Comendo na Colômbia

BogotáPassei dez dias em Bogotá com a Tati neste fevereiro. Como sempre, foi uma viagem em grande parte de turismo gastronômico. Estava muito ansioso para descobrir os pratos exóticos da América Latina equatorial. Nisso a Colômbia certamente não decepciona. A comida do dia-a-dia lá é bastante diferente da nossa, uma mistura de culinária espanhola, andina, africana, caribenha e crioula.

Um aviso aos navegantes mais entusiasmados: esqueçam o famoso café colombiano. É incrível, mas num país tão dependente do grão, ninguém consegue preparar uma xícara de café que preste. Os tintos são todos insípidos. Para terem uma idéia, a o desespero me fez descobrir um método de acrescentar algum sabor a café fraco. Basta colocar algumas pitadas de açúcar — quem me conhece sabe que considero adoçar o café uma heresia. Quando quiser sentir o gosto verdadeiro de café, vá a alguma loja da rede Juan Valdéz.

BogotáO mais surpreendente foi descobrir os hábitos de desjejum dos colombianos. Em geral, toma-se uma sopa ou come-se tamales. As sopas podem ser um caldo de costela, com cebola, coentro e batata, ou então uma changua, um caldo de leite com cebola, coentro, pedaços de pão e um ovo pochê. Tudo isso acompanhado de arepas, panquecas feitas com milho tão branco que, a princípio, pensamos serem feitas de yuca — o nome deles para mandioca. Outro prato popular no café da manhã é o arroz com ovo frito.

A Colômbia tem muitas frutas tropicais diferentes das brasileiras. Virei fã do suco de lulo, um descendente do tomate. Outro suco excelente é feito com o tomate de árvore (tomate de árbol). Muitos pratos salgados e doces usam a uchuva, ou camapu. Graviola (guanabana), goiaba (guayaba), abacaxi (piña) e mamão (papaya)  são outras frutas bem presentes no cotidiano culinário. Não cheguei a provar curuba, mas comprei um pote de geléia.

Os doces são bem parecidos com os brasileiros, com direito a muita cocada e rapaduras. Aliás, em qualquer supermercado se encontra blocos de rapadura. O doce de leite, chamado arequipe, é onipresente.

O milho e as batatas, evidentemente, são alguns dos ingredientes mais comuns nas refeições. A carne mais consumida é a de frango. Em toda esquina há um estabelecimento servindo “broaster” — suponho que queiram dizer roasted — ou gallina criolla. Em Tunja, havia um lugar chamado “Colombian Broaster”, ao lado do qual um gaiato abriu o “El triunfo de la gallina criolla”. A carne de vaca vem em segundo lugar, mas não se compara em qualidade às reses dos pampas. Porco também aparece em qualquer cardápio. Quanto aos frutos do mar, não vimos muitos, porque estávamos longe do litoral, mas a truta pode ser encontrada quase em qualquer lugar.

Adquiri o livro Secretos de la cocina colombiana, de Patricia McCausland-Gallo. À medida que for testando receitas, publico-as aqui. Segue uma lista dos restaurantes, por ordem de satisfação. Bogotá é uma boa cidade para a gastronomia, com restaurantes melhores a preços menores do que a maioria das cidades brasileiras. A maior parte dos lugares foi descoberta no guia Vive.in, que tem referências bem confiáveis.

Tenha em mente que em Bogotá se janta cedo. A maioria dos restaurantes fecha em torno das 21:00 nos dias de semana, exceto na Zona Rosa. Na verdade, os bares também não ficam abertos até muito tarde. Parece que os colombianos privilegiam o almoço. E prepare-se para ouvir muita salsa e rumba durante as refeições, às vezes em volumes perturbadores.

Bogotá

BogotáNazca — Na verdade, serve comida peruana, principalmente ceviche. A melhor refeição da viagem, irretocável tanto na qualidade da comida quanto na do serviço. Ainda por cima, o lugar é belíssimo. Na entrada, uma recepcionista pediu minha mochila e mandou guardá-la. Pensei estar em uma armadilha para gente metida a cool, mas logo no couvert a impressão se desfez. Recebemos pãezinhos e um pote de manteiga misturada com pisco, sal e pimenta. Como entrada, pedimos tequeños, rolinhos de massa fritos com recheio de lagostim e queijo e molho de ají amarelo. Pensei que o queijo ia neutralizar o lagostim, mas estava enganado. O chef conseguiu equilibrar perfeitamente os dois sabores. Os pratos principais foram ceviche do pacífico, o mais tradicional, e ceviche dos hermanos, que leva o ají amarelo. Ambos espetaculares. Vinham com milho tostado, o que dava uma crocância a certos bocados. Para a sobremesa, sorvete de lúcuma com chocolate e tartelete de chocolate com sorvete de doce de leite e manga refogada no pisco. Tudo ótimo e por um preço razoável, pouco mais de R$ 120 para duas pessoas, incluindo bebidas e café.

BogotáDonostia –É um dos restaurantes mais queridos de Bogotá. Fica em uma casa colonial bem minúscula na região da Macarena, perto do Centro Internacional. É bastante freqüentado na hora do almoço e só abre para o jantar sexta e sábado. Lugar despretensioso, cujo chef vai pessoalmente ao mercado todo dia buscar os melhores ingredientes. De qualquer mesa do salão pode-se ver os cozinheiros trabalhando. O couvert eram fatias de pão camponês com uma mistura de azeite e tomate para molhar. Como entrada, fomos na salada de feijão, abacate e suco de limão e na sopa de batatas crioulas com morcilha e coulis de coentro. Ambas deliciosas, embora não tenha sido possível identificar o papel do coulis de coentro na sopa. Os pratos principais foram a chuleta de porco com molho barbecue e purê de batatas com queijo e um hambúrguer de cordeiro sobre arepa de milho verde e molho hogao. Francamente, o primeiro molho churrasco que não me fez enjoar na segunda garfada. Não pedimos sobremesa, porque a comida era muita. Com suco de tangerina e graviola e café, a conta deu R$ 120 para os dois.

Casa Vieja — Sem dúvida o melhor restaurante para se conhecer a cozinha típica da Colômbia. Há quatro casas em Bogotá, nós fomos na da Avenida Jiménez, a mais antiga. O atendimento é impecável, o pessoal tem mutia paciência para explicar aos estrangeiros o que é cada ingrediente. Pedimos como entrada os caramiñoles de carne, bolinhos cuja massa é à base de mandioca. Meu prato principal foi o famoso ajiaco bogotano, uma sopa feita com três tipos de batatas diferentes, galinha, milho e servida com creme de leite, abacate e alcaparras. A Tati pediu o lombo de porco com geléia de uchuvas e batatas assadas com queijo. Para a sobremesa, um prato com doces típicos da região, como doces de figo, de goiaba e de papayuela, doce de natas e doce de leite. Estava tudo impecável e pagamos R$ 80, incluindo bebidas e café.

BogotáLa puerta falsa — Trata-se de um boteco quase na praça Simón Bolívar, a principal de Bogotá. É o estabelecimento mais antigo em operação na Colômbia e seu cardápio é bem simples: serve lanches como tamales, chocolate santaferreño, doces e sucos. É um dos melhores chocolates quentes e o melhor tamale que já comi.

Tapas Macarena — O primeiro lugar a que fomos em Bogotá. Era domingo e não havia mais nada aberto. Não esperávamos muito, portanto foi uma grata surpresa provar os lagostins ao estilo cajun, a galinha frita com molho cajun e as batatas bravas, com molho de queijo derretido e bastante pimenta, tudo ótimo. Ficamos tomando Club Colômbia, a cerveja local, enquanto o bar se enchia de amigos dos proprietários. Logo o dono anunciou que o balcão estava franqueado, e todos começaram a preparar caipirinhas. Acabamos incluídos na conversa e trocamos algumas idéias com os nativos. Uma opção muito simpática para a noite.

D’S Madre — Esse bar na Zona G é um dos mais elogiados nos guias de restaurantes bogotanos. É especializado em coquetéis — todos absurdamente caros, coisa de R$ 20 para cima — e serve uma fusão de culinária oriental com tex-mex. Pode parecer bizarro, mas é bastante competente. Aqui comemos como entrada wontons de galinha com molho agridoce e pasteizinhos de porco com molho de soja. Destaque para o molho de soja, feito em casa e com um sabor fenomenal, nada parecido com os shoyus da vida. Os pratos principais foram medalhões de rês com molho de curry verde e arroz com coco e salmão com molho de mexilhões e soba. Não foi espetacular como os anteriores, mas é comida fusion competente, coisa rara de se ver. Com bebidas, pagamos R$ 100.

La arepa cuadrada — É um boteco que serve arepas na versão paisa (apenas com manteiga), queijo (essa vem no formato de uma bola) e carne. O pulo do gato é as arepas serem preparadas em uma grelha a fogo de madeira, o que dá um sabor e textura especiais. Aqui também se pode tomar a aguapanela, uma bebida quente feita com açúcar derretido em água e temperos. Enquanto come, ainda pode admirar a cena da proprietária mal-humorada do lugar tricotando e ralhando com a atendente. Aliás, a expressão “la arepa se puso cuadrada” significa que alguma coisa deu errado ou desceu mal — as arepas em geral são redondas. Fica na Candelária, Calle 14, entre as Carreras 3 e 2.

Food and Rice — A proposta é boa: um restaurante especializado em arroz, cujo cardápio oferece a possibilidade de montar um prato escolhendo ingredientes, ou receitas remetendo a diferentes cozinhas mundiais. Na prática, a comida é péssima. Não vá.

Quando ficar cansado de provar alimentos exóticos, sugiro os sanduíches e wraps da cadeia de fast-food Charlie’s Roastbeef, ou os crepes salgados e doces da Crepes and Waffles.

Villa de Leyva

Esse bonito vilarejo na cordilheira não é um bom lugar para gastrônomos. Como em toda pequena cidade que vive do turismo, a maioria dos restaurantes pretende oferecer de tudo, desde pizza até pescado, e acaba não fazendo nada direito. Demos azar, porque o supostamente melhor lugar da cidade, o árabe Zarina, estava fechado durante a semana.

Villa de LeyvaCasa Dulce — Perto da praça principal, é provavelmente o melhor lugar para comer na cidade, embora só sirva lanches. Os patacones, rodelas de massa de banana fritas e servidas com queijo ou hogao, são o carro-chefe. Também serve boas arepas e bons sucos. É uma confeitaria, mas não experimentamos os doces. O atendimento é informal e atencioso. Fomos duas vezes lá.

La Terraza — Este restaurante nos arcos da Plaza Mayor se esforça em servir boa comida a preços médios, ao contrário do resto das armadilhas para turistas. Comemos lá o melhor pedaço de carne de gado de toda a viagem, o lomo de res com molho mexicano. O molho era bem razoável, picante na medida certa. A chuleta de porco com molho de tangerina, por outro lado, não atinge o mesmo sucesso. Bom mesmo é o molho de limão e mel da salada. A vista da praça é uma das melhores. Um jantar para dois, sem sobremesa, saiu R$ 60.

Portales — Fica ao lado do Terraza, mas é um restaurante sem absolutamente nenhum atrativo. Comi uma sobrebarriga con hogao que era apenas decente. Ainda por cima, custa o mesmo que comer no Terraza, R$ 60 para duas pessoas.

Sazón y Sabor — Tomamos um café da manhã nesse estabelecimento também na praça principal. Não tenho reclamações sobre a changua e nem sobre a seleção de pães com queijo e chocolate que serviram.

14 Comentários

  • By tati, 14/02/2009 @ 04:24

    Inevitável acrescentar que o ceviche vinha não só com milho tostado, mas também com abóbora, bem adocicada. Faz parte do retrato de uma experiência deliciosa.

    :*****

  • By Rosenilda Silva, 30/05/2009 @ 18:37

    estou tentando aprender espanhol e no curso estamos na semana da cultura.Nossa turma ficou com a Colombia, e eu ,com a gastronomia.Adorei todas as informações.Vou tentar fazer um prato “regional” para os colegas.
    Valeu…

  • By Rosenilda Silva, 30/05/2009 @ 19:51

    estou tentando aprender espanhol e no curso estamos na semana da cultura.Nossa turma ficou com a Colombia, e eu ,com a gastronomia.Adorei todas as informações.Vou tentar fazer um prato “regional” para os colegas.
    Valeu…
    Rose

  • By bruna, 08/07/2009 @ 12:10

    po eu procuro uma coisa e vem outra completamente diferente se organiza ai blz

  • By Luh, 17/09/2009 @ 20:08

    Olha eu axei sim
    bem interessante mais eu
    qeria mesmo achar um doce
    típico da Colômbia,qe os
    ingredientes fossem fáceis
    para preparar aqi no Brasil.
    Obs:Já comi os patacones são
    explêndidos!

  • By Kamiiola, 13/03/2010 @ 18:01

    estes pratos devem ser super nogentoos

  • By Kamiiola, 13/03/2010 @ 18:02

    que noojo, aquiilo no grafo é miinhoca verde?

  • By Elzanita, 19/02/2011 @ 18:25

    Gostaria de esclarecer que aguapanela, é preparada com rapadura (muitissimo consumida na Colombia) derretida e não com açucar. Quente, pode ser preparada com canela, limão, laranja, maçã, etc…como infusão, chá. Em climas quentes a aguapanela é preparada colocando-se a rapadura derreter em água gelada e acrescentando-se limão ao servir, como uma limonada, mas que adquire um sabor bem diferente da nossa limonada.

  • By Cris Nori, 22/04/2011 @ 23:26

    Estive procurando informações de comida de rua e restaurantes de Bogotá, mas notei que isto ainda é uma tarefa muito complicada.
    Foi de muito interesse meu, este seu depoimento.
    Estarei em Bogotá em 3 semanas. Quem sabe eu não refaça alguns dos seus passos, te mande uma pontuação para elas.
    De qualquer modo, obrigada por compartilhas suas observações Gastronômicas.

  • By cintia, 27/05/2011 @ 18:47

    Estive em Bogotá agora em maio e fui ao Nazca. confesso que fiquei maravilhada com tudo: comida, atendimento , ambiente e ainda consegui conhecer o chef : Miguel Castillo ,um peruano muito jovem,competente e gentil. ADOREI E RECOMENDO!!!!

  • By tania, 23/06/2011 @ 11:06

    achei tudo muito interessante,e consseguir muitas ideias para a feira da minha filha.

  • By Fabiano K, 03/08/2012 @ 23:38

    Você não foi ao Andrés Carne de Res? Não é só pela culinária mas o lugar é impressionante, uma decoração genial e o maior cardápio que já vi até hoje. As frutas da Colombia são de uma doçura que chega a impressionar e o preparo de carnes é excepcional, diferente do que temos no sul do Brasil, mas feito com uma técnica de fogo de chão que agrega muito sabor aos pratos. Sugiro comer em algum restaurante da rede Crepes & Waffles, não é alta gastronomia mas serve pratos bem criativos.

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