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O espírito Riversides

Neste domingo voltei a uma casa da rede Riversides após anos e anos. Não esperava muita coisa do novo Riversides Shikki Madero, aberto há poucas semanas na Zona Sul de Porto Alegre, mas fui surpreendido em minha baixa expectativa: a comida não estava medíocre, mas sim absolutamente intragável.

O Madero agrega ao sistema de buf√™ de grelhados, saladas e massas tradicional da rede um espeto corrido e a “sustentabilidade” — isto √©, o restaurante foi planejado para causar o menor impacto ambiental poss√≠vel e os alimentos s√£o, na medida do poss√≠vel, org√Ęnicos. Atitude louv√°vel. O lugar √© tamb√©m muito bonito e conta com estacionamento e servi√ßo de manobrista.

Infelizmente, os propriet√°rios parecem ter se preocupado apenas com o plano de marketing e com a decora√ß√£o e esquecido de cuidar da cozinha. S√≥ comi um prato bom l√°, embora fosse realmente muito bom: um entrec√īte org√Ęnico macio como manteiga. O resto est√° da mediocridade para baixo. Simplesmente n√£o consegui comer a paella de frutos do mar e um suposto “bacalhau √† Madero”, no qual n√£o encontrei uma lasca de bacalhau sequer. Desisti de pedir alguma das massas no balc√£o onde se pode escolher os ingredientes do molho, porque algu√©m na mesa pediu antes e o espaguete me pareceu estar com pensamentos suicidas. As saladas n√£o eram menos depressivas e o agri√£o estava com gosto de hipoclorito de s√≥dio.

As carnes do espeto corrido estavam razoáveis, mas pode-se comer muito melhor por bem menos que os R$ 32,90 do bufê/rodízio de domingo em diversas churrascarias de Porto Alegre. Há ainda sashimi a la carte por cerca de R$ 10 e um bufê de sobremesas pouco apetitosas por R$ 8,90.

Ent√£o, qual o motivo para comer no Riversides Shikki Madero, se o que n√£o √© repugnante √© encontr√°vel a pre√ßos mais baixos na concorr√™ncia? √Č a conveni√™ncia de encontrar algo para qualquer gosto num mesmo lugar. Se sua sogra s√≥ come bife e feij√£o com arroz, seu filho adolescente quer sushi, sua filha chata para comer quer espaguete ao sugo, sua esposa quer saladas por causa da dieta e voc√™ quer uma picanha sangrenta, o Riversides tem tudo isso num ambiente selecionado. Ou o caro leitor pensou que o segredo da longevidade da marca era a boa comida?

O Riversides já foi bom por um breve período há cerca de 15 anos, quando a primeira casa abriu no shopping Iguatemi. Ou talvez eu tivesse péssimo gosto na época. De qualquer modo, serviam um sushi honesto e um bufê com alguns ingredientes ainda pouco comuns em Porto Alegre a preços competitivos.

Isso durou mais ou menos at√© mec√Ęnicos e esteticistas da Zona Norte decidirem que era um programa muito chique se esbaldar num jantar a dois no Riversides — tinha salada de r√ļcula com tomates secos! — e passarem a comemorar seus anivers√°rios por l√°. Nada contra a pequena burguesia ir ao para√≠so gastando seu dinheiro suado numa experi√™ncia gastron√īmica barroca. Eu mesmo creio ter levado alguma namoradinha para jantar no Riversides de ent√£o. O problema foi a rea√ß√£o do restaurante: juntar as mesas at√© voc√™ n√£o conseguir mais distinguir sua conversa das conversas nas mesas vizinhas e passar a usar salm√£o enlatado no sushi. A queda na qualidade foi vis√≠vel at√© mesmo para meu gosto adolescente.

Como esse modelo se estabeleceu e se tornou o esp√≠rito de todos os Riversides, evito ao m√°ximo frequentar os estabelecimentos da rede desde ent√£o. Nem sempre d√°. Se voc√™ por acaso se vir obrigado a comer no Riversides Shikki Madero, atenha-se ao entrec√īte org√Ęnico, √† polenta e a alguma salada de folhas. Voc√™ nunca ter√° pagado t√£o caro por essas tr√™s coisas, mas ao menos evitar√° m√°s recorda√ß√Ķes.

RIVERSIDES SHIKKI MADERO
Av. Wenceslau Escobar, 1598 – Mapa
51 3268-0288

Tainha na brasa

Tainha assadaUm dos restaurantes mais famosos de Garopaba, no litoral catarinense, é o Zanoni. O prato mais famoso do Zanoni é a tainha ou anchova assada na brasa. A beleza desse peixe é a simplicidade: apenas um bom braseiro, tempero quase indetectável e manteiga.

Conversando com o proprietário, descobrimos ser manteiga o segredo para deixar uma crosta crocante na tainha ou anchova. Outra dica é pedir ao peixeiro para cortar o peixe ao meio, abri-lo, de modo a acelerar e ao mesmo tempo homogeneizar o cozimento. Resolvi reproduzir em casa, com excelentes resultados.

Basta temperar a tainha com um pouco de sal e lim√£o e levar √† churrasqueira sobre o fogo alto, com a pele para baixo. Quando a pele tostar e come√ßar a soltar da grelha, passe manteiga sobre a carne — gosto de usar um ramo de alecrim como pincel — e ent√£o virar. Assim que estiver tostado, est√° pronto. Cuide apenas para n√£o deixar tempo demais na churrasqueira, ou a carne ficar√° seca.

Lua Palace

Lua PalaceA comida oriental talvez seja minha favorita, mas nunca havia provado a culin√°ria coreana — sobre a qual sempre tive muita curiosidade, por causa do kimchi, uma tradicional conserva de legumes picante. Em O homem que comeu de tudo, Jeffrey Steingarten submete-se ao kimchi como forma de eliminar suas frescuras alimentares. Ap√≥s a resist√™ncia inicial, torna-se f√£ da conserva. A Tati √© outra f√£ de kimchi. Ela morou com uma coreana em Nova York e, como Steingarten, considerou o kimchi a princ√≠pio nauseabundo, mas terminou comprando potes para ter em casa. Ent√£o, fui ao Lua Palace preparado para enfrentar um desafio gastron√īmico.

O kimchi foi, por√©m, amor √† primeira vista no meu caso. Esse restaurante coreano aberto em 1992 serve a tradicional vers√£o feita com acelga ou couve chinesa, mas tamb√©m o kimchi de folhas de nabo (na foto) e de berinjela. Conforme o gerente da casa — ali√°s, um coreano simpatic√≠ssimo –, a prepara√ß√£o deles √© um tanto ocidentalizada, menos picante que o normal. Gostei muito. Gostei tanto que fui √† Liberdade procurar um pouco para trazer de S√£o Paulo. N√£o h√° muito como descrever o sabor, mas certamente agrada a quem gosta de conservas e de pimenta.

Lua PalaceO prato principal da casa, no entanto, √© o churrasco coreano. Ele √© feito na mesa, usando um aquecedor el√©trico e chapas de pedra besuntadas de √≥leo de gergelim. O cliente escolhe o tipo de carne e recebe uma s√©rie de acompanhamentos: kimchi, arroz, amendoim, brotos de feij√£o, tofu, salada e um tipo de pudim de ovos que n√£o consegui entender muito bem. A carne vem temperada com um molho semelhante ao tar√™ e √© grelhada na mesa. Entre as op√ß√Ķes, h√° desde fil√© at√© l√≠ngua. Pedimos costela para dois. O corte era de boa qualidade e o molho deixa um sabor muito diferente.

Os preços à primeira vista assustam, mas um churrasco de costela para duas pessoas (R$ 75) acabou servindo três pessoas e dá para repetir os acompanhamentos. Mal posso esperar para voltar ao Lua Palace e provar o espaguete de batata em caldo gelado de carne, pepino e nabo.

LUA PALACE
Av. Armando Ferrentini, 182 – Mapa
11 3277-7823

Fazenda Barbanegra

Sou um grande f√£ do restaurante El Viejo Pancho, uma casa de parrillada pertencente a uruguaios. √Č um excelente lugar para se comer carne a la carte, tomar chope e assistir a jogos de futebol. H√° duas semanas, por√©m, minha fidelidade foi abalada pela melhor qualidade da carne servida no Fazenda Barbanegra, restaurante de parrilla relativamente novo no bairro Auxiliadora.

Fazenda BarbanegraEmbora tenha sido dif√≠cil chamar a aten√ß√£o de algum dos gar√ßons na chegada ao lugar, ap√≥s um primeiro contato o atendimento fluiu simp√°tico e sem incidentes. Come√ßamos com uma por√ß√£o de timo (mollejas) e uma ling√ľi√ßa calabresa — deliciosa e fornecida pelo frigor√≠fico Castro, de Pelotas. O timo estava perfeito, ao mesmo tempo seco e tenro, muito superior ao mesmo prato no El Viejo Pancho. Seguimos com um vazio (cerca de R$ 20) e uma picanha de cordeiro (cerca de R$ 35), ambos servidos num ponto adequado. Muitas churrascarias t√™m a mania de esturricar a carne ovina e a de porco, por causa de mitos sobre infec√ß√Ķes parasit√°rias de √©pocas menos higienicamente corretas nos matadouros e frigor√≠ficos brasileiros. Hoje, por√©m, n√£o faz sentido esnobar um cordeiro mal passado — embora esse tipo de carne n√£o fique boa em ponto bleu, como a carne de gado.

Como acompanhamento, ordenamos uma sala mista com castanhas, damascos e queijo parmes√£o, bastante razo√°vel. O destaque do couvert √© o pat√™ de f√≠gado feito em casa, bastante forte. H√° tamb√©m um creme de manjeric√£o e manteiga. A sobremesa foi a recomendada pelo leitor Otto: pudim de leite, a mais famosa do Fazenda Barbanegra. Parece ser feito com leite condensado fervido, o que confere um sabor semelhante ao do doce de leite. √Č muito bom, mas o da minha m√£e √© melhor.

Os pre√ßos do Fazenda Barbanegra regulam com os do El Viejo Pancho. Muda muito o ambiente, por√©m. Enquanto o Pancho recebe f√£s de futebol e chope num sal√£o enorme, o Barbanegra √© pequeno e recebe clientes mais, digamos, badalantes. √Č bom reservar mesa ou chegar cedo aos domingos.

FAZENDA BARBANEGRA
Rua Ten. Cel. Fabrício Pillar, 791 РMapa
51 3333-0492

Visualizando o bife

Genial o pequeno manual da carne publicado pelo Estado de S√£o Paulo. Uma anima√ß√£o de um simp√°tico boizinho mostra os cortes mais comuns, alguns deles com os nomes espanh√≥is, franceses e ingleses — s√≥ faltam os nomes em gauch√™s.

Não apenas isso, como clicando em cada corte se pode ler um artigo escrito sobre as melhores maneiras de usar aquele pedaço específico do boi. Por exemplo, nunca soube muito bem o que se faz com coxão duro, porque em geral prefiro acém. E o tal peixinho, então?

Divers√£o infinita.

Churrascaria Porto-alegrense

Na quinta-feira comi a melhor picanha da minha vida. Esque√ßam qualquer outra: a Churrascaria Porto-Alegrense √© a melhor da capital ga√ļcha. Nunca cravei os dentes num peda√ßo de picanha ao mesmo tempo macio, suculento e bem cozido. A express√£o “ao ponto” fez sentido imediatamente. Al√©m disso, a carne s√≥ tinha uma camada de gordura fina o suficiente para dar um toque especial a determinados peda√ßos. O tamanho da por√ß√£o tamb√©m impressionou, ainda mais em rela√ß√£o ao pre√ßo (R$ 18). D√° para dois e sobra.

O segredo da Porto-Alegrense parece ser a simplicidade: o card√°pio √© enxuto, tem apenas os cortes mais tradicionais (picanha, costela, maminha, vazio e ling√ľi√ßas, al√©m do xixo e do frango para agradar √†s mo√ßas em dieta). D√° para perceber que um restaurante √© s√©rio quando o card√°pio tem pouca coisa. Isso mostra que, por um lado, est√£o focados em atingir a excel√™ncia em todos os pratos que saem da cozinha, por outro, que s√£o bons o suficiente para n√£o ter de fazer concess√Ķes ao p√ļblico. Outros dois fatores que fazem o sucesso da churrascaria √© usar fogo de lenha, ou ao menos peda√ßos de lenha nas brasas, o que d√° um sabor inconfund√≠vel √† carne, e s√≥ mandar um espeto para o fogo quando um pedido √© feito, garantindo o ponto certo sempre.

Infelizmente, decidimos ir em cima da hora, então não foi possível comer a estrela da casa, a carne de cordeiro. Como os churrasqueiros são sérios, não se permitem assar rápido demais o cordeiro e por isso é preciso sempre telefonar antes, avisando do pedido com pelo menos uma hora de antecedência.

Gostaria de aproveitar a ocasião para declarar que o churrasco a la carte parece cada vez mais fazer sentido para mim. Rodízio pode ser bom para impressionar turistas, mas a verdade é que se acaba comendo muito além da conta, e em geral pedaços de carnes não tão interessantes. Isso para não comentar que uma carne de rodízio precisa estar no fogo antes de o cliente pedir, ou voltar ao fogo depois de fazer o tour do salão, o que pode fazer com que fique ressecada e dura. Pedindo a la carte, você também pode aproveitar melhor o que cada corte tem a oferecer. Quer dizer, ao menos se o objetivo for comer uma boa carne, não apenas encher a pança.

CHURRASCARIA PORTO-ALEGRENSE
Av. Par√°, 913 – Navegantes
51 3343.2767

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