Elogio da linearidade

A Zero Hora publicou há algumas semanas matéria especial sobre os desafios colocados pelos jovens de hoje para as escolas. Sem grandes novidades: pedagogos reconhecem a defasagem entre o modelo de educação atual e as habilidades desenvolvidas pelas crianças através do uso de computadores, telefones móveis, jogos eletrônicos e outros elementos da cibercultura. Dizem que é preciso mudar a forma de ensinar e um entrevistado, Paulo Al-Assal, vem com aquela arenga de sempre sobre a escola matar a criatividade e tudo o mais.

Os problemas todos são pendurados na conta dos educadores, considerados anacrônicos, mas a meu ver a questão é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, é preciso admitir que, de fato, muitos professores desconhecem as ferramentas de comunicação e entretenimento digitais e passam longe das redes sociais. Em geral esse professor passa a ser desvalorizado, considerado um dinossauro.

Cabe perguntar-se, no entanto: realmente queremos um sistema educacional reconstruído com base na personalidade da nova geração?

A meu ver, a resposta é que devemos fazer adequações no sistema educacional, mas não reinventá-lo completamente. Isso porque o formato de aula do século XIX desenvolve uma habilidade importante e não-inata nos seres humanos: a linearidade. Como diz o pesquisador André Lemos, ser hipertextual é a configuração padrão do ser humano, a linearidade é que exige treino.

E treino duro. Deixada à própria sorte, nossa mente passa de imediato a realizar livre-associações. Os alunos atuais não se dispersam porque a Internet os acostumou a começar uma busca procurando por dados sobre a extensão do Rio Amazonas e terminar tendo frio na espinha ao ler notícias sobre pessoas atacadas pelo candiru. Eles se dispersam porque nossa mente é dispersiva e a Internet é uma reprodução técnica desse caráter hipertextual do pensamento.

Um livro didático oferece poucas chances de dispersão, pois, em geral, é organizado em uma sequência lógica da menor para a maior concentração de conhecimento. As boas e velhas enciclopédias impressas já ofereciam risco mais alto de dispersão, pois ao lado do verbete sobre o Rio Amazonas podiam aparecer ilustrações de guerreiras sensuais montadas a cavalo, ou uma remissão a Manaus, ao Ciclo da Borracha e daí para Deus sabe onde. Ainda assim, a necessidade de folhear ou buscar outro volume na estante dava ao estudante tempo para se dar conta da dispersão e retornar ao trabalho. Na Web, basta um clique e imediatamente se está em uma nova página, com novos links e novos caminhos abertos.

É como o fluxo do pensamento. A mente à solta deriva para todo lado. Saímos correndo atrás da primeira linha raciocínio que aparece, assim como os cachorros correm latindo atrás dos carros passando na rua.

Diversas culturas criaram tecnologias cognitivas para evitar essa dispersão ao longo da história. No Oriente, surgiu a meditação, cujo principal objetivo é justo ensinar a mente a ficar quieta em seu lugar enquanto os carros passam. No Mediterrâneo, surgiu a retórica, com suas técnicas para organizar o discurso de forma linear. Na Europa, o códex deu uma base material à linearidade do pensamento, com a colocação organizada das idéias página após página numerada.

O homem se esforça há milênios para tentar ser linear. A linearidade só perdeu prestígio no século XX, sob ataque das artes e da teoria literária. No momento em que os seres humanos, através da indústria cultural, sobretudo da televisão, passaram a ter  contato diário com diferentes culturas — por mais enquadrado numa determinada visão de mundo que fosse esse contato –, perceberam estar sob o domínio um discurso monolítico, de um imaginário do progresso, e sentiram-se prisioneiros. Veio o Maio de 1968, veio a contracultura americana, veio o punk e diversos outros movimentos de libertação dos discursos. Veio o Pós-modernismo e o elogio da hipertextualidade, da polissemia. Esquecemos o valor da linearidade.

O mundo ficou muito melhor com o fim da repressão dos discursos totalitários, não se pode negar. Há muito mais liberdade hoje do que há um século. Mas convém não jogar o bebê fora com a água do banho. É bom abraçar os avanços proporcionados pelo reconhecimento do caráter hipertextual da mente, mas sem deixar de lado os benefícios da linearidade.

Infelizmente, não há outro espaço social para desenvolver a linearidade que não seja a escola. Portanto, a escola sempre foi e sempre será castradora. Os alunos não têm culpa de se sentirem desconfortáveis com a linearidade das aulas. É mesmo uma violência obrigar-se a focar a atenção por horas a fio todos os dias — e, antes de ser adulto, é difícil enxergar o valor de sacrificar-se em nome de um objetivo. Foucault dizia, não à toa, que a educação é “deixar-se foder pelo social” — o que não significa uma recomendação para deixar a escola por parte do filósofo francês, mas apenas uma provocação para incentivar os espíritos a buscarem autonomia. Os adultos, porém, não têm desculpa, exceto a imaturidade, para não ver os benefícios proporcionados pela escola.

Imaturidade é a chave aqui. A mente imatura detesta a linearidade. É a mente combatida, até certo ponto, pela meditação, e, às últimas consequências, pela filosofia. Pode ser difícil reconhecer o valor do treinamento na linearidade quando passamos a atuar no mundo adulto, mas ele é essencial para a maior parte das situações profissionais. O problema das técnicas cognitivas é que os novos comportamentos se tornam anteriores às ações e, assim, passamos a confundir os padrões de pensamento com nosso próprio eu. Ou seja, quem passou pela escola acredita que sempre foi linear, porque se vê capaz de focalizar a atenção numa tarefa com grande competência. Pelo retrovisor, a escola parece ensinar apenas aquilo que já sabíamos o tempo inteiro.

Nossa cultura vem se tornando cada vez mais imatura. A juventude domina o imaginário social. A medicina luta contra o envelhecimento. A moda faz os adultos parecerem adolescentes. A falta de compromisso é sinônimo de liberdade. Infelizmente, os aspectos mais negativos da juventude parecem ser os mais valorizados. Em vez da abertura da mente de principiante de que falava Shunryu Suzuki e da seriedade ao brincar de que falava Nietzsche, temos o narcisismo típico da infância. Narcisismo que leva a considerar o individual sempre superior ao social. Neste caso, leva à conclusão de que a escola precisa se adaptar aos estudantes, não os estudantes à escola.

A escola tem de mudar suas práticas — em alguns casos, mudar muito — sem abandonar, no entanto, os princípios fundamentais. É saudável que os alunos possam questionar os professores e que estes não se vejam mais como detentores únicos do conhecimento; é saudável que os professores deixem de ser figuras de autoridade para se tornar facilitadores do processo de aprendizagem; é saudável adotar as ferramentas oferecidas pelas tecnologias de computação e informação na sala de aula. Mas também é saudável manter ao menos um reduto da tradição ocidental de raciocínio linear, que bem ou mal nos trouxe até um momento histórico no qual as condições de vida são suficientes para passarmos a questionar a própria idéia de progresso histórico.

23 ideias sobre “Elogio da linearidade

  1. alexandre r.

    lendo essas matérias há algum tempo, tenho a impressão de que não apen as querem que o sistema educacional seja reconstruído com base na personalidade da nova geração como de cada nova geração.

  2. tiagón

    muito boa tua leitura, Träsel. acho ainda que a maior dificuldade que se impõe, quanto menor for o ‘treinamento’ linear, é a da leitura. se, por imposição, e variando em períodos de 50 minutos, é difícil e castrador manter o foco, fica quase impraticável querer que a gurizada pegue um livro em casa. e não preciso falar da importância disso. (ok, uma só: é possível identificar facilmente, numa graduação, quem teve alguma leitura cultivada e quem se perde pra entender um texto qualquer de 10 páginas.)

    mas me pergunto se não é possível (idealmente) remodelar o sistema de ensino para atender a essa hipertextualidade que, atualmente, encontrou um estágio propício, e mesmo definitivo. se a importância da linearidade é perene, hoje ela enfrenta uma resistência não só enraizada, como impelida por toda sorte de estímulos e gadgets. talvez o processo educacional, e os alunos, tenham a ganhar com uma maior fragmentação. sobra a questão de como fazer isso de forma viável, e como treinar a linearidade.

    …são questões prementes e que tendem a intensificar. obrigado pelo post!

  3. Ricardo Mantovani

    Queria poder colocar esse texto dentro dos trens do metrô de sp.

  4. Leonardo Retamoso Palma

    Marcelo, você começa dizendo que a questão apresenta uma certa complexidade, mas acaba reduzindo sua análise à defesa da linearidade como algo legitimado pelo suposto êxito da cultura ocidental, deixando de lado a crise de transmissão cultural que efetivamente vivemos, que não é apenas uma hipótese, mas um desafio complexo, para usar sua expressão. Deixa de lado ainda, mesmo julgando que a história do ocidente legitime a linearidade, os esgotamentos da ocidentalidade, as metamorfoses e as inovações que estão em ruptura com o defendido suposto êxito comprovado, algo que nos leva a ter de analisar a passagem do regime alfabético para o pós-alfabético, do midiático para o pós-midiático, etc., que expressam pontos de não-retorno. Já nas décadas de 50 e 60 do século xx McLuhan e Carpenter já enfrentavam o problema e realizavam pesquisas de campo seminais e que contemporaneamente encontram certos desenvolvimentos nos trabalhos de outro canadense, Derrick de Kerckhove, e maio de 68, movimento punk, contracultura, cultura haker, cibercultura, etc, só vieram evidenciar a escala das transformações… Frente a isso, curioso você escrever que “o treinamento na linearidade” “é essencial para a maior parte das situações profissionais” quando desde a década de setenta vivemos em uma realidade robustamente distinta, que mudou o lugar da comunicação nos processos de produção (literalmente a comunicação entrou em produção! quando antes o local de trabalho era o lugar em que a conversa, a comunicação só entrava em regime estrito), mudou o que seja produzir riqueza e o que seja organizar a produção de riquezas, mobilizar os territórios produtivos. Ou as terceirizações, as desterritorializações dos processos fabris, a emergências dos serviços mudando a cara da vida urbana e a passagem do fordismo ao pós-fordismo, do industrialismo ao pós-industrialismo, etc, expressam o que afinal? As problemáticas sobre as mutações do trabalho e do emprego seriam o que afinal? Os pesquisadores que no mundo inteiro se debatem com grandes transformações nos modos de viver e produzir estariam fazendo algo ocioso? Não estaríamos abusando da expressão “imaturidade” para qualificar nosso problema? (…)

  5. Leonardo Retamoso Palma

    quando hoje nos deparamos com o impacto das NTIC, deveríamos levar em conta que a escala de adoção delas, diretamente, diz-nos algo, ou seja, que são elas, as NTIC que são expressão e estão à altura de uma “inteligência distribuída”, um “General Intellect”, já existente, fruto de anos de escolarização em massa, comunicação de massa, indústria cultural, e que esses processos foram subvertidos pelo uso, pelo investimento afetivo e pelos modos como, entrelaçando com suas vidas, cada uma e cada um, as pessoas ressignificaram suas funções, consequências, derivas, etc., fizeram da sociedade e das relações sociais relações produtivas de formação momento-a-momento, instante-a-instante e romperam com a linearidade que se propunha produzir através dos funcionamentos “normais” de cada uma dessas esferas e processos, e saímos da medida (em termos produtivos, por exemplo! em termos de acesso e de usos, em proliferação de singularidades e processos de singularização…), desterritorializando modos de implicarmos nosso corpo nesses processos e inventamos novos usos e composições, etc., rompemos com toda a história da abstração do nosso fazer e sua incorporação maquínica “fora de nós”, história essa do industrialismo, da técnica e da tecnologia, da sujeição e fragmentação do fazer e da complexidade fazer-fazedor-feito à centralidade da máquina que era cada vez mais central, territorializada, hierarquizante e fazia de cada trabalhador um apêndice fora da comunicação e necessariamente obrigando dependências das intermediações (vide hoje a crise da própria indústri da intermdeição!)… e hoje passamos a uma relação de usos diretos (mesmo quando mediados por computadores mas em co-presença!afetando e sendo afetados em tempo-real, implicados corporalmente em “modos de se estar juntos”), de luats pro acesso e pelo comum, acesso ao maquínico que faz do que antes nos assujeitava, extensões/potências expressivas e relacionais e composicionais da nossa corporeidade… numa inversão inédita. Passamos para uma situação de simultaneidades, de multiplicidade irredutível, de complexidade e de pluralidades de experiências singulares e não representáveis, que apenas se afirmam como expressão e fazer redes, e redes de redes… que até conceitos como povo, p. ex. cede lugar à noção de multidão (em sintonia com o acabo de escrever). Estamos falando mesmo de modos distintos de cognição, de viver experiência e de se relacionar como o vivido pretérito, com os mundos vividos… Bom, sim, a questão é complexa, então, afinemos nossas sensibilidades para a complexidade, não? (escrevi de um zaz, mil perdões pela não-revisão e por possíveis erros!) Um abraço!

  6. Sérgio Lima

    Caramba, o texto foi um soco no meu estômago! Sim, eu quero reinventar a Escola e achei bastante ponderadas as questões levantadas…

    Mas também gostei das ponderações do Diogo e do Leonardo!

    Ao menos me conforto de nunca ter achado que a Escola devesse se adaptar aos estudantes, mas sim que ela deva se adaptar ao novo contexto informacional! Com foco ou com linearidade :-)

  7. Suzana Gutierrez

    Olá

    Indo na contramão da linearidade recebi este texto compartilhado via Google Reader e ‘abuzzado’ com comentários, também. Comentei por lá e, no papo, fui remetida aos comentários daqui. Esta não linearidade uniu o que seriam duas discussões estanques.

    Eu penso que a uma ciência dos padrões e das regularidades, da causa e efeito, já andamos um pouco em direção à uma ciência da possibilidade, uma ciência que não fala mais de certezas, mas de escolhas.
    O que é linear (em sentido amplo) foge da totalidade e deixa de considerar o que é contingente, o que emerge e, por isso, tende a limitar.

    No meu entender, antes da linearidade, a escola pode privilegiar o foco, ou seja, a escolha determinada, a construção e manutenção de um caminho coerente, mas não linear. Causa e efeito como opostos e iguais, mas não sequenciais :)

    abração

    Suzana

    PS: estamos conversando sobre estas ideias la no Buzz

  8. Leonardo Retamoso Palma

    (O bom do Buzz é que lá daria pre editar e fazer correções do que postamos …)
    Suzana, gostei de suas observações. Vou seguir acompanhando o desenvolvimento da conversação… Abraços!

  9. Tereza Dalmaso

    Interessante o texto, para pensar, mas bom também o texto do Leonardo. Creio que é necessário sim, na vida, a gente desenvolver pensamentos e raciocínios que, parecem, lineares.A linearidade,enquanto um processo de transmissão de sequências encadeadas de informação, unidirecionais,na forma de conhecimentos prontos e acabados,homogeneizantes, concebidos como neutros científicamente, que é o que temos tido na educação formal, não me parece que contribui muitocom as demandas da vida atual e que isso tem ajudado na não dispersão dos alunos. Penso que é possível construir conhecimento, sem receio de dispersão e fragmentação, numa concepção rizomática e não em forma de árvore, forma sequencial. O rizoma tem muito mais a ver com a conexão que há entre os diversos aspectos das ciências e da vida, que não funcionam em saparado, mas que tem uma interligação. A comunicação, por exemplo, é um aspecto fundamental em qualquer ramos da ciencia. O Leonardo mencionou de forma muito pertinente, as novas configurações do processo produtivo hoje e do processo de trabalho também. A linearidade, às vezes necessária didaticamente falando,mas não pode ser a lógica orientadora da aprendizagem.

  10. Daniela do Carmo

    Querido, gostei muito do seu texto. Já tinha abordado o assunto de leve em um curso sobre redação, onde o esforço era fugir da linearidade, já que minha geração é anterior à Internet e, portanto, aprendi do jeito linear (nasci em 70, sou da época do “científico”, hehehe).
    Nesse seu post, senti falta de um argumento mais objetivo em relação aos benefícios da linearidade. Talvez você possa explicar um pouco melhor em um segundo post ou recomendar alguma leitura.
    Obrigada, um grande abraço. Vou voltar mais vezes no seu blog.

  11. Ricardo

    Para mim o ponto principal é que a escola e os educadores aproveitem a “bagagem” trazida pelos estudantes. Na lista de coisas “saudáveis” do último parágrafo, eu acrescentaria que é saudável valorizar a diversidade, os conhecimentos trazidos de fora da escola e inclusive (talvez principalmente) os pensamentos discordantes. Talvez o processo possa continuar sendo linear. O que não podemos é fechar os olhos para toda a informação que está nas mãos dos estudantes. Essa informação não pode ser ignorada, tem que ser aproveitada, tratada, debatida.

  12. Gran Kain

    Eu tenho uma certa dificuldade de aprender de modo linear, tudo que aprendi foi em forma de “árvore”. Tentar focar num objetivo e fingir que o resto não existe simplesmente não funciona para algumas pessoas.
    Respeito esta metodologia (a linear) e entendo suas vantagens mas não é uma lei, não faz sentido fingir que todos os “alunos” são iguais, também não faz sentido fingir que todos os professores são iguais.
    O texto é bem interessante e rico mas não gera uma solução mágica, nem é a salvação esperada.

  13. Mariana

    Nossa, esse texto veio realmente a calhar. Acabei de me formar jornalista e agora comecei História. Por ser um curso de licenciatura, já assisti algumas palestras e aulas que falam sobre essa necessidade do professor buscar a linguagem do jovem, de deixar o modo “ortodoxo” para algo dialético. Eu realmente acredito nisso, da necessidade de não somente expor informações, mas ter uma relação com o aluno baseada na troca, na ideia de contextualizar, de criar visões de mundo, de questionar. Mas às vezes sinto como se a culpa dessa dispersão do aluno fosse sempre do professor, na própria faculdade eles acabam colocando dessa maneira. Isso me incomodava, e agora com seu texto começo a pensar que não precisamos jogar todo método existente no lixo, e ir na onda de se adaptar totalmente ao aluno. Obrigada pela troca! rs

  14. Pingback: Linear - Conector - OESQUEMA

  15. Eugenia Calymma

    O texto do Marcelo Trasel parece ter uma preocupação não explícita com a questão da razão. Esse jogar tudo fora significa desprezar uma construção de dois mil e quinhentos anos, desde a Grécia clássica. E se, como projeto social (e político!) da modernidade, a lógica racional limitou a liberdade humana, por outro lado trouxe muita emancipação, conquistas em ética, em higiene, em democracia, em direito… O “pensamento linear” é o que produz ainda algumas certezas que são essenciais em certas áreas como a minha (medicina). Se alguém tiver uma apendicite agora, procuraria uma vertente ilógica das ciências da saúde para salvar a sua vida, quem sabe esse hospital maluco que a mídia vai explorar agora? Pergunto – principalmente ao Leonardo Palma – se levaria o filho dele para um médico que raciocinasse dentro das irredutíveis multiplicidades, de forma rizomática, explorando a complexa simultaneidade de diagnósticos… enquanto o quadro do seu garoto caminhasse para uma apendicite supurada. No mundo inteiro, a toda hora, é o raciocínio linear que permite um cirurgião supor uma patologia, comprová-la por meio de uma sequência de exames e intervir em poucas hora para salvar a vida das pessoas. A eliminação dessa razão foi a preocupação de Adorno quando, diante de certas formulações de Heidegger, cogitou um “retorno ao mito”. É inimaginável o risco que a época em que vivemos pode representar para a civilização se essa razão for de todo abandonada… Sem ela será – fácil, fácil – o controle do mundo globalizado, só que dessa vez será um controle absoluto, já que não haverá reservas de pensamento crítico em lugar nenhum! A nossa curta memória parecer estar apagando as imagens dos recentes desastres do totalitarismo! Imaginem um novo Hitler na regência total de um mundo que perdeu a razão… e com ela, a consciência.

  16. Leonardo Retamoso Palma

    Eugenia, olá Eugenia! Perdão pela demora! Mas.. Bom, vamos lá. Primeiro sobre “Esse jogar tudo fora…” a que você se refere. E deixo para pensarmos junt@s então se a história de “uma construção de dois mil e quinhentos anos, desde a Grécia clássica”, que você cifra como “a questão da razão”, se essa história fez-se ou não justamente sob a condição desse próprio “jogar tudo fora…”, ou seja, sob o imperativo da purificação: estabelecer a MEDIDA, o SER, o arché (lembrando que o falar grego sobre o arché é simultaneamnete falar de PRINCÍPIO e de MANDO!), a VERDADE (aletéia), o UNIVERSAL, a FORMA, etc. normalizar e naturalizar UM MUNDO, hierarquizando setores e domínios, fazendo operar em cada território um PRINCÍPIO DE REDUÇÃO que o ordene (com um centro/uma centralização; uma hierarquia; regras de separação que o especifiquem/delimitem, e determinam ou prescrevem o que deve ser e o indesejável, os “estrangeiros” desse domínio, etc., e em cada gesto desses conjurar tudo o que fica fora da medida, ou seja, conjurar o monstro! Exorcizar o monstro, e tudo o que o valha nessa história.
    Segundo. O momento que estamos simultaneamente produzindo e testemunhando, é o da quebra tendencial das hierarquias que foram estabelecidas ao custo do “jogar fora” tudo o que atrapalhava a redução, centralização, hierarquização e mando correlativos a cada ordem estabelecida.
    Terceiro, como breve observação, o uso tateante, e até o abuso do prefixo “pós-“, até recentemente, era o sintoma e a tentativa de captar pontos de não-retorno de uma grande transição em curso. Foram tentativas de sentirmos os deslocamentos vários: abundaram narrativas “pós-coloniais”, “pós-modernas”, “pós-industriais”, “pós-imperialistas”, “pós-fordistas”, “pós-nacionais”, “pós-civis”, “pós-midiáticas”, “pós-alfabéticas”, usos que propõem experiências de se sentir os deslocamentos e viver a abertura, as crises que as quebras de hierarquias e normalizações trazem …
    Mas atenção: o fim da grande narrativa, nesse exemplo que tomei, esse fim de uma única grande e única narrativa, não foi o fim das narrativas, antes o oposto, foi a abertura para a proliferação de narrativas. Quando, por exemplo, Guattari torna pensável uma era pós-mídia, pós-midiática, não está falando em “aniquilamento”, nem em “extirpação” dos meios de comunicação, antes o contrário: fala em dessacralização, fim do monopólio e da unilateralidade; fala da proliferação dos usos, das vozes, das práticas comunicativas, do tornar comum o acesso, os usos comuns. “Pós” foi o prefixo que em muitos casos marcou o fim das unilateralidades pretéritas, pouco tem a ver com essa ideia de liquidacionismo que se atribui ao seu uso … problemático, mas por outras razões … Outro exemplo: quando Franco Berardi torna pensável o “pós-alfabético” está falando do advento da multi-operacionalidade e multifuncionalidade das novas gerações, verificando o que McLuhan, Ivan Illich e tantos outros intuíram nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX: ultrapassamos tendencialmente os condicionamentos e unilateralidades que o alfabetismo impunha, de só percebermos e sentirmos UMA coisa de cada vez (aí sim quase “jogando fora tudo o resto”), não porque passamos a não sentir e não perceber, mas porque percebemos e sentimos simultaneamente multiplicidades de afetações… o que era vigente é pouco para a nova realidade que estamos vivendo, produzindo e sofrendo também, obviamente. Estamos em plena a ressignificação, não no descarte. Proliferando mundos, criando novos possíveis.
    De onde vocês tirou a ideia desse “jogar tudo fora”?
    Por outro lado, não está ocorrendo uma reivindicação indevida essa de colocar coisas demais na conta dos méritos da linearidade não? Bom, vi só agora sua pergunta e começo a respondê-la com o que acabo de dizer … de um fôlego só, mas sigamos. Um abraço!!

    leonardo

  17. Pingback: Eu vim para confundir e não para explicar « Cândida Nobre

  18. Andreia Andrade

    Meu amigo, filosofar é a coisa mais linda do mundo. Difícil é colocar todas as letras em prática….Professor e Escola não muda ninguém, simplesmente são complementados com a Educação que recebemos em cada de nossa família.
    Você não conhece a realidade de um professor de escola pública. A atual. Ter de lecionar para 10 turmas com no máximo 50 alunos….
    A verdade todos querem esconder….

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