Dançando no limite do bom gosto

Nos últimos dias, a matéria Homem que esfaqueou três em mercado de SP foi contido meia hora após ataque, assinada por Afonso Benites e publicada na Folha de São Paulo, vem causando a indignação de muitos leitores. O motivo é o trecho a seguir:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90).

Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

Os ofendidos pelo texto de Benites reclamam do “merchandising” ou “anúncios” em meio à história de um assassinato — por meio de outras palavras, acusam a Folha de tentar vender produtos se aproveitando da morte de um cidadão inocente.

Lamento, mas confundir a citação a produtos neste texto com publicidade é caso de extrema má-vontade ou de analfabetismo funcional. (Dica aos mais afoitos: publicidade só acontece quando alguém recebe dinheiro ou vantagens para publicar alguma coisa.)

A citação a produtos neste caso é apenas um elemento narrativo que visa dar maior vivacidade ao texto e ajudar o leitor a criar uma imagem mais clara do cenário onde o crime ocorreu. Ao ler o trecho, também estranhei, mas entendi a referência a informações banais sobre os produtos como um artifício que, em contraste com a gravidade da situação, acaba evidenciando a banalidade da violência no Brasil.

As frases “Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.” oferecem um subtexto importante, em conjunto com o “meia hora após ataque” do título: nenhum cidadão presente tomou qualquer atitude para evitar as agressões. Poderiam, sei lá, ter juntado 20 pessoas, ido até o setor de limpeza para se armar com vassouras e contido o assassino à força. Fica implícita uma crítica à atual falta de senso de comunidade e responsabilidade pelo bem-estar do próximo.

É uma boa peça narrativa e uma reportagem inteligente no sentido de inserir crítica social sem explicitar uma opinião. Mostra, em vez de dizer. Um jornalista com essa habilidade é coisa rara no mercado.

Os motivos pelos quais a matéria merece ser criticada são outros e estão apenas tangencialmente ligados à questão da citação aos produtos.

A meu ver, o problema é a espetacularização do assassinato, do crime. Nada de novo aí. A imprensa brasileira sempre gastou muita tinta para transformar bandidos em personagens, sem demonstrar a menor sensibilidade quanto às vítimas ou suas famílias, obrigadas a ver seus algozes como protagonistas de romances detetivescos — inclusive, parece haver uma relação direta entre abjeção do crime e a qualidade do texto do repórter destacado para cobri-lo.

Um amigo que trabalhou em jornais populares do Rio de Janeiro nos anos 1980 e 1990 sempre conta como os traficantes se tornaram mais violentos quando perceberam que, com isso, ganhavam as capas dos jornais. Assim como aparecer no jornal como fonte é sinal de relevância para um médico ou empresário, é sinal de relevância para um bandido, frente a seus pares e comunidade. Estar na mídia indica poder.

O espaço destinado às histórias policiais é muito maior do que a importância dos fatos a partir dos quais foram produzidas. Os crimes são muito menos comuns do que um leitor de jornais poderia supor analisando a quantidade de páginas gastas para relatá-los. Salvo por uma ou outra matéria de utilidade pública, conhecer os detalhes de crimes não traz benefício algum ao cidadão — exceto, talvez, saciar alguma pulsão sadomasoquista.

A narrativa de Benites torna a história do assassinato no supermercado muito mais chocante do que pareceria num texto burocrático, como estamos acostumados a ler. A espetacularização da criminalidade ficou muito mais evidente neste caso e talvez tenha sido esse o fator que causou tanta indignação. As pessoas ofendidas pelas referências ao modelo das facas e à promoção do supermercado podem estar ofendidas, na verdade, com o fato de a Folha estar ganhando audiência e, portanto, dinheiro com o sangue alheio. Essa é uma indignação que faz sentido.

A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários. No caso de permaneceram, seria de bom tom procurar não dramatizá-las, apresentando as informações da maneira mais burocrática possível ao público. Essa, porém, é a uma decisão comercial dos executivos das empresas jornalísticas. Sangue dá audiência e audiência dá lucro. Como cidadãos, o que podemos fazer é deixar de ler essas matérias e apontar nossa repulsa sempre que houver oportunidade.

Benites é um funcionário e foi ordenado por seu chefe a relatar o crime no supermercado. Tomou a decisão de fazer isso com toda competência. Poderia ter pensado nas famílias das vítimas ou no impacto social de seu trabalho e escrito um texto menos sensacional? É claro que poderia. O repórter inseriu publicidade em uma história de provável grande audiência? É óbvio que não. O que aconteceu, então? Acho que Benites foi apenas uma peça mais eficiente do que o normal no sistema da mídia. Devemos condená-lo? Sei lá.

31 ideias sobre “Dançando no limite do bom gosto

  1. Vasconcelos

    análise coerente e interessante sobre o caso… digno de uma boa aula nas universidades de jornalismo…

  2. Fabrina

    Está tudo aí. Já trabalhei com o Afonso Benites e ele sempre foi um profissional competente. Um bom companheiro de redação numa época em que elas estão abarrotadas de gente mesquinha com o leitor. Mas o assustador mesmo é que numa época em que temos tantos suportes para falar, uma iniciativa que fuja do lugar comum seja tão mal vista. É preciso elevar o nível do debate. Sair do nível “programa vespertino”.

  3. barata

    Publicidade é quando o anuncio é feito sem pagamento, propaganda que é paga. Nesse caso o sr. que foi afoito.

  4. Ramiro Furquim

    Tchêche…

    Tu sabe que vi algumas condenações ao texto, na minha timeline.
    Quando acessei a notícia, achei que ía ver um daqueles destaques: estrelas amarelas, o produto dentro, mais valor e a assinatura Tramontina.

    De vereda fechei a aba.
    Não tinha nada do que imaginei.
    Nem retruquei… Achei nada demais…

    Mas de fato, o texto tem uma estranheza.
    E tua análise é bem boa…

    Abraço,

  5. Ramiro Furquim

    “Publicidade é quando o anuncio é feito sem pagamento, propaganda que é paga.” – Como é que é, barata?! Num tendi… iuahIUha

  6. Iuri

    Seu texto elucidou bastante as intenções do repórter e do jornal, que foram confundidas com publicidade por grande parte dos críticos. Parabéns pela análise muito bem escrita. Porém, apenas discordo desta desresponsabilização do profissional jornalista, como se ele não fosse um ser consciente nestas tomadas de decisões que levaram à publicação do texto. Antes de qualquer filtro externo, há sempre a consciência de quem age. O jornalista nunca é “apenas uma peça”. Se ele vir a se tornar uma, então chame-o de qualquer coisa, mas não de jornalista.

    Existem, sim, os recursos narrativos que dão maior vivacidade ao texto… mas simplesmente “fugir do óbvio” não significa necessariamente “estilo de redação elaborado” ou eficiência. Lembrando que o grotesco e o pitoresco também chamam muito a atenção do leitor.

  7. Pingback: a morte no jornal e o jornalismo ferido « monitorando

  8. Capi /. Etheriel

    trasel, se a percepção popular das notas que benites deixou na matéria foram de um tom publicitário, considerando que ele usou de informações de produtos e nomes promocionas (super quarta), talvez tenha escapado aí uma propaganda gratuita…
    sobre o trabalho em si do benites: foi ou não foi a notícia mais veiculada e visitada da edição? falem bem, falem mal, o importante é o adprint.

  9. Marcelo

    Belas palavtras, Trasel. Também tenho esta opinião sobre as editorias de polícia. Salvo uma ou outra exceção, seu valor social é nulo.

    Grande abraço!

  10. Pingback: A morte no jornal e o jornalismo ferido « objETHOS

  11. Vdub

    Apenas como comentário extra e aleatório (aka: sem motivação ou vontade de alterar a sua opinião): para mim o texto original foi escrito totalmente sem esse senso de narrativa que você descreve; Os detalhes poderiam ser outros, tais como a qualidade das frutas (“no corredor, todas as frutas estavam em ótimo estado de conversação”); Dar detalhes de marcas, preços e “Quarta do Desconto” é totalmente sem nexo, a não ser que o nexo nessa questão seja somente a declaração de um ótimo local para se fazer compras e economizar caso o corpo não lhe incomode. :)

  12. anerio

    Você pode falar o que for, não vai mudar a impressão que todo mundo teve ao ler isso. Pode verbalizar, dar nome à vontade, a impressão negativa criada será mantida, o autor utilizou elementos que tem tudo para causar a controvérsia que causaram, não serão detalhes técnicos que mudarão isso. Os trechos polemicos não acrescentam nada, poderiam ser mais genéricos e causar o mesmo efeito, porém, sem a polêmica. Então nao me venha com esse papo furado de jornalista/publicitario/comunicador.

  13. Gustavo Gitti

    Fala Marcelo!

    Cara, se fosse um espaço com um contexto mais reflexivo, eu até concordaria. Leria com outros olhos. Mas a matéria é apresentada em tom informativo apenas, com qualquer outra notícia.

    Então é realmente ESTRANHO (não digo por acharmos que é publicidade, mas por ficar sem sentido) ver algo assim.

    Se a abordagem narrativa dele tivesse funcionado, ela não daria brechas para ironias desse tipo: http://papodehomem.com.br/tres-esfaqueados-uma-morte-quer-saber-a-marca-e-o-preco-da-faca/

    Fora isso, concordo contigo em relação ao resto do texto.

    Abração!

  14. Rodrigo Seccon

    “Devemos condená-lo? Sei lá”

    Träsel,

    se Benites tomou a decisão por conta própria, ou se a decisão foi do editor, fica evidente de que a narrativa não tem cunho publicitário, pois nenhuma das empresas pagou para anunciar. Existe sim uma crítica social, bem construtiva e sem opinião.

    Não condeno o jornalista por tentar enriquecer, ou contextualizar a informação de uma forma diferente (inusitado, para mim). Entretanto, se a Tramontina e o Extra não pagaram para anunciar, é muito provável que os empresários fiquem descontentes por suas marcas estarem associadas à um assassinato.

  15. Juliana Garcia Sales

    Gostei da análise, Marcelo. Li a matéria com um olhar parecido com o seu, esses elementos – mais a mulher que marcou o horário que passou no caixa pra calcular o tempo que durou a confusão – tornaram a a visão mais clara, e assim, mais aterrorizante.

    O problema é que hoje tudo em comunicação tem que ser politicamente correto, e o público se acostumou com isso. Mussum não poderia pedir “um metro de cachacis” na televisão dos dias de hoje, por exemplo.

    Propaganda da Tramontina?? da Superquarta?? Faça-me um favor… Que marca quer ser associada a um maníaco assassino?

    Belo artigo. Um abraço!

  16. Elisa Viali

    Concordo com o Gustavo: a matéria está fora de contexto. A meu ver, o jornalista não foi “uma peça mais eficiente do que o normal” – ele só está deslocado. Se ele publicasse o mesmo texto na Piauí, por exemplo, todo esse debate não teria acontecido. Isso não significa que os jornais não devem experimentar diferentes formas de contar uma história. Mas alguns recursos funcionam, outros não. Quando o estilo fala mais alto do que o conteúdo, algo se perde. Para mim, foi o caso. Sim, ele quis evidenciar a banalidade do ocorrido. Não, definitivamente não é publicidade (ou propaganda, marketing e suas variantes). No entanto, o texto chamou mais a atenção pelo uso de informações de preços e descontos do que pelo crime em si. Identifico dois erros principais: 1) o meio não se presta a esse tipo de abordagem e 2) o assunto não se presta a esse tipo de abordagem (sério, o criminoso sofre de esquizofrenia e teve um surto psicótico – trata-se de um caso isolado e infeliz, não de um retrato da violência no Brasil). Ou seja, se o jornalista tivesse publicado a matéria em outro veículo e sobre outro crime (por exemplo, se um criminoso “são” tivesse usado uma faca de R$59,00 para roubar R$10,00 de alguém – o que já deve ter acontecido por aí – a ênfase na banalidade do ato talvez funcionasse), aí sim teria sido eficiente.

    De qualquer forma, valeu pelo debate. A lista de emails do pós está fervendo. ;)

  17. Pingback: Três esfaqueados e uma morte… Quer saber a marca e o preço da faca? | Papo de Homem – Lifestyle Magazine

  18. Träsel Autor do post

    ANERIO: Conseguir mudar a impressão de todo mundo sobre qualquer coisa é o meu sonho. Infelizmente, não consigo mudar nem minha própria impressão sobre a maioria das coisas. Mas todo mundo está dando opinião sobre essa matéria, então eu resolvi dar a minha também, tão boa quanto qualquer outra. No mais, só posso concordar com você quando diz que a notícia poderia ter sido redigida de outra forma e evitar a polêmica. De fato, arriscaria dizer que esse é o argumento principal da segunda parte do meu texto.

    GUSTAVO: Não estou defendendo as escolhas do repórter, pelo contrário: no lugar dele, teria sido mais sóbrio, até para poupar a família do assassinado. Achei que isso tinha ficado claro. O objetivo era apenas apontar que a maioria das críticas foi mal-direcionada para um merchandising inexistente.

    ELISA: É isso mesmo. O ponto 2 do seu comentário é exatamente o meu ponto de vista. :-)

  19. Träsel Autor do post

    ATUALIZAÇÃO: Incidentalmente, fiquei sabendo por terceiros que o repórter não foi enviado para cobrir a pauta: ele estava fazendo compras no momento do crime e testemunhou tudo.

    Talvez isso explique a falta de sobriedade da narrativa. É bem diferente presenciar algo desse tipo e ouvir as testemunhas para montar um texto depois. Difícil o impacto emocional não vazar para a notícia. Por outro lado, dá ao repórter autoridade para tentar transmitir uma sensação, em vez de se ater aos fatos.

    Fica a questão: o fato de o repórter estar entre as vítimas dessa violência (sim, todos que tiveram de presenciar a carnificina são também vítimas) justifica as escolhas narrativas e a polêmica? Ou no momento em que ele decidiu cobrir o acontecimento deixou de ser vítima e deveria se tornar um observador mais neutro?

  20. Celso Falconi Aguiar

    Parece que serei o único a discordar. Quando se escreve algo sobre um fato deve-se ter em conta a diversidade dos leitores e as várias nuances de interpretação e o respeito às diversidades. Os conceitos conforme descritos por respeitosos participantes é uma visão acadêmica, mas os escrtitos na maioria não atingem o esperado devido estas mesmas teorias. Abraços e parabéns pelo blog.

  21. Pingback: A viralização da violência | Economia | Acerto de Contas | Economia, Política e Atualidades

  22. Tiago Medina

    Esse tema foi assunto de vários e-mails da pós digital. Esse post, ‘do chefe’, foi bastante citado também.
    Mas, mudança de assunto, parabéns pela nova flor na tua vida.

    Abraço

  23. Leonardo

    Se se trata de um recurso literário, foi incrivelmente mal utilizado. O que mais me espanta no texto não é, na verdade, a possibilidade ou não de uma publicidade durante a notícia, mas como o autor conseguiu escrever algo tão amador – tanto no quesito jornalismo quanto no literatura – e ainda publicá-lo.

  24. Henrique

    Artifício narrativo? Vá empregar mal esse artifício lá longe então. Eu hein. Achei esse argumento de extrema boa vontade =).

  25. Marius

    Continuo achando ridicula a menção desnecessária dessas informações. Poderia ter sido as facas Guinso q cortam até prego! Daria no mesmo. kkkkkkk

  26. Pedro

    O texto simplesmente NÃO cumpriu sua missão, ou pelo menos, cumpriu pela metade. Oras! Estamos discutindo a bobagem que foi o repórter ter adicionado os preços e marcas dos produtos e não sua nova abordagem de noticiar um crime.
    Aquilo não pode ser considerado um estilo diferente de narrar a noticia, pois a desviou totalmente.
    E veja, desviou de tal maneira que estamos aqui comentando sobre isso, e não SÓ sobre as inúmeras mortes que acontecem no dia a dia de uma cidade brasileira.
    Gerou um humor não intencional e totalmente desnecessário devido ao teor da reportagem.
    Portanto, a meu ver, o jornalista quis no minimo, ser excêntrico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *