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Votando no ranking gastronômico de Veja

Ano passado eu reclamei da mesmice dos resultados da votação de melhores da cidade do Guia Veja para Porto Alegre. Este ano, tive a oportunidade de indicar estabelecimentos na categoria Comidinhas e tentei fazer a minha parte para arejar o quadro de vencedores.

Dos meus indicados, apenas os tradicionais Confeitaria Princesa (cachorro-quente) e Café do Mercado (café espresso) figuram entre os melhores da cidade.

Fui o único a votar no Empório 38 como melhor loja gourmet — não tem a melhor variedade, mas oferece o essencial, tem bons preços e fica no Mercado Público — e na Cronk’s como sorveteria — não é o melhor sorvete, mas é a melhor relação custo/benefício. Fui também o único a votar na Media Luna como melhor confeitaria — talvez por não frequentar muito esse tipo de lugar e desconhecer as outras, reconheço — e na Priscilla’s como melhor padaria — a Patrícia Pontalti a indicou como melhor confeitaria. Também fui o único a indicar o suco da Lancheria do Parque como o melhor da cidade.

Meu indicado original para melhor sanduíche era o bar Parangolé, mas tive de mudar o voto porque o estabelecimento estava concorrendo em outra categoria. Escolhi o Dometila. O meu voto para melhor salgado foi o Café Bonobo, mas eles preferiram não participar do ranking, então fui de Café Terraço — incentivo por investirem num mercado de nicho. Participando da votação, ainda descobri que o lendário Animal’s Pastel, da Zona Sul, fechou.

Quanto aos restaurantes indicados como melhores da cidade, poucas novidades. Também, há poucas novas casas relevantes no cenário gastronômico de Porto Alegre entre o ano passado e este, então não havia como ser diferente. Certos clássicos serão os vencedores permanentemente.

Conversando com outra jurada, ficamos pensando que uma forma de melhorar isso talvez fosse mudar todos os jurados todos os anos. Convidar pessoas sem muito conhecimento técnico em gastronomia poderia ser uma boa, também. Isso permitiria ter uma idéia melhor de quais lugares realmente têm apelo popular na cidade.

Os especialistas poderiam ser convidados a escolher restaurantes, bares e assemelhados num ranking paralelo, menos restrito por categorias e subdivisões. Daí possivelmente sairia um quadro mais interessante da gastronomia em Porto Alegre.

O leitor pode perguntar: por que tanta preocupação com o guia da Veja? Porque, para o bem e para o mal, essa publicação é a principal fonte de informação sobre gastronomia na cidade e pode fazer o sucesso de um estabelecimento.

Café Jacu

Jacu Bird CoffeeNão consegui resistir a provar o Jacu Bird Coffee que o Café do Mercado está vendendo. Trata-se de um café obtido das fezes — isso mesmo, do cocô — dos jacus da fazenda Camocim, no Espírito Santo. O jacu é visto em geral como praga pelos produtores de café, porque ele come os grãos ainda na árvore. O pessoal da Camocim, uma fazenda orgânica, viu nisso uma oportunidade: produzir o kopi luwak brasileiro. Conforme a explicação da Camocim:

Jacu Bird Coffee da Camocim Organic é um café orgânico e biodinâmico, cujos melhores grãos são selecionados, no pé, pelo jacu, ave nativa da Mata Atlântica. O jacu é uma ave vegetariana que habita áreas florestadas e conservadas, e sua presença é um sinal de saúde ambiental da região.

Uma vez alimentado pelos melhores frutos, o jacu elimina os grãos ao pé das árvores de café, que são colhidos manualmente pela nossa equipe, secos, limpos e guardados. Após um período de descanso, são enfim torrados para consumo.

O café jacu pode ser usado em máquinas espresso ou passado em filtro normal. Em vez de provar primeiro o espresso oferecido no Café do Mercado (R$ 8), resolvi comprar um pacote de 250g por hilariantes R$ 68, pois queria testar as duas versões.

Nas duas primeiras vezes, errei na moagem, deixando os flocos muito grandes e o café muito fraco, tanto o espresso quanto o passado. Caprichei mais nas ocasiões seguintes e obtive o melhor café que já provei. Normalmente, tomo a versão orgânica do Cafeeiro, os grãos de melhor qualidade disponíveis no café do mercado, cujo quilo custa R$ 31. Ao lado do Jacu Bird Coffee, o Cafeeiro fica parecendo o Café Pelé. O café jacu é incrivelmente equilibrado. Tem corpo, mas ao mesmo tempo é suave. Há apenas o gosto do café, sem o sabor acre dos óleos essenciais indesejados presentes na maioria dos grãos, inclusive os de boa qualidade.

A questão é: vale a pena pagar esse preço, mesmo pelo melhor café do mundo? Ele é dez vezes melhor do que o Cafeeiro, por exemplo, para merecer o preço quase dez vezes maior? Creio que não. Com toda certeza vale a pena tomar uma xícara festiva aqui e ali, mas definitivamente não é um café para todos os dias. Os bons grãos do mercado são bons o suficiente para manter um amante de café feliz no cotidiano e, depois de alguns dias, o sujeito até esquece a amplitude da diferença que o Jacu Bird Coffee tem em relação a eles.

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