Fogo amigo na imprensa brasileira

Os últimos dias foram emocionantes para os brasileiros interessados em questões de liberdade de imprensa. Primeiro, a colunista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Estadão, por conta de um artigo publicado na véspera das eleições. Já na Barão de Limeira, o setor jurídico resolveu processar o Falha de São Paulo, que satiriza a Folha de São Paulo. Nunca antes na história deste país a imprensa se esforçou tanto em atacar a liberdade de expressão.

Antes que algum leitor mais afobado vá aos comentários me xingar de “petralha” ou “blogueiro progressista”, esclareço: do meu ponto de vista, tanto o Estadão quanto a Folha estão dentro dos limites dos direitos previstos na lei e, possivelmente, dentro dos limites da moral e dos bons costumes. O Estadão, como empresa privada, tem o direito de contratar e demitir quem bem entender. A Justiça ainda decidirá se o Falha de São Paulo está usando indevidamente a marca do jornal, como argumentam os advogados da Folha. Os dois veículos têm sido acusados de censura em “blogs progressistas” e nas redes sociais. Bobagem. Não houve censura alguma por parte dos jornais.

O Estadão, afinal, publicou a coluna de Maria Rita Kehl que supostamente teria levado à demissão. Difícil entender como isso poderia se configurar como censura. Assim como é difícil ter certeza de que a psicanalista foi demitida por causa desse texto específico. Ricardo Grandour, diretor de conteúdo do grupo O Estado de São Paulo, garante que o estranhamento entre as partes vinha acontecendo há algum tempo. Já Maria Rita Kehl assegura ter sido desligada por conta da coluna em questão — mas não fala em censura, vejam bem. Provavelmente ambos estão dizendo meias verdades e a diretoria do Estadão vinha mesmo insatisfeita, acabando por se precipitar com essa reincidência na véspera das eleições.

Kehl sabia muito bem das posições do jornal. O Estadão poderia ter simplesmente impedido a publicação da coluna, o que inclusive tornaria mais simples demiti-la: não haveria uma arma do crime. A meu ver, o fato de o texto ter sido rodado demonstra até certo espírito esportivo por parte da empresa. É injusto acusar o Estadão de censura. Censura é o Estado impedir a publicação de uma informação ou opinião. A demissão é uma consequência funesta, mas não é censura.

Pode-se questionar é a consciência do Estadão sobre os efeitos mais amplos da medida. Embora as empresas tenham opinião – e o grupo Estado faça questão, louvavelmente, de explicitá-la -, um jornal não é um armazém de secos e molhados. O objetivo dos jornais não é apenas ganhar dinheiro, mas servir o interesse público. E o interesse público demanda espaço para o maior número possível de vozes dissonantes, independente da opinião da empresa.

Aliás, mesmo num armazém de secos e molhados, ter posição política diferente daquela do patrão não configura justa causa para demissão.

Enfim, ao desligar Maria Rita Kehl do quadro de colunistas por causa de suas posições opostas às do jornal, o Estadão demonstra ter se rendido à ideologia e perdido o foco na pluralidade desejável numa esfera pública democrática. Quando a imprensa deixa de defender esse ideal, está traindo o papel de defensora da democracia.

Por coincidência, terminava de escrever o parágrafo acima quando @everton137 enviou para o Twitter um artigo publicado hoje por Eugênio Bucci no mesmo Estadão, no qual esta posição está muito melhor explicada:

Uma fórmula editorial é sempre um corte, uma escolha arbitrária, e não há nada de errado nisso. Porém, mesmo dentro do seu corte, da sua escolha editorial, um órgão de imprensa há de saber que sua credibilidade decorre justamente do respeito que reserva às opiniões divergentes. Uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma. Já temos história suficiente para saber que o vício da intolerância não consegue apagar o intolerado – apenas desacredita o intolerante. É ele, não sua vítima, que perde autoridade.

Não está se referindo diretamente ao caso Kehl, mas a análise se aplica com perfeição.

A diretoria do Estadão também demonstrou inacreditável ausência de senso de oportunidade. Houvessem esperado dezembro ou, ao menos, a realização do segundo turno das eleições, a história provavelmente não ganharia tanta aceleração. O diretor de conteúdo reclama que houve uma “reação histérica” nas redes sociais, mas esperava o quê, quando a própria reação de sua empresa à coluna foi histérica? Punir uma opinião política em época de eleições é o mesmo que grudar uma folha de papel escrita “chute-me, por favor” nas costas. O desligamento pode até não ter sido motivado pela coluna do dia 2 de outubro, mas agora ficou impossível convencer qualquer um disso.

Caso ainda mais lamentável é o da Folha de São Paulo. Não se pode falar em censura do jornal contra o Falha de São Paulo, porque a decisão não foi da empresa, mas do juiz ao qual o pedido de liminar foi apresentado. Muito provavelmente, inclusive, a decisão de pedir liminar contra a sátira não passou pela redação, mas foi iniciativa da diretoria do Grupo Folha ou do setor jurídico. O problema é que, assim como o Estadão, a Folha não é um armazém de secos e molhados, mas um jornal, e a imprensa não deveria incentivar essa tendência a regular o debate público com um excesso de advogados, como se tem visto no Brasil.

No momento em que a imprensa passa a se valer de liminares para impedir a divulgação de qualquer tipo de manifestação de opinião ou informação, está abrindo a possibilidade de ser vítima do mesmo expediente. O Estadão, por exemplo, se encontra “há 433 dias sob censura”, impedido de publicar notícias sobre escândalos envolvendo a família Sarney.

A Folha pode exercer o direito de defender sua marca dentro dos limites previstos pela legislação, mas poderia ter entrado com o processo sem pedir uma liminar para a extinção imediata do Falha de São Paulo. Neste tipo de caso, a imprensa deveria sempre esperar o julgamento do mérito, momento em que, efetivamente, a Justiça decide qual parte tem razão. Cabe ressaltar que a liminar concedida pelo juiz não significa que a Folha tem razão: é tão-somente uma medida prévia tomada pela Justiça para proteger os interesses da Folha, caso ao final do processo prove-se que a empresa tem razão.

Os prejuízos de se esperar a decisão sobre o mérito da queixa são muito menores para a Folha do que os prejuízos de uma censura para a sociedade em geral.

Juridiquês à parte, é preciso admitir que a Folha está assumindo um papel ridículo e demonstrando truculência ao perseguir o Falha por fazer graça com o jornal. O poder econômico e político de ambos é completamente desparelho. Não é o Estadão ou O Globo fazendo piada com a Folha, mas sim meia dúzia de pândegos. Era de se esperar mais senso de humor da Barão de Limeira. Otavinho Frias tem muito a aprender com Maurício de Sousa.

Senso de humor é uma virtude na imprensa, até porque demonstra abertura e tolerância. A sátira, além disso, é uma das formas de crítica mais poderosas nas mãos do cidadão. A própria Folha usa a sátira para criticar políticos e outros atores sociais. É lamentável que o jornal não consiga absorver uma crítica. Deprimente ver um dos maiores jornais do país se comportando como um filhinho de papai birrento, que faz troça de todos, mas chama a tia do SOE quando vira alvo de chacota.

A questão mais importante nesses dois casos não é a validade jurídica das ações do Estadão e da Folha, nem muito menos a ideologia dos acionistas, mas o significado disso tudo para a imprensa e a sociedade. Ver os maiores jornais do país demonstrando aversão ao pluralismo e à crítica faz os leitores questionarem seu comprometimento com o interesse público e, portanto, sua legitimidade como fiscais do Estado. Quando a imprensa perde legitimidade, está aberto o caminho para todo tipo de abuso de poder.

22 ideias sobre “Fogo amigo na imprensa brasileira

  1. Marcus

    Muito bom o post, e concordo basicamente com todos os pontos. Queria apenas fazer dois reparos:

    Primeiro, a história contada pelo Ricardo Grandour, de que a coluna da Maria Rita Kehl deveria ser sobre psicanálise, não é coerente com o texto que o próprio Estadão publicou apresentando a autora para o público. Trecho:

    “Os leitores não devem esperar que ela aborde temas como depressão ou a mulher freudiana em sua coluna no Caderno 2. Ao menos não é essa, a princípio, a sua intenção. ‘A psicanálise é uma profissão à qual me dedico com paixão, mas acho que, se aceitei o convite para escrever nesse espaço, foi para tentar outra coisa. Só vou tocar em temas com os quais lido na profissão quando não tiver assunto, mesmo’, brinca”.

    Muito mais coerente me parece a história apurada pelo Fausto Salvadori, que disse que o texto, aprovado pelos editores, só deu problema depois de lido pelos donos do jornal.

    O segundo reparo é que o Maurício de Souza não tinha como reagir de outra forma ao “Porra Maurício”. Ao contrário do “Falha de S. Paulo”, o “Porra Maurício” é, por vias tortas e satíricas, uma homenagem apaixonada ao trabalho dele…

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  4. Rogério Christofoletti

    Träsel, não concordo com tudo o que você diz, mas foi muito bom ler como você vê o assunto. Seu texto nos deixa mais pensativos e inteligentes…
    Mas acho que é importante pensarmos que a censura e as formas de se impedir o livre fluxo da informação são muito mais sofisticados e complexos do que simplesmente proibir a publicação de algo. Não permitir a publicação antes é censura prévia, é interdição. Retaliar após a emissão de opinião contrária é também atentar contra a liberdade de expressão e pensamento na medida em que motiva ações que vão resultar em impedimentos seguintes. No caso do Estadão, a demissão da colunista vai nos privar de ler naquele jornal outros textos da colunista. Sem qualquer aviso prévio ao assinante, nem à psicanalista…
    Então, eu acho que precisamos ampliar mais nossa percepção e sensibilidade acerca das formas de impedimento/censura/privação de informações. abraço.

  5. Pedro

    Claro que o Bucci está se referindo à Kehl. Eles dois são extremamente amigos há décadas, e têm livros publicados em co-autoria.

  6. Bárbara Lopes

    Podemos pensar em censura de duas formas: da clássica, em que o governo veta assuntos e/ou coloca um agente em redações para antecipadamente aprovar, modificar ou vetar textos, como foi feito no Brasil durante a ditadura militar; a outra, mais ampla, é o uso de alguma forma de poder – político, econômico, militar – para impedir alguém de manifestar uma opinião. Aparentemente, a grande imprensa considera válida a segunda acepção, dado os editorais publicados em respostas às críticas do presidente e o banner do Estadão. É por essa régua, portanto, que serão medidos. Uma liminar que prevê multa de R$ 1.000 por dia para um site sem fins lucrativos, a sombra da demissão por divergência de opinião para profissionais que precisam ganhar a vida (a demissão da Maria Rita Kehl também funciona como um aviso para os que não foram demitidos) são casos que se enquadram nessa definição.

  7. Diego Milward

    Quanto ao caso da Folha de SP. nada a acrescentar.

    Quanto ao Estadão, seu comentário é pertinente e enfoca bem um ponto importante, porém existe um outro ponto de vista.

    O que pode ter causado a demissão, se levarmos em conta que outros colunistas de opinião contraria as que do editorial do jornal continuam empregados, pode ser a hipótese de ter sido causada por desacordo quanto a qualidade do trabalho apresentado pela colunista (Eu particularmente achei o artigo extremamente fraco). E ai fica a duvida, em nome de uma pseudo moral o Estadão deveria ficar com uma funcionaria que ele julgasse “não satisfatória tecnicamente”?

    O momento pode não ter sido oportuno, mas seria mais digno esperar?

  8. Alex de Souza

    sobriedade. é o que estava faltando nesses dias. parabéns, träsel. espero um dia aprender como se pronuncia seu nome.

  9. Alexandre Honório

    Equilibrado e coerente. O problema em torno dos dois episódios é que, se não estivéssemos em plena corrida pelo Planalto, tanto o caso da Falha de São Paulo quanto o da Maria Rita Kehl passariam ao largo.
    Novamente, uma boa e coerente análise do canjerê eleitoral deste ano…

  10. Träsel Autor do post

    Suspeitei que sim, Pedro, mas, como não tinha certeza, não podia escrever. Obrigado.

  11. Luciana Christante

    Muito interessante, embora não concorde com tudo que você falou do Estadão, o fato de não configurar censura não é desculpa para a represália. Mas é incrível mesmo a intolerância,a falta de humor, e mais preocupante, a falta de capacidade/inteligência de prever as consequências/repercussões disso, em tempos de twitter e eleições. Cegueira total. E muito curioso que esse tropeço tenha ocorrido quase ao mesmo tempo nos dois grandes concorrentes, logo após semanas de atrito do governo com a imprensa, que andou bradando seus direitos de liberdade de expressão em capas, análises e editoriais. Já não dá mais para ler os jornais do mesmo jeito.

  12. Mari

    Eu provavelmente seria uma daquelas que te xingaria de petralha ou de coisas piores, mas o teu post foi bem lúcido. No meio de tantos gritos de “censura!”, “voltamos aos tempos da ditadura”, pelo menos um blogueiro progressista ;) entre tantos lembrou que em ambos os casos os dois veículos estão amparados pela lei.

    Mas se “o Estadão demonstra ter se rendido à ideologia e perdido o foco na pluralidade desejável numa esfera pública democrática.”, eu gostaria de saber qual outra publicação aqui no Brasil oferece a mesma pluralidade? A Carta Capital? A Caros Amigos?

    Acredito que seja muito mais honesto que cada um deles assuma claramente a sua posição, no editorial. Lê quem quer.

  13. Drex

    O Estadão está no seu direito. Apenas decidiu se tornar um jornal mais pobre.

    Particularmente, gosto de ler veículos que são plurais em si. Acho chato pegar, tanto uma Veja quanto uma Carta Capital, e saber de ante-mão o posicionamento que lerei ali por toda a revista.

    Meu jornal ideal me ofereceria um painel amplo dos acontecimento (com equilíbrio ao menos, já que isenção é utopia) e uma diversidade de análises e opiniões. De modo que, ao me aprofundar na questão, EU possa formar minha opinião.

    O Estadão ter sua opinião editorial não era um problema. Explicitá-la, ao contrário, foi digníssimo. Mas, ao limar colunistas com opiniões diferentes (colunistas que, per se, estão ali expressando sua opinião particular e devidamente assinada), se colocou um passo mais longe da minha imagem de jornal ideal.

    Queria ler, no mesmo caderno, Olavo e Maria Rita. Mas tá ficando cada vez mais difícil.

  14. Otávio Marshall

    Legal a tua opinião. O debate político anda meio quente no Brasil… Numa aparente polarização, misturam-se impressões do que seria uma ditadura, o que seria a censura, esquerda, direita e por aí vai, todos tentando defender algum dos pólos. Deveria (e romanticamente acho que vai!) prevalescer a inteligência e o desejo da maioria, mas no Brasil temos um problema essencial: o Estado invade a autonomia de todos, sejam indivíduos ou grupos, e invade muitas vezes com lei (corrompida) em punhos, como fez com o Estadão. O nosso projeto de Estado precisa de limites, urgentemente, e que esses limites sirvam para ratificar que nosso destino, enquanto seres humanos, é a liberdade, como bem grifou o Vinícius de Moraes.

  15. Fernanda

    Marcelo;

    Há um ponto importante que foi esquecido. Colunas de opinião não precisam repetir a orientação do jornal. Uma das razões pela qual elas são chamadas em inglês de “Op-ed”, ou “opposite editorial”, é justamente porque a idéia das colunas é de se oferecer textos que não necessariamente sigam a linha dos editoriais do jornal.

    Outra, não estamos falando de empresas que fazem sandálias ou produtos de beleza. Estamos falando de empresas de informação, empresas que – antigamente – a maioria das pessoas utilizava para balizar sua opinião.

    Não dá para negar que essas empresas tem colocado seus interesses acima do direito dos seus consumidores/leitores. E isso é muito, muito ruim em qualquer ramo.

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  17. Imprensa brasileira

    Nós sabemos do massacre da motosserra liderada pela imprensa partidária e sei que o presidente Lula as vezes, eu digo as vezes perde a noção. Mas quais as armas usar para defender sua posição e seus ideais.
    Ou será que o presidente Lula deveria impor e planejar estratégicas para controlar a imprensa brasileira.
    Na revista Veja tem um matéria sobre os tentáculos do polvo Lula sobre o poder; uma alusão ao poder de presidente.
    Mas os tentáculos do polvo estão liderados pela imprensa capitalista e cheio de más intenções.

  18. armando lopes

    Acredito que estamos assistindo a uma luta política, em que a grande imprensa lança mão de expedientes para eleger o candidato que lhe parece adequado para defender seus interesses financeiros. É seu direito, já que é uma empresa privada e precisa do lucro, mas devia assumir, claramente, qual sua posição e não
    querer enganar seus leitores com posturas psudo- democráticas. Alardeando que sua missão republicana está acima dos partidos, de interesses subalternos e de classe Tenho observado que a grande maioria das notícias é negativa ao lado contrário. Outro exemplo: não publicaram uma linha sequer sobre a participação do Aluisio Nunes na luta armada contra a ditadura.. Já para a outr\a parte a mídia quer a liberação de seu processo de militante. Para que? senão… A democracia de dois pesos e duas medidas. E viva a liberdade de imprensa à brasileira!

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  20. Andre Deak

    Träsel, não tinha lido ainda teu post, mas é exatamente o que eu penso, sem tirar nem pôr. Ou por, sei lá como ficaram essas regras…

    O Eugênio respondeu a Ricardo Kotscho num comentário dentro do OI, que copio aqui:
    (original aqui http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=611JDB016 )

    Eugênio Bucci responde:

    Caro Kotscho, obrigado por ler meu artigo. Como você me interpela em público, não me resta alternativa que não esta, a de dar a resposta também em público. Ressalto que sou, ao lado de vários outros nomes, colaborador regular de O Estado de S. Paulo. Eis o que penso a respeito:

    1. Considero um erro a interrupção da coluna de Maria Rita Kehl, no “Caderno 2”, do jornal O Estado de S. Paulo.

    2. Naturalmente, um órgão de imprensa tem todo o direito de contratar e desligar seus colunistas a qualquer tempo. Isso não está em discussão. A questão, aqui, é que esse desligamento em particular foi feito no calor do debate eleitoral, silenciando uma voz divergente, quando o período eleitoral ainda não estava encerrado. Não se discute, portanto, o direito do jornal de tomar a decisão (o problema não é de ordem legal), mas o tempo específico em que a decisão veio à tona, gerando uma corrosão da imagem do próprio jornal.

    3. O anúncio da interrupção da coluna veio logo após o último artigo da colunista, em que ela defendeu uma posição diversa daquela que o Estado adotara em editorial. Reconhecendo como “digna” a opção por Serra, declarada pelo jornal, a colunista enalteceu razões para o voto em Dilma Rousseff, num texto de evidente caráter eleitoral. O desligamento da colunista, comunicado em seguida, revestiu-se do mesmo caráter: ele apareceu como sendo a reação do jornal ao discurso partidário de sua colunista.

    4. Outras razões foram alegadas para o corte, é verdade. Porém, no bojo da imensa repercussão do episódio, as outras razões foram vistas como secundárias, coadjuvantes em relação aos dois fatos principais, a saber: (a) o artigo com a opinião eleitoral de Maria Rita – um texto que, é bom lembrar, não foi censurado, mas publicado na íntegra – e (b) a interrupção unilateral de sua colaboração. A proximidade no tempo desses dois eventos foi decisiva para precipitar a impressão de que houve motivação partidária para o afastamento da colunista.

    5. Isso arranhou a credibilidade do diário. O compromisso que ele historicamente mantém com o pluralismo das idéias foi posto em dúvida. A boa imagem gerada pelo excelente trabalho de reportagem que vem marcando esta boa fase do Estado, aliado a uma equipe plural de articulistas – tão plural que incluía, não nos esqueçamos, a própria Maria Rita –, também saiu turvada.

    6. Foi um passo infeliz dentro de uma trajetória brilhante. Quem mais perdeu com o episódio não foi Maria Rita – ainda que tenha sofrido um revés – ou a candidatura de Dilma Rousseff, mas o próprio jornal, cuja vocação democrática foi ruidosamente questionada.

    7. Como já foi dito, um diário tem direito de inaugurar e encerrar colunas nas datas que julgar adequadas. Mas, nesse caso em particular, a data não era uma data qualquer. A colunista foi desligada em pleno período eleitoral, imediatamente após opinar sobre as eleições. Eis aqui o cerne do erro, que gerou a impressão de partidarismo. Para preservar o valor do pluralismo, e, mais ainda, para deixar fora de dúvida que preserva esse valor, o jornal deveria assegurar, ao menos durante a vigência do período eleitoral, o lugar da opinião divergente.

    8. Por fim, esclareço que essa minha interpretação dos fatos não decorre, em absoluto, do fato de eu ser amigo de Maria Rita. Somos próximos há mais de vinte anos. Aprendi e aprendo muito com ela. Publicamos livros e artigos em parceria. Vejo nela uma das maiores intelectuais do Brasil, que, por sinal, acaba de ganhar o Prêmio Jabuti. Mas, como eu dizia, a opinião que expresso aqui tem fundamentos impessoais. Tenho procurado não misturar laços afetivos com assuntos de interesse público. (E.B.)

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