Suco Bom Bom

Bom Bom

A quem mora ou está em visita a São Paulo, recomendo fortemente passar na Liberdade e comprar uma caixa de suco Bom Bom. Não sei de onde tiraram esse apelido, pois não está escrito “Bom Bom” em lugar algum da latinha, mas é assim que chamam.

Trata-se de um suco de uva coreano com pedaços de fruta. Pode parecer estranho, mas bem gelado é uma delícia.

A melhor costeleta de cordeiro do universo

Nem Montevidéu, nem Buenos Aires. Muito menos Porto Alegre. A melhor costeleta de ovelha do universo pode ser encontrada por exatos R$ 39 até o dia 14 de março no restaurante do Hotel Hilton, em São Paulo. A unidade da hospedaria da família Hilton acha que está no Morumbi, mas na verdade é o Brooklin.

Se a localização espanta um pouco — posso dizer que dificilmente me daria o trabalho de ir se não estivesse ao lado da redação do Terra — o ambiente, o serviço e, principalmente, o nível excepcional da cozinha estão muito além do preço exigido. Muito mesmo.

Na chegada, mesmo com o restaurante praticamente vazio, sugeriram uma poltrona. Dois minutos depois a mesa estava escolhida. A pasagem conhecida diariamente revelava um ambiente completamente novo. A cadeira com encosto de madeira e um tecido não identificado confortava.

A pouca iluminação estava voltada diretamente para o prato. Os garçons sugeriram um couvert, que foi recusado. Em seguida, um micro camarão com tomate cereja espetado chegou à mesa. “Cortesia de nossa cozinha”, explicou o garçom. Sem solicitação ou cerimônia, o garçom despeja uma água que custa R$ 6 no copo. O vinho também foi recusado.

Como entrada, uma competente salada verde com um wrap de nozes. Tudo montado com enorme cuidado. Duas mesas para lá, um americano traçava a mesma entrada com certo desleixo.

O prato principal veio com a devida pompa. Minha companhia preferiu camarão com pedaços de polpa de maçã (o nome do prato era outro, não conseguirei lembrar). Eu fui na carne animal mais nobre que existe. O maitre veio perguntar instantes depois se agradara. Quase chorei.

Para completar, uma torta de maçã com sorvete de pimenta jamaicana. Perfeição.

Para melhorar tudo, o restaurante não inclui os indigestos 10% no preço ao cliente. Nota-se uma certa tensão no ar, mas é só ignorar. Na mesa, os garçons colocam o cofrinho das contribuições para uma instituição que beneficia crianças. Escuto na mesa próxima o americano perguntar como faria se quisesse doar, “por exemplo”, quarenta reais.

CANVAS
Av. das Nações Unidas, 12901 – Mapa
11-2845-0000

Paleta de porco assada

Paleta de porco assadaO prato mais popular aqui em casa é, de longe, o assado de porco. A carne de porco é barata e relativamente saudável — mais gorda que o frango e peixe, menos gorda do que vaca, dependendo do corte. Já dei inúmeras receitas, mas essa semana uma descoberta me agradou particularmente.

Estou com um fogão novo e foi a primeira vez em que usei o forno. As paletas de porco estavam fatiadas um tanto finas e puxando exsudando muita água e gordura. O problema nisso é que a carne estava quase cozida e a forma estava cheia de líquido.

Pensei primeiro em drenar a forma, mas aí tive uma idéia melhor: fiz uma cama com batatas e cebolas fatiadas no fundo da forma e dispus a carne em cima. Assim, consegui o melhor de dois mundos: a carne ficou dourada e as batatas e cebolas adquiriram um sabor espetacular.

As paletas ficaram marinando por cerca de 18 horas em salmoura com suco de limão, alho, cebolinha, louro, alecrim, anis estrelado (um apenas), cravo (três apenas), zimbro, pimenta do reino branca e preta, pimenta da jamaica, coentro e mostarda — todos estes últimos em grãos.

O espírito Riversides

Neste domingo voltei a uma casa da rede Riversides após anos e anos. Não esperava muita coisa do novo Riversides Shikki Madero, aberto há poucas semanas na Zona Sul de Porto Alegre, mas fui surpreendido em minha baixa expectativa: a comida não estava medíocre, mas sim absolutamente intragável.

O Madero agrega ao sistema de bufê de grelhados, saladas e massas tradicional da rede um espeto corrido e a “sustentabilidade” — isto é, o restaurante foi planejado para causar o menor impacto ambiental possível e os alimentos são, na medida do possível, orgânicos. Atitude louvável. O lugar é também muito bonito e conta com estacionamento e serviço de manobrista.

Infelizmente, os proprietários parecem ter se preocupado apenas com o plano de marketing e com a decoração e esquecido de cuidar da cozinha. Só comi um prato bom lá, embora fosse realmente muito bom: um entrecôte orgânico macio como manteiga. O resto está da mediocridade para baixo. Simplesmente não consegui comer a paella de frutos do mar e um suposto “bacalhau à Madero”, no qual não encontrei uma lasca de bacalhau sequer. Desisti de pedir alguma das massas no balcão onde se pode escolher os ingredientes do molho, porque alguém na mesa pediu antes e o espaguete me pareceu estar com pensamentos suicidas. As saladas não eram menos depressivas e o agrião estava com gosto de hipoclorito de sódio.

As carnes do espeto corrido estavam razoáveis, mas pode-se comer muito melhor por bem menos que os R$ 32,90 do bufê/rodízio de domingo em diversas churrascarias de Porto Alegre. Há ainda sashimi a la carte por cerca de R$ 10 e um bufê de sobremesas pouco apetitosas por R$ 8,90.

Então, qual o motivo para comer no Riversides Shikki Madero, se o que não é repugnante é encontrável a preços mais baixos na concorrência? É a conveniência de encontrar algo para qualquer gosto num mesmo lugar. Se sua sogra só come bife e feijão com arroz, seu filho adolescente quer sushi, sua filha chata para comer quer espaguete ao sugo, sua esposa quer saladas por causa da dieta e você quer uma picanha sangrenta, o Riversides tem tudo isso num ambiente selecionado. Ou o caro leitor pensou que o segredo da longevidade da marca era a boa comida?

O Riversides já foi bom por um breve período há cerca de 15 anos, quando a primeira casa abriu no shopping Iguatemi. Ou talvez eu tivesse péssimo gosto na época. De qualquer modo, serviam um sushi honesto e um bufê com alguns ingredientes ainda pouco comuns em Porto Alegre a preços competitivos.

Isso durou mais ou menos até mecânicos e esteticistas da Zona Norte decidirem que era um programa muito chique se esbaldar num jantar a dois no Riversides — tinha salada de rúcula com tomates secos! — e passarem a comemorar seus aniversários por lá. Nada contra a pequena burguesia ir ao paraíso gastando seu dinheiro suado numa experiência gastronômica barroca. Eu mesmo creio ter levado alguma namoradinha para jantar no Riversides de então. O problema foi a reação do restaurante: juntar as mesas até você não conseguir mais distinguir sua conversa das conversas nas mesas vizinhas e passar a usar salmão enlatado no sushi. A queda na qualidade foi visível até mesmo para meu gosto adolescente.

Como esse modelo se estabeleceu e se tornou o espírito de todos os Riversides, evito ao máximo frequentar os estabelecimentos da rede desde então. Nem sempre dá. Se você por acaso se vir obrigado a comer no Riversides Shikki Madero, atenha-se ao entrecôte orgânico, à polenta e a alguma salada de folhas. Você nunca terá pagado tão caro por essas três coisas, mas ao menos evitará más recordações.

RIVERSIDES SHIKKI MADERO
Av. Wenceslau Escobar, 1598 – Mapa
51 3268-0288

Urucum

Há grandes chances de que o Urucum seja o melhor restaurante na região de Garopaba, uma colônia litorânea gaúcha em Santa Catarina. A cozinha da pousada Solar Mirador produz excelentes risotos e pescados e o cliente ainda pode admirar uma das melhores vistas da Praia do Rosa de uma imensa plataforma, enquanto bebe um aperitivo e aguarda a comida. A pousada em si é também muito bonita.

Os pratos servem duas pessoas e custam em torno de R$ 80. Sugiro encomendar uma entrada e um prato principal para duas pessoas, ou dois pratos principais para uma mesa com três. Começamos com o risoto Ilha do Mel: lula, polvo, camarão, coentro, tomate, alho, suco de laranja e cachaça envelhecida. A primeira garfada foi uma surpresa. Não esperava, sinceramente, um risoto tão bom. É perfeitamente úmido e o sabor aciona todos os tipos de papilas gustativas.

Em seguida, veio o robalo assado em folha de bananeira com vinagrete de doce de goiaba e purê de ervilhas. Outro prato excelente. O robalo assado por 50 minutos dessa maneira retém um gosto marinho pronunciado — até pronunciado demais para mim. O peixe é acompanhado de fatias de batata doce assada, bem crocantes, salpicadas com urucum. Ficam ótimas embebidas no molho.

A carta de vinhos é pequena, mas há boas opções. Escolhemos o clarete espanhol Tremendus, da vinícola Honorio Rubio. É um vinho de cor salmão, cujo mosto de uvas garnacha e viura passa uma noite macerando antes de seguir adiante no processo de fermentação. Bastante leve, sem ser suave. Custou uns R$ 10 a mais do que o preço de R$ 45 nas importadoras, ou seja, o Urucum não ganha muito em cima dos vinhos.

Gostaríamos de ter pedido sobremesa, mas desistimos quando o garçom informou levarem meia hora para cozinhar um prato de frutas flambadas na cachaça ou banana flambada com sorvete de creme. O brownie levaria apenas dez minutos, mas era comum demais para valer a pena. Talvez estivessem demorando tanto nas sobremesas porque havia pouca gente no restaurante, ou porque fosse tarde, e fosse preciso começá-las do zero; ainda assim levar 30 minutos para flambar qualquer coisa parece mais um eufemismo para “por favor, vá embora, estamos querendo fechar”. Por outro lado, o atendimento é simpático e eficiente.

Se estiver aproveitando alguns dias na Praia do Rosa ou em Garopaba e quiser investir num bom jantar, vá ao Urucum. Fica aberto o ano todo. Você não vai se arrepender.

URUCUM
Estrada Geral da Praia do Rosa – Mapa
48 3355-7330 ou 3355-6144

Comida curada

Mais um excelente blog sobre gastronomia: Food Curated. Liza de Guia cobre muito bem a cena gastronômica de Nova York, especialmente o Brooklyn — onde tem se formado um movimento de volta às tradições bem interessante. Os vídeos são muito bem feitos e há várias dicas boas para quem cozinha.

Indicação da Fernanda Aldabe.

Tainha na brasa

Tainha assadaUm dos restaurantes mais famosos de Garopaba, no litoral catarinense, é o Zanoni. O prato mais famoso do Zanoni é a tainha ou anchova assada na brasa. A beleza desse peixe é a simplicidade: apenas um bom braseiro, tempero quase indetectável e manteiga.

Conversando com o proprietário, descobrimos ser manteiga o segredo para deixar uma crosta crocante na tainha ou anchova. Outra dica é pedir ao peixeiro para cortar o peixe ao meio, abri-lo, de modo a acelerar e ao mesmo tempo homogeneizar o cozimento. Resolvi reproduzir em casa, com excelentes resultados.

Basta temperar a tainha com um pouco de sal e limão e levar à churrasqueira sobre o fogo alto, com a pele para baixo. Quando a pele tostar e começar a soltar da grelha, passe manteiga sobre a carne — gosto de usar um ramo de alecrim como pincel — e então virar. Assim que estiver tostado, está pronto. Cuide apenas para não deixar tempo demais na churrasqueira, ou a carne ficará seca.

Lua Palace

Lua PalaceA comida oriental talvez seja minha favorita, mas nunca havia provado a culinária coreana — sobre a qual sempre tive muita curiosidade, por causa do kimchi, uma tradicional conserva de legumes picante. Em O homem que comeu de tudo, Jeffrey Steingarten submete-se ao kimchi como forma de eliminar suas frescuras alimentares. Após a resistência inicial, torna-se fã da conserva. A Tati é outra fã de kimchi. Ela morou com uma coreana em Nova York e, como Steingarten, considerou o kimchi a princípio nauseabundo, mas terminou comprando potes para ter em casa. Então, fui ao Lua Palace preparado para enfrentar um desafio gastronômico.

O kimchi foi, porém, amor à primeira vista no meu caso. Esse restaurante coreano aberto em 1992 serve a tradicional versão feita com acelga ou couve chinesa, mas também o kimchi de folhas de nabo (na foto) e de berinjela. Conforme o gerente da casa — aliás, um coreano simpaticíssimo –, a preparação deles é um tanto ocidentalizada, menos picante que o normal. Gostei muito. Gostei tanto que fui à Liberdade procurar um pouco para trazer de São Paulo. Não há muito como descrever o sabor, mas certamente agrada a quem gosta de conservas e de pimenta.

Lua PalaceO prato principal da casa, no entanto, é o churrasco coreano. Ele é feito na mesa, usando um aquecedor elétrico e chapas de pedra besuntadas de óleo de gergelim. O cliente escolhe o tipo de carne e recebe uma série de acompanhamentos: kimchi, arroz, amendoim, brotos de feijão, tofu, salada e um tipo de pudim de ovos que não consegui entender muito bem. A carne vem temperada com um molho semelhante ao tarê e é grelhada na mesa. Entre as opções, há desde filé até língua. Pedimos costela para dois. O corte era de boa qualidade e o molho deixa um sabor muito diferente.

Os preços à primeira vista assustam, mas um churrasco de costela para duas pessoas (R$ 75) acabou servindo três pessoas e dá para repetir os acompanhamentos. Mal posso esperar para voltar ao Lua Palace e provar o espaguete de batata em caldo gelado de carne, pepino e nabo.

LUA PALACE
Av. Armando Ferrentini, 182 – Mapa
11 3277-7823

Empada no Prato

Outro dia, minha mãe ganhou de uma amiga e me deixou meia dúzia de empadas do Empada no Prato. Não conhecia essa fábrica e fiquei surpreso: são muito boas.

A massa podre é bem fina e o recheio é farto. Na empada de camarão, os crustáceos não apenas são visíveis a olho nu, como são grandes o suficiente para ser sentidos na mordida. Há também uma empada doce de maçã com passas, quase uma tortinha.

As empadas estão disponíveis em alguns cafés de Porto Alegre, mas o pessoal também aceita encomendas e entrega em casa. Fale com o Carlos Eugênio no telefone 51 9956-8983.

Azeite de oliva gaúcho

Azeite de oliva gaúchoOutro dia uma amiga me deu um frasquinho do primeiro azeite extravirgem produzido no Brasil. Ele vem de Caçapava do Sul, mais precisamente da chácara Cerro dos Olivais. É obra do advogado Guajará de Oliveira, que tem mais de 7 mil oliveiras plantadas na região. Ele distribuiu  recentemente para jornalistas estes frascos, resultado de uma das primeiras safras. Por enquanto, o olival rende algumas dezenas de quilos de azeite extravirgem por ano, mas a idéia é que em uns quatro ou cinco anos a produção esteja nas dezenas de milhares de quilos.

Não é o melhor azeite que já provei, mas também não faz feio. Além disso, as azeitonas ficam melhores à medida que as árvores envelhecem e o próprio Oliveira é o primeiro a admitir que há muita pesquisa pela frente. O projeto é muito legal, espero que ele tenha a mesma sorte dos produtores de vinho da Serra Gaúcha.

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