Category: geração saúde

Molho para saladas de tahine com romã

Tenho por hábito, entre a primavera e o outono, comer apenas um prato de sala no jantar, acompanhado de ovos ou um pedaço pequeno de carne. É uma refeição leve para antes de dormir, além de ser bastante saudável. O problema é inventar formas de variar o sabor das verduras, já que raramente é possível fugir da combinação de alface, rúcula, agrião, radicci, mostarda ou chicória, os vegetais folhosos mais comuns no Rio Grande do Sul. Sobretudo no caso de consumir verduras orgânicas, de que há menos variedade ainda.

Há cerca de um ano, comecei a desenvolver um molho à base de tahine, ou pasta de gergelim, que se tornou meu favorito. Recentemente, tive a ideia de adicionar melado de romã e foi uma epifania! Este molho é extremamente simples de fazer e vai muito bem com verduras, tomate, pepino, figo e frutas secas como tâmara, damasco e uva-passa.

Molho de pasta de gergelim com romã

  • 1/2 xícara de tahine
  • 1 limão
  • 1 dente de alho
  • 1 colher de chá de sal
  • 1/2 colher de chá de melado de romã (recomendo a marca AlWadi)
  • Água

Sugiro misturar o molho no pote em que ele será guardado na geladeira, para não sujar louça à toa. Derrame o tahine no recipiente, exprema o limão em cima, adicione o sal e misture. Vá acrescentando água aos poucos e misturando até emulsificar. Repita o processo quantas vezes for necessário para atingir a consistência que você preferir, mas o ideal é que não fique muito fluido, para aderir bem às verduras.

Quando estiver satisfeito, acrescente o melado de romã e prove. Se achar necessário, vá aumentando a quantidade de melado, mas com cuidado, porque ele tem um sabor que tende a predominar sobre tudo o mais. Finalmente, corte o dente de alho ao meio e jogue os pedaços inteiros, mesmo, no molho. Assim, o alho vai conferindo gosto aos poucos enquanto a mistura descansa na geladeira.

Fantasias paleolíticas

Há quase um ano, tenho procurado manter um regime paleolítico de alimentação. Trata-se, basicamente, de uma dieta pobre em carboidratos e rica em gorduras e proteínas. Chama-se normalmente de dieta paleolítica, devido à sua premissa fundamental: o ser humano passou milhões de anos evoluindo num ambiente sem agricultura e, portanto, desprovido de grãos e açúcares, de modo que nosso código genético ainda não teve tempo de evoluir o suficiente para tolerarmos altas doses de amido e substâncias como glúten e lactose.

Conforme os proponentes da dieta paleolítica, ou somente paleo, a introdução de cereais, leite e, mais recentemente, altas doses de gorduras artificiais, açúcar e sal é o principal fator explicativo da desgraça que o ser humano se tornou. Essa defasagem genética explicaria o surto de obesidade, alergias, depressão, colesterol alto, diabetes, doenças cardíacas e gástricas, entre outros males. O proponente pioneiro foi o gastroenterologista americano Walter Voegtlin, nos anos 1970. Hoje, seus principais evangelistas são Robb Wolf, autor de The Paleo Solution, e Loren Cordain, que publicou o livro The Paleo Answer. No Brasil, o médico José Carlos Souto tem defendido o regime paleolítico.

Como todo regime alimentar que tem best-sellers de autores sempre disponíveis a palestrar e aparecer na televisão como seus principais disseminadores, uma boa dose de desconfiança é saudável. Dietas baixas em carboidratos, porém, têm sido pesquisadas desde os anos 1920, quando Vilhjalmur Stefansson voltou de uma temporada entre o povo Inuit do Ártico — uma região notoriamente desprovida de vegetais — em condições de saúde invejáveis. Em geral, os estudos mostram sensível melhora nos índices glicêmicos e de colesterol, sem prejuízos na absorção de nutrientes.

Stefansson, de fato, se dispôs a participar de um experimento no qual passou um ano inteiro comendo apenas carne. No início, sua saúde se deteriorou. Porém, quando Stefansson decidiu deixar de lado o conselho de um dos médicos supervisores, que havia implorado para que consumisse apenas carnes magras, e passou a ingerir mais gordura e, especialmente, miúdos como fígado e miolos, seu estado físico apresentou uma notável melhora.

De uma forma geral, então, a ciência em torno do regime paleolítico é sólida, apesar de contraintuitiva. Após décadas de propaganda a respeito dos males das gorduras animais, parece-nos suicídio se esbaldar diariamente em manteiga, costela gorda e bacon. Porém, é preciso ter em mente que uma relação de causalidade entre ingestão de colesterol e aumento dos níveis de colesterol ruim no sangue nunca foi comprovada — temos apenas estudos correlacionando um fato com o outro. É como afirmar que os guarda-chuvas causam temporais, porque sempre que há chuva há pessoas com guarda-chuvas abertos. O problema é que, em geral, quem ingere muito colesterol ingere também muito açúcar, amido, óleos artificiais, sal e outras substâncias problemáticas. Então, fica difícil isolar apenas as gorduras animais nos estudos.

O regime paleolítico — e uso regime, em vez de dieta, justamente para ressaltar o fato de ser um estilo de vida, não uma técnica para perder peso a ser aplicada por algumas semanas — envolve uma mudança completa na alimentação. Saem os pães, leite, legumes, grãos e permanecem as saladas, frutas, alguns tubérculos, castanhas, ovos e carnes. Certos adeptos levam a metáfora do paleolítico um pouco mais longe e passam a se exercitar como imaginamos que um caçador/coletor se exercitava, a dormir como um ser humano sem luz elétrica dormia, alguns até passam a calçar Vibrams e ficarem com ar de palhaços. Algumas destas práticas são saudáveis, outras, nem tanto, mas o ponto principal é que se baseiam em informações equivocadas a respeito do paleolítico, como aponta o livro Paleofantasy, escrito pela bióloga evolucionista Marlene Zuk.

Arqueólogos, antropólogos e biólogos reagem com indignação a diversas afirmações dos defensores do regime paleolítico. E com razão. A verdade é que não existem dados suficientes a respeito dos hábitos de nossos antepassados para formar um perfil alimentar e social confiável. Isso não impede, entretanto, os adeptos mais amalucados do estilo de vida paleo de adotarem o CrossFit e  fazerem proselitismo da poligamia, por exemplo — nada contra essas duas práticas em si mesmas, mas adotá-las com base em dados pouco confiáveis é idiotice. O trecho abaixo resume bastante bem a obra:

It’s common for people talk about how we were “meant” to be, in areas ranging from diet to exercise to sex and family. Yet these notions are often flawed, making us unnecessarily wary of new foods and, in the long run, new ideas. I would not dream of denying the evolutionary heritage present in our bodies—and our minds. And it is clear that a life of sloth with a diet of junk food isn’t doing us any favors. But to assume that we evolved until we reached a particular point and now are unlikely to change for the rest of history, or to view ourselves as relics hampered by a self-inflicted mismatch between our environment and our genes, is to miss out on some of the most exciting new developments in evolutionary biology.

Zuk desmonta as fantasias paleolíticas com dois argumentos principais: a evolução genética, na verdade, pode se dar em poucos séculos e, do ponto de vista da biologia, nunca há um momento no qual um organismo esteja perfeitamente alinhado a seu meio ambiente. Os seres humanos seguem evoluindo e se adaptando aos resultados da revolução neolítica. Além disso, mesmo num estado natural, o meio ambiente está em constante mutação e os seres vivos, portanto, sempre em defasagem em relação à natureza. Em síntese, não existe um estado de perfeição do organismo humano e, mesmo se existisse, nosso código genético já mudou muito nos últimos dez mil anos e o teríamos abandonado há milênios.

Um exemplo dessa adaptação é a permanência da lactase em alguns grupos étnicos. Embora os laticínios sejam demonizados no regime paleo, na verdade cerca de um terço dos seres humanos pode consumir leite sem problemas, em especial alguns grupos na África, Oriente Médio e norte da Europa. O resto da humanidade pode tolerar muito bem os laticínios fermentados, nos quais microorganismos realizam o trabalho da lactase — “quebrar” a lactose, o açúcar do leite. Noutras palavras, iogurtes, kefir e queijos não devem ser um grande problema para quem não tem alguma alergia grave a outros elementos do leite, como a caseína. A fermentação, aliás, prova que a tecnologia pode nos auxiliar a compensar em algum grau a defasagem genética em relação ao ambiente.

O próprio foco na genética é questionado por Zuk, porque em geral o DNA é tomado como fato determinante demais no ideário paleo. A biologia contemporânea já estabeleceu a existência de uma dinâmica entre o código genético e o meio ambiente. Simplificando bastante, os fatores ambientais levam alguns genes a se expressar e outros não, assim como modulam a força com a qual os genes serão expressos. Portanto, mesmo que o DNA humano estivesse estagnado no paleolítico, as forças ambientais geradas pela revolução neolítica ainda permitiriam algum grau de adaptação no nível individual.

Paleofantasy oferece uma grande quantidade de informação com autoridade científica e, em minha opinião, deve ser lido por todos os adeptos do regime paleo. O livro traz um bem-vindo arejamento a essa subcultura, que, como toda subcultura alimentar — veganismo, vegetarianismo, frugivorismo — tem uma tendência a produzir um elevado grau de fanatismo entre seus adeptos. Em termos mais diretos: há muitos fãs do estilo de vida paleolítico completamente malucos e ignorantes prestando  m grande desserviço aos novatos, ao espalharem a desinformação, e aos veteranos, ao pintarem uma imagem estereotipada do grupo todo.

O principal defeito do livro é o mesmo defeito de muitos fóruns de debates sobre o regime paleolítico: esquecer-se de que o homem das cavernas é apenas uma metáfora para uma abordagem contraintuitiva da alimentação. No fim das contas, o único debate relevante é sobre os resultados fisiológicos da alimentação paleo. O livro de Zuk, infelizmente, não discute os benefícios ou malefícios desta dieta para a saúde de seus adeptos.

Neste ponto, só posso contribuir com minha experiência pessoal. Em cerca de um ano de regime paleolítico, emagreci mais de dez quilos sem controlar a quantidade de comida ingerida, apenas o tipo — a ponto de amigos e colegas começarem a perguntar se estou doente. Mas meu objetivo principal não era emagrecer e, sim, melhorar a saúde. Além da perda de peso, bastante benéfica, estou mais disposto e me alimentando melhor, com mais verduras e frutas.

Quanto ao colesterol, um receio razoável de todos os que pensam em adotar o regime paleo, meus índices se mantiveram dentro dos padrões normais e os triglicerídeos, antes acima do nível desejável, caíram. Embora o HDL esteja no limite máximo desejável, é preciso levar em conta que, pela teoria nutricional predominante, meu colesterol ruim deveria ter disparado com uma dieta baseada em gordura animal. E isso não ocorreu.

A grande vantagem deste estilo de vida é sua simplicidade. É muito mais fácil cortar todos os cereais e legumes do que seguir listas imensas de recomendações de um nutricionista, ficar pesando ou medindo porções etc. Ao mesmo tempo, cortar os grãos e óleos artificiais elimina praticamente todos os produtos industrializados de sua dieta, trazendo imensos benefícios paralelos à saúde. Ao contrário do veganismo, você jamais terá de se explicar num evento familiar ou restaurante, a não ser que o convidem para ir a uma pizzaria — e, mesmo assim, você até poderá comer pizza uma vez ou outra, sem problemas, porque não se trata de uma questão ética. É uma dieta fácil de manter a longo prazo, porque não se está preocupado em perder peso ou se restringindo a um cardápio monótono, mas se tem como objetivo mudar a prórpia visão sobre a alimentação.

Se eu recomendaria o regime paleolítico a alguém? Não! Não sou médico ou nutricionista. Caso esteja interessado, pesquise o assunto a fundo e avise seu médico. Leve a dieta a sério, porque oscilar entre o nível normal de consumo de carboidratos e o regime paleo pode causar danos à saúde, mas coma um sorvete ou chocolate de vez em quando. Em especial, observe a si mesmo e exerça o senso crítico.

Ironia do universo

Um estudo realizado com mais de 50 mil britânicos descobriu que uma dieta vegetariana previne todos os tipos de câncer — o que era esperado — menos um: os tumores do intestino grosso e do reto — o que é inusitado, pois esses tumores sempre foram apontados como resultado do consumo de carne. De fato, os vegetarianos apresentaram incidência maior de tumores colorretais.

É apenas um estudo, então não se pode fazer nenhuma generalização sem aprofundar a pesquisa e, principalmente, compará-la com dados de outras regiões e culturas. Talvez o fator que causou esse resultado seja específico do Reino Unido. Ou talvez, no fim das contas, a carne vermelha não seja tão prejudicial ao organismo quanto se pensa.

Esse resultado, de qualquer modo, combina com duas crenças totalmente não-científicas que sempre mantive:

  • Vegetarianos apresentam índices menores de certas doenças não porque evitem a carne, mas porque sua dieta os leva a consumir mais nutrientes na forma de verduras, legumes, frutas e grãos integrais. Além disso, em geral os vegetarianos levam um estilo de vida mais saudável.
  • A idéia de que nosso sistema digestivo não foi feito para comer carne é uma idiotice.

Portanto, parece-me que é possível eliminar os “malefícios” da dieta onívora simplesmente adicionando mais grãos integrais e vegetais às refeições.

Alternativa aos fiambres

Sanduíche abertoSou provavelmente dos leitores menos crédulos de artigos científicos a respeito dos males e benefícios causados pela presença de um ou outro alimento na dieta. Ainda assim, anos de leituras têm me convencido de que comer salames, patês, salsichas, copas e presuntos demais é prejudicial. O problema são os nitritos usados na conservação de carnes curadas e frios, que, além de conter muito sódio, são cancerígenos.

Como moro em apartamento, não posso ter um defumador nem um secador de embutidos, para produzir meus próprios fiambres. Uma alternativa é ter sempre alguma carne assada na geladeira, para usar nos sanduíches. Um corte que se presta bastante bem é o filezinho ou picanha de porco. Rende mais do que pernil e é mais barato que o lombo. Basta temperá-lo com sal, pimenta, alho e levar ao forno por 30 a 40 minutos. Sempre asso duas peças juntas, uma delas para servir de almoço ou jantar.

Você pode e deve variar os temperos, até chegar numa combinação que lhe agrade mais. Um bom acréscimo recente nas minhas tentativas é besuntar com Tabasco chipotle.

“Ele era um homem de estômago descontrolado”

Conforme o New York Times, nos Estados Unidos as dietas ricas em proteínas e doces estão democratizando a gota, doença conhecida como “o tormento dos reis”. O apelido carinhoso dado a esse problema de saúde nada carinhoso para com os afetados se deve ao fato de antigamente apenas os ricos terem acesso ilimitado — ou ao menos suficiente — aos alimentos responsáveis pela elevação dos níveis de ácido úrico no sangue, como carne de gado, frutos do mar e cerveja. A dieta ocidental contemporânea acrescentou os açúcares a essa lista.

Os laboratórios já estão de olho nesse mercado que se abre especialmente em razão da longevidade maior do ser humano. Há cerca de um século a maioria das pessoas morria antes de desenvolver gota. Hoje, vivemos muito mais tempo para acumular ácido úrico suficiente nas articulações. Não parece que pessoas sensatas precisem se preocupar muito, porém. Excetuando-se as condições genéticas, é preciso algum esforço em se alimentar mal para chegar lá: doces industrializados, carnes e cerveja todo dia, ou algo assim, sem o contraponto alimentar de vegetais, frutas e laticínios.

O título é uma tradução livre de Henrique VIII, de Shakespeare. Consta que o serelepe rei inglês sofria desse mal.

Por que ler os clássicos

Há pessoas que se pri­vam de toda e qualquer coisa comestível, bebível e fumável que tenha certa má fama. Pagam esse preço pela saúde. E saúde é só o que recebem em troca. Eles mesmos me disseram isso. Que estran­ho; é como pagar todo o dinheiro que se tem por uma vaca que já não dá leite.

Sábias palavras de Mark Twain (dizem, não foi possível verificar).

Mitos do vegetarianismo

Um excelente artigo de Stephen Byrnes desmonta diversos mitos a respeito da dieta vegetariana e carnívora e me faz lembrar um dos meus passatempos favoritos: pesquisar sobre a filosofia alimentar mais adequada. É longo e em inglês, mas vale a pena ler — até porque é um dos poucos artigos sobre nutrição fora de periódicos científicos que cita fontes acadêmicas, montes delas. Estou para ver um artigo defendendo o vegetarianismo ou — Deus nos ajude! — o veganismo que ofereça referências sólidas. Quando confrontados com esse tipo de questionamento, aliás, os veganos e vegetarianos costumam responder que essas fontes não existem ou não chegam a público por “pressão da indústria alimentícia”. Ahn-hã.

Se há pressão da indústria alimentícia, deveria ser justamente para vender dietas com baixos teores de colesterol e gorduras animais. De fato, a desinformação da indústria foi responsável por vender a margarina como alternativa saudável à manteiga após as guerras mundiais do início do século XX, como forma de desovar os resíduos da produção de óleos vegetais. Como todos devem saber a essa altura, as gorduras “trans” da margarina são completamente nocivas ao organismo. De fato, o artigo de Byrne sugere o abandono dos carboidratos refinados e carnes curadas em favor de carnes frescas e alimentos integrais e orgânicos. Nada poderia ser mais contrário aos interesses da indústria de alimentos.

Recentemente entrevistei Steve Ettlinger para a revista Vida Simples, a respeito do livro Twinkie, deconstructed, no qual o jornalista americano mostra a origem dos ingredientes usados em alimentos processados e todo o aparato técnico, social e econômico necessário para criar guloseimas. Ettlinger diz que

Comida fresca não dá dinheiro para a indústria alimentícia. Então, a única maneira pela qual eles podem fazer dinheiro é adicionando algo pelo qual se tenha de pagar, como uma embalagem atraente. Veja os flocos de milho. As empresas ganham muito mais vendendo cereais matinais do que vendendo milho. Então, quanto mais nós discutimos e aprendemos sobre isso, pior é para a indústria. Não vale a pena para eles informar o consumidor.

O artigo de Byrne evidencia que no fim das contas a melhor dieta é aquela que seus avós recomendariam: privilegiar os alimentos frescos e evitar o excesso de carboidratos refinados e gorduras vegetais. Ao menos os meus avós sempre comeram muita carne e frutas e nunca confiaram em margarina. Já doces costumavam ser um agrado raro e quase sempre feito em casa. Todos eles estão entre os 70 e 80 anos de idade, fora o avô materno, morto por complicações causadas por erro médico. Parece ser uma boa filosofia alimentar. Como recomenda Michael Pollan, não coma nada que não apodreça.

Os argumentos pró-onivorismo podem ser resumidos numa citação de uma pesquisa transcultural sobre nutrição:

Humans have always been meat-eaters. The fact that no human society is entirely vegetarian, and those that are almost entirely vegetarian suffer from debilitated conditions of health, seems unequivocally to prove that a plant diet must be supplemented with at least a minimum amount of animal protein to sustain health. Humans are meat-eaters and always have been. Humans are also vegetable eaters and always have been, but plant foods must be supplemented by an ample amount of animal protein to maintain optimal health.

A melhor filosofia alimentar é aquela baseada na antropologia. Se nenhuma sociedade até hoje se deu o luxo de eliminar completamente ovos, laticínios e carnes, deve haver algum bom motivo. Afirmar que nossas doenças contemporâneas provém desses hábitos milenares é absurdo. Uma visão histórica mostra que a principal diferença entre nós e os homo sapiens primitivos são os alimentos industrializados. Logo, se é para atribuir doenças a algum fator nutricional específico, o processamento excessivo da comida é o suspeito mais razoável, não a carne.

A psicologia da alimentação

Os leitores mais antigos devem saber o quanto as dietas da semana e outras perversões alimentares são desprezadas por aqui. Durante o verão, entretanto, descobri um livro digno a respeito do assunto: Por que comemos tanto?, de Brian Wansink, psicólogo americano especializado em nutrição. A tradução brasileira não dá conta da idéia do título original, Mindless eating, algo como “comendo sem se dar conta”. Em suas pesquisas num laboratório da universidade de Cornell, Wansink tenta descobrir quais são os elementos externos e internos que influem nos hábitos alimentares.

Conforme o pesquisador, o principal problema é acharmos que não somos influenciados por pistas externas tão aparentemente idiotas quanto o tamanho dos pratos e copos, as embalagens ou mesmo a música e iluminação de um restaurante. Algumas descobertas são grandes surpresas. Nossas expectativas quanto a uma refeição, por exemplo, interferem no paladar a tal ponto que pessoas comendo gelatina de limão tingida de vermelho vão acreditar estar comendo gelatina de cereja. Copos baixos e largos parecem ter menos líquido do que copos altos e finos, mesmo para barmen experientes. Outras descobertas não são tão surpreendentes, como o fato de a iluminação, música e nomes no cardápio de um restaurante nos incentivarem a pedir certos tipos de comida — e pagar mais caro ou mais barato por isso.

Wansink cita uma profusão de pesquisas, uma mais interessante do que a outra. Elas servem como base teórica para uma proposta diferente de controle do peso, que passa mais por mudar hábitos alimentares do que por fazer dietas rigorosas. Aliás, como psicólogo ele não acredita na eficácia a longo prazo da perda de peso com dietas restritivas. Para Wansink, é mais fácil e seguro usar os pontos cegos de nossa mente para nos “autoenganar”, diminuindo 100 ou 200 calorias por dia e perdendo alguns poucos quilos ao ano.

As sugestões vão desde comprar pratos menores e levá-los já servidos à mesa, para que pensemos estar comendo mais, até saber exatamente o que significam os apostos “light” e “diet” nas embalagens de certos produtos, para que não pensemos estar comendo menos. Simplesmente esconder os petiscos de nossa vista ou tirá-los do alcance do braço já serve para cortar umas poucas calorias por dia. Nada dramático, mas essa é a idéia. Dietas normais estão sujeitas à “tirania do momento”, que leva os pacientes a comer um chocolate ou tomar um milk-shake num momento de fraqueza. Uma dieta baseada na psicologia envolve mudanças de hábitos que evitam oportunidades para esse tipo de recaída.

Às vezes a voz interna diz “eu disse que não ia mais comer lanches de máquinas automáticas no trabalho, mas hoje o dia foi difícil”, ou “eu sei que eu ainda tenho de fazer meus exercícios hoje, mas é tarde — farei o dobro amanhã quando acordar”, ou “eu sei que deveria tomar só um cálice de vinho, mas esse é um excelente jantar e um excelente vinho”.

Só uma coisa é forte o bastente para derrotar a tirania do momento.

Hábito.

O livro não serve apenas a leitores preocupados com o peso, mas também traz informações essenciais para proprietários de restaurantes, cozinheiros e críticos de gastronomia que não queiram se deixar distrar dos atributos da comida em si pelos penduricalhos sensoriais.

Garfada em momento Mondo Estudo

Palavras mais verdadeiras jamais foram publicadas: Tofu pode elevar risco de demência, diz estudo. Obrigado, BBC Brasil e pesquisadores da Universidade de Loughborough, por confirmar todos os meus preconceitos.

Comida não é remédio

Se ainda não veio à sua cabeça a expressão, aqui está ela: bom senso. Pois é, nesse caso não dá para variar. E bom senso significa não exagerar nem no consumo nem na privação. Quer um exemplo? A exclusão de carne vermelha da dieta é responsável por carências de ferro e vitamina B12, nutrientes fundamentais para o organismo. Mais: de nada adianta seguir cegamente dietas como a japonesa e a mediterrânea, tidas como as mais saudáveis, sem levar em conta que você não vive no Japão ou às margens do Mediterrâneo. Uma dieta para ser equilibrada e prazerosa tem de se combinar ao ambiente em que se vive e à genética de cada um. Coma de tudo um pouco e tente transformar o ato de comer numa experiência mais agradável do que se restringir a uma porção de brócolis ou se entupir de frituras. De vez em quando, dá vontade de comer um hambúrguer? Não se prive desse prazer. Coma com calma, sem tanta gordura pingando no prato. Esforce-se para que pelo menos uma de suas refeições diárias seja uma experiência estética e, com o perdão da palavra, sinestésica. Tente melhorar a apresentação dos pratos, capriche na combinação dos alimentos e no seu colorido.

Por incrível que pareça, o trecho acima é de uma reportagem da revista Veja. Depois de anos criando histeria na população alfabetizada com capas mostrando os vilões ou heróis da alimentação, essa semana a revista vem com uma capa pregando (de cuecas) o bom senso à mesa. É claro, não resistem à tentação de incluir um quadro com os alimentos mais benéficos ao organismo e com as dietas de algumas pessoas — todas dietas de fome, é claro –, contrariando a proposta da pauta, que era redimir o arroz com feijão e bife com um chocolatinho de sobremesa. Ou ao menos é o que vende a capa, com a manchete: “Você é o que come? Sim, mas saiba por que é um erro escolher os alimentos como se fossem remédios”.

Se está pensando em comprar a revista para saber quais são as indicações e o que foi tirado do índex dos nutricionistas, poupe seu dinheiro. O único trecho que presta é o reproduzido acima. De resto, doces, carnes e fast-food continuam proibidos. A dica de Michael Pollan continua sendo mais útil: não coma nada que não apodreça.

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