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Abraji abre chamada de trabalhos para seminário de pesquisa em jornalismo investigativo

O 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo incluirá pela primeira vez um eixo destinado à apresentação e discussão de pesquisas científicas em torno do tema.

A iniciativa é da nova diretoria da Abraji, da qual participo como conselheiro fiscal e uma espécie de liaison com a academia. Há uma grande abertura dos repórteres, hoje, para o debate com pesquisadores do jornalismo, em grande parte, me parece, devido ao aporte científico necessário para praticar o jornalismo guiado por dados.

Por um lado, grande parte da tecnologia e, principalmente, o conhecimento sobre estatística e matemática usados pelas redações têm origem na academia. Pesquisadores da comunicação, como a equipe do Labic, por exemplo, têm contribuído com expertise na área de análise de redes sociais.

Por outro lado, as redações são laboratórios por excelência para o teste de tecnologia e novas propostas de formatos jornalísticos. Parcerias entre jornalistas profissionais e pesquisadores podem render grandes benefícios ao campo como um todo e, quem sabe, encontrar uma forma de ajudar a salvar essa importante instituição democrática que é a imprensa.

De fato, a era digital oferece a primeira oportunidade na história do jornalismo para que a academia tome a frente na proposição de novas formas de organizar a produção e a distribuição de notícias.

Hoje, bastam computadores, software open source e conexão à Internet para que pesquisadores criem jornais-laboratório capazes de adotar e testar as tecnologias mais recentes. Antigamente, era preciso arcar com custos de impressão ou radiodifusão, o que sempre é um problema para as ciências humanas, em geral tratadas como secundárias pelas agências de fomento.

Além disso, jornais-laboratório não têm compromisso com audiência ou acionistas e podem, por isso, errar bastante ao aplicar tecnologias e propor novas formas de narrativa jornalística. Redações profissionais não podem se dar ao luxo de quebrar o contrato de leitura o tempo todo.

Enfim, os pesquisadores interessados em debater os caminhos da investigação jornalística, a situação das vias de acesso à informação pública, o jornalismo guiado por dados, os desafios do ensino e outros temas serão bem vindos no próximo congresso da Abraji, entre os dias 24 e 26 de julho de 2014, em São Paulo.

Veja aqui o call for papers para o I Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo da Abraji.

O jornalismo guiado por dados de acordo com Giannina Segnigni

O jornal El País divulgou uma palestra sobre jornalismo guiado por dados proferida pela repórter costa-riquenha Giannina Segnigni. A jornalista recebeu recentemente o prêmio Gabriel García Márquez e é especializada em investigação de tráfico e contrabando.

Segnini divide o jornalismo guiado por dados (JGD) em cinco etapas:

  1. Obtenção dos dados — Por um lado, é preciso conhecer os tipos de formatos e arquivos usados para a armazenagem de dados pelo setor público, para poder fazer pedidos de acesso à informação eficazes. Por outro, é preciso conhecer o marco jurídico que rege o a disponibilidade dos bancos de dados governamentais.
  2. Limpeza dos dados — É essencial, porque dados com ruído inviabilizam ou engendram erros na etapa seguinte, de análise.
  3. Análise dos dados — Para Segnini, esta é a etapa eminentemente jornalística do JGD. Envolve comparar, cruzar e correlacionar dados para encontrar tendências, padrões, comportamentos atípicos e explicações de fenômenos sociais.
  4. Verificação dos dados — O fato de uma base de dados ser produzida por uma instituição pública não garante a consistência da informação. É preciso tratar os dados com ceticismo, como se faz com qualquer outra fonte.
  5. Visualização dos dados — “Entrevistar” os dados e encontrar informação pode não ser suficiente, em geral é preciso apresentar as descobertas de forma atrativa para o leitor.

Durante a palestra, ela critica o que Paul Bradshaw chama de “data porn”: visualizações com muita pirotecnia, mas que não oferecem ao leitor a possibilidade de explorar ou comparar dados, ou mesmo apresentam pouco valor informativo. A seu ver, uma boa peça de JGD não deixa perguntas no ar — porque encontrar respostas é, afinal, o trabalho dos jornalistas — e não deixa o leitor perdido num oceano de dados.

A principal vantagem do JGD para o jornalismo, para Segnini, é a criação de informação inteligente, diferenciada, num mundo em que a maior parte da informação é agregada de terceiros e muito pouco contextualizada.

Ao final, a costa-riquenha lembra o adágio sobre ver o bosque e não se focar nas árvores, para dizer que, com o JGD, é possível ver as duas coisas ao mesmo tempo. O leitor comum pode desfrutar das visualizações, enquanto os nerds podem ter acesso às bases de dados completas e explorá-las por si mesmos. Com isso, aumenta a transparência da reportagem, mas do jornalista passa a ser exigida uma abdicação do controle total sobre a narrativa.

Como checar fontes e identificar manipulações em redes sociais

Recentemente, a disputa pelo destino de um casario na rua Luciana de Abreu, em Porto Alegre, encontrou um desfecho no compromisso da construtora Goldsztein — parte do grupo Cyrela — em demolir apenas três dos seis imóveis, restaurar estes três preservados e ainda realizar uma doação de R$ 2 milhões para a conclusão das obras na Casa do Menino Jesus de Praga. Uma legítima solução salomônica, que provavelmente agradará à maioria dos descontentes com mais um caso de estupro urbanístico em Porto Alegre. Legal, não?

A Goldsztein, todavia, parece não ter achado suficiente a mídia espontânea garantida pela preservação de metade das casas e doação de milhões a uma instituição de caridade. Para reforçar sua disposição em deixar de degradar a paisagem urbana de Porto Alegre, resolveram degradar a paisagem virtual usando perfis falsos no Twitter para espalhar a notícia do acordo com o Ministério Público.

O astroturfing é uma prática a ser combatida porque causa a degeneração da esfera pública eletrônica criada pelas redes de computadores. Sabe como você não pode mais assistir a um vídeo incrível sem suspeitar que se trata de um viral criado para divulgar alguma marca, ou como você não pode mais ver um blogueiro elogiando uma marca, produto ou serviço sem se perguntar se está diante de um post pago? Esse cinismo generalizado é um efeito do abuso da confiança do leitor por parte de empresas e pessoas sem o menor respeito pelo patrimônio comum que é a Internet.

Agências de publicidade e assessorias de imprensa que se dizem especialistas ou fanáticos pela cultura digital, mas se valem do astroturfing, não são uma coisa nem outra. Primeiro, porque essa estratégia, como qualquer mentira, tem pernas curtas. Segundo, porque ninguém que ame a Internet contribuiria voluntariamente para sua degradação através de manipulações baratas. Já bastam os spammers, phishers e outros vermes à solta na rede. Se você é um anunciante, fique longe desse tipo de agência ou profissional.

Trata-se, além disso, de uma estratégia preguiçosa. Toma atalhos perigosos para disseminar informação e coloca em risco a imagem do cliente — que certamente não pagou pouco pelo serviço. Por exemplo, se o responsável por esta ação houvesse se dado o trabalho de me conhecer apenas superficialmente, saberia que não é boa ideia tentar esse tipo de coisa por perto. De fato, uma das principais motivações para este artigo é, provavelmente, ter me ofendido por me julgarem um alvo adequado.

Todo mundo precisa comer e pagar a conta do bar, mas profissionais que coadunam com o astroturfing estão tornando o mercado de trabalho muito mais miserável para si e para todos os outros. São o equivalente de fura-greves. Ninguém está exigindo de você que cure o câncer, mas que pelo menos não ajude a disseminá-lo. A única exigência do cosmos é que tenhamos responsabilidade; não é muita coisa e quem não consegue nem isso deveria ser punido com a ignomínia.

Como forma de contribuir para o fim do astroturfing, sock-puppetry e outros flagelos, aí embaixo está um tutorial com dicas para identificar perfis falsos em redes sociais, seguidas pelos passo-a-passo de minha investigação a respeito dos perfis usados por alguma agência de publicidade por delegação da Goldsztein. Recomendo acionar o modo de tela cheia, para ver melhor as imagens, ou baixar os slides em seu computador.

ATUALIZAÇÃO: Entrei em contato com Cláudio Goldsztein, fundador da agência Embrace e filho de Sérgio Goldsztein, para verificar as relações entre as duas firmas. Conforme o empresário, os perfis falsos usados para disseminar mensagens favoráveis à construtora homônima não são de responsabilidade da Embrace. Tampouco há qualquer pessoa chamada Sofia Martins no quadro de funcionários da Embrace ou da Goldsztein. O publicitário supõe que os perfis falsos podem ter sido criados por corretores de imóveis com interesse em negociar o empreendimento, independentemente. O perfil @luciana_verdade no Twitter, porém, é gerenciado pela Embrace.

Websites e weblogs dedicados ao jornalismo guiado por dados

Há alguns meses, iniciei uma busca por websites e weblogs cujo foco principal fosse o jornalismo guiado por dados. A tarefa se mostrou bastante mais difícil do que se poderia imaginar. Com o falecimento dos blogrolls, infelizmente, desapareceu a curadoria espontânea produzida pelos autores de weblogs, que até a metade da década de 2000 oferecia conjuntos valiosos de referências sobre todos os assuntos blogáveis — ou seja, N+1 temas existentes no universo.

As ferramentas de busca não foram de grande ajuda, retornando resultados pífios, mesmo com o apoio de operadores lógicos. Muitos websites simplesmente não se apresentam como focados em jornalismo guiado por dados. Por outro lado, como são especializados, terminam soterrados sob o peso do PageRank da Wikipedia, de páginas de grandes universidades e websites generalistas sobre jornalismo na busca orgânica.

A solução foi convocar a coletividade para criar a lista. A partir de uma simples planilha no Google Docs, aberta à edição por qualquer pessoa, a base de dados cresceu de dez para mais de cem registros. Há desde as referências mais óbvias até websites produzidos por gente muito longe dos grandes centros, especialmente América Latina e África.

A planilha foi divulgada na revista Data Driven Journalism e em listas de discussão como as da Abraji. Por sorte, muitos nós importantes no Twitter e Facebook abraçaram a iniciativa. O resultado mostra que o princípio do crowdsourcing pode ser aplicado de maneira bastante simples.

Ao longo das semanas, vários colaboradores fizeram sugestões. A primeira foi esclarecer a licença de uso da planilha, de modo que os participantes tivessem certeza do interesse público deste esforço. Coloquei a planilha sob domínio público. Uma outra sugestão importante foi indicar a linguagem de cada website, porque muitos autores escrevem em inglês, apesar de esta não ser sua língua nativa, e para facilitar a filtragem. Também percebi que muitos colaboradores não tinham uma noção clara do conceito de jornalismo guiado por dados, então incluí na planilha uma referência ao verbete na Wikipedia.

Inicialmente, também havia uma lista em português, mas houve poucas contribuições e muito spam, então ela ficou para trás.

Vamos registrar o impacto do Artigo 13 na Lei de Acesso à Informação via crowdsourcing

Um dos principais pontos de crítica da Lei de Acesso à Informação, ou lei 12.527, está no decreto 7.724, que regulamenta a sua aplicação no Brasil. No Artigo 13, Inciso III do decreto, há uma janela para que servidores públicos resguardem informações sensíveis sob a justificativa de evitar trabalho extra para o órgão responsável:

Art. 13. Não serão atendidos pedidos de acesso à informação:

I – genéricos;

II – desproporcionais ou desarrazoados; ou

III – que exijam trabalhos adicionais de análise, interpretação ou consolidação de dados e informações, ou serviço de produção ou tratamento de dados que não seja de competência do órgão ou entidade.

Parágrafo único. Na hipótese do inciso III do caput, o órgão ou entidade deverá, caso tenha conhecimento, indicar o local onde se encontram as informações a partir das quais o requerente poderá realizar a interpretação, consolidação ou tratamento de dados.

Embora seja desejável um mecanismo para evitar a sobrecarga de trabalho por conta de pedidos de informações pouco razoáveis, a única garantia contra um possível abuso são os recursos previstos na lei quando um pedido de acesso à informação é negado.

Evitando jogar suspeitas sobre uma maioria de servidores que provavelmente procura realizar um bom trabalho, é necessário fiscalizar o uso do Artigo 13 como justificativa para barrar o compartilhamento de dados públicos. Por isso, criei um mapa usando a ferramenta Ushahidi, que permite colaboração de qualquer pessoa. Caso você já tenha recebido alguma negativa com base no Artigo 13, clique no link abaixo e exponha os acontecimentos:

https://crowdmap.com/map/artigo13/

Os dados mais importantes são o órgão responsável e a cidade ou esfera de governo à qual ele está ligado. Com o tempo, será possível visualizar as cidades e instituições que se valem do Artigo 13 com mais frequência para negar acesso a informações e, eventualmente, identificar abusos.

Globo leva mais de 20 anos e três governos de esquerda para se desculpar pela metade

O jornal O Globo publicou, no final de agosto, um website especial sobre a história do jornal, no qual é possível consultar sua posição editorial em diversos eventos históricos. O principal deles é, claro, o golpe militar de 1964, sobre o qual as organizações Globo se viram obrigadas a publicar um editorial explicando e não exatamente se desculpando pelo apoio conferido aos militares rebeldes.

A ambiguidade da Globo pode ser percebida já no material histórico. Sobre a edição do dia 14 de março de 1964, dia seguinte ao comício em que João Goulart comemorou as medidas progressistas decretadas em 13 de março, a redação atual de O Globo entende que  “Jango pavimenta o caminho para a deposição”. O texto a respeito desta edição é bastante mais crítico do que o texto relacionado à comemoração do golpe, que dedica exatamente três frases a lamentar a ditadura e o posicionamento editorial do próprio Globo, mas lembra que o empossamento do presidente da Câmara dos Deputados como presidente da República respeitava a Constituição e que o regime de Castelo Branco foi uma “fase liberal” da ditadura — ou, como aparentemente preferem os herdeiros de Roberto Marinho, revolução. Aliás, o termo ditadura não é usado neste texto do memorial, nem mesmo 30 anos após o fim do regime.

O editorial específico sobre o 1º de abril usa, sim, o termo ditadura para se referir ao regime militar e até mesmo “golpe”, em lugar de “revolução”. No entanto, fracassa em mascarar a mentalidade patrimonialista da família Marinho e, principalmente, em se desculpar com o Brasil pelo apoio à deposição de um presidente eleito de forma legítima.

Em primeiro lugar, O Globo não consegue deixar de distribuir a culpa logo no início do texto, lembrando que Folha e Estadão, para ficar nos jornais ainda vivos, também apoiaram o golpe. A Folha, com efeito, não apenas colaborou com a tortura e morte de um número ignorado de heróis da luta contra a ditadura, através do apoio à Operação Bandeirantes, como até hoje a família Frias acha que o regime foi uma “ditabranda”. Entretanto, as ações coletivas não desculpam as decisões individuais, nem as ações de uma determinada instituição podem ser redimidas apelando para o comportamento do grupo. As organizações Globo podem ter colaborado menos ou mais do que outras empresas de comunicação com a ditadura, mas o fato é que, em 1964, decidiram contribuir para a deposição de um presidente democraticamente eleito. Ponto.

O editorial tenta deslegitimar o governo Jango, para justificar de alguma forma o apoio ao golpe. Um exemplo é o parágrafo a seguir:

Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.

O texto apresenta, ainda, trechos de um editorial assinado por Roberto Marinho em 1984, no aniversário de 20 anos da “revolução”, no qual o falecido patriarca das organizações Globo cita o “reconhecimento” do general Costa e Silva de que o golpe ocorrera “por exigência inelutável do povo brasileiro” e completa afirmando que “sem povo, não haveria revolução”, mas um golpe.

Todavia, o povo estava ao lado de Jango, como mostram pesquisas do Ibope realizadas na época. O presidente deposto tinha, de fato, índices melhores de aprovação popular do que Dilma Roussef tem nas pesquisas realizadas hoje. Marinho e o redator do editorial provavelmente não estão falando do povo em geral, é claro, mas da elite reacionária que foi às ruas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Seria mais ou menos como dar um golpe, hoje, em nome do Movimento Cansei!.

O editorial reivindica um raciocínio histórico, mas falha em apresentar uma contextualização adequada do “povo” a respeito do qual Marinho e os generais estão falando, quando defendem o golpe. Assim, o leitor fica com a impressão de que a cobertura do próprio O Globo, na época, foi equilibrada e imparcial, dando voz a todos os atores sociais. O apoio ao golpe teria sido apenas um momento de ingenuidade de Roberto Marinho, que confiou nas promessas de generais golpistas e foi traído. Pobre velhinho!

O editorial segue na tese da ingenuidade, com o parágrafo a seguir:

Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares.

Infelizmente, os editorialistas não explicam exatamente como apoiar a deposição de um presidente eleito pelo povo, com voto direto, é estar “ao lado da legalidade”. Mesmo partindo da premissa de que Jango fosse impopular e estivesse tomando medidas extremas, é preciso admitir que seu governo não carecia de legalidade, como sabia Leonel Brizola. Ilegais foram as atitudes dos militares e do Congresso. Os primeiros tentaram vetar a posse do vice-presidente após a renúncia de Jânio Quadros. Os deputados impuseram a adoção de um regime parlamentarista como condições para a posse do vice-presidente legítimo. O presidencialismo foi retomado por voto popular, através de um plebiscito.

A ilegalidade da qual se acusava Jango era a de ter modificado a forma de indenização dos donos de terras desapropriadas por decreto, porque essa mudança não fora aprovada pelo Congresso. Nem mesmo em 1964 isso seria estopim suficiente para um golpe. O motivo verdadeiro, como se pode depreender do próprio material de O Globo, era a aproximação de Jango com as camadas populares, em detrimento da elite. Os golpistas levantaram o fantasma de um possível golpe comunista para justificar… Um golpe reacionário!

Em suma, não existe lógica em se afirmar que Roberto Marinho era um amante da legalidade. O editorial, portanto, está equivocado neste ponto.

Finalmente, o texto lembra a anedota sobre o abrigo que Roberto Marinho dava a comunistas — na visão da junta militar — na redação de O Globo:

Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO. São muitos e conhecidos os depoimentos que dão conta de que ele fazia questão de acompanhar funcionários de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos “comunistas” que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora.

É interessante o fato de os próprios editorialistas contemporâneos terem usado aspas para se referir ao suposto comunismo dos jornalistas perseguidos pelo regime militar. O mais provável é que fossem apenas simpatizantes da esquerda, ou mesmo legalistas descontentes com o golpe militar apoiado por seu patrão. O parágrafo também permite depreender que a repressão nem mesmo sabia quais repórteres eram de esquerda, pois, caso contrário, Roberto Marinho não precisaria se negar “de maneira desafiadora” a fornecer uma lista dos mesmos.

O patriarca global não era burro. Pode-se imaginar que soubesse diferenciar um comunista de um simpatizante da esquerda comum. Também se pode imaginar que não podia simplesmente dispensar bons funcionários, ou criar na redação de O Globo um clima de perseguição, arriscando levar repórteres a se demitirem. Talvez Roberto Marinho estivesse defendendo seu negócio, não seus comunistas. Enfim, trata-se, aqui, de meras especulações. Talvez ele tenha realmente abrigado comunistas por altruísmo.

Mesmo sendo o caso, porém, é preciso lembrar que a decisão de apoiar o golpe causou a tortura e a morte de muitos jornalistas em todo o Brasil, que não podiam contar com o apadrinhamento do patriarca da Globo. Numa visão mais ampla, a defesa de um punhado de jornalistas foi uma gota d’água num oceano de abusos desencadeados pela posição do jornal. Roberto Marinho não deve, então, ser lembrado pelos comunistas que protegeu, mas por todos aqueles que ajudou, por cumplicidade com o regime, a matar e torturar.

A única afirmação correta no editorial inteiro vem na última frase: “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.” Infelizmente, após um festival de autocondescendência, fica a impressão de que o recado do editorial é o sintetizado pelo @hmilen: “Erramos, mas faríamos tudo de novo, porque estávamos certos.”

Em resumo, trata-se de uma autocrítica, mas sem nenhuma radicalidade, o que não deveria ser surpresa para ninguém. Não se pode esperar de uma organização como a Globo que investigue sua própria posição no mundo. Eu, todavia, posso fazê-lo, e é o que farei a seguir.

A Globo, na verdade, assim como todas as outras grandes empresas de comunicação do país, não tinham alternativa a não ser apoiar o golpe de 1964. Fazê-lo seria abdicar da própria existência. Para compreender essa afirmação, é preciso entender, primeiro, que as organizações jornalísticas, em nossa sociedade, não têm como função principal produzir notícias, mas, sim, vender anúncios nos espaços em branco entre essas notícias, ou nos intervalos comerciais. O jornalismo é praticamente uma externalidade positiva do processo de venda de audiência para agências de publicidade.

Durante o século XX, houve um esforço de profissionalização do jornalismo, cuja meta era evitar uma interferência excessiva do setor comercial sobre o setor editorial das organizações jornalísticas. Costuma-se chamar a esse esquema de “separação entre igreja e Estado”, nas redações. Em algumas empresas, o setor editorial é mais independente — essas costumam ser os jornais de referência –, noutras, o setor comercial tem maior capacidade de decisão sobre o noticiário. Porém, todas as empresas têm como objetivo principal a sua própria sobrevivência, isto é, a acumulação de capital. No momento em que essa sobrevivência é ameaçada, os princípios éticos e as normas deontológicas do jornalismo passam a valer tanto quanto um cartão de crédito no Planeta dos Macacos.

Poucas situações são mais perigosas para uma organização jornalística do que a crise causada por um golpe militar. Governantes com poderes discricionários e um exército para fazer valer seus decretos costumam simplesmente empastelar redações e fechar empresas. Que o diga Samuel Wainer, exilado pela ditadura, cujo Última Hora, favorável a Jango, foi deixado à míngua pelo governo militar e acabou vendido ao atual Grupo Folha da Manhã — em Porto Alegre, foi comprado pela família Sirotsky e se tornou Zero Hora. Assim, Roberto Marinho e outros proprietários de empresas de mídia tinham razões bastante fortes para temer o governo e prestar apoio ou, pelo menos, arrefecer críticas, mesmo se não compartilhassem — o que não era o caso — do ideário dos militares e elite golpistas.

Para além do temor a possíveis represálias da junta militar, havia a coincidência de ideologia entre os proprietários dos meios de comunicação de massa e a junta militar. Ambos faziam parte da elite patrimonialista brasileira, a quem as políticas trabalhistas de Jango ameaçavam. As empresas, no sistema capitalista, dependem da extração de mais-valia do trabalho de seus funcionários, isto é, simplificando, da diferença entre o tempo de produção de um determinado bem e do valor efetivamente pago ao trabalhador. Noutras palavras, os capitalistas vivem de roubar tempo de vida dos operários e vendê-lo aos consumidores. Assim, políticas que garantam melhores condições ou salários maiores aos trabalhadores, como as implementadas por Jango, são uma ameaça radical ao capitalismo.

Também deste ponto de vista, não haveria a menor chance de as Organizações Globo ou suas concorrentes apoiarem o presidente legítimo em detrimento dos golpistas. Não apenas a família Marinho estaria, neste caso, colocando em risco suas empresas, como estaria colocando em risco sua posição como capitalistas, como proprietários. O problema, entretanto, é a desproporcionalidade da reação. Em lugar de apoiar um compromisso da sociedade, através do qual as demandas da elite patrimonialista e dos trabalhadores pudessem ser equilibradas num meio-termo, a Globo preferiu apostar na manutenção do capitalismo selvagem no Brasil.

O debate a ser levantando, portanto, é até que ponto uma empresa jornalística deve ser considerada uma empresa como outra qualquer. Ao contrário de outras atividades, a comunicação de massa tem caráter formador, ou seja, não apenas reproduz um modo de organização social, mas também é um dos principais agentes de introdução de novos elementos no sistema. Estes elementos podem ser progressistas ou reacionários, podem favorecer a democracia, ou podem favorecer o capital. No Brasil, as grandes corporações jornalísticas têm sistematicamente falhado em defender a democracia contra o capital.

Não é que o jornalismo brasileiro seja ruim. Embora não se produza aqui o melhor noticiário do mundo, tampouco se pode tachar nossa imprensa de puramente áulica ou golpista. Expressões como “PIG” e “mídia golpista” são infantilidade e típicas de uma visão pouco sofisticada dos processos sociais. Em primeiro lugar, as organizações jornalísticas comerciais não são monolíticas, mas compostas por repórteres e outros funcionários com ideologias diversas, que competem entre si nas reuniões de pauta e políticas editoriais. Não se pode suprimir completamente essa disputa, sob pena de alienar bons jornalistas, essenciais para a produção de “furos” e reportagens investigativas que vão compor o maior ativo de qualquer jornal, revista ou emissora: a credibilidade. O funcionário competente é aquele que trabalha para si, não para a empresa. A consequência disso é que o funcionário só aceita trabalhar para uma determinada empresa enquanto seus interesses convergirem, ao menos na maior parte.

Nosso jornalismo é, assim, muito bom em fiscalizar desvios de verbas públicas, crimes eleitorais, atentados ao direito do consumidor, destruição do meio ambiente e, eventualmente, até mesmo em devassar a corrupção de um presidente e causar seu impeachment dentro dos parâmetros legais. Todavia, nada disso questiona o sistema em si e, por isso, é tolerado pelos proprietários da mídia e por outros capitalistas. Por um lado, essa fiscalização aumenta a eficiência do sistema, ao eliminar pontos de corrupção que emperram inclusive a vida dos próprios empresários. Por outro lado, causa a impressão de que os problemas são pontuais, limitando-se a algumas maçãs ruins no cesto, e não sistêmicos. Pode-se fazer bom jornalismo no Brasil, desde que a crítica não passe do limite do solo e atinja as raízes.

Daí a importância de se discutir a regulamentação da mídia no país. As empresas de comunicação, especialmente as concessionárias de faixas de rádio e televisão, têm seus negócios assentados sobre bens públicos. Jornais e revistas não são arrendatários de espectro eletromagnético, mas recebem subsídios e grande parte de sua receita vem de publicidade estatal. Portanto, ao fim e ao cabo, a sociedade é quem paga pela boa saúde desses negócios, que em contrapartida atendem, hoje, a muito poucas obrigações jurídicas.

Há duas saídas, não necessariamente excludentes entre si. A primeira seria aprimorar a regulamentação da mídia no Brasil, em especial a radiofusão, tendo em vista que as empresas são beneficiárias de recursos públicos, de modo a garantir sua colaboração na manutenção e aprimoramento da democracia.

A segunda seria incentivar ou criar empresas de comunicação sem fins lucrativos, independentes, tanto com recursos públicos, quanto privados. Essas empresas públicas ou beneficientes não precisam necessariamente competir com a mídia tradiconal, mas poderiam ajudar a preencher as lacunas na cobertura noticiosa e a fazer uma crítica social mais radical. O governo poderia investir diretamente ou através de publicidade em veículos como a Agência Pública, InfoAmazonia, Brasil de Fato, Repórter Brasil e outros, não apenas, como tem feito, em veículos ligados a partidos de esquerda, como Carta Maior e Sul 21, além dos falsamente jornalísticos “blogs progressistas” — meros instrumentos de propaganda do Partido dos Trabalhadores. Poderia haver, inclusive, incentivos ao cidadão e empresa que apoiasse projetos de jornalismo independente e comunitário, como há para quem destina parte dos impostos a projetos culturais e esportivos.

E, claro, os cidadãos precisam reconhecer a importância do jornalismo para a manutenção e avanço da democracia no Brasil e financiar esses projetos diretamente.

Algumas leituras a respeito desse debate, a partir das quais construí meu ponto de vista:

Digital disconnect, de Robert McChesney

Sociology of news, de Michael Schudson

Democracy and the news, de Herbert Gans

Sobre a televisão, de Pierre Bourdieu

Quando nerds e palavras se confrontam

Em razão de minha pesquisa de doutorado, venho buscando, há meses, uma cópia do livreto When nerds and words collide: reflections on the development of Computer-Assisted Reporting, organizado por Nora Paul e publicado pelo instituto Poynter em 1999. A tarefa se mostrou inglória, até que um contato com a própria Nora Paul a levou a pedir ao Poynter Institute uma autorização para digitalizar o material. A obra pode ser distribuída livremente, mas os direitos autorais permanecem restritos e qualquer outro tipo de uso deve ser autorizado pela instituição.

O livreto traz relatos de diversos jornalistas envolvidos com Reportagem Assistida por Computador nos anos 1990. Tem grande valor histórico e acadêmico para os pesquisadores da área. Bom proveito!

When Nerds and Words Collide by Marcelo Träsel

Sistema de brainstorming para o jornalismo digital

Recentemente, adaptei para uso nas aulas da especialização em Jornalismo Digital da PUCRS o sistema de brainstorming proposto no artigo Cultivating the Landscape of Innovation in Computational Journalism, do pesquisador e consultor norte-americano Nicholas Diakopoulos. O jogo proposto por Diakopoulos foi aplicado pela primeira vez no Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism, um núcleo de pesquisas na City University de Nova York (CUNY).

Diakopoulos propõe que o brainstorm seja realizado da seguinte maneira: em grupos, estudantes ou profissionais puxam cartas de dois baralhos diferentes. Um deles traz os conceitos e tecnologias da computação, o outro traz conceitos ligados ao jornalismo, num total de 28 cartas em cada uma dessas duas categorias. A seguir, cada grupo tem cinco minutos para pensar em ao menos um produto que combine uma tecnologia computacional com um uso, ideal ou prática do jornalismo. Deve-se realizar diversas rodadas em sequência, de modo a reunir o maior número de ideias possível.

O objetivo é tornar evidente como o potencial da informática é mal aproveitado no jornalismo e abrir os olhos para as possibilidades de empreendimento e inovação na área.

Como os baralhos não estão disponíveis em português, uma alternativa é usar um dado de 28 lados (D28) para este exercício. Como dados D28 são pouco comuns, adaptei um script que simula jogadas. Para realizar o brainstorm, cada grupo deve recarregar a página, anotar o primeiro resultado, recarregar novamente a página e anotar o segundo resultado. Depois, basta encontrar o primeiro número na lista de conceitos e tecnologias da computação e o segundo número na lista de conceitos e objetivos do jornalismo. As listas, com tradução minha, estão disponíveis aqui. Caso vá imprimi-las, é melhor separar cada lista em folhas diferentes.

Por exemplo, se o script for acionado duas vezes, resultando nos números 12 e 23, respectivamente, o grupo deverá pensar num produto que combine “realidade aumentada” e “adaptabilidade”. Após a rodada, cada grupo expõe aos colegas suas propostas e a turma discute sua validade.

É recomendável apresentar e explicar todos os conceitos de ambas as listas à turma antes de iniciar o brainstorm.

Curso online gratuito sobre jornalismo digital e interesse público

Estão abertas as inscrições para o curso Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público, oferecido pelo International Center For Journalists e do qual sou instrutor, junto o repórter especializado em transparência pública Fabiano Angélico.

O curso é gratuito, a distância e voltado a jornalistas e ativistas comprometidos com questões sociais. Fui aluno deste curso em 2012 e posso dizer que é muito produtivo — e, espero, se mantenha assim com a minha contribuição.

Segue o release:

Data limite para inscrições: 10 de maio de 2013 (Clique aqui para se inscrever)

Curso: 27 de maio a 28 de junho de 2013

O International Center for Journalists (ICFJ) está oferecendo um programa de treinamento de cinco semanas para 35 jornalistas brasileiros, patrocinado pela AT&T: “Ferramentas digitais para o jornalismo de interesse público”. O curso é focado no desenvolvimento de projetos multimídia sobre temas relacionados às principais dificuldades enfrentadas por comunidades pobres, como saneamento básico, educação, saúde pública e desastres naturais.

A versão brasileira do curso, ministrada em português, será dirigida por Fabiano Angélico, jornalista especializado em transparência pública, e por Marcelo Träsel, professor de Jornalismo Digital na PUCRS. Os participantes vão aprender sobre a importância das ferramentas digitais e mídias móveis, para fornecer informação de qualidade e respeitando princípios eticos em suas atividades diárias. O objetivo é a aquisição de habilidades permanentes em narrativas multimídia, que os auxiliarão em seu futuro trabalho jornalístico. Além disso, espera-se que muitos dos projetos e relatórios criados pelos participantes como atividades do currículo se tornem duradouros.

Algumas das técnicas a ser apresentadas aos participantes são o refinamento de buscas, o uso de mapas para descobrir informação, preparação de fotografias e vídeos para publicação na Web e criação de weblogs. O currículo é estruturado para encorajar os alunos a desenvolver um projeto multimídia capaz de causar um impacto positivo em sua comunidade. O curso também vai ensinar melhores práticas de uso de habilidades multimídia e plataformas durante coberturas jornalísticas.

Currículo

Semana 1: Jornalismo de interesse público
Semana 2: Internet – Uma ferramenta de serviço público
Semana 3: Ferramentas digitais
Semana 4: Como tornar seu projeto viável
Semana 5: Discussão de projetos em jornalismo de interesse público

Durante as duas últimas semanas do curso, os participantes serão convidados a propor um projeto voltado ao jornalismo de interesse público. Os ministrantes vão colaborar na definição do foco dos projetos e ajudar a definir metas e resultados concretos, assim como indicar as ferramentas digitais mais adequadas a cada projeto.

Os coordenadores vão selecionar até 15 dos participantes que apresentarem as melhores propostas e acompanhá-los em seu desenvolvimento por um mês após o término do curso. Seu papel será oferecer sugestões, críticas e encorajamento.

Em caso de dúvidas, entre em contato pelo email brasil@icfj.org. Para se inscrever, clique aqui.

Indústria dos jornais perde oportunidade com o Vale-Cultura

Nas últimas semanas, a indústria e os consumidores de jogos eletrônicos se mobilizaram para que essa categoria de bens culturais seja incorporada na portaria do Vale-Cultura, a ser publicada a qualquer momento pelo Ministério da Cultura. A ministra Marta Suplicy está completamente equivocada ao desconsiderar os jogos eletrônicos como produtos culturais — é uma proposição tão absurda para quem tem um mínimo de familiaridade com videogames, que faz o sujeito se perguntar como a assessoria da ministra pôde babar na gravata nessa escala diluviana. Sobretudo quando Marta Suplicy já havia até considerado “revistas porcaria” como cultura.

Há uma outra categoria de bens culturais, entretanto, cuja ausência nos pronunciamentos do Minc e nos editoriais e notícias da imprensa sobre o Vale-Cultura é tão escandalosa que chega a fazer os olhos doerem: jornais diários. É bizarro que um setor em luta pela sobrevivência, como o dos jornais impressos, não esteja tentando arrancar com unhas e dentes um quinhão dos mais de R$ 10 bilhões estimados para despejo pelo governo na indústria cultural. Não me lembro de ter lido um editorial levantando essa possibilidade, nem mesmo uma linha no pé de uma notícia sobre essa lacuna. Será possível que nenhum executivo de jornal se deu conta de pedir à ministra a inclusão de assinaturas de diários impressos na portaria do Vale-Cultura? Nenhum jornalista pensou em defender seu emprego lançando a idéia para o debate público? Está todo mundo comendo mosca?

Nos círculos acadêmicos de Comunicação Social, do qual posso falar com maior propriedade, tampouco algum pesquisador se lembrou de fazer cobranças a respeito da inclusão das assinaturas de jornais como uma possibilidade para o trabalhador investir seu benefício.

É uma oportunidade de ouro para garantir sobrevida às redações e ainda atender ao interesse público, agregando as camadas de menor renda da população ao espaço privilegiado de mediação política composto pelos jornais. Além disso, atenderia ao interesse do público, pois um dos primeiros investimentos realizados por famílias em ascenção das classes D e E para a classe C é a assinatura de jornais. Os pais de classe média tendem a considerar o consumo de notícias uma vantagem na educação dos filhos, de modo que esse grupo social tem sido um dos grandes responsáveis por um aumento da circulação de jornais impressos nos países em desenvolvimento até 2010.

Além disso, Marta Suplicy já anunciou o uso do Vale-Cultura para comprar assinaturas de TV. Conforme as colunas de fofocas sobre política, a razão para isso foi uma pressão para não deixar as operadoras de TV por assinatura de fora dessa festa — embora não se diga de onde partiu a pressão, se das empresas, ou de dentro do próprio governo federal. Onde está o lobby da Associação Nacional de Jornais? O lobby da Federação Nacional de Jornalistas? A pressão editorial da Folha de São Paulo, Estadão, Globo?

A Lei 12.761 de 2012, em seu artigo segundo, parece incluir o jornalismo entre as áreas culturais, no inciso IV:

§ 2o Consideram-se áreas culturais para fins do disposto nos incisos I e II do § 1o:

I – artes visuais;

II – artes cênicas;

III – audiovisual;

IV – literatura, humanidades e informação;

V – música; e

VI – patrimônio cultural.

Portanto, ainda é possível convencer o Minc e o Planalto a incluírem assinaturas de jornais impressos ou digitais entre os produtos nos quais os beneficiários podem gastar seu Vale-Cultura. Com os R$ 50 previstos, pode-se tranquilamente adquirir uma assinatura de jornal, digital ou impresso, e ainda contar com uma pequena sobra. Seria bom para todo mundo.