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Duas boas notícias

O chef Caco Zanchi, cujo restaurante Kos fechou no final do ano passado, esteve durante o ver√£o na B√©lgica, estudando e criando novas receitas. De volta ao Bar L√≠der, parece que no fim das contas os clientes do falecido Kos poder√£o seguir desfrutando a est√©tica particular de Zanchi,¬† a julgar pelo card√°pio especial do dia de S√£o Valentim: salada ao vingrete de cerveja, hamb√ļrguer de peixe ao molho de cerveja branca e uma sobremesa de gorgonzola com abacaxi, chamada luxuriosa. A conferir.

Enquanto isso, o Caffè Del Barbiere agora se chama apenas Del Barbiere, porque o chef Marcelo Schambeck resolveu assumir de vez o lado restaurante. O estabelecimento passa a oferecer um cardápio mensal, com pratos sempre repetidos a cada dia da semana, no almoço. Em março, por exemplo, há peito de frango com espuma de coco e tubérculos assados todas as terças, ou filé grelhado com molho demi, shoyu e nirá, guarnecido de batatas gratinadas. Couvert, entrada e prato principal custam R$ 19,90. Uma boa opção para um almoço festivo no centro da cidade.

Mais uma boa notícia

Os supermercados Zaffari de Porto Alegre finalmente t√™m uma das melhores coisas do mundo para oferecer: mel√£o desidratado. S√©rio, tem um sabor inacredit√°vel. Quase uma bala de goma natural. √Č da importadora Irm√£os Benassi, mas o r√≥tulo n√£o informa o pa√≠s de origem. Custa caro, algo entre R$ 10 e R$ 15 por uma embalagem com 200g, mas vale a pena vez ou outra.

Restaurante Kos fechou

Recebo por correio eletr√īnico a not√≠cia de que o restaurante Kos encerrou suas atividades. Conforme Caco Zanchi, “infelizmente Porto Alegre n√£o compreendeu nossa proposta”. O chef vai para o cl√°ssico Bar L√≠der. A mensagem avisa que “nada foi mudado no L√≠der”. Faz sentido o alerta, at√© porque se o Kos fechou √© porque as pessoas n√£o gostavam muito da comida. Eu gostei na √ļnica vez em que fui l√°, portanto lamento.

Padaria Priscilla’s

MuffinsEstaria Porto Alegre refinando seu gosto para p√£es, bolos e outros produtos de padaria? Nos √ļltimos anos t√™m surgido bons estabelecimentos na capital, cujos p√£es sempre chocaram os estrangeiros. At√© mesmo em Garopaba, no litoral de Santa Catarina, era poss√≠vel conseguir um p√£o franc√™s melhor — embora fosse necess√°rio submeter-se √† hilariedade do atendente quando voc√™ pedia seis “cacetinhos”. √Č interessante que os imigrantes t√™m um peso muito forte nesse movimento de qualifica√ß√£o das padarias porto-alegrenses. A Mercopan √© uruguaia, a Media Luna √© argentina e agora temos a Priscilla’s, aberta recentemente por uma ga√ļcha que morou muitos anos em Nova York, onde tinha um estabelecimento hom√īnimo.

Experimentei um monte de coisas: dinner rolls com e sem queijo gruy√®re, peasant bread, muffins de morango, ma√ß√£ com canela e laranja com nozes pecan, pull apart (um p√£ozinho caramelado e com canela), al√©m de brioche com, se bem me lembro, algum queijo salpicado. S√£o todos no m√≠nimo bons, com destaque para o pull apart, os muffins e o “p√£o campon√™s”. Trouxe tudo isso para casa e fiz a festa, tudo por menos de R$ 15. Levar para casa, ali√°s, √© uma boa op√ß√£o, porque o lugar √© bem pequeno, tem apenas uma mesa. D√° para tomar um caf√© l√°, mas a julgar pela m√°quina que estavam usando o espresso n√£o deve valer muito a pena. O funcionamento √© das 11h √†s 20h, creio que diariamente.

PRISCILLA’S
Rua Domingos José de Almeida, 32 РLoja 101 РMapa
51 3013-5812

Padaria Carina Barlett

Neste domingo experimentei meio sem querer os p√£es de Carina Barlett, nome da boulangerie — nome fresco para padaria — que se mudou recentemente de um espacinho na Barros Cassal para uma bela loja na esquina das ruas Jo√£o Telles e Vasco da Gama. Todos os supermercados de Porto Alegre estavam fechados gra√ßas ao dia dos pais e precisava receber amigos em casa. Ap√≥s buscar diversos mercadinhos e encontr√°-los tamb√©m fechados, arrisquei a padaria e dei sorte.

Comprei uma baguete, um p√£o tipo r√ļstico, p√£o de batata, p√£o de moranga, p√£o sueco e o que se chamava notre-dame, mas pela descri√ß√£o do L√ľdtke parece que o atendente se enganou, porque tratava-se de um p√£o de farinha integral com umas fatiazinhas de ma√ß√£ no topo. Todos esses custam at√© R$ 4 a pe√ßa. Todos muito bons, especialmente o suposto notre-dame, o sueco e o r√ļstico, em minha opini√£o.

Se algo falta na capital, s√£o mais padarias boas como essa. Com raras exce√ß√Ķes, o p√£o daqui tem uma produ√ß√£o absolutamente tosca. Os cacetinhos n√£o t√™m miolo, os integrais se esfacelam durante o corte, os italianos dos supermercados s√£o borrachudos.

CARINA BARLETT BOULANGERIE
Rua Jo√£o Telles, 237 – Mapa
51 3222-7878

Devolvam a minha alma

Em alguns meses entre S√£o Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, tornou-se flagrante a incompet√™ncia de estabelecimentos ga√ļchos em oferecer um m√≠sero tipo de suco natural que seja em seus card√°pios.

√Č uma situa√ß√£o simplesmente inaceit√°vel. Tente pedir ums suco de laranja em qualquer caf√© descolado de Porto Alegre, e provavelmente voc√™ vai ter como resposta alguma daquelas garrafinhas com p√≥ de Tang mal batido. No √ļltimo s√°bado, passando pelo Brique, questionei a atendente de um lugar desses sobre op√ß√Ķes de sucos naturais, e ela respondeu: “temos v√°rias polpas congeladas”.

O que passa pela cabe√ßa dessa gente? Talvez o que alguns amigos paulistas me confidenciaram, ao pensar que n√£o existia fruta alguma no Rio Grande do Sul, por causa do “frio que faz o ano todo” (aham). Podemos n√£o ter nada mais que razo√°vel, mas em qualquer Zaffari ou Nacional da vida d√° para descolar pelo menos um mam√£o trag√°vel. Ou sei l√°: v√° at√© a Lancheria do Parque e eles t√™m um monte de coisas para jogar naquele liquidificador que faz o tradicional suco misto, tosco ao extremo, mas que √© uma das √ļnicas op√ß√Ķes em toda a capital.

Gosto muito dos smoothies daquele Sa√ļde no Copo, mas o pre√ßo bastante salgado a proximidade excessiva com o conceito da Havaianas da Adidas me despertam saudosismo em rela√ß√£o ao suco de melancia encontrado em qualquer biboca a partir da regi√£o sudeste.

Por conta disso, espero obter apoio √† campanha V√£o √† CEASA e comprem um liquidificador, seus malditos. Pela morte do Minute Maid, Del Valle, polpas congeladas de tangerina e os famigerados “laranja de garrafinha”, feitos com gelatina derretida ou coisa que o valha.

Geometria da pizza

Quando descobri que o ex-asilo ao lado do Barranco, que h√° meses estava em reforma, iria se tornar uma pizzaria uruguaia, fiquei automaticamente ansioso pra conhecer o lugar. Primeiro, claro, por se tratar de mais uma op√ß√£o gastron√īmica na cidade, em um espa√ßo interessante, com uma √°rea aberta sob a copa de √°rvores de aspecto muito agrad√°vel. Segundo, porque eu queria entender o que significava uma pizza ser uruguaia.

Cheguei a cogitar que se tratava apenas uma desculpa para batizar o lugar de Punta Del Diablo (obedecendo √† seguinte equa√ß√£o: ‚Äúa leg√≠tima A‚ÄĚ = ‚Äúum novo conceito em A‚ÄĚ, sendo A um ramo de neg√≥cio qualquer), mas eu estava enganado. E se voc√™ pensou que a resposta era o formato da pizza, retangular ao inv√©s do cl√°ssico c√≠rculo, tamb√©m se enganou.

De fato, a pizza, assada em forno à lenha, é retangular e vem servida em uma base de madeira. Todavia, é no cardápio que está o segredo da coisa. Não tem sabor filé com batata palha, não tem sabor cachorro-quente, não tem sabor coração de galinha. Tem sabor de pizza de verdade, aliche, pesto, quatro queijos (com brie no lugar daquele usual creme nojento de catupiry), todas ótimas.

Concluí: é pizzaria uruguaia porque tem dignidade, como o sofrido e falido povo da Conaprole demonstra todos os dias. Uruguaio é orgulhoso e não baixa a cabeça, não podia servir pizza de milho, mesmo.

Ah: além do belo ambiente sob as árvores, a Punta Del Diablo tem estacionamento grátis. A pizza grande sai por pouco mais de R$ 20,00. Serve bem duas pessoas.

Ah 2: deve ter cervejas uruguaias, mas não afirmo porque só bebo Coca.

Ah 3: o card√°pio ainda estava um pouco improvisado nas duas vezes que eu fui, especialmente na parte das sobremesas.

PUNTA DEL DIABLO
Av. Prot√°sio Alves, 1472
Petrópolis РPorto Alegre

Amar a cerveja sobre todas as coisas

Marcos Becker Rostirolla tem profiss√£o de personagem de Nelson Rodrigues. ‚ÄúSou prot√©tico‚ÄĚ, se apresenta. Ido D√©cio Schneider trabalha como analista de dados da IBM. Paula M√ľhlbach, a organizadora, √© webdesigner do Tribunal de Contas do Estado. Diretor de arte de uma ag√™ncia de publicidade, Maur√≠cio Chaulet dos Santos √© um dos mais jovens do grupo. Tem 28 anos. A unir profissionais t√£o d√≠spares, o gosto pela boa cerveja. Mas n√£o apenas por beber cerveja. Tamb√©m por faz√™-la.

Est√° reunida pela segunda vez a confraria de cervejeiros artesanais, entidade ainda sem nome oficial que agrega representantes de um fen√īmeno brasileiro nos √ļltimos anos: o apreciador que busca a pr√≥pria vers√£o caseira das caras marcas importadas √† venda nos supermercados. O local da reuni√£o √© o Bierkeller, bar da Bela Vista, em Porto Alegre, onde 23 cervejeiros amadores se reuniram para discutir a fabrica√ß√£o de cerveja, trocar informa√ß√Ķes sobre cerveja e, naturalmente, beber cerveja.

O tempo de experi√™ncia dos presentes na fabrica√ß√£o de cerveja mostra como o fen√īmeno √© recente. Embora Rafael Corn√©lio se destaque, j√° tendo produzido desde 1989 mil vers√Ķes de sua Flachbier, que levou para a reuni√£o numa garrafa pet de pl√°stico de dois litros, a maioria come√ßou depois de L√©o Sassen, um dos donos da BSG Cervejeiros Artesanais, que fabrica a pr√≥pria cerveja desde 2004. Formada por Sassen, diretor de TV, e dois s√≥cios, um advogado e um m√©dico, a BSG produz 450 litros de cerveja todos os meses. Poderia ser o dobro, mas os donos n√£o se interessam em criar uma cervejaria comercial. A produ√ß√£o atual √© dividida entre eles e os amigos. A BSG √© um hobby caro, ocupando um galp√£o alugado apenas para os equipamentos. Equipamentos mesmo, caros e importados, n√£o as improvisa√ß√Ķes que marcam a maioria das cervejarias caseiras.

S√£o raros os cervejeiros que aceitam pagar pelos equipamentos originais (fermentadores, provetas, dens√≠metros, caldeir√£o, moinho para cereais) vendidos em algumas lojas e sites, que podem exigir um investimento inicial de R$ 5 mil. Lamentam que no Brasil a home brew (nome de luxo da cerveja caseira) ainda n√£o gerou o surgimento de lojas especializadas e de pre√ßos em conta como em Buenos Aires. E recorrem ao improviso. N√£o √© preciso mais do que uma panela grande, uma torneira e um cano, al√©m do servi√ßos de um funileiro para uma cervejaria. Com apenas R$ 300 √© poss√≠vel come√ßar a fabricar a pr√≥pria cerveja. √Č quanto Marcus Becker Rostirolla, o prot√©tico, gastou em equipamentos para produzir, desde maio, seis vers√Ķes da sua cerveja ainda sem nome, que levou em garrafas de Skol para a degusta√ß√£o. Vit√≥rio Levondovski, dono do bar onde se reunia a confraria, √© convidado a experimentar um copo da mais nova safra, deveras amarga. Bebe um gole e brinca:

‚Äď- √Č uma Skol.

Risadas gerais. Depois emenda, contemporizador:

‚Äď- √Č sempre melhor do que uma pilsen.

Culpem a cerveja que domina o gosto nacional. Na d√©cada de 40, ocorreu no Brasil e nos Estados Unidos fen√īmeno parecido. Grandes cervejarias compraram f√°bricas menores que produziam cervejas de sabor mais forte. No Rio Grande do Sul, ocorreu com a lend√°ria cervejaria Continental, comprada pela Brahma. A partir da√≠ os sabores diferenciados, como ale e lager, desapareceram e a pilsen se massificou. Cerveja de baixa fermenta√ß√£o criada em 1842 na atual Rep√ļblica Checa, corresponde atualmente a 98% do mercado nacional. Tolera melhor os conservantes sem alterar demais o sabor, o que facilita o processo de produ√ß√£o, transporte e venda. De acordo com o Sindicato Nacional da Ind√ļstria da Cerveja, o Brasil √© o quinto maior consumidor de cerveja do mundo, com 8,5 bilh√Ķes de litros anuais. Chineses, americanos, alem√£es e russos, nesta ordem, bebem mais cerveja.

Os pequenos cervejeiros n√£o querem saber de pilsen. Todos se inspiram na lei de pureza alem√£, com a qual, em 1516, o duque Guilherme IV da Baviera estabeleceu as regras para uma boa cerveja: n√£o deve levar mais do que √°gua pura, cevada e l√ļpulo. As cervejas caseiras em geral t√™m mais malte do que as industrializadas, com grandes varia√ß√Ķes em rela√ß√£o ao dourado p√°lido da prefer√™ncia nacional. N√£o levam conservantes ou estabilizantes e duram pouco mais de uma semana fora da geladeira, o que impede a produ√ß√£o em larga escala. Se fossem vendidas muito longe da f√°brica, certamente estragariam durante o transporte.

O fen√īmeno das microcervejarias come√ßou na d√©cada de 80 nos Estados Unidos. Fabricantes artesanais encontraram um nicho de mercado: os apreciadores de cervejas com gosto mais forte e encorpadas. No Brasil, a fabrica√ß√£o caseira teve impulso apenas nesta d√©cada. E, ao contr√°rio do que ocorreu d√©cadas antes, as cervejarias que come√ßam a se destacar em geral resistem ao ass√©dio das grandes. Por isso recentemente a Schincariol causou rebuli√ßo ao comprar duas tradicionais marcas artesanais, Baden Baden e Devassa, do Rio de Janeiro. N√£o h√° modifica√ß√Ķes √† vista no sabor das cervejas, mas os cervejeiros acompanham o caso com aten√ß√£o.

Porto Alegre est√° na vanguarda da cerveja artesanal no Brasil, garante Sassen. H√° confrarias mais antigas no Rio de Janeiro, por√©m a capital ga√ļcha, onde j√° h√° algum v√™m se tornando comuns bares com uma oferta diferenciada de cervejas, come√ßa a se destacar por suas marcas pr√≥prias. Tr√™s delas gozam de certa fama: Schmitt, Abadessa e Coruja. Todas possuem teor de √°lcool maior o que o das cervejas normais (enquanto uma pilsen tem entre 3 e 5%%, uma Barley Wine, da Schmitt, possui 8,5%) e j√° s√£o vendidas em bares. Mas o crescimento da produ√ß√£o tamb√©m faz os apreciadores desconfiarem que no futuro talvez n√£o conseguir√£o manter a mesma qualidade.

Isso leva a falar da Eisenbahn. Eisenbahn √© o modelo admirado entre os cervejeiros amadores: uma marca pequena que se expandiu sem perder a qualidade. Partindo de um formato artesanal, a ind√ļstria de Santa Catarina come√ßou a ocupar h√° poucos anos as prateleiras dos supermercados com uma variedade de cervejas de sabor mais forte. Recentemente a marca artesanal White Head, outra marca do Rio Grande do Sul, anunciou que est√° seguindo o mesmo caminho e se transformando em cervejaria. A cerveja ga√ļcha Dado Bier, do bar e cervejaria de mesmo nome, j√° √© vendida h√° alguns anos nos supermercados. O segredo √© servir a um p√ļblico que geralmente √© jovem, tem bom poder aquisitivo e busca novos sabores. As cervejas especiais custam muito mais caro do que as normais. Dependendo da marca, uma garrafa pode chegar a R$ 200, pre√ßo da belga Deus, considerada a melhor cerveja do mundo. As grandes cervejarias j√° abriram os olhos para o fil√£o e lan√ßaram linhas de cervejas diferenciadas para concorrer com as importadas.

Todos os presentes ao encontro fazem parte de uma lista de discuss√£o na Internet que re√ļne 30 apreciadores de cerveja caseira. √Č a segunda reuni√£o ao vivo entre eles. Oportunidade para que Maur√≠cio Chaulet conte que seu hobby j√° lhe causou problemas conjugais. O sogro, ao saber que o genro passara a fabricar a pr√≥pria bebida, chamou a filha para uma conversa. √ānimos serenados, Maur√≠cio produz a Chaulet desde 2005 na cozinha do apartamento.

‚Äď- Em casa eu sou tratado como alco√≥latra ‚Äď- diz em tom de brincadeira.

A inicia√ß√£o se deu pela m√£e de um amigo, que tamb√©m fabricava cerveja. Ele e o amigo come√ßaram a produzir juntos, mas a primeira tentativa deu errado. O amigo desistiu. Maur√≠cio, ap√≥s pesquisar o assunto na Internet durante um m√™s, decidiu seguir sozinho. Tentou novamente. Deu certo. Dois anos depois, de 30 em 30 dias, faz 20 litros de cerveja da qual √© o √ļnico consumidor.

Rafael Corn√©lio, 35 anos, √© o mais experiente cervejeiro do grupo. Tamb√©m √© pesquisador da Faculdade de Farm√°cia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dezoito anos atr√°s, come√ßou a produzir cerveja com o av√ī, que dois anos antes terminara o curso de mestre-cervejeiro. Rafael √© autodidata. Essa √© uma caracter√≠stica marcante do grupo. Nenhum deles passou por um curso. Em vez isso, buscam na internet e nos contatos pessoais novas f√≥rmulas e misturas. Reunidos, discutem equipamentos e dicas para a produ√ß√£o artesanal. T√™m um vocabul√°rio pr√≥prio. Frutada, por exemplo, √© a cerveja que na matura√ß√£o adquire um sabor ou odor de frutas. Cerveja do tipo weiss, feita de trigo, mais leve e densa, afirma Chaulet, tem gosto de banana.

Há um ritual para a degustação. Ido Décio Schneider, 50, anuncia a cerveja densa e vermelha que produz em um barril na garagem do prédio.

‚Äď- Red Ale.

Serve v√°rios copos e anuncia:

‚Äď- Essa tem seis tipos de malte.

Ido e alguns outros tamb√©m freq√ľentam a Confraria da Cerveja, no Clube Sogipa. A reuni√£o presente n√£o √© uma dissid√™ncia ou algo parecido. Tanto que v√°rios participantes se interessam quando aparece um cartaz anunciando um torneio de cerveja no grupo concorrente. Marcam de se encontrar na outra confraria para desfrutar da anunciada degusta√ß√£o de todas as participantes.

Na canjibrina, cria√ß√£o de Paula M√ľhlbach, do f√≠sico Heitor Marques e da publicit√°ria Desir√©e Marantes, cada safra recebe um r√≥tulo diferente. O trio produz cerveja desde setembro de 2006 e estava com a 16¬™ experi√™ncia fermentando na cervejaria instalada no quarto de empregada do apartamento dele. Servem garrafas da 11¬™, 12¬™ e 13¬™ safra aos presentes. Muda o r√≥tulo, mas o slogan √© sempre o mesmo: ‚ÄúAmar a cerveja sobre todas as coisas‚ÄĚ.

As √ļltimas garrafas est√£o sendo servidas e a reuni√£o est√° quase no fim quando os participantes come√ßam a debater a periodicidade dos pr√≥ximos encontros. Um grupo quer que as reuni√Ķes sejam mensais, outro acha melhor que sejam bimestrais para dar tempo de preparar e levar uma nova cerveja. Argumentos de parte a parte, decidem todos pelo meio-termo. As reuni√Ķes ser√£o mensais, mas se algu√©m quiser aparecer s√≥ de dois em dois meses n√£o haver√° problema.

E, sim, fazendo jus à célebre correlação entre cerveja e a má forma física, todos ostentam nem que seja uma barriguinha.

Rib’s reencarnou no The Best Food

Um dos lugares que mais deixou saudades em Porto Alegre foi a lancheria Rib’s. Os mais jovens devem conhecer mostarda e ketchup com essa marca. Ela existiu at√© o final dos anos 90, pelo menos, em dois endere√ßos: a pra√ßa J√ļlio de Castilhos, no Moinhos de Vento, e a esquina da Rua da Ladeira com a Rua da Praia, no Centro. Houve um breve per√≠odo em que se instalou no shopping Praia de Belas, mas nunca conto essa filial.

O Rib’s de verdade era uma lancheria de outra Porto Alegre, uma cidade em que a rua 24 de Outubro ensaiava se tornar o eixo principal do com√©rcio gr√£-fino e o Centro era ainda o centro da vida comercial. Uma √©poca em que a cor local era valorizada, n√£o o simulacro ass√©ptico de primeiro mundo a que a inseguran√ßa das ruas nos prende hoje.

O Rib’s de encarna aspectos de tudo isso em minha mem√≥ria. O card√°pio era uma releitura dos lanches do McDonald’s, como n√£o podia deixar de ser, mas dotado de indiscut√≠vel sabor pr√≥prio. Sabor conferido pela maionese com curry ou pelo molho ros√© espalhados em todos os sandu√≠ches. Eram bem diferentes dos xis que se encontrava em qualquer esquina. O milk shake virou motivo de lenda, algumas pessoas acreditam que s√≥ aquela m√°quina espec√≠fica, a da pra√ßa J√ļlio de Castilhos, conseguia faz√™-lo corretamente. Pois essa m√°quina hoje est√° no The Best Food do Assis Brasil Strip Center, segundo consta, resgatada por ex-funcion√°rios da empresa original.

H√° alguns dias almocei na filial da rua 24 de outubro, na esquina com a Lucas de Oliveira. Comi o Xis dos Deuses, com bacon e a maionese com curry. Continua igual aos da minha inf√Ęncia, quando almo√ßava nessa lancheria com meus pais. O milk shake tamb√©m. Claro que o card√°pio tem concess√Ķes aos tempos correntes, ent√£o n√£o podia faltar o prato light, com salada e frango. Basta ignor√°-lo. Infelizmente, n√£o √© poss√≠vel ignorar a total aus√™ncia de charme do ambiente atual como se pode ignorar um peito de frango no card√°pio. A comida do The Best Food pode ser igualzinha √† do Rib’s — o que n√£o √© pouco, diga-se de passagem –, mas a Porto Alegre em que ela nasceu ficou no mil√™nio passado.

THE BEST FOOD
Rua 24 de Outubro, 1320 – Auxiliadora
Tele-entrega: 3337-7761

Assis Brasil Strip Center – Cristo Redentor
Tele-entrega: 3340-4055

Churrascaria Porto-alegrense

Na quinta-feira comi a melhor picanha da minha vida. Esque√ßam qualquer outra: a Churrascaria Porto-Alegrense √© a melhor da capital ga√ļcha. Nunca cravei os dentes num peda√ßo de picanha ao mesmo tempo macio, suculento e bem cozido. A express√£o “ao ponto” fez sentido imediatamente. Al√©m disso, a carne s√≥ tinha uma camada de gordura fina o suficiente para dar um toque especial a determinados peda√ßos. O tamanho da por√ß√£o tamb√©m impressionou, ainda mais em rela√ß√£o ao pre√ßo (R$ 18). D√° para dois e sobra.

O segredo da Porto-Alegrense parece ser a simplicidade: o card√°pio √© enxuto, tem apenas os cortes mais tradicionais (picanha, costela, maminha, vazio e ling√ľi√ßas, al√©m do xixo e do frango para agradar √†s mo√ßas em dieta). D√° para perceber que um restaurante √© s√©rio quando o card√°pio tem pouca coisa. Isso mostra que, por um lado, est√£o focados em atingir a excel√™ncia em todos os pratos que saem da cozinha, por outro, que s√£o bons o suficiente para n√£o ter de fazer concess√Ķes ao p√ļblico. Outros dois fatores que fazem o sucesso da churrascaria √© usar fogo de lenha, ou ao menos peda√ßos de lenha nas brasas, o que d√° um sabor inconfund√≠vel √† carne, e s√≥ mandar um espeto para o fogo quando um pedido √© feito, garantindo o ponto certo sempre.

Infelizmente, decidimos ir em cima da hora, então não foi possível comer a estrela da casa, a carne de cordeiro. Como os churrasqueiros são sérios, não se permitem assar rápido demais o cordeiro e por isso é preciso sempre telefonar antes, avisando do pedido com pelo menos uma hora de antecedência.

Gostaria de aproveitar a ocasião para declarar que o churrasco a la carte parece cada vez mais fazer sentido para mim. Rodízio pode ser bom para impressionar turistas, mas a verdade é que se acaba comendo muito além da conta, e em geral pedaços de carnes não tão interessantes. Isso para não comentar que uma carne de rodízio precisa estar no fogo antes de o cliente pedir, ou voltar ao fogo depois de fazer o tour do salão, o que pode fazer com que fique ressecada e dura. Pedindo a la carte, você também pode aproveitar melhor o que cada corte tem a oferecer. Quer dizer, ao menos se o objetivo for comer uma boa carne, não apenas encher a pança.

CHURRASCARIA PORTO-ALEGRENSE
Av. Par√°, 913 – Navegantes
51 3343.2767

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