos podem ter sido terminados com base nisso. É legítimo causar esse tipo de dano? Não sei. É um efeito colateral abominado pela imprensa? Não é. Numa hipótetica xeretagem de uma conversa num local público, o repórter simplesmente elimina da narrativa as referências a pessoas físicas e jurídicas sem relação com o caso, o que poderia facilmente ser transposto para uma investigação cibernética.

Da mesma forma, fazer um roteador se passar por uma rede wifi para engambelar o mesmo funcionário corrupto e  interceptar seu tráfego de dados não me parece diferente, do ponto de vista ético, de usar uma câmera escondida. É crime? Talvez. Por outro lado, é comum repórteres cometerem crimes, como a compra de drogas ou armas, durante a investigação de quadrilhas de traficantes. Livram-se de processos entregando a muamba à polícia para demonstrar boa-fé, o que também poderia ser feito com uma coleção de documentos interceptados.

O caso mais conhecido de cracking aplicado ao jornalismo é o da britânica News International, no qual funcionários da empresa jornalística contrataram detetives para invadir os telefones de celebridades e roubarem dados. O uso destas técnicas neste caso é indefensável sob qualquer ponto de vista. Mas e se estivessem investigando corrupção no parlamento britânico? Seria ao menos tolerável?

Eu não sei. Entretanto, é um debate a ser iniciado, porque muito em breve o hardware e software necessários para esse tipo de investigação se tornarão mais acessíveis e devem começar a aparecer mais casos de uso pela imprensa.

Jornais brasileiros finalmente reconhecem a existência da Internet

Entre 18 e 19 de agosto, ocorreu em São Paulo o 10º Congresso Brasileiro de Jornais, organizado pela Associação Nacional de Jornais. O evento é voltado mais aos executivos do que a jornalistas e público em geral. O tema do ano foi “ruptura, inovação e avanço”. Em linhas gerais, o objetivo era garantir ao mercado publicitário que os jornais impressos ainda servem para alguma coisa e, cientes de seu fim próximo, estão buscando novas formas de intermediar o fluxo de informação entre as marcas e o consumidor:

No Market Place Jornais, em uma mesma ferramenta, o mídia terá acesso às informações essenciais para definir a escolha dos jornais por meio dos seguintes critérios: audiência; perfil de leitores; formatos básicos; tabela comercial e contato direto para a publicação. Desse modo, o mídia ganhará em facilidade e agilidade para tomada de decisões. Outro produto inédito no mercado é o Digital Premium Jornais, que permite a veiculação de anúncios digitais num pool de sites de jornais, em um mesmo dia. Trata-se de um formato flutuante com bastante espaço para os criativos obterem o máximo das suas mensagens, sendo exibido a toda audiência desse dia. Dentre as vantagens do Digital Premium Jornais, destacam-se o grande impacto, velocidade e efetividade, grande audiência, facilidade de operação e negociação com apenas um interlocutor.

A mensagem, entretanto, foi empacotada num colorido e brilhante papel de otimismo amarrado com fita de pensamento positivo. Basta passar os olhos pelos releases sobre as palestras para perceber a tentativa de mascarar o inevitável declínio do impresso com dados fora de contexto a respeito da audiência qualificada e credibilidade do papel. A presença digital do congresso, porém, não transmitiu muita confiança na habilidade da ANJ em relação à mídia digital.

O problema já começa pelo “clique aqui” que não funciona no Chrome, Firefox ou Internet Explorer — tive de abrir a visualização do código fonte da página para acessar o conteúdo. Dá a impressão de que, após 20 anos de jornalismo online, os associados da ANJ ainda não aprenderam a regra básica de Nielsen sobre links quebrados. Quem tentou acompanhar os debates via redes sociais também saiu frustrado, pois não havia uma hashtag oficial — #CBJ retornava tweets sobre um campeonato de judô –, tampouco qualquer um dos membros da plateia se preocupou em fazer um relato em tempo real. Para um congresso cujo tema era inovação e avanço, promover um esforço de cobertura em redes sociais seria o mínimo para demonstrar conhecimento da dinâmica de comunicação na era do jornalismo pós-industrial.

Os empresários, enfim, parecem estar se esforçando em convencer anunciantes sobre a relevância do jornal impresso, enquanto correm atrás dos 20 anos perdidos negando o impacto da digitalização sobre seu modelo de negócios e preparam, finalmente, a ruptura com o papel, que deve acontecer cedo ou tarde. Clay Shirky aponta, entretanto, um problema sério nesse discurso empresarial que garante algum futuro para o jornal impresso, que é manter os trabalhadores, isto é, os jornalistas, na ignorância:

Journalists have been infantilized throughout the last decade, kept in a state of relative ignorance about the firms that employ them. A friend tells a story of reporters being asked the paid print circulation of their own publication. Their guesses ranged from 150,000 to 300,000; the actual figure was 35,000. If a reporter was that uninformed about a business he was covering, he’d be taken off the story.

Muitos jornalistas aderem de forma acrítica ao discurso patronal de que o jornal é importante demais para desaparecer, sob pena de colocarem em risco a própria carreira. De fato, muitos inclusive reforçam essa perspectiva ao fazerem questão de ignorar completamente os fundamentos econômicos da indústria na qual trabalham e, mesmo, desvalorizar esse conhecimento como um tipo de filistinismo incompatível com o caráter missionário e os princípios éticos da profissão. O Titanic vai afundando e os passageiros batem palmas enquanto a orquestra executa música de ninar.

De qualquer forma, é um bom sinal esse reconhecimento velado das diretorias de jornais a respeito da necessidade de encontrar alternativas de financiamento antes de o impresso se tornar inviável, ainda que tardio. A letargia dos executivos e, em especial, do setor comercial da imprensa permitiu a empresas de tecnologia como Google e Facebook ocuparem o espaço aberto pela passagem da mídia radial, centralizada, para o cenário de comunicação em rede.

Os trabalhadores das redações, todavia, não deveriam enxergar razão alguma para confiar no sucesso desses esforços e fariam bem em tentar aprender um pouco sobre a economia digital, além de desenvolver habilidades com hipermídia e informática. Se os empresários demoram a romper com o jornal impresso, ordenhando a vaquinha enquanto ela definha por inanição, os jornalistas devem desistir o mais rápido possível de tentar salvá-la pelos métodos tradicionais e buscar outros modelos de produção de notícias, ou deixar o pago e migrar para a metrópole digital.