Finalmente chego à idade que sempre tive

Como o pessoal lá do CERN resolveu adiar a ativação do Large Hadron Collider para o dia 10 de setembro, garantindo que eu chegasse aos 30 anos hoje, sinto-me obrigado a agradecer escrevendo algo a respeito.

Costumo brincar que já nasci com 30 anos, porque sempre fui uma criança e um adolescente um pouco mais maduro do que meus companheiros de faixa etária. Ou sempre fui chato. Como preferirem. No entanto, preciso reconhecer que a idade muda um pouco o espírito do homem. E para melhor — ainda bem, já que o corpo só piora após os 25 anos.

Nunca fui tão tranqüilo e feliz. A experiência permite relativizar os acontecimentos, contrapô-los a eventos passados e ao que se passa ou passou com outras pessoas, e nesses casos você em geral percebe a inutilidade de se preocupar demais. Aos 30 anos já dá para perceber que você não vai mudar o mundo e na verdade não faz diferença alguma no plano geral das coisas, então fica mais fácil relaxar e aproveitar as alegrias da vida. São muitas. A maioria delas, simples, como ter um bom café para tomar pela manhã, dedicar-se a uma arte marcial ou ter um emprego intelectualmente estimulante.

Sinto-me uma pessoa melhor em vários sentidos. Sou hoje menos agressivo, tenho menos certeza das coisas, tenho mais empatia pelas pessoas — como ter empatia quando se é jovem e nunca se sofreu de verdade? O grupo de amigos e conhecidos se reduziu, mas em compensação tenho mais apreço por cada um dos meus relacionamentos. Já fiz de tudo, então me satisfaço muito mais ficando em casa com minha mulher, “sem fazer nada”, do que caindo na esbórnia como quando era mais jovem. Na verdade, poucas coisas me dão mais aversão hoje do que me enfiar num lugar quente, escuro, enfumaçado, com som alto e gente bêbada numa noite de fim de semana.

Aliás, estou vivendo com uma mulher a quem amo incondicionalmente, possibilidade que há cinco anos considerava uma piada melancólica, dada a perturbação espiritual que me acometia. Hoje tenho certeza do rumo que minha vida tomou, e vocês não imaginam a paz gerada simplesmente por saber aonde se quer chegar. E pelo certeza de onde se vai parar, no fim: a sete palmos de fundura, comendo capim pela raiz.

A idéia para esse texto surgiu quando percebi, fascinado, que não sentia mais a necessidade de ter opinião sobre as coisas. Os leitores que me acompanham há mais tempo devem se lembrar do quanto eu parecia gostar de me envolver em qualquer discussão, sobre qualquer tema, como se dela dependesse o futuro da humanidade. Hoje, não mais. Quem tem razão, Israel ou Palestina? Não sei, nem quero saber. Eles que se preocupem com isso. O MST tem ou não razão ao invadir terras? Sei lá. Não sou dono de terras, nem quero ser. Cigarros? Desde que não fumem perto de mim, os outros podem se matar à vontade. Enfim, estou aprendendo a só falar de coisas que conheço. Ao me dar conta disso, comecei a analisar essas outras mudanças pelas quais tenho passado.

Acreditem: envelhecer é trimassa.

No entanto, percebo que a sociedade em geral não compartilha desse sentimento. Cada vez mais tratam os velhos por “melhor idade”, ou “jovens de espírito acima de 65 anos”, como nos ônibus de Porto Alegre. Acho essa negação da morte nada menos do que deprimente. Tenho um grande pavor de chegar aos 60 anos em contexto onde tenha de me esforçar para parecer jovem e não possa gozar dos privilégios da idade, como ser tratado por “senhor”, dizer “não” sem dar maiores explicações e agir como criança sem ser considerado um imbecil, mas apenas senil.

Até porque parece que as chances de o LHC destruir o mundo são milhares e milhares de vezes menores do que as de uma pessoa evaporar de súbito enquanto se barbeia, então provavelmente passarei dos 30 anos.

2 ideias sobre “Finalmente chego à idade que sempre tive

  1. Pingback: Ficar velho

  2. Beatriz

    Nossa, muito interessante seu texto, me identifiquei muito, apesar de na verdade eu não ter nem 20 anos, mas o fato de perceber que algumas pessoas pensam como eu, me faz sentir melhor.
    Obrigado por isso. Bem, você pode estar envelhecendo, mas com 30 anos, você não é de fato velho, muitas aguas vão rolar.
    Muito bacana seu texto.

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