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Interceptação de dados em redes wifi e reportagem investigativa

A revista Matter recentemente publicou uma reportagem sobre a facilidade com que se pode interceptar o tráfego de dados em redes móveis públicas. Por menos de cem dólares, é possível comprar um roteador WiFi Pineapple, que permite a qualquer micreiro de boa vontade “clonar” uma rede e observar emails, navegação na Web, chats e qualquer outro tipo de comunicação entre um computador, smartphone, tablet e a Internet.

Em resumo: contrate um plano 3G e desligue o wifi de todos os seus aparelhos quando não estiver próximo de uma rede confiável. Usar redes públicas desconhecidas é o equivalente informático do sexo casual sem preservativo.

De qualquer forma, a facilidade com que se pode xeretar o tráfego de dados de qualquer pessoa hoje em dia me fez refletir sobre a possibilidade de jornalistas investigativos passarem a usar esse tipo de expediente. À primeira vista, a proposta parece uma aberração ética. Entretanto, não é, em essência, uma técnica muito diferente das campanas e câmeras escondidas.

Durante uma campana, o repórter persegue seus alvos pelas ruas e prédios, anotando os lugares onde estiveram, as pessoas com quem falaram e, eventualmente, capturando imagens. Este foi, por exemplo, o procedimento usado pela equipe da Gazeta do Povo na série Polícia Fora da Lei, que ficou em 2º lugar no Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo. Diversas outras reportagens semelhantes já mereceram reconhecimento dos pares através de prêmios. Pode-se afirmar, então, que as campanas estão dentro dos limites éticos da profissão.

O uso de câmeras escondidas, por outro lado, gera debate entre os jornalistas — e, principalmente, é lamentado pela academia. Alguns repórteres consideram o expediente antiético, porque em geral envolve construir uma situação baseada em imposturas, para levar o alvo a ser filmado cometendo um crime. A resposta, aliás razoável, é que o repórter se torna um impostor em nome do interesse público, que se sobrepõe à infração ética — ao menos, trata-se de uma infração ao código de ética da Fenaj, embora a representatividade do mesmo possa ser discutida.

Digam o que disserem os códigos de ética, porém, programas como o Fantástico vivem do uso de câmeras escondidas e ninguém é punido por isso. Então, essa técnica de reportagem pode ser considerada aceitável, dum ponto de vista pragmático, no Brasil.

Por que não seria aceitável, então, usar um roteador preparado para espionar o tráfego de, digamos, um funcionário público envolvido na venda de licenças ambientais? Observar a navegação na Web e ler os emails trocados entre o suposto funcionário corrupto e seus corruptores não é diferente, ao fim e ao cabo, de sentar ao lado dos mesmos num restaurante e gravar sua conversa. É claro, a interceptação de tráfego pode fornecer acesso a mensagens de pessoas sem nenhuma relação com a investigação, ou, mesmo, à descoberta de que o barnabé gosta de pornografia furry.

Mas, numa campana, não acontece o mesmo? No caso da série “Polícia Fora da Lei”, citado acima, alguns policiais foram vistos frequentando moteis e bordeis. Embora estivessem cometendo uma infração ao usar viaturas, sua vida pessoal, que não interessa à investigação, foi exposta. Casamentos podem ter sido terminados com base nisso. É legítimo causar esse tipo de dano? Não sei. É um efeito colateral abominado pela imprensa? Não é. Numa hipótetica xeretagem de uma conversa num local público, o repórter simplesmente elimina da narrativa as referências a pessoas físicas e jurídicas sem relação com o caso, o que poderia facilmente ser transposto para uma investigação cibernética.

Da mesma forma, fazer um roteador se passar por uma rede wifi para engambelar o mesmo funcionário corrupto e  interceptar seu tráfego de dados não me parece diferente, do ponto de vista ético, de usar uma câmera escondida. É crime? Talvez. Por outro lado, é comum repórteres cometerem crimes, como a compra de drogas ou armas, durante a investigação de quadrilhas de traficantes. Livram-se de processos entregando a muamba à polícia para demonstrar boa-fé, o que também poderia ser feito com uma coleção de documentos interceptados.

O caso mais conhecido de cracking aplicado ao jornalismo é o da britânica News International, no qual funcionários da empresa jornalística contrataram detetives para invadir os telefones de celebridades e roubarem dados. O uso destas técnicas neste caso é indefensável sob qualquer ponto de vista. Mas e se estivessem investigando corrupção no parlamento britânico? Seria ao menos tolerável?

Eu não sei. Entretanto, é um debate a ser iniciado, porque muito em breve o hardware e software necessários para esse tipo de investigação se tornarão mais acessíveis e devem começar a aparecer mais casos de uso pela imprensa.

Jornais brasileiros finalmente reconhecem a existência da Internet

Entre 18 e 19 de agosto, ocorreu em São Paulo o 10º Congresso Brasileiro de Jornais, organizado pela Associação Nacional de Jornais. O evento é voltado mais aos executivos do que a jornalistas e público em geral. O tema do ano foi “ruptura, inovação e avanço”. Em linhas gerais, o objetivo era garantir ao mercado publicitário que os jornais impressos ainda servem para alguma coisa e, cientes de seu fim próximo, estão buscando novas formas de intermediar o fluxo de informação entre as marcas e o consumidor:

No Market Place Jornais, em uma mesma ferramenta, o mídia terá acesso às informações essenciais para definir a escolha dos jornais por meio dos seguintes critérios: audiência; perfil de leitores; formatos básicos; tabela comercial e contato direto para a publicação. Desse modo, o mídia ganhará em facilidade e agilidade para tomada de decisões. Outro produto inédito no mercado é o Digital Premium Jornais, que permite a veiculação de anúncios digitais num pool de sites de jornais, em um mesmo dia. Trata-se de um formato flutuante com bastante espaço para os criativos obterem o máximo das suas mensagens, sendo exibido a toda audiência desse dia. Dentre as vantagens do Digital Premium Jornais, destacam-se o grande impacto, velocidade e efetividade, grande audiência, facilidade de operação e negociação com apenas um interlocutor.

A mensagem, entretanto, foi empacotada num colorido e brilhante papel de otimismo amarrado com fita de pensamento positivo. Basta passar os olhos pelos releases sobre as palestras para perceber a tentativa de mascarar o inevitável declínio do impresso com dados fora de contexto a respeito da audiência qualificada e credibilidade do papel. A presença digital do congresso, porém, não transmitiu muita confiança na habilidade da ANJ em relação à mídia digital.

O problema já começa pelo “clique aqui” que não funciona no Chrome, Firefox ou Internet Explorer — tive de abrir a visualização do código fonte da página para acessar o conteúdo. Dá a impressão de que, após 20 anos de jornalismo online, os associados da ANJ ainda não aprenderam a regra básica de Nielsen sobre links quebrados. Quem tentou acompanhar os debates via redes sociais também saiu frustrado, pois não havia uma hashtag oficial — #CBJ retornava tweets sobre um campeonato de judô –, tampouco qualquer um dos membros da plateia se preocupou em fazer um relato em tempo real. Para um congresso cujo tema era inovação e avanço, promover um esforço de cobertura em redes sociais seria o mínimo para demonstrar conhecimento da dinâmica de comunicação na era do jornalismo pós-industrial.

Os empresários, enfim, parecem estar se esforçando em convencer anunciantes sobre a relevância do jornal impresso, enquanto correm atrás dos 20 anos perdidos negando o impacto da digitalização sobre seu modelo de negócios e preparam, finalmente, a ruptura com o papel, que deve acontecer cedo ou tarde. Clay Shirky aponta, entretanto, um problema sério nesse discurso empresarial que garante algum futuro para o jornal impresso, que é manter os trabalhadores, isto é, os jornalistas, na ignorância:

Journalists have been infantilized throughout the last decade, kept in a state of relative ignorance about the firms that employ them. A friend tells a story of reporters being asked the paid print circulation of their own publication. Their guesses ranged from 150,000 to 300,000; the actual figure was 35,000. If a reporter was that uninformed about a business he was covering, he’d be taken off the story.

Muitos jornalistas aderem de forma acrítica ao discurso patronal de que o jornal é importante demais para desaparecer, sob pena de colocarem em risco a própria carreira. De fato, muitos inclusive reforçam essa perspectiva ao fazerem questão de ignorar completamente os fundamentos econômicos da indústria na qual trabalham e, mesmo, desvalorizar esse conhecimento como um tipo de filistinismo incompatível com o caráter missionário e os princípios éticos da profissão. O Titanic vai afundando e os passageiros batem palmas enquanto a orquestra executa música de ninar.

De qualquer forma, é um bom sinal esse reconhecimento velado das diretorias de jornais a respeito da necessidade de encontrar alternativas de financiamento antes de o impresso se tornar inviável, ainda que tardio. A letargia dos executivos e, em especial, do setor comercial da imprensa permitiu a empresas de tecnologia como Google e Facebook ocuparem o espaço aberto pela passagem da mídia radial, centralizada, para o cenário de comunicação em rede.

Os trabalhadores das redações, todavia, não deveriam enxergar razão alguma para confiar no sucesso desses esforços e fariam bem em tentar aprender um pouco sobre a economia digital, além de desenvolver habilidades com hipermídia e informática. Se os empresários demoram a romper com o jornal impresso, ordenhando a vaquinha enquanto ela definha por inanição, os jornalistas devem desistir o mais rápido possível de tentar salvá-la pelos métodos tradicionais e buscar outros modelos de produção de notícias, ou deixar o pago e migrar para a metrópole digital.

A inteligência coletiva não vai salvar o jornalismo

Nesta semana, dois eventos marcantes evidenciaram o problema de confiar na inteligência coletiva como solução para a crise da imprensa. Na madrugada do dia 14 de agosto, com a vitória do San Lorenzo na Copa Libertadores, o Impedimento encerrou suas atividades, após nove anos produzindo a melhor — e, por vezes, a única — cobertura de futebol sul-americano no Brasil. No dia seguinte, estreou o novo caderno de gastronomia de Zero Hora, agora sob a direção dos criadores do Destemperados, cujo primeiro post foi publicado há sete anos. Ambos iniciaram suas atividades como weblogs amadores na cidade de Porto Alegre e ampliaram suas atividades ao longo do tempo, profissionalizando-se e buscando formas de financiar a atividade editorial. Entretanto, apenas um deles sobreviveu. Por quê?

A resposta mais simples é que apenas um deles produzia jornalismo no sentido estrito. Embora o Impedimento publicasse mais crônicas esportivas do que reportagens ou notícias, sua perspectiva era sempre crítica, apontando dedos para as pessoas e instituições responsáveis, na visão dos autores, pelos problemas do futebol mundial. Às vezes, produziam até mesmo reportagens investigativas sobre o negócio da bola. Não eram uma redação tradicional, mas, ao contrário de grande parte da imprensa esportiva brasileira, não puxavam o saco de dirigentes para garantir acesso privilegiado aos corredores dos estádios. Em suma, buscavam, dentro dos limites operacionais estreitos de um grupo de repórteres sem esteio numa empresa ou instituição, publicar informação que alguém, em algum lugar, preferiria não ver publicada.

O Destemperados, por outro lado, se apresentou, desde o início, como um guia de restaurantes sem intenção de propor algum tipo de crítica, mas publicar crônicas agradáveis que registrassem estabelecimentos interessantes. De fato, um dos dez mandamentos dos Destemperados é “não avaliarás”. Não há, em essência, nenhum problema nessa abordagem, por duas razões: primeira, a política editorial é bastante explícita, de modo que leitores buscando crítica gastronômica não são levados ao equívoco; segunda, nenhum dos fundadores do weblog é jornalista — um é publicitário, o outro advogado e a terceira, formada em Relações Internacionais — e não estavam, portanto, submetidos ao código de ética dessa profissão. Não se pode, então, cobrar deles a observação da missão principal da imprensa.

Eu mesmo uso os guias de restaurantes e prestigio os eventos promovidos pelos Destemperados, mas não costumava ler com frequência o Impedimento. O objetivo aqui não é criticar a proposta de alguma das duas publicações. A sobrevivência do Destemperados e a morte do Impedimento são um bom ponto de partida, isto sim, para refletir sobre as soluções propostas pela cibercultura para o declínio do jornalismo strictu sensu ao redor do mundo e, mais especificamente, no Brasil.

Desde os anos 1990, em especial a partir da experiência do Centro de Mídia Independente durante os protestos contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle, começou a surgir uma proposta de substituição da imprensa pela inteligência coletiva, turbas espertasmultidão ou qualquer outro nome que se queira dar à produção de informação e conhecimento por uma coletividade anônima interconectada pelas redes de computadores. Em linhas gerais, o argumento é o seguinte: a digitalização e a Internet causam uma crise econômica na imprensa ao eliminarem seu monopólio sobre a distribuição de informação, enquanto incentivam amadores e diletantes a produzir jornalismo, ensejando uma crise de legitimidade e de identidade entre os profissionais, cujo resultado, combinado à diminuição de verbas publicitárias, é o encerramento de diversos veículos ou a limitação da reportagem nas redações restantes; entretanto, a mesma Internet responsável pelo declínio do jornalismo é vista como a fonte de seus substitutos, que emergiriam da inteligência coletiva, através de um processo seletivo de traços darwinistas, para preencher as lacunas deixadas pela imprensa moribunda na esfera pública.

O raciocínio acima está bastante simplificado e dificilmente algum autor o segue literalmente — a maioria tem reservas ou é mais exagerado num ou noutro ponto — mas o resumo reflete a média do imaginário subjacente à relação entre tecnologia, inteligência coletiva e mídia que vem operando no Ocidente nos últimos anos. Há também os críticos dessa proposta, como Jaron LanierAndrew Keen e Robert McChesney, entre outros. Eles apontam algumas das armadilhas do pensamento tecnológico e da fé desmedida no maquinismo como solução para problemas que são, fundamentalmente, culturais e políticos. Um paralelo entre o Impedimento e o Destemperados pode ajudar a compreender essas críticas ao poder da inteligência coletiva de assumir as funções sociais jornalismo, ao menos no contexto local do Rio Grande do Sul.

O caso Impedimento

O Impedimento sempre foi um projeto paralelo de seus autores. Entretanto, começou a ganhar credibilidade no mundo do jornalismo, a formar uma comunidade de leitores fiéis e seus autores se viram, então, incentivados a passar das crônicas esportivas à reportagem em primeira mão. A média de page views por mês era de 230 mil, mas ao final da Copa do Mundo de 2014 atingiu 700 mil visualizações. Foi um dos primeiros weblogs brasileiros a usar o crowdfunding para realizar uma cobertura, ainda em 2009 — no caso, a final da Copa Libertadores da América. As vaquinhas sempre foram um sucesso e o Impedimento chegou mesmo a estabelecer uma parceria comercial com a revista Trivela, para a venda de anúncios. Os anúncios tradicionais, porém, nunca vieram em quantidade ou valor suficiente para comprar o leite das crianças.

Eles tentaram aproveitar a comunidade fiel de leitores através do ImpedClub, um modelo de assinatura mensal que premiava os clientes com alguns brindes simples. Conforme Douglas Ceconello, um dos editores, a resposta surpreendeu e cerca de 250 almas se associaram. Certos leitores chegavam a contribuir com o dobro do valor mensal de R$ 20 do plano mais caro, simplesmente porque amavam o Impedimento. Começaram a pagar por reportagens, usando o dinheiro do ImpedClub. Ainda assim, não foi o suficiente para garantir um pro-labore digno para a equipe editorial, apesar de apenas R$ 10 mil por mês serem suficientes. Os rapazes do Impedimento, aliás, eram mestres em mobilizar a comunidade de leitores. Um exemplo foi a ImpedCopa, um campeonato de futebol amador que em sua décima edição vai reunir 108 atletas em doze times.

Em resumo, o Impedimento seguiu a cartilha do jornalismo digital contemporâneo: produziram conteúdo segmentado e hiperlocal de qualidade, souberam mobilizar a comunidade de leitores, firmaram parcerias comerciais, usaram os ganhos de eficiência na comunicação da Internet para organizar esforços de crowdfunding e até mesmo “anúncios orgânicos”, isto é, publieditoriais, eles veicularam. De acordo com os defensores da inteligência coletiva como solução para a crise no jornalismo, portanto, deveriam ter conseguido pelo menos dinheiro suficiente para amealhar um pro-labore equivalente aos salários que receberiam numa redação. O mantra desses intelectuais lembra o do filme Campo dos Sonhos: “construa e eles virão”. O Impedimento construiu e alguns gatos pingados até apareceram, mas não em número suficiente para garantir a permanência da que talvez tenha sido a mais inovadora iniciativa de jornalismo esportivo da década.

Enquanto o Impedimento era velado, no dia 15 de agosto, o Destemperados atingia o ápice da trajetória em termos de legitimidade, assumindo a produção de conteúdo para o caderno Gastrô de Zero Hora. Além das resenhas de restaurantes, também passaram a produzir reportagens e entrevistas, que antes eram raras no veículo. A relação com a RBS vem de anos, começando com um programete na rádio Itapema. Nos últimos tempos, a parceria se consolidou.

O caso Destemperados

O Destemperados desde cedo começou a veicular anúncios no website, embora eles nunca tenham fornecido um rendimento significativo como o conteúdo patrocinado, ou branded content. Ainda em 2008, lançaram um guia de gastronomia focado no verão em Punta del Este. Também foram um dos primeiros blogs nacionais a produzir um aplicativo para smartphones. A partir daí, começaram a se expandir por diversas áreas, como organização de eventos e cursos de extensão em “food experience”, por exemplo. Além disso, os proprietários criaram outros blogs, segmentados para diferentes públicos, e uma agência de produção de conteúdo, a Winehouse. Um dos principais eventos organizados pelo Destemperados, já sob a égide da RBS, mas antes de efetivamente assumirem o caderno de gastronomia da Zero Hora, foi o Pop Up Restaurant, patrocinado pelo Matte Leão, que trouxe a Porto Alegre diversos chefs para jantares especiais ao longo de semanas.

O weblog segue como a principal plataforma de conteúdo, com 200 mil visitas e 500 mil visualizações por mês, em média. Entretanto, sua função parece ser mais divulgar a marca e incentivar anunciantes a comprarem outros produtos da empresa, como o conteúdo patrocinado e cotas em eventos. É a credibilidade do conteúdo do weblog que atrai alunos para o curso de “food experience”, comensais para os jantares e anunciantes ou patrocinadores para os guias. A habilidade com diferentes plataformas provavelmente foi a característica que levou a Zero Hora a firmar uma parceria comercial para a terceirização do caderno de gastronomia do jornal.

Assim como o Impedimento, o Destemperados soube mobilizar a comunidade de leitores para alavancar a audiência. A partir de 2012, começaram a alistar “food hunters” nas principais cidades do país e mesmo no exterior. Estes colaboradores produzem conteúdo local e mantêm o fluxo de publicação no weblog, além de aumentarem o valor do serviço para os usuários do aplicativo de celular, que podem contar com o Destemperados em viagens, por exemplo. Até a parceria com a Zero Hora, o Destemperados mantinha apenas dois funcionários além dos três fundadores. Com a demanda e os recursos da RBS, a equipe foi ampliada para doze pessoas.

Algumas lições sobre empreendimentos jornalísticos independentes

O que o Impedimento deixou, então, de fazer? Seus integrantes não aceitaram deixar de ser repórteres para se tornar administradores, porque o Impedimento, afinal, foi criado para que pudessem fazer melhores reportagens, não para lidar com anunciantes e agências de publicidade o dia todo. Seria possível argumentar que o espírito crítico do Impedimento afastou anunciantes, mas esta não é a avaliação de Ceconello, que afirma nunca ter percebido mal-estar nas relações com anunciantes. O problema principal, para ele, foi o despreparo das agências de publicidade para lidar com pequenos empreendimentos jornalísticos: pregam a inovação, mas são conservadoras ao formatar parcerias; ou então, enviam produtos em lugar de anúncios, como se os repórteres pudessem se sustentar com escambo.

O que o Destemperados fez diferente? Focaram-se em resultados comerciais antes mesmo de começar a produzir conteúdo. Segundo o diretor Diego Fabris, os produtos multiplataforma foram pensados em conjunto com o weblog, há sete anos, mas lançados aos poucos. Por um lado, o fato de publicarem resenhas permite se dedicar a questões administrativas sem deixar de escrever; afinal, todo mundo precisa comer em algum momento e se pode perceber nos textos que as refeições e viagens de lazer são o momento principal de coleta de informações dos fundadores do Destemperados. Além disso, a abertura à participação dos leitores, com o projeto Food Hunters, permitiu aos proprietários manter a frequência de publicação e expandir a base de audiência para além do Rio Grande do Sul sem incorrer em custos com ampliação da equipe, ao menos de início. O resultado é que, em média, o Destemperados fatura em torno de R$ 50 mil por mês, ou cinco vezes a necessidade mínima do Impedimento.

O Impedimento, ressalte-se, usou os recursos do ImpedClub para contratar free-lancers, em lugar de reinvestir na ampliação dos negócios. Esse fato evidencia a mentalidade jornalística de seus administradores, que, de outro modo, talvez houvessem pensado em formas de transformar o capital em lucro. A própria ImpedCopa poderia ser um evento gerador de faturamento, se pudessem firmar parcerias com patrocinadores. Todavia, como Ceconello deixou claro, não há boa vontade dos anunciantes em relação a empreendimentos pequenos. Essa avaliação é coerente com minha experiência pessoal: há uns dez anos, participei da revista impressa Type, cujo fundador contratou uma pessoa experiente em comercialização de anúncios, mas mesmo assim esbarrou no preconceito das grandes agências com uma revista ainda pouco firme no mercado. O problema é que sem anúncios a revista também não teve como se firmar e, assim, encerrou as atividades. É simplesmente mais seguro e fácil anunciar nos canais de sempre.

Uma das poucas formas de obter anunciantes e patrocinadores sem ter credibilidade no mercado parece ser a mobilização de relações pessoais. Se há na publicação uma pessoa com boas relações no mercado; amigo, parente, ou colega de proprietários de empresários ou sócios de agências de publicidade, os anúncios chegam como favor pessoal, não necessariamente como reconhecimento pela qualidade do conteúdo. Uma segunda forma é a adulação pura e simples dos novos-ricos, que explica a existência de revistas como South Star e websites como o RS Negócios. Noutras palavras, as relações de poder seguem como o principal fator de sucesso de um empreendimento jornalístico, como ocorria na era pré-Internet.

Em resumo, o argumento “construa e eles virão” não se sustenta no mundo real. Se a inteligência coletiva mediada tecnicamente pela Internet fosse suficiente para a seleção natural do jornalismo strictu sensu e sua manutenção, o Impedimento deveria ter feito até mais sucesso comercial do que o Destemperados. Então, é preciso deixar de confiar na tecnologia para suprir a necessidade das sociedades democráticas por jornalismo e buscar alternativas no campo da política.

Alguns pontos relevantes que se pode depreender das duas trajetórias descritas acima:

1. Se é um empreendimento, alguém na equipe deve assumir o papel de empresário. A principal diferença entre o Impedimento e o Destemperados foi a predominância de uma mentalidade jornalística no primeiro e de uma mentalidade empresarial no segundo. Deixando-se de lado esse fator, todas as outras condições e circunstâncias são muito semelhantes, assim como ambos apresentam boa qualidade de conteúdo dentro de suas propostas.

2. Se ninguém na equipe mantém boas relações com empresários, políticos ou agências de publicidade, só há duas alternativas de financiamento: patrocínio do terceiro setor ou faturamento com venda direta à audiência. O problema do patrocínio do terceiro setor é depender também, em alguma medida, de boas relações políticas. Embora em geral a concorrência por bolsas seja mais aberta, baseada em editais, os selecionadores levam em conta a inserção de um determinado projeto numa comunidade de ativistas — por exemplo, o fato de algum dos proponentes já haver participado de outros projetos como voluntário ou funcionário. Além disso, em geral esse tipo de patrocínio se foca em jornalismo voltado a questões políticas e sócio-econômicas, o que eliminaria tanto o Impedimento quanto o Destemperados do concurso.

3. O problema de contar com financiamento direto pela audiência é ninguém ainda ter descoberto exatamente como vender notícias para leitores na era do jornalismo pós-industrial. Se alguém descobrir como fazê-lo, avise.

4. A terceirização parece ser uma via promissora, ao menos no Brasil. Além do Destemperados, há em Porto Alegre a experiência de agências como Cartola, Fronteira e República. Seus fundadores são repórteres jovens que, insatisfeitos com as restrições das redações tradicionais, pediram demissão e criaram suas próprias empresas. Hoje, prestam serviços para seus ex-empregadores e inclusive grandes veículos do Sudeste. Ganharam mais liberdade de escolha das pautas a serem perseguidas e, ao mesmo tempo, melhores salários e qualidade de vida. Essa abordagem, porém, talvez não salvasse o impedimento, pois a RBS terceirizar parte de sua cobertura esportiva para uma publicação independente significaria assumir falhas numa área que talvez concentre a maior parte da força de trabalho editorial da empresa, para não falar da maior massa de vaidade.

Jornalismo brasileiro adota a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais

No dia 31 de março último, o golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart e instalou um regime autoritário no Brasil completou 50 anos. A imprensa produziu os cadernos, websites, cronologias e documentários de costume, mas um novo tipo de material jornalístico ganhou bastante destaque: a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais — no caso, o Twitter.

Reencenações históricas não são uma novidade. O cinema e os nerds vêm reencenando batalhas importantes ao vivo ou em filme há décadas, várias delas com grande atenção aos detalhes. Em 2011, no aniversário de 30 anos do título mundial, a rádio Globo retransmitiu o jogo Flamengo X Liverpool. Na Web, circula há anos a reconstrução da Segunda Guerra Mundial em versões para IRC e Facebook. No Twitter, mesmo, já existem há tempos o perfil @RealTimeWWII e outros do mesmo tipo, como o diário da rainha Vitória.

Neste 31 de março, pelo menos cinco instituições brasileiras promoveram uma reencenação histórica do golpe de Estado de 1964: O Globo, o grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, o Instituto Moreira Salles e o laboratório de jornalismo da Famecos/PUCRS, o Editorial J, usando o perfil @Golpe1964. O portal Terra também reencenou em tempo real o putsch contra Jango, mas, em vez de usar o Twitter, aproveitou o momento para estrear sua nova ferramenta de narração ao vivo.

Cronologia do Golpe  golpe1964  no Twitter

 

A resposta do público, no caso do Editorial J, foi surpreendente. Se a proposta interessasse a 500 pessoas, já consideraríamos um sucesso.  O perfil, porém, atingiu a marca de 2 mil seguidores na primeira semana e no dia 2 de abril amanheceu com uma audiência de mais de 5 mil pessoas. A resposta também foi excelente em termos de comentários: não apenas muitos seguidores elogiaram e disseminaram o @Golpe1964, como diversos veículos de nos entrevistaram e publicaram notícias sobre a iniciativa. Ficamos estupefatos.

A ideia nasceu do dilema sobre como competir com a imprensa profissional na cobertura dos 50 anos do golpe dispondo de muito menos recursos. Como sou fã dos perfis de reencenação histórica, propus ao Victor Rypl, editor de Web do Editorial J, fazermos algo parecido. Ele comprou a ideia e usou parte das férias de verão para pesquisar o livro 1964: Golpe ou Contragolpe?, de Hélio Silva. Também usamos outras fontes, como os acervos online de jornais existentes na época, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e até mesmo o Departamento de Estado americano. Nos últimos dias, ganhamos a ajuda da Sofia Schuck, nova estagiária do laboratório.

A partir dessas fontes, foram criados as centenas de tweets, escritos como se os eventos estivessem acontecendo no presente, e armazenadas as imagens necessárias. Um dos acertos foi iniciar, devagarinho, duas semanas antes de 31 de março, porque o intervalo de tempo permitiu que o perfil se disseminasse pelas redes sociais e houvesse uma audiência já cadastrada para acompanhar a narração na data mais importante. Também levamos em conta a vantagem de assinar a ideia antes de todos os outros — não é uma proposta tão original assim, afinal, e parecia óbvio que alguém maior do que nós iria fazer algo parecido. Com isso, obtivemos muito mais repercussão do que se iniciássemos no dia 31 de março, junto com O Globo e o Instituto Moreira Salles.

Outra diferença para as demais iniciativas é que pretendemos permanecer publicando conteúdo sobre as principais efemérides da ditadura. Esta foi uma das razões para termos criado um perfil dedicado apenas aos 50 anos do golpe, em vez de usar o @EditorialJ. Um perfil específico tem ainda a vantagem permitir a divulgação normal das matérias na conta oficial, sem atrapalhar a reencenação histórica, e evitar a confusão.

O Globo, por exemplo, narrou a rebelião no perfil @oglobopolitica, o qual seguiu publicando outros tipos de conteúdo, como uma sessão de perguntas e respostas com Miriam Leitão. Além de misturar textos de naturezas diferentes, essa decisão do Globo quebrou o encanto da reencenação. Afinal, o primeiro requisito para o sucesso desse tipo de iniciativa é manter ao máximo a suspensão da descrença. É como na cena do filme Em Algum Lugar do Passado em que Christopher Reeve se hospeda num hotel antigo e usa roupas de época, para criar um ambiente propício a um retorno ao ano de 1912.

Esse modelo obrigou o Globo a usar uma hashtag: #aovivo1964. São 11 caracteres valiosos. Um pefil dedicado, ou ao menos uma suspensão de todos os outros tipos de publicações, permitem evitar o uso de palavras-chave e deixar mais espaço para narrar os eventos. Um pouco de espaço livre nos tweets também favorece a repercussão e a interação, pois facilita que os leitores insiram comentários próprios antes do RT.

Uma ideia que gostaria de ter tido foi usar um código para indicar a fonte de cada tweet, como fez o Instituto Moreira Salles. É um dado útil para os leitores, que podem assim buscar as referências para se aprofundar, ou então questionar a exatidão das informações.

Uma ideia que gostei de ter tido foi retweetar os eventos dos quais não dispúnhamos em nosso arquivo. O grupo Tortura Nunca mais também embarcou no espírito esportivo e republicou o nosso material. Ambos ganharam em qualidade e ofereceram uma experiência melhor para o público com essa atitude, porque os perfis jornalísticos costumam retweetar informações de outras fontes quando estão realizando uma cobertura em tempo real. Aumentamos a verossimilhança.

Finalmente, essa experiência teve o mérito de mostrar à equipe do Editorial J que mesmo redações com poucos recursos, hoje em dia, podem competir por atenção do público com as grandes empresas de comunicação — é necessário apenas planejamento e um pouco de sorte.

Abraji realiza seminário regional em Porto Alegre

No dia 22 de março, sábado, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo realiza seu primeiro seminário regional de 2014. O dia será dividido entre palestras e oficinas, todas sobre jornalismo investigativo e/ou jornalismo guiado por dados.

É uma excelente oportunidade de aprender com repórteres experientes e conhecer os meandros da investigação jornalística. O preço é camarada: R$ 50 para estudantes, R$ 75 para profissionais e de graça para os sócios da Abraji.

Inclusive, pode ser uma boa oportunidade para se filiar à associação, cuja anuidade custa R$ 220 para profissionais e R$ 110 para estudantes. Há vários benefícios, como acesso a bancos de dados, a tutoriais e à comunidade de repórteres investigativos brasileiros. Além disso, há a satisfação de contribuir para a manutenção de uma entidade que defende os interesses dos jornalistas — é uma das maiores responsáveis pela existência de uma Lei de Acesso à Informação, por exemplo.

Confira abaixo a programação, que traz luminares como Cláudio W. Abramo, Gil Castello Branco, José Roberto de Toledo e Mauri König:

9h00 – 10h30
(Auditório) LAI no Lide – o bom uso da Lei de Acesso no jornalismo regional
Jonathas Costa (O Alvoradense), Juliana Bublitz (Zero Hora) e Paula Sperb (O Caxiense)

(Laboratório) Crime sem Castigo – visualização no Tableau
Guilherme Storck (Gazeta do Povo)

11h00 – 12h30
(Auditório) Mobilidade urbana: para onde (e como) vamos
Daniela Facchini (Embarq Brasil), Clarisse Linke (ITDP) e André Mags (Zero Hora)

(Laboratório) Poder econômico e financiamento eleitoral no Brasil
Claudio Weber Abramo (Transparência Brasil)

14h00 – 15h30
(Auditório) Boas histórias: Dragagem ilegal no Rio Jacuí e Arquivos Secretos do Coronel do DOI-CODI
Fabio Almeida (RBS TV) e Renata Colombo (Rádio Gaúcha); Nilson Mariano e Humberto Trezzi (Zero Hora)

(Laboratório) Investigação do orçamento federal
Gil Castello Branco e Carlos Blener (Contas Abertas)

16h00 – 17h30
(Auditório) Boas histórias: Polícia Fora da Lei e reportagens
Mauri König (Gazeta do Povo) e Giovanni Grizotti (TV Globo)

(Laboratório) DataPOA: dados abertos municipais de Porto Alegre

Abraji abre chamada de trabalhos para seminário de pesquisa em jornalismo investigativo

O 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo incluirá pela primeira vez um eixo destinado à apresentação e discussão de pesquisas científicas em torno do tema.

A iniciativa é da nova diretoria da Abraji, da qual participo como conselheiro fiscal e uma espécie de liaison com a academia. Há uma grande abertura dos repórteres, hoje, para o debate com pesquisadores do jornalismo, em grande parte, me parece, devido ao aporte científico necessário para praticar o jornalismo guiado por dados.

Por um lado, grande parte da tecnologia e, principalmente, o conhecimento sobre estatística e matemática usados pelas redações têm origem na academia. Pesquisadores da comunicação, como a equipe do Labic, por exemplo, têm contribuído com expertise na área de análise de redes sociais.

Por outro lado, as redações são laboratórios por excelência para o teste de tecnologia e novas propostas de formatos jornalísticos. Parcerias entre jornalistas profissionais e pesquisadores podem render grandes benefícios ao campo como um todo e, quem sabe, encontrar uma forma de ajudar a salvar essa importante instituição democrática que é a imprensa.

De fato, a era digital oferece a primeira oportunidade na história do jornalismo para que a academia tome a frente na proposição de novas formas de organizar a produção e a distribuição de notícias.

Hoje, bastam computadores, software open source e conexão à Internet para que pesquisadores criem jornais-laboratório capazes de adotar e testar as tecnologias mais recentes. Antigamente, era preciso arcar com custos de impressão ou radiodifusão, o que sempre é um problema para as ciências humanas, em geral tratadas como secundárias pelas agências de fomento.

Além disso, jornais-laboratório não têm compromisso com audiência ou acionistas e podem, por isso, errar bastante ao aplicar tecnologias e propor novas formas de narrativa jornalística. Redações profissionais não podem se dar ao luxo de quebrar o contrato de leitura o tempo todo.

Enfim, os pesquisadores interessados em debater os caminhos da investigação jornalística, a situação das vias de acesso à informação pública, o jornalismo guiado por dados, os desafios do ensino e outros temas serão bem vindos no próximo congresso da Abraji, entre os dias 24 e 26 de julho de 2014, em São Paulo.

Veja aqui o call for papers para o I Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo da Abraji.

O jornalismo guiado por dados de acordo com Giannina Segnigni

O jornal El País divulgou uma palestra sobre jornalismo guiado por dados proferida pela repórter costa-riquenha Giannina Segnigni. A jornalista recebeu recentemente o prêmio Gabriel García Márquez e é especializada em investigação de tráfico e contrabando.

Segnini divide o jornalismo guiado por dados (JGD) em cinco etapas:

  1. Obtenção dos dados — Por um lado, é preciso conhecer os tipos de formatos e arquivos usados para a armazenagem de dados pelo setor público, para poder fazer pedidos de acesso à informação eficazes. Por outro, é preciso conhecer o marco jurídico que rege o a disponibilidade dos bancos de dados governamentais.
  2. Limpeza dos dados — É essencial, porque dados com ruído inviabilizam ou engendram erros na etapa seguinte, de análise.
  3. Análise dos dados — Para Segnini, esta é a etapa eminentemente jornalística do JGD. Envolve comparar, cruzar e correlacionar dados para encontrar tendências, padrões, comportamentos atípicos e explicações de fenômenos sociais.
  4. Verificação dos dados — O fato de uma base de dados ser produzida por uma instituição pública não garante a consistência da informação. É preciso tratar os dados com ceticismo, como se faz com qualquer outra fonte.
  5. Visualização dos dados — “Entrevistar” os dados e encontrar informação pode não ser suficiente, em geral é preciso apresentar as descobertas de forma atrativa para o leitor.

Durante a palestra, ela critica o que Paul Bradshaw chama de “data porn”: visualizações com muita pirotecnia, mas que não oferecem ao leitor a possibilidade de explorar ou comparar dados, ou mesmo apresentam pouco valor informativo. A seu ver, uma boa peça de JGD não deixa perguntas no ar — porque encontrar respostas é, afinal, o trabalho dos jornalistas — e não deixa o leitor perdido num oceano de dados.

A principal vantagem do JGD para o jornalismo, para Segnini, é a criação de informação inteligente, diferenciada, num mundo em que a maior parte da informação é agregada de terceiros e muito pouco contextualizada.

Ao final, a costa-riquenha lembra o adágio sobre ver o bosque e não se focar nas árvores, para dizer que, com o JGD, é possível ver as duas coisas ao mesmo tempo. O leitor comum pode desfrutar das visualizações, enquanto os nerds podem ter acesso às bases de dados completas e explorá-las por si mesmos. Com isso, aumenta a transparência da reportagem, mas do jornalista passa a ser exigida uma abdicação do controle total sobre a narrativa.

Como checar fontes e identificar manipulações em redes sociais

Recentemente, a disputa pelo destino de um casario na rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre, encontrou um desfecho no compromisso da construtora Goldsztein — parte do grupo Cyrela — em demolir apenas três dos seis imóveis, restaurar estes três preservados e ainda realizar uma doação de R$ 2 milhões para a conclusão das obras na Casa do Menino Jesus de Praga. Uma legítima solução salomônica, que provavelmente agradará à maioria dos descontentes com mais um caso de estupro urbanístico em Porto Alegre. Legal, não?

A Goldsztein, todavia, parece não ter achado suficiente a mídia espontânea garantida pela preservação de metade das casas e doação de milhões a uma instituição de caridade. Para reforçar sua disposição em deixar de degradar a paisagem urbana de Porto Alegre, resolveram degradar a paisagem virtual usando perfis falsos no Twitter para espalhar a notícia do acordo com o Ministério Público.

O astroturfing é uma prática a ser combatida porque causa a degeneração da esfera pública eletrônica criada pelas redes de computadores. Sabe como você não pode mais assistir a um vídeo incrível sem suspeitar que se trata de um viral criado para divulgar alguma marca, ou como você não pode mais ver um blogueiro elogiando uma marca, produto ou serviço sem se perguntar se está diante de um post pago? Esse cinismo generalizado é um efeito do abuso da confiança do leitor por parte de empresas e pessoas sem o menor respeito pelo patrimônio comum que é a Internet.

Agências de publicidade e assessorias de imprensa que se dizem especialistas ou fanáticos pela cultura digital, mas se valem do astroturfing, não são uma coisa nem outra. Primeiro, porque essa estratégia, como qualquer mentira, tem pernas curtas. Segundo, porque ninguém que ame a Internet contribuiria voluntariamente para sua degradação através de manipulações baratas. Já bastam os spammers, phishers e outros vermes à solta na rede. Se você é um anunciante, fique longe desse tipo de agência ou profissional.

Trata-se, além disso, de uma estratégia preguiçosa. Toma atalhos perigosos para disseminar informação e coloca em risco a imagem do cliente — que certamente não pagou pouco pelo serviço. Por exemplo, se o responsável por esta ação houvesse se dado o trabalho de me conhecer apenas superficialmente, saberia que não é boa ideia tentar esse tipo de coisa por perto. De fato, uma das principais motivações para este artigo é, provavelmente, ter me ofendido por me julgarem um alvo adequado.

Todo mundo precisa comer e pagar a conta do bar, mas profissionais que coadunam com o astroturfing estão tornando o mercado de trabalho muito mais miserável para si e para todos os outros. São o equivalente de fura-greves. Ninguém está exigindo de você que cure o câncer, mas que pelo menos não ajude a disseminá-lo. A única exigência do cosmos é que tenhamos responsabilidade; não é muita coisa e quem não consegue nem isso deveria ser punido com a ignomínia.

Como forma de contribuir para o fim do astroturfing, sock-puppetry e outros flagelos, aí embaixo está um tutorial com dicas para identificar perfis falsos em redes sociais, seguidas pelos passo-a-passo de minha investigação a respeito dos perfis usados por alguma agência de publicidade por delegação da Goldsztein. Recomendo acionar o modo de tela cheia, para ver melhor as imagens, ou baixar os slides em seu computador.

ATUALIZAÇÃO: Entrei em contato com Cláudio Goldsztein, fundador da agência Embrace e filho de Sérgio Goldsztein, para verificar as relações entre as duas firmas. Conforme o empresário, os perfis falsos usados para disseminar mensagens favoráveis à construtora homônima não são de responsabilidade da Embrace. Tampouco há qualquer pessoa chamada Sofia Martins no quadro de funcionários da Embrace ou da Goldsztein. O publicitário supõe que os perfis falsos podem ter sido criados por corretores de imóveis com interesse em negociar o empreendimento, independentemente. O perfil @luciana_verdade no Twitter, porém, é gerenciado pela Embrace.

Websites e weblogs dedicados ao jornalismo guiado por dados

Há alguns meses, iniciei uma busca por websites e weblogs cujo foco principal fosse o jornalismo guiado por dados. A tarefa se mostrou bastante mais difícil do que se poderia imaginar. Com o falecimento dos blogrolls, infelizmente, desapareceu a curadoria espontânea produzida pelos autores de weblogs, que até a metade da década de 2000 oferecia conjuntos valiosos de referências sobre todos os assuntos blogáveis — ou seja, N+1 temas existentes no universo.

As ferramentas de busca não foram de grande ajuda, retornando resultados pífios, mesmo com o apoio de operadores lógicos. Muitos websites simplesmente não se apresentam como focados em jornalismo guiado por dados. Por outro lado, como são especializados, terminam soterrados sob o peso do PageRank da Wikipedia, de páginas de grandes universidades e websites generalistas sobre jornalismo na busca orgânica.

A solução foi convocar a coletividade para criar a lista. A partir de uma simples planilha no Google Docs, aberta à edição por qualquer pessoa, a base de dados cresceu de dez para mais de cem registros. Há desde as referências mais óbvias até websites produzidos por gente muito longe dos grandes centros, especialmente América Latina e África.

A planilha foi divulgada na revista Data Driven Journalism e em listas de discussão como as da Abraji. Por sorte, muitos nós importantes no Twitter e Facebook abraçaram a iniciativa. O resultado mostra que o princípio do crowdsourcing pode ser aplicado de maneira bastante simples.

Ao longo das semanas, vários colaboradores fizeram sugestões. A primeira foi esclarecer a licença de uso da planilha, de modo que os participantes tivessem certeza do interesse público deste esforço. Coloquei a planilha sob domínio público. Uma outra sugestão importante foi indicar a linguagem de cada website, porque muitos autores escrevem em inglês, apesar de esta não ser sua língua nativa, e para facilitar a filtragem. Também percebi que muitos colaboradores não tinham uma noção clara do conceito de jornalismo guiado por dados, então incluí na planilha uma referência ao verbete na Wikipedia.

Inicialmente, também havia uma lista em português, mas houve poucas contribuições e muito spam, então ela ficou para trás.

Vamos registrar o impacto do Artigo 13 na Lei de Acesso à Informação via crowdsourcing

Um dos principais pontos de crítica da Lei de Acesso à Informação, ou lei 12.527, está no decreto 7.724, que regulamenta a sua aplicação no Brasil. No Artigo 13, Inciso III do decreto, há uma janela para que servidores públicos resguardem informações sensíveis sob a justificativa de evitar trabalho extra para o órgão responsável:

Art. 13. Não serão atendidos pedidos de acesso à informação:

I – genéricos;

II – desproporcionais ou desarrazoados; ou

III – que exijam trabalhos adicionais de análise, interpretação ou consolidação de dados e informações, ou serviço de produção ou tratamento de dados que não seja de competência do órgão ou entidade.

Parágrafo único. Na hipótese do inciso III do caput, o órgão ou entidade deverá, caso tenha conhecimento, indicar o local onde se encontram as informações a partir das quais o requerente poderá realizar a interpretação, consolidação ou tratamento de dados.

Embora seja desejável um mecanismo para evitar a sobrecarga de trabalho por conta de pedidos de informações pouco razoáveis, a única garantia contra um possível abuso são os recursos previstos na lei quando um pedido de acesso à informação é negado.

Evitando jogar suspeitas sobre uma maioria de servidores que provavelmente procura realizar um bom trabalho, é necessário fiscalizar o uso do Artigo 13 como justificativa para barrar o compartilhamento de dados públicos. Por isso, criei um mapa usando a ferramenta Ushahidi, que permite colaboração de qualquer pessoa. Caso você já tenha recebido alguma negativa com base no Artigo 13, clique no link abaixo e exponha os acontecimentos:

https://crowdmap.com/map/artigo13/

Os dados mais importantes são o órgão responsável e a cidade ou esfera de governo à qual ele está ligado. Com o tempo, será possível visualizar as cidades e instituições que se valem do Artigo 13 com mais frequência para negar acesso a informações e, eventualmente, identificar abusos.