Como fazer dinheiro com webjornalismo

Ninguém sabe. Ao menos, é a conclusão a ser tirada pela leitura da melhor reportagem até o momento sobre o mercado de jornalismo atual e futuro, produzida por El País da Espanha. De Clay Shirky a Rupert Murdoch, a opinião de todos os grandes pensadores e empresários foi incluída. Algumas considerações:

  • Engraçado ver proprietários de jornais acusando as ferramentas de busca e outros serviços de distribuição de informação de “roubo” de conteúdo por fornecerem links com manchetes e uma ou duas linhas de texto. A única maneira de compreender essas declarações é como manifestações políticas para tentar forçar os agregadores de conteúdo, empresas de telefonia e provedores de hospedagem a darem uma esmolinha aos jornais. Só isso explica a falha em perceber que sem esses serviços, as versões digitais dos jornais teriam zero leitores. Felizmente, é um dos poucos problemas para o qual existe uma solução muito fácil: deixem de publicar seu conteúdo na Web.
  • O futuro das redações provavelmente passa pela substituição da maioria dos repórteres por free-lancers recebendo por matéria publicada, modelo do qual o coreano Ohmynews foi pioneiro. As redações serão enxutas e formadas por editores, cuja principal tarefa será gerenciar o fluxo de informações vindas dos quatro cantos do mundo, organizar a edição impressa e as capas da edição digital do jornal. Isso traz grandes oportunidades para repórteres fuçadores e com boa imaginação para pautas, ou ainda para aqueles vivendo fora do país, que poderão trabalhar como correspondentes estrangeiros. Reportagem sob demanda, inclusive integrando os amadores às rotinas produtivas de maneira mais profunda.
  • A informação publicada nos jornais se tornará menos confiável. É muito mais difícil para um editor verificar a honestidade de um repórter escrevendo de Katmandu, com o qual mantém contato apenas via Internet, do que o caráter de um colega com quem trabalha todos os dias da semana. Em compensação, a Internet permite verificar os dados e fatos divulgados em uma notícia com maior facilidade. Ou seja, o senso crítico será uma habilidade essencial para o cidadão das próximas décadas. E bons editores serão profissionais cada vez mais valorizados.
  • Por outro lado, um artigo da revista americana The Atlantic, dica do Leandro Sarmatz, mostra um caminho possível para o webjornalismo: investir mais no enquadramento da informação disponível para públicos específicos do que na produção de notícias tentando agradar a todos, como faz a The Economist. Michael Hirschorn vê na interpretação do mundo para uma comunidade bem definida um caminho para manter audiências ao menos razoáveis. O autor traça um paralelo da revista britânica com blogs que faz sentido: nem sempre a redação da revista produz informação inédita e muitas vezes deixa a imparcialidade em segundo plano, mas seus redatores são excelentes em costurar todas as notícias e reportagens de uma edição num retrato compreensível do mundo para a audiência de centro-direita liberal. A aproximação com o formato dos blogs pode ser um elemento para angariar leitores — o problema é vendê-los aos anunciantes depois. (Item acrescentado às 22:30 de 8 de julho.)
  • Cedo ou tarde, alguém vai descobrir como gerar lucro a partir da publicação de conteúdo na Web. Os empresários têm razão quando estranham o fato de a Internet ser a mídia que mais cresce e mais prende a audiência, mas cujo resultado em receitas de publicidade é o pior. O problema parece ser a falta de imaginação dos empresários e publicitários. O UOL publicou um informativo recentemente, no qual expõe dados e mais dados estatísticos com o objetivo de incentivar o investimento em publicidade na Internet. São números realmente entusiasmantes, mas ao final do prospecto, quais são as soluções oferecidas pelo UOL? Banners, anúncios em vídeo, anúncios contextuais ou presença em comparadores de preço. Todos metáforas digitais de publicidade em mídias antigas: impressos, comerciais de televisão, classificados, páginas amarelas. Criatividade zero. É inevitável o aumento da participação da Internet nos orçamentos de propaganda, mas é bastante duvidoso que os clientes destinem suas verbas para esse tipo de anúncios anacrônicos.

5 ideias sobre “Como fazer dinheiro com webjornalismo

  1. Pingback: dois ouvidos » Blog Archive » Mais sobre o futuro do jornalismo

  2. Pingback: Jornalismo testa os limites do uso justo | träsel/blog

  3. Pingback: Jornalismo testa os limites do uso justo « Verdes Trigos

  4. Pingback: Dicas de 10.7.2009 a 12.7.2009 | Livros e afins

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *