Fantasias paleolíticas

Há quase um ano, tenho procurado manter um regime paleolítico de alimentação. Trata-se, basicamente, de uma dieta pobre em carboidratos e rica em gorduras e proteínas. Chama-se normalmente de dieta paleolítica, devido à sua premissa fundamental: o ser humano passou milhões de anos evoluindo num ambiente sem agricultura e, portanto, desprovido de grãos e açúcares, de modo que nosso código genético ainda não teve tempo de evoluir o suficiente para tolerarmos altas doses de amido e substâncias como glúten e lactose.

Conforme os proponentes da dieta paleolítica, ou somente paleo, a introdução de cereais, leite e, mais recentemente, altas doses de gorduras artificiais, açúcar e sal é o principal fator explicativo da desgraça que o ser humano se tornou. Essa defasagem genética explicaria o surto de obesidade, alergias, depressão, colesterol alto, diabetes, doenças cardíacas e gástricas, entre outros males. O proponente pioneiro foi o gastroenterologista americano Walter Voegtlin, nos anos 1970. Hoje, seus principais evangelistas são Robb Wolf, autor de The Paleo Solution, e Loren Cordain, que publicou o livro The Paleo Answer. No Brasil, o médico José Carlos Souto tem defendido o regime paleolítico.

Como todo regime alimentar que tem best-sellers de autores sempre disponíveis a palestrar e aparecer na televisão como seus principais disseminadores, uma boa dose de desconfiança é saudável. Dietas baixas em carboidratos, porém, têm sido pesquisadas desde os anos 1920, quando Vilhjalmur Stefansson voltou de uma temporada entre o povo Inuit do Ártico — uma região notoriamente desprovida de vegetais — em condições de saúde invejáveis. Em geral, os estudos mostram sensível melhora nos índices glicêmicos e de colesterol, sem prejuízos na absorção de nutrientes.

Stefansson, de fato, se dispôs a participar de um experimento no qual passou um ano inteiro comendo apenas carne. No início, sua saúde se deteriorou. Porém, quando Stefansson decidiu deixar de lado o conselho de um dos médicos supervisores, que havia implorado para que consumisse apenas carnes magras, e passou a ingerir mais gordura e, especialmente, miúdos como fígado e miolos, seu estado físico apresentou uma notável melhora.

De uma forma geral, então, a ciência em torno do regime paleolítico é sólida, apesar de contraintuitiva. Após décadas de propaganda a respeito dos males das gorduras animais, parece-nos suicídio se esbaldar diariamente em manteiga, costela gorda e bacon. Porém, é preciso ter em mente que uma relação de causalidade entre ingestão de colesterol e aumento dos níveis de colesterol ruim no sangue nunca foi comprovada — temos apenas estudos correlacionando um fato com o outro. É como afirmar que os guarda-chuvas causam temporais, porque sempre que há chuva há pessoas com guarda-chuvas abertos. O problema é que, em geral, quem ingere muito colesterol ingere também muito açúcar, amido, óleos artificiais, sal e outras substâncias problemáticas. Então, fica difícil isolar apenas as gorduras animais nos estudos.

O regime paleolítico — e uso regime, em vez de dieta, justamente para ressaltar o fato de ser um estilo de vida, não uma técnica para perder peso a ser aplicada por algumas semanas — envolve uma mudança completa na alimentação. Saem os pães, leite, legumes, grãos e permanecem as saladas, frutas, alguns tubérculos, castanhas, ovos e carnes. Certos adeptos levam a metáfora do paleolítico um pouco mais longe e passam a se exercitar como imaginamos que um caçador/coletor se exercitava, a dormir como um ser humano sem luz elétrica dormia, alguns até passam a calçar Vibrams e ficarem com ar de palhaços. Algumas destas práticas são saudáveis, outras, nem tanto, mas o ponto principal é que se baseiam em informações equivocadas a respeito do paleolítico, como aponta o livro Paleofantasy, escrito pela bióloga evolucionista Marlene Zuk.

Arqueólogos, antropólogos e biólogos reagem com indignação a diversas afirmações dos defensores do regime paleolítico. E com razão. A verdade é que não existem dados suficientes a respeito dos hábitos de nossos antepassados para formar um perfil alimentar e social confiável. Isso não impede, entretanto, os adeptos mais amalucados do estilo de vida paleo de adotarem o CrossFit e  fazerem proselitismo da poligamia, por exemplo — nada contra essas duas práticas em si mesmas, mas adotá-las com base em dados pouco confiáveis é idiotice. O trecho abaixo resume bastante bem a obra:

It’s common for people talk about how we were “meant” to be, in areas ranging from diet to exercise to sex and family. Yet these notions are often flawed, making us unnecessarily wary of new foods and, in the long run, new ideas. I would not dream of denying the evolutionary heritage present in our bodies—and our minds. And it is clear that a life of sloth with a diet of junk food isn’t doing us any favors. But to assume that we evolved until we reached a particular point and now are unlikely to change for the rest of history, or to view ourselves as relics hampered by a self-inflicted mismatch between our environment and our genes, is to miss out on some of the most exciting new developments in evolutionary biology.

Zuk desmonta as fantasias paleolíticas com dois argumentos principais: a evolução genética, na verdade, pode se dar em poucos séculos e, do ponto de vista da biologia, nunca há um momento no qual um organismo esteja perfeitamente alinhado a seu meio ambiente. Os seres humanos seguem evoluindo e se adaptando aos resultados da revolução neolítica. Além disso, mesmo num estado natural, o meio ambiente está em constante mutação e os seres vivos, portanto, sempre em defasagem em relação à natureza. Em síntese, não existe um estado de perfeição do organismo humano e, mesmo se existisse, nosso código genético já mudou muito nos últimos dez mil anos e o teríamos abandonado há milênios.

Um exemplo dessa adaptação é a permanência da lactase em alguns grupos étnicos. Embora os laticínios sejam demonizados no regime paleo, na verdade cerca de um terço dos seres humanos pode consumir leite sem problemas, em especial alguns grupos na África, Oriente Médio e norte da Europa. O resto da humanidade pode tolerar muito bem os laticínios fermentados, nos quais microorganismos realizam o trabalho da lactase — “quebrar” a lactose, o açúcar do leite. Noutras palavras, iogurtes, kefir e queijos não devem ser um grande problema para quem não tem alguma alergia grave a outros elementos do leite, como a caseína. A fermentação, aliás, prova que a tecnologia pode nos auxiliar a compensar em algum grau a defasagem genética em relação ao ambiente.

O próprio foco na genética é questionado por Zuk, porque em geral o DNA é tomado como fato determinante demais no ideário paleo. A biologia contemporânea já estabeleceu a existência de uma dinâmica entre o código genético e o meio ambiente. Simplificando bastante, os fatores ambientais levam alguns genes a se expressar e outros não, assim como modulam a força com a qual os genes serão expressos. Portanto, mesmo que o DNA humano estivesse estagnado no paleolítico, as forças ambientais geradas pela revolução neolítica ainda permitiriam algum grau de adaptação no nível individual.

Paleofantasy oferece uma grande quantidade de informação com autoridade científica e, em minha opinião, deve ser lido por todos os adeptos do regime paleo. O livro traz um bem-vindo arejamento a essa subcultura, que, como toda subcultura alimentar — veganismo, vegetarianismo, frugivorismo — tem uma tendência a produzir um elevado grau de fanatismo entre seus adeptos. Em termos mais diretos: há muitos fãs do estilo de vida paleolítico completamente malucos e ignorantes prestando  m grande desserviço aos novatos, ao espalharem a desinformação, e aos veteranos, ao pintarem uma imagem estereotipada do grupo todo.

O principal defeito do livro é o mesmo defeito de muitos fóruns de debates sobre o regime paleolítico: esquecer-se de que o homem das cavernas é apenas uma metáfora para uma abordagem contraintuitiva da alimentação. No fim das contas, o único debate relevante é sobre os resultados fisiológicos da alimentação paleo. O livro de Zuk, infelizmente, não discute os benefícios ou malefícios desta dieta para a saúde de seus adeptos.

Neste ponto, só posso contribuir com minha experiência pessoal. Em cerca de um ano de regime paleolítico, emagreci mais de dez quilos sem controlar a quantidade de comida ingerida, apenas o tipo — a ponto de amigos e colegas começarem a perguntar se estou doente. Mas meu objetivo principal não era emagrecer e, sim, melhorar a saúde. Além da perda de peso, bastante benéfica, estou mais disposto e me alimentando melhor, com mais verduras e frutas.

Quanto ao colesterol, um receio razoável de todos os que pensam em adotar o regime paleo, meus índices se mantiveram dentro dos padrões normais e os triglicerídeos, antes acima do nível desejável, caíram. Embora o HDL esteja no limite máximo desejável, é preciso levar em conta que, pela teoria nutricional predominante, meu colesterol ruim deveria ter disparado com uma dieta baseada em gordura animal. E isso não ocorreu.

A grande vantagem deste estilo de vida é sua simplicidade. É muito mais fácil cortar todos os cereais e legumes do que seguir listas imensas de recomendações de um nutricionista, ficar pesando ou medindo porções etc. Ao mesmo tempo, cortar os grãos e óleos artificiais elimina praticamente todos os produtos industrializados de sua dieta, trazendo imensos benefícios paralelos à saúde. Ao contrário do veganismo, você jamais terá de se explicar num evento familiar ou restaurante, a não ser que o convidem para ir a uma pizzaria — e, mesmo assim, você até poderá comer pizza uma vez ou outra, sem problemas, porque não se trata de uma questão ética. É uma dieta fácil de manter a longo prazo, porque não se está preocupado em perder peso ou se restringindo a um cardápio monótono, mas se tem como objetivo mudar a prórpia visão sobre a alimentação.

Se eu recomendaria o regime paleolítico a alguém? Não! Não sou médico ou nutricionista. Caso esteja interessado, pesquise o assunto a fundo e avise seu médico. Leve a dieta a sério, porque oscilar entre o nível normal de consumo de carboidratos e o regime paleo pode causar danos à saúde, mas coma um sorvete ou chocolate de vez em quando. Em especial, observe a si mesmo e exerça o senso crítico.

6 Comentários

Other Links to this Post

Feed RSS para comentários sobre este post. TrackBack URI

Deixe um comentário

WordPress Themes