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Constantino

ConstantinoVejam vocês como uma segunda chance pode mudar o rumo das coisas: há pouco mais de um ano, detestei a comida do Constantino; voltando lá há duas semanas, mudei a opinião. O problema na primeira vez foi, provavelmente, a escolha dos pratos. Fui num risoto de vegetais, enquanto a Tati escolheu o nhoque de espinafre com ricota. Consideramos o risoto sem graça e o nhoque simplesmente péssimo, molenga, aguado.

Desta feita, escolhemos mais sabiamente. Um dos pratos principais foi a picanha de cordeiro acompanhada de aspargos frescos e cogumelos refogados. Um dos cordeiros mais macios e suculentos que já provei num restaurante. Ponto perfeito da carne. O outro foi o medalhão de filé recheado com queijo brie e batatas gratinadas, também acima da média. Os dois pratos giram em torno dos R$ 35, um preço razoável para a região da cidade; até mesmo em conta, talvez.

ConstantinoA entrada foi composta das panelinhas de cogumelos, provavelmente o prato mais conhecido do Constantino. É muito bom, mesmo, mas o preço de R$ 24 é absurdo. Para justificar, provavelmente, fazem questão de informar no cardápio serem as panelinhas da marca francesa Le Creuset. Uma atitude meio nouveau-riche, em minha opinião. A segunda entrada foi um tipo de mousse de queijo de cabra sobre um refogado de espinafre e tomates. Bom, mas seria melhor se servissem o queijo de cabra ao natural. Ficou faltando um pouco de sabor ovino.

Para a sobremesa, pedimos o crepe de Nutella com sorvete de café e molho de chocolate. Outra boa escolha, até porque o crepe vem beeeeeem recheado. Mesmo dividindo entre duas pessoas, ficou difícil terminar. Felizmente, eles servem cervejas artesanais como a Abadessa Helles, por R$ 19 o litro.

O melhor do Constantino, porém, é o ambiente. É o mais bonito pátio entre todos os restaurantes de Porto Alegre. Garantia de um jantar agradável em noites amenas. Aliás, achei o jardim, as mesmas e as paredes com objetos antigos mais interessante do que na primeira vez. Difícil saber se a escolha mais adequada da comida deixou o restaurante mais agradável, ou se o lugar realmente ficou mais bonito e isso se refletiu no sabor.

CONSTANTINO
Rua Fernando Gomes, 44 – Mapa
51 3346-8589

Iaiá Bistrô

Iaiá BistrôDomingo passado almocei com a família no Iaiá Bistrô, um restaurante novo e extremamente agradável na Zona Sul de Porto Alegre. É especializado em culinária brasileira, privilegiando no cardápio os frutos do mar. Os carros-chefe são as moquecas e caldeiradas. É também o único lugar da capital a servir um prato com tucupi: uma releitura do ensopado de pato tradicional do Pará.

Não se anime demais, porém. Não foi dessa vez que Porto Alegre ganhou um restaurante de culinária brasileira comme il faut. O cardápio foi adequado ao paladar insosso do gaúcho para temperos — ainda que os chefs, o americano Loyd Martin e o paulistano Maurício Cupini, sejam de fora. Compreensível: restaurantes são negócios e portanto não podem se dar o luxo de agredir o gosto do público em geral. A proprietária, Daniela Craidy, certamente conhece o mercado, pois foi sócia-fundadora do Sanduíche Voador, um dos mais relevantes estabelecimentos na formação da cultura gastronômica porto-alegrense.

Iaiá BistrôOs pontos altos da refeição foram as entradas. O bolinho de peixe é perfeito. O bacalhauzinho a Gomes de Sá é igualmente ótimo. Os espetinhos de camarão com queijo coalho e abacaxi fazem o sujeito se sentir em uma praia de areia branca e mar esmeralda. Pedimos como pratos principais a caldeirada de frutos do mar e o bobó de camarão. Ambos muito competentes, peixes, moluscos e crustáceos no ponto correto, mas carecendo de um pouco mais de força nos temperos. Dá para subir um pouco mais a temperatura e ainda manter a clientela. Por outro lado, os chefs demonstram coragem ao servir caruru como acompanhamento. Quiabo é um modo quase certo de desagradar à metade dos comensais, logo de saída. (Eu gosto muito.)

O atendimento no Iaiá é simpático, bem como o ambiente. Há um deck ótimo para aproveitar o final de tarde da zona sul e o salão é bastante iluminado e arejado. O café é passado em uma cafeteira italiana e levado à mesa nela mesma — e é o melhor “espresso” desse tipo de cafeteira que já provei, talvez por ser do Café do Mercado. Abre de quarta a sexta-feira, das 19h às 22h, e aos sábados e domingos, das 12h às 0h. Uma refeição, com bebidas e café, custa cerca de R$ 50 por pessoa.

IAIÁ BISTRÔ
Rua Chavantes, 636 – Mapa
51 3222-0098

Slow food no Del Barbiere

Del BarbiereA experiência gastronômica que mais alegria tem me trazido ultimamente é comer no Del Barbiere — anteriormente conhecido como Caffè del Barbiere. O bistrô de Marcelo Schambeck, no centro de Porto Alegre, é o melhor custo-benefício da cidade. Jamais comi um prato menos do que bom lá; a maioria é ótimo. Agora, estão servindo um almoço especial slow food no último sábado de cada mês. Perdi a primeira edição, mas frequentei as duas últimas, cuja chef convidada foi Michelle Leão. Trata-se de um menu fixo a R$ 34 por pessoa, privilegiando ingredientes brasileiros e sempre contando com alguma referência gaúcha, como limão-bergamota ou picanha.

Neste sábado, o menu foi o seguinte:

  • Um coquetel de espumante brut com gelo de bergamota montenegrina
  • Mini-wrap de variedade de abóboras
  • Couvert de pão de batata com cenoura torrado e creme azedo
  • Como entrada, carpaccio de chuchu ao azeite de trufas brancas, salada verde com vinagrete de limão sicialiano, maçã caramelada e amendoim
  • O prato principal foi picanha confit ao molho de jaboticaba guarnecida de purê de azedinha e farofa de copioba do Norte
  • Finalmente, sagu de hibisco com creme

As descrições podem remeter a restaurantes pretensiosos e esnobes, mas nada está mais longe da verdade. Primeiro, porque a cozinha entrega o que promete no menu, com execuções muito competentes. Além disso, quem mais parece se divertir com as variações semanais e mensais do almoço especial é o próprio Schambeck. Ele parece estar seriamente dedicado a pesquisar usos e combinações inovadoras dos ingredientes tradicionais com receitas internacionais, numa abordagem mais respeitosa que iconoclasta. O Del Barbiere é reflexo disso.

Del BarbiereOutro sinal do comprometimento com a qualidade é o fato de o Del Barbiere continuar pequeno e com qualidade constante após muitos meses de mesas sempre lotadas — hoje em dia, é impossível comer lá sem reserva. O restaurante poderia se mudar para um lugar maior ou passar a atender à noite também, mas continua lá, dividindo um salão minúsculo com uma barbearia.

Só se pode supor que Schambeck esteja preferindo continuar cozinhando como quer, para uma clientela pequena, mas cativa, a comprometer-se com as exigências de um lugar maior. Ou seja, não está colocando o carro na frente dos bois. Atitude sábia: refinar seu estilo culinário por algum tempo, estabelecê-lo, para então abrir um restaurante maior e com proposta sólida.

Uma confissão: pela primeira vez na vida, pensei em não publicar um artigo sobre um restaurante, com medo de levar ainda mais gente a disputar as poucas mesas nos almoços de sábado. O dever jornalístico falou mais alto. Vou ver se consigo reservar mesa para todos os almoços slow food até 2015.

DEL BARBIERE
Rua Jer̫nimo Coelho, 188 РMapa
51 3019-4202

Francesco Bistrô

O Francesco, aberto em 2008, é um dos poucos estabelecimentos a usar corretamente o nome “bistrô” em Porto Alegre. A casa de Michel Vallandro — o Francesco do nome é seu filho — serve no almoço de segunda a sexta e no jantar de quinta a sábado um menu a preço fixo (R$ 57 por pessoa à noite), cujo pratos são definidos pelo chef com base na oferta de produtos no mercado. As opções dadas ao cliente à noite são saber os pratos com antecedência ou ser surpreendido. E só. A comida é boa e farta, o atendimento é um dos melhores que já me foram dispensados e o ambiente é muito simpático, especialmente nos dias mais quentes, quando as mesas no pátio ou na rua, sob o túnel verde da Gonçalo de Carvalho, podem ser usadas.

Na noite em questão, infelizmente, Vallandro estava acometido de gripe e não pôde apresentar as duas entradas, dois pratos principais e sobremesa do cardápio. Deixou, porém, uma sugestão de vinho, o rosé da vinícola Milantino, de Encruzilhada do Sul. Bom vinho ao razoável preço de R$ 43. Pedimos o couvert, com pão tostado na chapa, caponata, gorgonzola, terrine de fígado, geléia de ameixa e manteiga. Uma boa combinação, especialmente da geléia com a terrine de fígado. A caponata é uma das melhores que já provei em restaurantes — ainda não achei uma que supere a minha receita. Apenas o pão poderia ser menos tostado; as pontinhas queimadas dão um bonito visual, mas predominam demais no sabor.

A primeira entrada foi uma salada verde com molho de mostarda de Dijon, ovo poché e cubos de bacon. Parece estranho à primeira vista, mas o sabor untuoso da gema escorrida sobre as folhas e a crocância do bacon casam perfeitamente. A segunda entrada foram frutos do mar grelhados ao molho dos marinheiros. Basicamente, mexilhões, berbigões, polvo, camarões grandotes e talvez algum outro marisco que não tenha sido capaz de identificar, servidos em uma pequena torre sobre um molho de ostras, camarão e mexilhão. Excelente consistência dos frutos do mar, mas o molho em minha opinião poderia ter uma pitada de sal a menos.

O primeiro prato principal foi um filé de peixe marinho cujo nome soou como “lot” sobre um espaguete de cenoura com molho de capim santo. Conforme o garçom, trata-se de um peixe de fundo do mar, que se alimenta somente de camarão. De fato, o bichinho tinha uma ótima carne, bastante densa. Destaque para o espaguete de cenoura, al dente e substituindo a massa  — note que era feito apenas com cenoura, não um espaguete alaranjado com cenoura — e acompanhando o peixe com perfeição. O segundo prato principal foi um entrecôte de porco com batatas gratinadas. A carne estava num bom ponto, rosadinha, mas um pouco dura. Nota dez, porém, para o gratin de verdade, tradicional, não meras batatas cobertas por parmesão ou catupiry.

A sobremesa foi uma tortinha de maçã com sorvete de creme e lascas de castanha-do-Pará, polvilhada com canela. Um bom fecho clássico para a refeição. O garçom nos ofereceu uma infusão de funcho, hortelã e capim santo feita com ervas frescas, pela qual o Francesco merece elogios. É raro encontrar chá de verdade em restaurantes. Para finalizar, o famoso limoncello feito segundo a receita da avó de Vallandro.

Um detalhe a ressaltar é a extrema gentileza de todos os funcionários do Francesco. Jamais cruzam a tênue linha entre o atendimento atencioso e a simpatia forçada. Eles também empregam o provavelmente mais bem-educado segurança de Porto Alegre. Mais restaurantes deveriam investir nesse aspecto da experiência.

Dica: não custa nada reservar uma mesa, especialmente em dias agradáveis, porque o lugar é pequeno. Eles seguram as reservas até as 20:45.

FRANCESCO BISTRÔ
Rua Benjamin Flores, s/n, esquina com a rua Gon̤alo de Carvalho РMapa
51 3072-1365

Daimu

Vários amigos têm elogiado o restaurante Daimu desde sua inauguração, e com toda a razão, porque é provavelmente o lugar mais sério para se comer pratos japoneses em Porto Alegre. Assim como o Guilherme Atencio, não gosto de invencionices ocidentais decadentes, como sushi Califórnia ou salmon skin. Nada contra quem gosta, mas aí deixa de ser culinária japonesa e passa a ser, com muito boa vontade, cozinha fusion.

Prova de que os proprietários não estão brincando quando prometem “a mais autêntica culinária japonesa, respeitando o uso de ingredientes e receitas tradicionais” é que mesmo a concessão ao gosto ocidental, o combinado “contemporâneo”, parece tradicional quando comparado a outros restaurantes da capital gaúcha. Há salmon skin e há cream cheese, mas em proporções respeitosas, e um foco especial no salmão, mas nada de tempurá de sushi ou coisas do gênero. Gostei muito de um nigiri com raiz forte fresca ralada por cima. Há um combinado “tradicional” com todos os peixes e variações clássicas do sushi e sashimi, para quem quiser conhecer as bases da culinária japonesa.

Recomendo fortemente no entanto o combinado “exótico”, por conta de um delicadíssimo linguado enrolado em uma folha de shissô servido sobre um molho cítrico. É a melhor receita que provei num restaurante japonês em muitos anos. Algo simples, harmônico com os sabores orientais e ao mesmo tempo muito surpreendente. Neste mesmo combinado há ainda um salmão enrolado em lâminas de nabo, igualmente delicioso, um temaki com enguia, sashimi de água-viva, nigiri com ouriço e várias preparações com ovas de peixe.

Os combinados do Daimu também merecem elogios pela apresentação, de longe a melhor nos restaurantes japoneses de Porto Alegre. O ambiente é muito agradável e o atendimento, atencioso. Com isso tudo, os preços ficam na mesma faixa de outros estabelecimentos — espere gastar algo como R$ 50 por pessoa, comendo bem. Dizem que eles servem uma cabeça de peixe preparada tradicionalmente, sob encomenda. Certamente provarei na próxima visita.

No almoço, o Daimu oferece rodízio de comida japonesa a R$ 29,90 (homens) e R$ 26,90 (mulheres). O pessoal informou que estão considerando a hipótese de oferecer rodízio também à noite. Espero que não seja um movimento de vulgarização motivado por um baixo número de frequentadores noturnos, porque isso em geral redunda na eliminação ou aleijamento do cardápio a la carte, hoje o melhor da capital para sushi e sashimi — a meu ver, o Sakae’s segue o melhor para pratos quentes. O Daimu está excelente como é.

DAIMU
Dinarte Ribeiro, 169 – Mapa
51 3222-0038

Enchendo lingüiça

Enchendo lingüiçaNo último sábado, participei do primeiro curso de culinária da minha vida. Confesso sempre ter tido certo preconceito contra esse tipo de curso, porque imaginava como colegas um bando de homens de negócios esnobes de meia-idade arrotando seus feitos gastronômicos. Imagem derivada provavelmente dos enochatos que já tive de suportar durante um número maior do que o aceitável de ocasiões. Felizmente, não havia ninguém assim no curso de produção de embutidos da Escola de Gastronomia Aires Scavone. Meus colegas eram na maioria homens de meia-idade, realmente, mas todos interessados apenas em aprender a fazer bons salames e copas, não em se pavonear. Inclusive, havia um agricultor de Maquiné e um analista de processamento de dados, único com mais ou menos a minha idade na turma.

Enchendo lingüiçaFato é que, sendo um grande consumidor de embutidos, não resisti quando vi na programação da escola esse curso. Saber o que vai dentro de sua calabresa ou lingüiça toscana — sim, com trema, porque linguiça não tem o mesmo sabor de lingüiça, não concordam? — é um grande privilégio. O chanceler alemão Otto von Bismarck comparou o funcionamento do parlamento germânico à fabricação de embutidos em sua famosa frase: “Os cidadãos não poderiam dormir tranqüilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis.” Se os políticos brasileiros se saem tão mal numa comparação com os políticos alemães, que dizer dos embutidos? Melhor fazê-los em casa, na medida do possível.

A boa notícia é que encher lingüiça não é tão difícil quanto pode parecer. Dá um monte de trabalho, mas é muito simples e requer poucos recursos: apenas um moedor de carne equipado com funil, uma balança capaz de aferir de grama em grama, algumas bacias e barbante. Um pouco mais complicado é arranjar a matéria-prima. Scavone recomenda comprar a carne em um açougue pertencente a amigos ou direto de algum frigorífico. Comprar a carne de porco já moída é um problema, porque em geral a carne moída tem até 70% de gordura, quando os embutidos pedem entre 20% e 30% apenas. Por isso, o melhor é comprar retalhos num frigorífico, que já os envia com a porcentagem de gordura desejada. Conseguir as tripas e os sais em pequenas quantidades também não é fácil, sobretudo sal de cozinha sem iodo — o sal comum iodado resulta em maior oxidação da carne.

Uma decepção do curso foi o uso de sal de cura — nitritos, nitratos — e outros conservantes e estabilizantes. Esperava técnicas menos dependentes de produtos químicos. Por outro lado, é um preconceito bobo. Os químicos facilitam a vida e diminuem a margem de erro no processo. Erros que custam caro, nesse caso, porque em geral não vale a pena fazer embutidos em pequena quantidade, então uma contaminação significa quilos e quilos de carne estragada. Além disso, meu principal objetivo era ter acesso aos procedimentos básicos e dicas da manufatura de embutidos, não necessariamente às receitas. De posse dessas informações, dá para desenvolver receitas sem uso de produtos químicos e ver se o resultado é melhor.

De resto, é apenas trabalhoso. Envolve a preparação de grandes quantidades de carne, marinadas de no mínimo seis horas, reidratação e lavagem das tripas, enchimento, amarração e cura por até 35 dias. A parte mais terapêutica é a amarração das copas, salames e lingüiças, um bom passatempo. No vídeo abaixo, chef Scavone mostra como se enrola uma copa:

As lingüiças calabresa e toscana — mais conhecida como salsichão — foram para a churrasqueira no domingo mesmo. Meu salsichão quente foi um sucesso no almoço familiar. (Perdão, foi irresistível.) É impressionante a diferença no sabor e textura das lingüiças feitas em casa para as industrializadas. Em primeiro lugar, são muito menos salgadas, o que permite sentir o gosto da carne e dos temperos. Em segundo lugar, não inundam a boca com um tsunami de gordura liquefeita.

A copa, o salame e uma calabresa estão no momento curando em minha cozinha. Até o final do mês, o salame deve estar bom para o consumo. A copa, só daqui 30 dias. Pretendo descrever o processo de cura aqui no Garfada e publicar as receitas quando produzir uma batelada em casa. Aguardem.

Sharin

Semana passada fui gentilmente convidado por Alexandre Sharin, proprietário do restaurante indiano Sharin, para conhecer o lugar. É um estabelecimento sobre o qual sempre tive curiosidade, até porque adoro comida indiana, mas por um motivo ou outro nunca havia conseguido visitar. A história de como Alexandre acabou abrindo o Sharin é interessante: foi apadrinhado por um indiano. O padrinho o levou a fazer negócios com o país asiático e o contato cultural gerou o interesse pela culinária. Para criar o cardápio, Alexandre trouxe três cozinheiros nativos a Porto Alegre para treiná-lo e à equipe por alguns meses.

O cardápio oferece uma mistura de pratos tradicionais e releituras ocidentais, inclusive uma opção com carne de vaca, algumas alternativas de fora do subcontinente, como curries vietnamitas, e até mesmo o íidiche gefilte fish, numa versão com tamarindo. É o único restaurante indiano em Porto Alegre que dispõe de um tandoor, o forno tradicional, onde são feitos os pães com iogurte chamados nam e um pernil de cordeiro para quatro pessoas, que fiquei com vontade de provar.

O couvert, excelente, inclui nam acompanhado de chutney, pastas de gengibre com melado, banana, berinjela, nata com queijo, nata com mostarda e molho de tomate com páprica; e um bolinho de cordeiro recheado com um ovo de codorna.

Deixamos a escolha dos pratos principais por conta de Alexandre, que sugeriu o camarão gigante ao molho de manga (R$ 150) e cordeiro ao molho de hortelã (R$ 75), ambos acompanhados de arroz basmati. O camarão veio num bom ponto, al dente por assim dizer. As primeiras garfadas dão a impressão de que não é muito picante, mas aos poucos aquela ardência boa vai ganhando a boca. Pode parecer incrível, mas não vai pimenta no camarão, apenas gengibre e, o segredo da picância, canela. Faz sentido: chicletes e balas de canela são muito picantes.

Já o cordeiro com hortelã nada tem a ver com a horrível receita britânica. Na verdade, o sabor lembra muito um molho com cogumelos porcini. Nesse caso, o segredo, segundo Alexandre, é uma hortelã desidratada levada ao fogo por um tempo mais longo, que acaba liberando um gosto semelhante ao de outros vegetais secos, como cogumelos e tomates.

A sobremesa foram damascos com calda, flocos de chocolate e sorvete de creme, e chum chum, bananas grelhadas com açúcar de palmeira, salpicada com coco e também com sorvete de creme.

Embora os pratos não sejam baratos, a maioria começando em R$ 75, as porções são generosas, suficientes para duas pessoas. Os preços dos vinhos, em compensação, são um pouco mais baixos do que a média. Aliás, há opções interessantes, como um touriga nacional da Dal Pizzol (R$ 48), altamente recomendado. Não se encontra essa uva em qualquer lugar. O Sharin também tem uma loja de produtos indianos, inclusive temperos, no subsolo.

SHARIN
Rua Felipe Neri, 332 – Mapa
51 3333-8596

Dometila

A maior qualidade do café Dometila, um lugar extremamente agradável de frente para a praça Maurício Cardoso, no Moinhos de Vento, é o proprietário, Claiton. O sujeito leva a sério o serviço e a cozinha. Não à toa, o Dometila é chamado por algumas pessoas de “café do Claiton”.

Claiton leva a sério sua cozinha a ponto de mandar clientes que pedem para retirar e acrescentar ingredientes dos pratos irem comer no Subway, porque “lá dá para montar o sanduíche como quiser”. Quanto ao serviço, basta dizer que os clientes são recebidos com uma chuva de pétalas de rosa e tratados sempre pelo nome. Quando o movimento permite, Claiton senta à mesa para explicar com profusão de detalhes como é cada sanduíche, torta ou quiche. O proprietário também tem uma intuição bem certeira sobre o tipo de comida que cada cliente prefere. Em geral as pessoas escolhem a sugestão acompanhada de “você tem jeito de que vai preferir o seguinte…”. Vai ver, por outro lado, isso é apenas efeito das descrições saborosas dos pratos e cafés.

O melhor do Dometila é que a qualidade da comida e dos cafés está à altura do serviço e do ambiente. Tudo é belíssimo, e tudo é no mínimo bom. Como se não bastasse, os preços são os mesmos ou apenas marginalmente mais altos do que os de qualquer outro café de alta estirpe da cidade.

DOMETILA
Praça Maurício Cardoso, 49 – Mapa
51 3346-1592

Ainda mais do mesmo

Saiu o guia 2009/2010 da Veja Porto Alegre, que traz informações sobre os principais bares e restaurantes da cidade. Além disso, todo ano o guia promove uma eleição dos melhores em cada categoria, convidando VIPs locais. A lista dos melhores é a mesma todos os anos, com uns poucos lugares mudando de categoria e um ou dois saindo e entrando. Embora ache que a eleição permite apenas saber quais são os locais mais conhecidos e populares, não os realmente bons, ao menos pode-se tirar certas conclusões sociológicas sobre a gastronomia da capital.

Chama atenção o fato de a melhor comida brasileira ser a da Cachaçaria Água Doce. Eles de fato servem comida correta e é um dos únicos lugares na cidade onde se pode comer carne de sol — sem falar em beber certas cachaças especiais. Gosto bastante da Cachaçaria, mas não é um restaurante de primeira categoria. É triste ver que a gastronomia brasileira é completamente ignorada em Porto Alegre. Em 2007 eu já me perguntava cadê a comida baiana, e a resposta continua em aberto. Será que não existe mercado para uma culinária brasileira de primeira linha entre os gaúchos, para um restaurante que sirva acarajé, pato no tucupi, barreado, moqueca capixaba, feijoada e outros pratos típicos nacionais comme il faut? Imagino a decepção de um turista que venha a Porto Alegre por algum motivo e queira saber como os brasileiros comem.

O que torna isso mais bizarro é o fato de haver excelentes restaurantes em Porto Alegre, mas voltados à cozinha oriental e francesa clássica. O Koh Pee Pee não fica devendo nada frente aos melhores restaurantes de São Paulo, nem o Chez Philippe. Então, não é falta de pessoal qualificado, nem ausência de gourmands dispostos a pagar o preço de refeições cinco estrelas. Talvez o problema seja provincianismo. Vai ver, os endinheirados locais pensam que é muito mais chique comer pratos exóticos da Tailândia que da Bahia — ainda que as duas culinárias se aproximem bastante nos ingredientes, usando muito frutos do mar, pimentas e leite de coco. O Kos foi uma baixa no ano passado e isso pode indicar também que não há muita abertura a propostas inovadoras por aqui. Analisando bem, o Koh Pee Pee tem uma história muito particular, tendo feito fama primeiro na Praia do Rosa, e a cozinha oriental foi legitimidada há muito tempo — já a francesa, nunca precisou de legitimação.

É engraçado também o Steinhaus ser permanentemente considerado o melhor alemão. Curto e grosso: eles não servem comida alemã. É cozinha internacional com uns poucos toques germânicos. O Polska, polonês, é muito mais germânico nos ingredientes e nos pratos, servindo todas aquelas coisas agridoces, marreco, porco etc. Outras boas opções para a comida alemã são os diversos botecos temáticos, como o Prinz, o Walter, o Chop Stübel, o Bier Stübe e outros.

Já uma injustiça, a meu ver, é o Bateau Îvre ter ficado à frente do Chez Philippe como melhor francês. Enfim, fui apenas uma vez a cada um dos lugares, talvez tenha dado azar. Não entendo também como o Na Brasa é sempre escolhido o melhor para se comer carne, quando temos a churrascaria Porto Alegrense, o Viejo Pancho e mesmo o Barranco. Carlos Kristensen, do Hashi, como chef do ano foi uma escolha justa, ele tem se esforçado em criar um caminho muito próprio na gastronomia e se mostrado competente. É legal também ver o Atelier das Massas como o melhor italiano e o quase sumiço do Copacabana, que sempre considerei uma enganação.

Faz falta mesmo é um guia gastronômico de Porto Alegre nos moldes do Michelin, ou mesmo da Época São Paulo, que não têm medo de dar opinião. Assim como parece avesso a novas propostas, o público gaúcho — incluindo-se aí principalmente os donos de restaurantes — têm alergia à crítica, que é sempre tomada como algo necessariamente ruim ou até mesmo uma ofensa pessoal. Mas quem sabe um dia o ambiente gastronômico de Porto Alegre cresça.

Suzanne Marie

Um restaurante que tem sido comentado e bem recomendado é o Suzanne Marie, um bufê de inspiração francesa que, salvo engano, antes se chamava Bain Marie. Aproveitando o dia azul e luminoso de outono, fomos almoçar lá no feriado de Tiradentes. Infelizmente, decepcionou.

Em primeiro lugar, a comida não tem nada de especial. Das opções disponíveis no dia é possível destacar apenas a torta de figos com amendôas, crocante por fora e cremosa por dentro, realmente muito boa — sugiro não aceitar a proposta de um sorvete de pistache para acompanhar, porque não é um grande pistache. O mousse de siri, um dos pratos mais famosos da casa, também é muito bom. Um filé ao molho de uma fruta vermelha, provavelmente framboesa, e um creme de milho eram interessantes, embora apenas corretos. De resto, arroz integral, feijão, peixe frito e saladas mais ou menos normais, sem nenhum tempero especial. Nada que justifique pagar tão caro por um almoço em bufê (cerca de R$ 30 por pessoa, com bebidas).

Segundo, o atendimento é confuso e às vezes até rude. Embora os guias gastronômicos digam que o Suzanne Marie opera com bufê livre, chegamos lá e descobrimos que a comida é cobrada por peso, sendo a sopa e a sobremesa não incluídas. É bem difícil entender exatamente quais pratos devem ser marcados na comanda, então a pessoa na balança tem de ficar chamando os clientes mais distraídos ou marinheiros de primeira viagem. A necessidade de pesar mesmo uma repetição de um pedacinho de carne faz o sujeito até desistir de comer mais.

No final, o garçom veio pedir para fechar a conta enquanto levava à boca uma garfada de torta, o que é inadmissível, sobretudo dentro do horário de funcionamento. Engoli rápido o último pedaço para pagar, depois percebi que ele queria apenas levar até o caixa as comandas. Como não trouxeram de volta até terminar o café, levantamos para pagar direto no caixa e tivemos de esperar enquanto a pessoa responsável fechava contas de outras mesas. Ou seja, poderia ter saboreado tranquilamente a sobremesa, se não fossem tão afobados.

Não voltarei ao Suzanne Marie. Há lugares mais baratos e tão bons quanto, ou pouco mais caros e muito melhores.

SUZANNE MARIE
Rua Tobias da Silva, 304 – Mapa
51 3023-4549

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