Brasileiro pode viver sem qualquer outra comida, menos feijão. É clichê, admito, mas há clichês necessários. No entanto, é um prato que comecei a praticar há pouco tempo, porque quando morava sozinho minha santa mãe fornecia potes de feijão congelado. Agora, casado, tive de aprender a cozinhá-lo, para poder alimentar a Tati. Ao menos para o meu gosto por um feijão de caldo mais espesso, bastante grão e bem temperado, acho até que superei a progenitora. Enfim, cada famÃlia tem sua receita própria e, agora que tenho a minha própria famÃlia, tenho o direito a uma receita de feijão própria também.
Há muitos tipos de feijão. O mais comum nos supermercados de Porto Alegre é o preto, mas prefiro usar sempre a variedade vermelha, de grãos maiores, especialmente os trazidos de Santa Catarina. O sabor não muda muito, mas o resultado é esteticamente superior. Essa receita serve para feijões pretos e provavelmente para a maioria das outras variedades.
Uma curiosidade: embora os brasileiros não vivam sem cozido de feijão, os pitagóricos eram proibidos de comê-los e até de tocá-los. Engraçado que na Grécia é um alimento bastante popular, numa versão grande e branca do grão, parecida com o feijão olho-de-cabra. Nenhum povo os come como os latino-americanos, porém. Nas outras culturas em geral os grãos são apenas coadjuvantes num outro prato ou acompanhamento na refeição. Aqui, é prato principal.
FEIJÃO COZIDO
- 1/2 quilo de feijão
- 2 lingüiças calabresas
- 1 pedaço de costelinha de porco defumada
- 1 cebola média
- Pimenta dedo de moça
- Louro
O feijão começa na véspera. O primeiro passo é escoher os grãos. O processo não é tão obsessivo quanto o nome pode fazer parecer. Simplesmente vire o meio quilo de feijão sobre uma mesa clara e vá separando pequenos punhados. Examine-os em busca de furos, mofo, sujeiras variadas e pedrinhas. Separe uns dos outros e vá enchendo uma tigela com os bons feijões. Quando terminar, encha a tigela de água e escorra umas três ou quatro vezes. Depois, coloque os feijões de molho na panela de pressão em que vai cozinhá-los e deixe amolecer por pelo menos seis horas.
No dia seguinte, pique a cebola e a pimenta dedo de moça — ou qualquer outra pimenta fresca que lhe agrade — , corte a lingüiça em rodelas e a costelinha em pedaços. Coloque tudo na panela junto do feijão e acrescente quatro ou cinco folhas de louro. Tampe e leve à fervura. Assim que a panela começar a expelir vapor, comece a contar 20 minutos de cozimento. Quando o tempo acabar, desligue o fogo e aguarde até que a panela não solte mais vapor quando você mover a válvula, só então abra. Alternativamente, coloque embaixo da torneira e despeje água fria até a tampa soltar.
Note que o sal não entrou até agora. Acontece que a lingüiça e a costelinha liberam sal ao ser cozidas e fica difÃcil calcular o quanto elas vão salgar o feijão, porque isso varia dependendo do peso e da marca. Não se preocupe, ainda haverá muito tempo para corrigir o sal do seu feijão.
Faça com que o cozido volte à fervura em fogo baixo e vá mexendo de vez em quando, acrescentando mais água se necessário, por pelo menos mais uma hora, ou até atingir a textura desejada. Este é um bom momento para colocar outros temperos mais delicados, como manjerona, por exemplo, no seu feijão. Perto do final, verifique se está suficientemente salgado e corrija se for necessário.
Recomendo o molho de pimenta Tabasco para dar maior colorido, especialmente o Habanero. Também ando gostando muito da variedade Chipotle. Outra sugestão é farinha de mandioca, um excelente agregador para o caldo que fica no prato.