Os leitores mais antigos devem saber o quanto as dietas da semana e outras perversões alimentares são desprezadas por aqui. Durante o verão, entretanto, descobri um livro digno a respeito do assunto: Por que comemos tanto?, de Brian Wansink, psicólogo americano especializado em nutrição. A tradução brasileira não dá conta da idéia do tÃtulo original, Mindless eating, algo como “comendo sem se dar conta”. Em suas pesquisas num laboratório da universidade de Cornell, Wansink tenta descobrir quais são os elementos externos e internos que influem nos hábitos alimentares.
Conforme o pesquisador, o principal problema é acharmos que não somos influenciados por pistas externas tão aparentemente idiotas quanto o tamanho dos pratos e copos, as embalagens ou mesmo a música e iluminação de um restaurante. Algumas descobertas são grandes surpresas. Nossas expectativas quanto a uma refeição, por exemplo, interferem no paladar a tal ponto que pessoas comendo gelatina de limão tingida de vermelho vão acreditar estar comendo gelatina de cereja. Copos baixos e largos parecem ter menos lÃquido do que copos altos e finos, mesmo para barmen experientes. Outras descobertas não são tão surpreendentes, como o fato de a iluminação, música e nomes no cardápio de um restaurante nos incentivarem a pedir certos tipos de comida — e pagar mais caro ou mais barato por isso.
Wansink cita uma profusão de pesquisas, uma mais interessante do que a outra. Elas servem como base teórica para uma proposta diferente de controle do peso, que passa mais por mudar hábitos alimentares do que por fazer dietas rigorosas. Aliás, como psicólogo ele não acredita na eficácia a longo prazo da perda de peso com dietas restritivas. Para Wansink, é mais fácil e seguro usar os pontos cegos de nossa mente para nos “autoenganar”, diminuindo 100 ou 200 calorias por dia e perdendo alguns poucos quilos ao ano.
As sugestões vão desde comprar pratos menores e levá-los já servidos à mesa, para que pensemos estar comendo mais, até saber exatamente o que significam os apostos “light” e “diet” nas embalagens de certos produtos, para que não pensemos estar comendo menos. Simplesmente esconder os petiscos de nossa vista ou tirá-los do alcance do braço já serve para cortar umas poucas calorias por dia. Nada dramático, mas essa é a idéia. Dietas normais estão sujeitas à “tirania do momento”, que leva os pacientes a comer um chocolate ou tomar um milk-shake num momento de fraqueza. Uma dieta baseada na psicologia envolve mudanças de hábitos que evitam oportunidades para esse tipo de recaÃda.
Às vezes a voz interna diz “eu disse que não ia mais comer lanches de máquinas automáticas no trabalho, mas hoje o dia foi difÃcil”, ou “eu sei que eu ainda tenho de fazer meus exercÃcios hoje, mas é tarde — farei o dobro amanhã quando acordar”, ou “eu sei que deveria tomar só um cálice de vinho, mas esse é um excelente jantar e um excelente vinho”.
Só uma coisa é forte o bastente para derrotar a tirania do momento.
Hábito.
O livro não serve apenas a leitores preocupados com o peso, mas também traz informações essenciais para proprietários de restaurantes, cozinheiros e crÃticos de gastronomia que não queiram se deixar distrar dos atributos da comida em si pelos penduricalhos sensoriais.