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The Raven

O The Raven é, provavelmente, um dos melhores restaurantes em operação em Porto Alegre.

Agora que o prezado leitor se recuperou da afirma√ß√£o bomb√°stica acima e terminou de questionar as minhas credenciais — ali√°s, inexistentes — de cr√≠tico gastron√īmico, deixe-me explicar. √Č verdade, o card√°pio do The Raven n√£o apenas n√£o tem inova√ß√£o alguma em ingredientes ou processos, como beira o reacionarismo culin√°rio. O ambiente lembra mais um Biergarten do que um restaurante franc√™s cl√°ssico. A lou√ßa √© ordin√°ria e h√° o m√≠nimo de gar√ßons poss√≠vel para atender √†s mesas encostadas uma na outra de maneira a preencher o sal√£o ao m√°ximo. Ent√£o, o que eu vi no The Raven?

Uma das melhores rela√ß√Ķes custo/benef√≠cio da capital ga√ļcha, aliada a total franqueza a respeito dos objetivos do lugar. O The Raven parece se pretender uma porta de entrada ao mundo da alta gastronomia para os leigos, a pre√ßos baixos o suficiente para transmitir uma aura de seguran√ßa na experi√™ncia, e entrega exatamente isso. Tem fil√© Rossini, com foie-gras, a R$ 59. Vieiras com caviar a R$ 32. Carta de vinhos enxuta, mas razo√°vel. Quase os mesmos pre√ßos de um prato de arroz de carreteiro ou maminha recheada vendido na concorr√™ncia imediata do bairro. √Č um convite a quem tem medo de investir centenas de reais em provar coisas novas nos franco-italianos chiques de Porto Alegre.

No dia em que jantamos l√°, um s√°bado, chegamos por volta das 22h, prevendo uma fila invi√°vel. Havia uma fila, realmente, mas como √©ramos apenas dois levou menos de 15 minutos para vagar uma mesa. O lugar estava completamente lotado de fam√≠lias comemorando anivers√°rio, mas sem crian√ßas, e alguns poucos casais na faixa dos 20-30 anos. Pretend√≠amos pedir as vieiras flambadas na vodca com caviar, mas a gar√ßonete ofereceu escargots “que chegaram hoje mesmo”, ent√£o decidimos deixar as vieiras, fixas no card√°pio, para outra ocasi√£o. A entrada previa quatro escargots a R$ 32, mas recebemos cinco carac√≥is. S√≥ h√° talheres comuns no The Raven, daqueles bem simples, mas a equipe percebeu a nossa dificuldade para puxar as lesmas da casca e trouxe garfinhos de coquetel feitos de madeira.

O restaurante √© um dos poucos a oferecer o fenomenal vinho tannat H. Stagnari Premier, uruguaio, ent√£o pedimos uma garrafa (R$ 72). Casaria bem com o confit de pato com pur√™ de batatas e ervilha torta (R$ 49) e o magret de pato com risoto de queijo de cabra. Fomos bebericando e a comida demorando. Quando come√ßava a pensar em perguntar ao gar√ßom qual era o problema, o chef veio √† mesa explicar que “n√£o estou gostando muito do magret”, da√≠ a demora, e saber por qual prato quer√≠amos trocar. Pedimos ent√£o a picanha de cordeiro com molho de frutas vermelhas e pur√™ de batatas com chocolate branco (R$ 48). O chef tamb√©m avisou que, devido √†s tribula√ß√Ķes, n√£o cobraria pelos escargots da entrada. N√£o se trata de um excelente servi√ßo? Para a sobremesa, encomendamos um zabaglione (R$ 18) e um semifreddo de pistache (R$ 16).

Tudo estava, no m√≠nimo, competente, exceto pelo semifreddo, que chegou √† mesa ainda muito congelado — mas era o final da noite de um dia de casa cheia. O confit estava macio, mas crocante por fora. O pur√™ com ervilha torta, embora pare√ßa trivial, foi um dos pontos altos da refei√ß√£o. O cordeiro n√£o foi torrado, como √© o costume ga√ļcho, mas chegou √† mesa rosadinho. O pur√™ com chocolate branco, se n√£o √© algo a se comer todo dia, vale o experimento. Os escargots estavam consistentes, com a dose certa de alho e o saborzinho de terra, caracter√≠stico da salsinha, ao fundo. O zabaglione sem supresas e o creme de chocolate do semifreddo muito superior a, por exemplo, o molho da Torta de Sorvete, que ocupa a mesma faixa de pre√ßo noutros locais.

Em resumo, o The Raven oferece pratos cl√°ssicos com qualidade e √≥timo servi√ßo, sem frescuras e a pre√ßos semelhantes ou muito pouco superiores aos de restaurantes cujos card√°pios s√£o triviais metidos a besta. O chef √© honesto ao servir pratos reconhec√≠veis por qualquer um como refer√™ncia gastron√īmica — ainda que quase pr√©-moderna — executados com genu√≠na aten√ß√£o √† qualidade. Boa comida, sem frescura. √Č um lugar ao qual pretendo voltar, quando bater o peri√≥dico cansa√ßo das novidades contempor√Ęneas.

The Raven

Rua Sarmento Leite, 969 – Mapa
51 3072-2882

Votando no ranking gastron√īmico de Veja

Ano passado eu reclamei da mesmice dos resultados da votação de melhores da cidade do Guia Veja para Porto Alegre. Este ano, tive a oportunidade de indicar estabelecimentos na categoria Comidinhas e tentei fazer a minha parte para arejar o quadro de vencedores.

Dos meus indicados, apenas os tradicionais Confeitaria Princesa (cachorro-quente) e Café do Mercado (café espresso) figuram entre os melhores da cidade.

Fui o √ļnico a votar no Emp√≥rio 38 como melhor loja gourmet — n√£o tem a melhor variedade, mas oferece o essencial, tem bons pre√ßos e fica no Mercado P√ļblico — e na Cronk’s como sorveteria — n√£o √© o melhor sorvete, mas √© a melhor rela√ß√£o custo/benef√≠cio. Fui tamb√©m o √ļnico a votar na Media Luna como melhor confeitaria — talvez por n√£o frequentar muito esse tipo de lugar e desconhecer as outras, reconhe√ßo — e na Priscilla’s como melhor padaria — a Patr√≠cia Pontalti a indicou como melhor confeitaria. Tamb√©m fui o √ļnico a indicar o suco da Lancheria do Parque como o melhor da cidade.

Meu indicado original para melhor sandu√≠che era o bar Parangol√©, mas tive de mudar o voto porque o estabelecimento estava concorrendo em outra categoria. Escolhi o Dometila. O meu voto para melhor salgado foi o Caf√© Bonobo, mas eles preferiram n√£o participar do ranking, ent√£o fui de Caf√© Terra√ßo — incentivo por investirem num mercado de nicho.¬†Participando da vota√ß√£o, ainda descobri que o lend√°rio Animal’s Pastel, da Zona Sul, fechou.

Quanto aos restaurantes indicados como melhores da cidade, poucas novidades. Tamb√©m, h√° poucas novas casas relevantes no cen√°rio gastron√īmico de Porto Alegre entre o ano passado e este, ent√£o n√£o havia como ser diferente. Certos cl√°ssicos ser√£o os vencedores permanentemente.

Conversando com outra jurada, ficamos pensando que uma forma de melhorar isso talvez fosse mudar todos os jurados todos os anos. Convidar pessoas sem muito conhecimento técnico em gastronomia poderia ser uma boa, também. Isso permitiria ter uma idéia melhor de quais lugares realmente têm apelo popular na cidade.

Os especialistas poderiam ser convidados a escolher restaurantes, bares e assemelhados num ranking paralelo, menos restrito por categorias e subdivis√Ķes. Da√≠ possivelmente sairia um quadro mais interessante da gastronomia em Porto Alegre.

O leitor pode perguntar: por que tanta preocupação com o guia da Veja? Porque, para o bem e para o mal, essa publicação é a principal fonte de informação sobre gastronomia na cidade e pode fazer o sucesso de um estabelecimento.

Joe’s

Joe'sUm dos melhores milk shakes de Porto Alegre est√° na tradicional lancheria Joe’s. O outro estava no Rib’s, que ocupava o quadrante oposto da Pra√ßa J√ļlio de Castilhos, no bairro Moinhos de Vento, mas lamentavelmente fechou h√° alguns anos — e reencarnou no The Best Food. Al√©m da geografia e do milkshake, as duas lancherias tamb√©m t√™m um ponto em comum na mostarda exclusiva. A do Joe’s √© feita no pr√≥prio estabelecimento e vence com folga a do Rib’s — produzida pelo Oderich — em termos de sabor. Os sandu√≠ches do Rib’s, por outro lado, eram melhores.

A grande pedida no Joe’s s√£o mesmo os sorvetes. √Č dos poucos lugares a ainda servirem sundaes, ta√ßas colegiais e bananas split em Porto Alegre. Os buf√™s de sorvete e sua profus√£o barroca de coberturas mataram a fina arte de montar um belo sundae com calda, sorvete, chantilly, castanha de caju mo√≠da e um cereja no topo. Lament√°vel.

Milkshake do Joe'sO sabor do milk shake de chocolate puxa um pouco para o bombom Alpino, da Nestl√© — acredito que eles usem a vers√£o sorvete do pr√≥prio. Se voc√™ pedir o menor, vem numa ta√ßa cl√°ssica (R$ 6,50). Os tamanhos m√©dio e grande v√™m em hediondos copos de pl√°stico, portanto pe√ßa o menor e deguste no balc√£o de a√ßo inox dos anos 1960.

O x-salada (R$ 7) n√£o √© o melhor da capital, mas certamente n√£o deixa a desejar. Os ingredientes s√£o frescos e os chapistas sabem mont√°-los com perfei√ß√£o. Eles usam, creio, maionese com lim√£o, o que d√° um gostinho especial. Al√©m disso, a mostarda feita em casa √© excelente, ent√£o recomendo muito temperar o sandu√≠che com ela. √Č pena que o Joe’s n√£o sirva batatas fritas para acompanhar, seria perfeito.

JOE’S
Rua Ramiro Barcelos, 1097 – Mapa
51 3311-9467

O espírito Riversides

Neste domingo voltei a uma casa da rede Riversides após anos e anos. Não esperava muita coisa do novo Riversides Shikki Madero, aberto há poucas semanas na Zona Sul de Porto Alegre, mas fui surpreendido em minha baixa expectativa: a comida não estava medíocre, mas sim absolutamente intragável.

O Madero agrega ao sistema de buf√™ de grelhados, saladas e massas tradicional da rede um espeto corrido e a “sustentabilidade” — isto √©, o restaurante foi planejado para causar o menor impacto ambiental poss√≠vel e os alimentos s√£o, na medida do poss√≠vel, org√Ęnicos. Atitude louv√°vel. O lugar √© tamb√©m muito bonito e conta com estacionamento e servi√ßo de manobrista.

Infelizmente, os propriet√°rios parecem ter se preocupado apenas com o plano de marketing e com a decora√ß√£o e esquecido de cuidar da cozinha. S√≥ comi um prato bom l√°, embora fosse realmente muito bom: um entrec√īte org√Ęnico macio como manteiga. O resto est√° da mediocridade para baixo. Simplesmente n√£o consegui comer a paella de frutos do mar e um suposto “bacalhau √† Madero”, no qual n√£o encontrei uma lasca de bacalhau sequer. Desisti de pedir alguma das massas no balc√£o onde se pode escolher os ingredientes do molho, porque algu√©m na mesa pediu antes e o espaguete me pareceu estar com pensamentos suicidas. As saladas n√£o eram menos depressivas e o agri√£o estava com gosto de hipoclorito de s√≥dio.

As carnes do espeto corrido estavam razoáveis, mas pode-se comer muito melhor por bem menos que os R$ 32,90 do bufê/rodízio de domingo em diversas churrascarias de Porto Alegre. Há ainda sashimi a la carte por cerca de R$ 10 e um bufê de sobremesas pouco apetitosas por R$ 8,90.

Ent√£o, qual o motivo para comer no Riversides Shikki Madero, se o que n√£o √© repugnante √© encontr√°vel a pre√ßos mais baixos na concorr√™ncia? √Č a conveni√™ncia de encontrar algo para qualquer gosto num mesmo lugar. Se sua sogra s√≥ come bife e feij√£o com arroz, seu filho adolescente quer sushi, sua filha chata para comer quer espaguete ao sugo, sua esposa quer saladas por causa da dieta e voc√™ quer uma picanha sangrenta, o Riversides tem tudo isso num ambiente selecionado. Ou o caro leitor pensou que o segredo da longevidade da marca era a boa comida?

O Riversides já foi bom por um breve período há cerca de 15 anos, quando a primeira casa abriu no shopping Iguatemi. Ou talvez eu tivesse péssimo gosto na época. De qualquer modo, serviam um sushi honesto e um bufê com alguns ingredientes ainda pouco comuns em Porto Alegre a preços competitivos.

Isso durou mais ou menos at√© mec√Ęnicos e esteticistas da Zona Norte decidirem que era um programa muito chique se esbaldar num jantar a dois no Riversides — tinha salada de r√ļcula com tomates secos! — e passarem a comemorar seus anivers√°rios por l√°. Nada contra a pequena burguesia ir ao para√≠so gastando seu dinheiro suado numa experi√™ncia gastron√īmica barroca. Eu mesmo creio ter levado alguma namoradinha para jantar no Riversides de ent√£o. O problema foi a rea√ß√£o do restaurante: juntar as mesas at√© voc√™ n√£o conseguir mais distinguir sua conversa das conversas nas mesas vizinhas e passar a usar salm√£o enlatado no sushi. A queda na qualidade foi vis√≠vel at√© mesmo para meu gosto adolescente.

Como esse modelo se estabeleceu e se tornou o esp√≠rito de todos os Riversides, evito ao m√°ximo frequentar os estabelecimentos da rede desde ent√£o. Nem sempre d√°. Se voc√™ por acaso se vir obrigado a comer no Riversides Shikki Madero, atenha-se ao entrec√īte org√Ęnico, √† polenta e a alguma salada de folhas. Voc√™ nunca ter√° pagado t√£o caro por essas tr√™s coisas, mas ao menos evitar√° m√°s recorda√ß√Ķes.

RIVERSIDES SHIKKI MADERO
Av. Wenceslau Escobar, 1598 – Mapa
51 3268-0288

Empada no Prato

Outro dia, minha m√£e ganhou de uma amiga e me deixou meia d√ļzia de empadas do Empada no Prato. N√£o conhecia essa f√°brica e fiquei surpreso: s√£o muito boas.

A massa podre é bem fina e o recheio é farto. Na empada de camarão, os crustáceos não apenas são visíveis a olho nu, como são grandes o suficiente para ser sentidos na mordida. Há também uma empada doce de maçã com passas, quase uma tortinha.

As empadas estão disponíveis em alguns cafés de Porto Alegre, mas o pessoal também aceita encomendas e entrega em casa. Fale com o Carlos Eugênio no telefone 51 9956-8983.

Molho de mostarda

Se a proprietária dessa receita descobrir que a estou divulgando, certamente ficará furiosa. Como se trata de uma senhora na casa dos 80 anos, porém, as chances de isso acontecer são muito pequenas. Sim, eu roubo receitas de velhinhas. Parafraseando Faulkner, doar ao mundo um bom molho de salada vale um punhado de velhinhas.

A √ļnica dificuldade na produ√ß√£o deste molho √© encontrar a mostarda adequada. A receita pede especificamente a marca Rib’s, produzida pela Oderich. Talvez eles tenham uma marca equivalente sob outro nome no resto do pa√≠s. Os paulistanos podem tentar a sorte no supermercado do shopping Bourbon. Trata-se de uma mostarda extraforte, de consist√™ncia mais para o gel do que para uma pasta. Enquanto mostarda, por sinal, est√° longe de ser minha favorita, mas transformada em molho √© √≥tima.

MOLHO DE MOSTARDA

  • 1 frasco de mostarda Rib’s
  • A mesma medida de √°gua
  • Suco de 2 lim√Ķes
  • 1 colher de cafezinho de sal
  • 16 colheres de cafezinho de a√ß√ļcar (ou mel, ou melado)
  • 2 dentes de alho
  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 10 colheres de sopa de √≥leo vegetal

O processo de produção consiste em misturar todos os ingredientes, exceto o alho, e transformá-los numa emulsão. Pode-se usar o liquidificador, mas eu faço à mão mesmo, num vasilhame de vidro com tampa. Basta chacoalhar até homogeneizar. Depois, transfira o líquido para uma garrafinha de azeite de oliva vazia ou algo assim e coloque dentro os dentes de alho inteiros. O sabor vai melhorando ao longo do tempo.

A receita acima é a oficial, mas eu prefiro uma versão alternativa, usando apenas azeite de oliva no lugar de óleo vegetal. Não recomendo o azeite extravirgem, porém, porque o sabor vai ser completamente obliterado pela mostarda.

Os restaurantes brasileiros est√£o muito caros

Costumo defender os pre√ßos dos card√°pios nos restaurantes brasileiros quando algu√©m os considera exorbitantes — em geral, as pessoas comparam a lista de ingredientes com os pre√ßos dos produtos no supermercado e esquecem de incluir os outros custos, como aluguel, impostos, folha de pagamento, treinamento do chef, equipamentos, os preju√≠zos causados pelas noites menos movimentadas etc. Todo mundo quer bom atendimento, ingredientes de qualidade e ver seu restaurante favorito aberto na maior parte da semana, mas ningu√©m gosta de pagar o pre√ßo por essas conveni√™ncias.

Isso dito, há motivos para suspeitar que a maioria dos restaurantes está exagerando um pouco ao cobrar por seus serviços.

A suspeita nasceu ao analisar os pre√ßos de dois restaurantes famosos de Nova York, ¬†o Babbo e o Le Balthazar. Ambos s√£o muito bem cotados e recomendados pelo New York Times. Ambos oferecem card√°pios com pre√ßos na Web. S√£o os melhores de Nova York? N√£o. S√£o os mais caros? Tamb√©m n√£o. Por isso mesmo, prestam-se a uma compara√ß√£o com a m√©dia dos restaurantes porto-alegrenses. Ali√°s, o restaurante mais caro de Manhattan, que oferece apenas um menu fixo, cobra US$ 350 (ou R$ 609) por pessoa — √© o japon√™s Masa. Nova York √© uma cidade rica e que atrai turistas ricos da Europa e outras proced√™ncias. Os alugu√©is em Manhattan est√£o entre os mais caros do planeta. O investimento em arquitetura e decora√ß√£o tem de ser grande, porque a competi√ß√£o √© implac√°vel. Por outro lado, √© preciso reconhecer que os americanos podem ter algumas vantagens: impostos mais baixos, menos encargos trabalhistas e acesso f√°cil a determinados ingredientes. Al√©m, √© claro, de um fluxo constante de clientes.

A tabela abaixo compara os pratos mais caros em cada categoria nestes dois restaurantes nova-iorquinos e nos seus equivalentes de Porto Alegre, o italiano Al Dente e o francês Chez Philippe. Os preços foram convertidos conforme a cotação do dólar em 29 de dezembro de 2009.

Babbo Le Balthazar Al Dente Chez Philippe
Entrada R√ļcula selvagem baby com parmes√£o e aceto R$ 29,60 Mousse de f√≠gado de galinha e foie-gras R$ 26 Carpaccio de salm√£o R$31 Terrine de foie-gras em gelatina de frutas secas R$49,50
Prato principal Ossobucco desconstruído com açafrão, repolho negro e gremolata de avelã R$ 65,30 Steak au poivre R$ 67,91 Espaguete ao molho de trufas, nata e uísque R$50 Calda de lagosta assada com pupunha e arroz negro R$99
Sobremesa Crostata de maçã e figo com sorvete de leite de cabra R$ 20,90 Sobremesa (qualquer uma) R$ 15,67 Papaya com cassis R$ 15 Tomate meio-cristalizado com sorvete de manjericão R$12
Total
R$ 115,80
R$ 109,58
R$ 96
R$ 160,50

Percebe-se pela tabela que Porto Alegre tem ao mesmo tempo o restaurante mais caro e o mais barato; mas, vendo bem, os preços estão numa faixa muito semelhante. Alguns ingredientes são mais caros nos Estados Unidos, como o filé, enquanto outros, como a lagosta e o foie-gras, têm preços mais altos aqui no Sul.

A conclusão é que estamos comendo a preços de Nova York em Porto Alegre. Conclusão que exige a pergunta: estamos comendo com a mesma qualidade de Nova York?

Francamente, duvido muito. Nova York conta com abund√Ęncia de ingredientes de primeira linha e a brigada de cozinha mais competente que o dinheiro pode pagar. Acredito que o Chez Philippe possa at√© oferecer uma qualidade semelhante √† do Le Balthazar, mas n√£o posso me convencer que as massas do Al Dente sejam t√£o boas quanto as do Babbo, que j√° teve uma estrela no Guia Michelin.

N√£o √© preciso nem viajar √† Am√©rica do Norte para perceber a diferen√ßa na qualidade. Basta uma viagem a S√£o Paulo. A m√©dia das cozinhas de l√° √© muito superior √† daqui — e, dizem alguns americanos, at√© mesmo √† de Nova York ou Los Angeles. Os pre√ßos em S√£o Paulo, no entanto, nem sempre s√£o mais altos do que em Porto Alegre.

O assunto merece investiga√ß√£o, porque √© realmente muito dif√≠cil de entender esse fen√īmeno. Ainda mais quando se compara o poder aquisitivo do americano com o do brasileiro.

O melhor de Porto Alegre em 2009

Este √© o primeiro ano em que farei uma lista dos melhores restaurantes, caf√©s, armaz√©ns e outros produtos e servi√ßos relacionados √† gastronomia em Porto Alegre. Nunca antes me senti confort√°vel em faz√™-lo, porque pensava ser necess√°rio conhecer melhor o cen√°rio gastron√īmico da capital. Ap√≥s quatro anos de Garfada, por√©m, creio ser chegado o momento.

√Č claro, nem sempre os aspectos t√©cnicos s√£o o fator preponderante nas escolhas. Alguns selecionados t√™m para mim mais apelo afetivo do que propriamente gastron√īmico.

Convido os leitores a indicarem seus favoritos no espaço para comentários.

1. Del Barbiere — Sem sombra de d√ļvida, o campe√£o do ano. Alguns leitores j√° devem estar pensando que sou amigo de inf√Ęncia ou almo√ßo de gra√ßa no restaurante de Marcelo Schambeck, de tantos elogios rasgados por aqui. Acreditem, por√©m, que realmente se revelou um lugar fora de s√©rie nos √ļltimos meses. A rela√ß√£o custo/benef√≠cio de comer no Del Barbiere √© imbat√≠vel.

2. Koh Pee Pee — O melhor restaurante de Porto Alegre no quesito qualidade da comida. Considero as vieiras grelhadas em molho de lim√£o o melhor prato que j√° comi em uma casa local. N√£o deixa de ser bizarro uma cozinha tailandesa ser a melhor de uma regi√£o sem absolutamente nenhum la√ßo hist√≥rico com o pa√≠s do sudeste asi√°tico.

3. Chez Philippe — Muita gente prefere a comida francesa do Bateau √évre, mas eu tive uma m√° experi√™ncia l√° e portanto continuo achando o restaurante de Philippe Remondeau o melhor para se degustar pratos da cozinha cl√°ssica. De fato, o Chez Philippe est√° empatado em qualidade com o Koh Pee Pee, mas fica em terceiro porque prefiro a comida oriental. Embora a proposta seja o cl√°ssico, ainda, talvez o card√°pio se beneficiasse de um pouco mais de ousadia.

4. Churrascaria Porto-Alegrense — A melhor carne da capital. Sem grandes luxos e sem uma profus√£o barroca de op√ß√Ķes de acompanhamentos — sabem aqueles buf√™s que v√£o da salada de alface ao sushi de chocolate com coco? –, a Porto-Alegrense acaba dando destaque ao que o Rio Grande do Sul tem de melhor a oferecer: a carne. A paleta de ovelha e a costela s√£o irretoc√°veis. N√£o deixe de provar tamb√©m o matambre e, um tanto inusitadamente, o p√£o de queijo.

5. Padaria Priscilla’s — √önico lugar poss√≠vel para se adquirir¬†muffins, brioches, bolinhos e outras guloseimas de padaria. Um dos melhores √© o cinnamon roll. O pat√™ de f√≠gado feito em casa √© muito recomend√°vel, tamb√©m. Ainda por cima, os pre√ßos da Priscilla’s s√£o razo√°veis.

6. Pudim da minha m√£e — Continua o melhor pudim de leite da cidade, apesar da concorr√™ncia da sobremesa no Fazenda Barbanegra.

7. Daimu — Junto do Sakae’s, √© o √ļnico japon√™s entre as dezenas de japoneses da cidade a investir nas receitas tradicionais. Serve o melhor sushi/sashimi de Porto Alegre, sem sombra de d√ļvidas.

8. Caf√© do Mercado — A banca no Mercado P√ļblico fornece a mat√©ria-prima para os viciados hardcore em caf√©. L√° se pode comprar gr√£os selecionados de diversas regi√Ķes do Brasil, com certificado de origem. O quilo da vers√£o org√Ęnica do caf√© especial para espresso custa R$ 31, abaixo da m√©dia para essa categoria, e o cliente ainda ganha um espresso cortesia, para ser sorvido num ambiente sem igual. Fica convenientemente pr√≥ximo da Macrobi√≥tica Sauer (castanhas, cereais integrais, tofu, damasco seco) e do Emp√≥rio Banca 38 (vinhos nacionais e importados a bom pre√ßo e delicatessen).

9. Damask — Atendimento atencioso do propriet√°rio palestino e o melhor falafel da capital. Fica numa casa simp√°tica na cidade baixa, com direito a um sal√£o para fumar narguil√© no segundo andar. Serve cerveja Heineken em garrafa de 600ml, que pode ser bebida enquanto o cliente aprecia videoclipes de m√ļsica √°rabe. Precisa mais?

10. Burger King — Alguns leitores podem considerar uma heresia eleger essa rede de lanchonetes como um dos destaques numa cidade famosa pelo xis-cora√ß√£o e pelo xis-calota. H√° muito tempo por√©m n√£o frequento mais lancherias — deve ter algo a ver com n√£o estar mais na rua de madrugada nos finais de semana — e n√£o poderia julg√°-las. Depois de anos de hegemonia do ins√≠pido McDonald’s, entretanto, √© um alento poder comer sandu√≠ches com gosto de carne de verdade nas noites de cinema. Um sinal de que o Burger King tem tudo a ver com a cultura porto-alegrense √© o BK Stacker:¬†sandu√≠che com quatro hamb√ļrgueres, bacon, queijo e, at√© h√° pouco tempo, a op√ß√£o de “molho furioso” que, pasmem, era apimentado de verdade!

Fazenda Barbanegra

Sou um grande f√£ do restaurante El Viejo Pancho, uma casa de parrillada pertencente a uruguaios. √Č um excelente lugar para se comer carne a la carte, tomar chope e assistir a jogos de futebol. H√° duas semanas, por√©m, minha fidelidade foi abalada pela melhor qualidade da carne servida no Fazenda Barbanegra, restaurante de parrilla relativamente novo no bairro Auxiliadora.

Fazenda BarbanegraEmbora tenha sido dif√≠cil chamar a aten√ß√£o de algum dos gar√ßons na chegada ao lugar, ap√≥s um primeiro contato o atendimento fluiu simp√°tico e sem incidentes. Come√ßamos com uma por√ß√£o de timo (mollejas) e uma ling√ľi√ßa calabresa — deliciosa e fornecida pelo frigor√≠fico Castro, de Pelotas. O timo estava perfeito, ao mesmo tempo seco e tenro, muito superior ao mesmo prato no El Viejo Pancho. Seguimos com um vazio (cerca de R$ 20) e uma picanha de cordeiro (cerca de R$ 35), ambos servidos num ponto adequado. Muitas churrascarias t√™m a mania de esturricar a carne ovina e a de porco, por causa de mitos sobre infec√ß√Ķes parasit√°rias de √©pocas menos higienicamente corretas nos matadouros e frigor√≠ficos brasileiros. Hoje, por√©m, n√£o faz sentido esnobar um cordeiro mal passado — embora esse tipo de carne n√£o fique boa em ponto bleu, como a carne de gado.

Como acompanhamento, ordenamos uma sala mista com castanhas, damascos e queijo parmes√£o, bastante razo√°vel. O destaque do couvert √© o pat√™ de f√≠gado feito em casa, bastante forte. H√° tamb√©m um creme de manjeric√£o e manteiga. A sobremesa foi a recomendada pelo leitor Otto: pudim de leite, a mais famosa do Fazenda Barbanegra. Parece ser feito com leite condensado fervido, o que confere um sabor semelhante ao do doce de leite. √Č muito bom, mas o da minha m√£e √© melhor.

Os pre√ßos do Fazenda Barbanegra regulam com os do El Viejo Pancho. Muda muito o ambiente, por√©m. Enquanto o Pancho recebe f√£s de futebol e chope num sal√£o enorme, o Barbanegra √© pequeno e recebe clientes mais, digamos, badalantes. √Č bom reservar mesa ou chegar cedo aos domingos.

FAZENDA BARBANEGRA
Rua Ten. Cel. Fabrício Pillar, 791 РMapa
51 3333-0492

Sayuri

SayuriUm dos melhores restaurantes do Mercado P√ļblico de Porto Alegre √© o japon√™s Sayuri. O Bruno Galera publicou uma resenha aqui no Garfada em 2007, cujas considera√ß√Ķes compartilho — ingredientes frescos cozidos no ponto e bons pre√ßos. Apenas uma coisa mudou: passaram a aceitar pagamento com qualquer cart√£o de cr√©dito ou d√©bito.

Embora os sushis e sashimis sejam bastante bons, sobretudo porque o restaurante fica logo acima de dezenas de peixarias, lojas de produtos macrobi√≥ticos e bancas de hortifrutigranjeiros, sou muito mais partid√°rio dos pratos quentes do Sayuri. Eles se dividem em quatro tipos: carnes na chapa (teppanyaki), carnes com macarr√£o e legumes (yakissoba), carnes com arroz e legumes (yakimeshi) e carne refogada com legumes — sendo que as carnes podem ser camar√£o, gado ou frango. Gosto de pedir a carne apenas com legumes e o arroz √† parte, para ir acrescentando¬† o refogado por cima e comendo direto do pote.

SayuriAs entradas recomendáveis são os temakis ou a porção de guiozá, pasteizinhos de porco cozidos. Destaque para o dashi que acompanha os guiozás, muito saboroso.

Trata-se de um restaurante japon√™s sem frescuras. Tudo √© simples, mas tamb√©m √© bem-feito e √© barato: um almo√ßo para duas pessoas com uma entrada, dois pratos quentes e dois refrigerantes em lata sai por menos de R$ 50. E, depois de comer, pode-se dar uma volta no Mercado P√ļblico e voltar para casa com a sacola cheia de especiarias e guloseimas.

SAYURI
Mercado P√ļblico de Porto Alegre, 2¬ļ andar — Mapa
Telefone: 51 3226-1158

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