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MoDi

Numa viagem recente a São Paulo, aproveitei um domingo de garoa para almoçar com amigos no MoDi, bistrô da moda em frente ao parque Buenos Aires. É recomendado por oferecer boa comida a preços razoáveis numa cidade de preços frequentemente irracionais. O proprietário-gerente não estava no local no dia, então não foi possível verificar se o nome remete ao artista plástico Modigliani, mas o fato de haver um coquetel com seu nome no cardápio é uma evidência em favor da teoria.

A perspectiva é primordialmente italiana. Há massas, assados de cordeiro, risotos, focaccias e caponatas. Há no menu sempre um prato do dia, que varia conforme o dia da semana. No final de semana, pode-se encomendar qualquer um dos pratos do dia da semana anterior, que costumam ser um pouco mais baratos. Além disso, remetem a uma culinária mais popular, caseira, usando miúdos frequentemente.

Entrada de borsch frio com massa recheada de queijo de cabra.

Dispensamos o couvert e pedimos coquetéis para abrir o apetite, já que chegáramos ao local antes de o café da manhã abrir espaço para o almoço. Poucos minutos depois de sentarmos, cerca de 12:05, começou a se formar uma fila de espera. Após uma espera longa o suficiente para ser sentida, a garçonete veio informar que não havia os ingredientes necessários para os coquetéis solicitados. Para um martini “sujo”, faltava polvo em conserva, para a mistura que, salvo engano, se chamava Modigliani, faltava poejo ou alguma erva do tipo — estava sem meu caderno de anotações e, quando tenho companhia, evito anotar no telefone.

De fato, o atendimento estava inseguro no dia. Primeiro, não sabiam da falta de ingredientes para os coquetéis e demoraram a retornar para refazer o pedido. Depois, ao explicar a natureza do orzotto, o garçom afirmou que poderia ser preparado com ossobuco; feito o pedido, entretanto, retornou para dizer que só havia a versão com frutos do mar no dia. No mais, tudo era demorado, embora o serviço estivesse apenas começando.

Orzotto de lula e camarão do MoDi.

A comida, porém, estava boa. Após um coquetel de caju bastante forte e relativamente seco, chegou a entrada: um cálice de borscht frio com ravióli de queijo de cabra. Sua consistência era cremosa e o sabor, suave, sem ser insípido. O prato principal foi o orzotto, ou risoto de cevada, com lula e camarão. Nunca havia provado essa versão do tradicional risoto, que é, de fato, bastante interessante. A cevada cozida é mais consistente do que o arroz, sem ser dura, e tem um sabor um pouco mais denso, selvagem. A lula e o camarão vieram com uma consistência adequada e bom tempero.

Para a sobremesa, escolhi o cheesecake de queijo de cabra, excelente — mas apenas porque o canoli, assim como diversos outros ítens do cardápio, estava em falta. O queijo de cabra é bastante mais leve do que a versão clássica com cream cheese ou ricota. Além disso, a pungência do leite ovino equilibra ainda melhor o doce da geleia.

Cheesecake de queijo de cabra.

A conta resultou em cerca de R$ 100 por pessoa, incluindo bebidas e café. É um valor razoável pela qualidade da comida, mas o atendimento, ao menos neste dia, deixou a desejar. Por outro lado, embora tenhamos esperado um tanto pelos coquetéis e pela comida, o ambiente é extremamente agradável e tem vista para o parque, em especial se o cliente estiver sentado no mezanino. Vale a pena conhecer.

MoDi

Rua Alagoas, 475 – Higienópolis (Mapa)
Telefone: 11 3564-7031

Dinner in the Sky

Há duas semanas, fui convidado pela LiveAD, em nome da Brastemp, para ir a São Paulo e degustar um Dinner in the Sky preparado pelo chef catalão Oscar Bosch. Gostaria de ter comentado sobre esse jantar em específico antes, mas a viagem em si acabou gerando um acúmulo de trabalho que não me permitiu publicar nada aqui desde então. Se quiserem ter uma idéia de como é jantar a 45 metros de altura, dêem uma olhada no vídeo abaixo:

Bosch serviu como entradas uma brandade de bacalhau com mousse de manjericão e alho tostado em colherinha e uma guacamole com camarão e rúcula — feita com tomates assados e cebola fresca, sem limão, para ser suave onde necessário e destacar os sabores interessantes. Os pratos principais foram uma lula recheada com legumes que incluem cogumelos sobre um gazpacho — a lula tinha uma textura perfeita, macia e ao mesmo tempo resistente à mordida – e jarret de vitela sobre purê de mandioquinha. A sobremesa foi uma pannacota de chocolate branco com manga e coco queimado e pétalas de gérberas e begônias, muito bom. As flores conferem um sabor azedinho, quebrando a doçura do chocolate.

Um ótimo jantar, enfim, e com vista para o skyline noturno de São Paulo a partir do Jóquei, onde o aparato para levantar a plataforma foi montado. Uma baita experiência, sobre a qual a pergunta mais frequente é: “mas não dá vertigem?”. Algumas pessoas com medo de alturas até ficaram nervosas no início, mas com algumas taças de espumante se esquecem que estão penduradas num guindaste. Além disso, os engenheiros foram espertos o suficiente para colocar luzes embaixo das cadeiras, o que torna impossível ver qualquer coisa olhando diretamente para baixo e diminui a vertigem.

Os Destemperados têm umas fotos bem melhores.

Ao final do jantar, fomos desafiados a criar uma refeição com entrada, prato principal e sobremesa. O prêmio é um minirrefrigerador retrô.

Le Tire-Bouchon

Uma das melhores descobertas da temporada em São Paulo no final de janeiro foi o Le Tire-Bouchon. É uma loja de vinhos comandada por um simpático francês, que resolveu construir um restaurante no subsolo para realizar cursos de harmonização e degustação de vinhos. O bistrô acabou ganhando vida própria e hoje oferece, além do menu semanal harmonizado com vinhos importados pela casa (R$ 75 com entrada, prato principal e sobremesa), diversos pratos e tira-gostos à la carte. A comida é ótima e a carta de vinhos tem preços de loja, não de restaurante, uma enorme vantagem no fim das contas.

O melhor prato do cardápio é provavelmente a polenta mole com cogumelos selvagens (R$ 26), que pedimos como entrada. Também comemos o risoto do chef (R$ 28), que no dia era feito com tomates-cereja e ervas finas, muito competente. Os clientes podem pedir algum dos pratos do menu harmonizado, e foi o que fizemos: comi uma das melhores paletas de cordeiro da minha vida, acompanhada de purê de batatas e alcachofra com, se não me falha a memória, um tipo de gremolata. Um jantar despretensiosamente Europeu perfeitamente dentro dos parâmetros e a preço justo. Muito mais do que se pode dizer da maioria dos restaurantes badalados.

Uma experiência divertida é seguir o sommelier até a adega do restaurante, para escolher o vinho. Como todo o resto, a abordagem é despretensiosa. O sommelier explora os gostos do cliente e tenta encontrar o rótulo mais adequado sem muitas firulas enológicas. A equipe do Le Tire-Bouchon não tem por que encantar o cliente com metáforas gustativas estrambólicas; eles conhecem vinho muito bem e simplesmente indicam o melhor negócio dentro das expectativas do comensal. Escolhemos um rótulo da vinícola californiana Wente que agradou a todo mundo.

Aproveitei a viagem para comprar uma garrafa do vinho grego Sámos, difícil de conseguir. É um vinho licoroso excelente, mais barato que o sauternes e o substitui muito bem.

O Le Tire-Bouchon é um dos melhores lugares de São Paulo para um jantar clássico sem muita badalação — o espaço é pequeno e o fato de ficar no subsolo afasta os arrivistas. É para quem gosta de comer e beber bem, não para quem quer ser visto.

LE TIRE-BOUCHON
Rua Barão de Tatuí, 285 – Mapa
11 3822-0515

Suco Bom Bom

Bom Bom

A quem mora ou está em visita a São Paulo, recomendo fortemente passar na Liberdade e comprar uma caixa de suco Bom Bom. Não sei de onde tiraram esse apelido, pois não está escrito “Bom Bom” em lugar algum da latinha, mas é assim que chamam.

Trata-se de um suco de uva coreano com pedaços de fruta. Pode parecer estranho, mas bem gelado é uma delícia.

A melhor costeleta de cordeiro do universo

Nem Montevidéu, nem Buenos Aires. Muito menos Porto Alegre. A melhor costeleta de ovelha do universo pode ser encontrada por exatos R$ 39 até o dia 14 de março no restaurante do Hotel Hilton, em São Paulo. A unidade da hospedaria da família Hilton acha que está no Morumbi, mas na verdade é o Brooklin.

Se a localização espanta um pouco — posso dizer que dificilmente me daria o trabalho de ir se não estivesse ao lado da redação do Terra — o ambiente, o serviço e, principalmente, o nível excepcional da cozinha estão muito além do preço exigido. Muito mesmo.

Na chegada, mesmo com o restaurante praticamente vazio, sugeriram uma poltrona. Dois minutos depois a mesa estava escolhida. A pasagem conhecida diariamente revelava um ambiente completamente novo. A cadeira com encosto de madeira e um tecido não identificado confortava.

A pouca iluminação estava voltada diretamente para o prato. Os garçons sugeriram um couvert, que foi recusado. Em seguida, um micro camarão com tomate cereja espetado chegou à mesa. “Cortesia de nossa cozinha”, explicou o garçom. Sem solicitação ou cerimônia, o garçom despeja uma água que custa R$ 6 no copo. O vinho também foi recusado.

Como entrada, uma competente salada verde com um wrap de nozes. Tudo montado com enorme cuidado. Duas mesas para lá, um americano traçava a mesma entrada com certo desleixo.

O prato principal veio com a devida pompa. Minha companhia preferiu camarão com pedaços de polpa de maçã (o nome do prato era outro, não conseguirei lembrar). Eu fui na carne animal mais nobre que existe. O maitre veio perguntar instantes depois se agradara. Quase chorei.

Para completar, uma torta de maçã com sorvete de pimenta jamaicana. Perfeição.

Para melhorar tudo, o restaurante não inclui os indigestos 10% no preço ao cliente. Nota-se uma certa tensão no ar, mas é só ignorar. Na mesa, os garçons colocam o cofrinho das contribuições para uma instituição que beneficia crianças. Escuto na mesa próxima o americano perguntar como faria se quisesse doar, “por exemplo”, quarenta reais.

CANVAS
Av. das Nações Unidas, 12901 – Mapa
11-2845-0000

Lua Palace

Lua PalaceA comida oriental talvez seja minha favorita, mas nunca havia provado a culinária coreana — sobre a qual sempre tive muita curiosidade, por causa do kimchi, uma tradicional conserva de legumes picante. Em O homem que comeu de tudo, Jeffrey Steingarten submete-se ao kimchi como forma de eliminar suas frescuras alimentares. Após a resistência inicial, torna-se fã da conserva. A Tati é outra fã de kimchi. Ela morou com uma coreana em Nova York e, como Steingarten, considerou o kimchi a princípio nauseabundo, mas terminou comprando potes para ter em casa. Então, fui ao Lua Palace preparado para enfrentar um desafio gastronômico.

O kimchi foi, porém, amor à primeira vista no meu caso. Esse restaurante coreano aberto em 1992 serve a tradicional versão feita com acelga ou couve chinesa, mas também o kimchi de folhas de nabo (na foto) e de berinjela. Conforme o gerente da casa — aliás, um coreano simpaticíssimo –, a preparação deles é um tanto ocidentalizada, menos picante que o normal. Gostei muito. Gostei tanto que fui à Liberdade procurar um pouco para trazer de São Paulo. Não há muito como descrever o sabor, mas certamente agrada a quem gosta de conservas e de pimenta.

Lua PalaceO prato principal da casa, no entanto, é o churrasco coreano. Ele é feito na mesa, usando um aquecedor elétrico e chapas de pedra besuntadas de óleo de gergelim. O cliente escolhe o tipo de carne e recebe uma série de acompanhamentos: kimchi, arroz, amendoim, brotos de feijão, tofu, salada e um tipo de pudim de ovos que não consegui entender muito bem. A carne vem temperada com um molho semelhante ao tarê e é grelhada na mesa. Entre as opções, há desde filé até língua. Pedimos costela para dois. O corte era de boa qualidade e o molho deixa um sabor muito diferente.

Os preços à primeira vista assustam, mas um churrasco de costela para duas pessoas (R$ 75) acabou servindo três pessoas e dá para repetir os acompanhamentos. Mal posso esperar para voltar ao Lua Palace e provar o espaguete de batata em caldo gelado de carne, pepino e nabo.

LUA PALACE
Av. Armando Ferrentini, 182 – Mapa
11 3277-7823

Bar do Biu

Bar do BiuComida nordestina boa em São Paulo é no Bar do Biu. Trata-se de um boteco um tanto reformado na região do Sumaré, de propriedade de um cearense — o Biu — e tocado em família. Lá se pode provar essa culinária forte e pesada, herdeira direta da cozinha portuguesa. Há uns dez anos, passei algumas semanas de verão no Ceará e aprendi a gostar muito de carne-de-sol, que infelizmente é muito difícil de encontrar no Rio Grande do Sul. A carne curada típica daqui é o charque, um produto bastante diferente, mais duro e salgado. Então, sempre que vou a São Paulo, aproveito para matar as saudades da carne-de-sol e outros pratos típicos nordestinos.

O cardápio do Bar do Biu não tem muita frescura. São meia dúzia de preparações, com opção de variar apenas a carne: pode ser carne seca, sarapatel, frango, a supracitada carne de sol etc. O carro-chefe é o baião-de-dois, que pode ser visto na lamentável foto acima. Essa é a porção para duas pessoas (algo como R$ 30), uma quantidade absurda de comida. Acompanha uma salada, farofa, manteiga de garrafa e um molho de pimenta suave servido nessas garrafas. Preparado pelo próprio Biu, o chefe de cozinha, o baião-de-dois com carne-de-sol é excelente.

As sobremesas também são bastante boas. O pudim de leite só perde para o pudim do Alexa Atala e para o da minha mãe. O doce de abóbora com coco agrada até gente que, como eu, não é muito fã desse tipo de sobremesa. Uma boa é pedi-lo com queijo coalho. Outra dica é pedir uma jarra de suco de cupuaçu para acompanhar a refeição.

Recomenda-se chegar cedo, especialmente nos finais de semana, porque o Bar do Biu é bastante famoso em São Paulo e costuma lotar.

BAR DO BIU
Rua Cardeal Arcoverde, 776 – Mapa
11 3081-6739

Chi Fu

Chi FuA comida vendida como chinesa na maioria dos restaurantes sino-brasileiros (ref. porco agridoce) muito pouco tem a ver com a alimentação tradicional asiática. Em São Paulo há poucas semanas, fui levado pelo MODERADOR (att. Pós-Chernobyl) ao restaurante Chi Fu, num prédio defronte à Praça Carlos Gomes. A experiência arruinou a comida chinesa completamente para o resto de minha vida.

Tenha em mente que o Chi Fu não é um restaurante para quem gosta de bom atendimento. As garçonetes parecem todas ter sido trazidas da China em contêineres pela família proprietária, aparentemente os únicos no local a falar português com alguma fluência. São demoradas e ignoram completamente a sua presença — a não ser que você seja versado em mandarim ou ao menos tenha a aparência física do extremo oriente. As mesas são enormes, redondas e geralmente estão tomadas por famílias chinesas imensas. Conseguir uma não é fácil. Ficar sozinho é impossível; caso falte lugar, certamente algum chinês será acomodado à sua mesa.

Não apenas as mesas e as famílias chinesas são enormes. Tudo é hiperbólico no Chi Fu. Há panéis e lustres dourados para todo lado, refletindo a luz em tantos pontos simultaneamente que fazem o cliente temer um ataque epilético. O suco de laranja é servido apenas em jarras de dois litros. Aliás, delicioso suco, feito com laranjas extremamente doces. Um prato é suficiente para duas pessoas, talvez três, e custa em média R$ 30. O cardápio tem centenas de opções, muitas delas indecifráveis pela má transcrição da escrita ideográfica para a alfabética. Há ingredientes inusitados, como pepino do mar (R$ 180, o prato mais caro do Chi Fu). Há preparações comuns, como yakisoba. Tudo é bom.

Chi FuO moderador e eu pedimos como entrada mariscos ao molho “tao si” (não encontrei em buscas na Web; só posso supor que seja dashi mal escrito). Recebemos o prato de mexilhões da foto, que infelizmente não faz justiça: foi o melhor prato de mexilhões da minha vida. Sério. Nunca encontrei esses moluscos tão bem executados. O ponto estava perfeito. Comer os mexilhões com cebolinha e pasta de feijão preto fermentado é transcedental.

O prato principal foi um yakisoba de frutos do mar. Pudemos identificar lulas, camarões e kani em meio aos legumes e macarrão. Ao contrário dos yakisobas servidos por aí, havia muito pouco molho de soja e ainda menos maizena para espessar — mas bastante gordura. De novo, jamais encontrei uma execução tão perfeita dessa preparação em restaurantes chineses brasileiros. O macarrão não dominava a receita, deixando espaço para os legumes crocantes. Um detalhe pitoresco é o fato de não haver pratos no Chi Fu. Você recebe uma cumbuca fofinha e hashi e vai servindo-se das travessas aos poucos.

Ao final da refeição, a casa oferece uma travessa de melancia como cortesia. Quer dizer, acho eu que seja cortesia. Não soube ler os ideogramas da conta.

CHI FU
Praça Carlos Gomes, 200 – Mapa
11 3112-1698

Ritz

Ritz burgerO Cardoso vive elogiando o Ritz, um restaurante de comida de boteco chique com duas lojas nos jardins paulistanos. O carro chefe da casa são os hambúrgueres em suas diversas apresentações — ou “burgers”, como preferem os paulistas. Confesso que a perspectiva de pagar entre R$ 20 e R$ 30 por um sanduíche não era lá muito animadora, mas como além do Cardoso o Renato Parada e o Daniel Galera são fãs dos burgers, considerei ser meu dever como repórter gastronômico experimentá-los.

Pois eles têm razão! Os hambúrgueres desse tipo de estabelecimento estão em um nível muito acima do xis nosso de cada dia. De fato, não podem ser considerados meros lanches, mas comida séria. Percebe-se no Ritz o mesmo cuidado com os ingredientes e no preparo e apresentação dos pratos que se percebe nos bons restaurantes. A carne moída é de qualidade e o hambúrguer — feito à mão, é claro — não vem completamente carbonizado, mas num ponto um tanto rosado. O pão é fresco, assim como a salada. Há ketchup, mostarda e pimenta de boa procedência para temperar a comida.

Pedi um Ritz Burger acompanhado de anéis de cebola e bolinhos de arroz (R$ 32). O sanduíche tem no recheio pancetta, salada e maionese, além da opção de queijo cheddar ou gorgonzola — fui de cheddar. Os bolinhos de arroz podem servir como modelo para cozinheiros Brasil afora e os anéis de cebola são bons, mas nada espetacular. Provei ainda o burger com gorgonzola que a Tati pediu e achei a combinação excelente, ao contrário do que a intuição insinuou.

No fim das contas, o prato é imenso e mais do que satisfaz, o que significa que pagar entre R$ 20 e R$ 30 é razoável. Só é bom chegar cedo, se não quiser pegar uma fila imensa.

RITZ
Alameda Franca, 1088 – Mapa
11 3088-6808

D.O.M.

IMG_5730Há muito, muito tempo eu aguardava a oportunidade de visitar o restaurante do chef mais respeitado do Brasil, Alex Atala. Pois agora posso atestar que o Dominus Optimus Maximus, ou D.O.M., é tudo isso, sim.

No último sábado, desfrutei com minha mulher e dois casais de amigos do menu degustação de seis pratos oferecido pelo D.O.M. Foi a experiência gastronômica mais fascinante de minha vida, só comparável à primeira vez que provei foie-gras. No mundo gastronômico, em geral é preciso escolher entre imaginação delirante do chef, provando criações inusitadas que não chegam lá, ou a perícia técnica, comendo o clássico bem-feito. Atala consegue juntar imaginação e perfeição técnica. O que mais um gourmand pode pedir?

A experiência começa já com o atendimento no momento de fazer a reserva. É um dos poucos restaurantes que de fato responde às mensagens via correio eletrônico — e Michele, a pessoa responsável no meu caso, além de ser atenciosa, não agride o intelecto com um português de nível semi-analfabeto, como é muito comum. Mesmo quando tive de aumentar o tamanho da mesa duas semanas antes da data, ela sempre respondeu rápido e foi compreensiva.

O mesmo espírito se encontra em todos os funcionários, sommelier e garçons do D.O.M., extremamente dispostos, mas ao mesmo tempo discretos no serviço. É um restaurante caro, mas nada esnobe. Nas mesas havia desde senhoras da alta sociedade com vestidos de festa até adolescentes vestindo jeans, tênis e camiseta. Aliás, a informalidade vai ao ponto de servirem um almoço executivo (R$ 42) de arroz, feijão, salada e uma opção de carne de segunda a sexta-feira. Atala acha que nenhum chef pode se considerar completo se souber transformar um boi inteiro em espumas e crostas, mas não souber fazer um feijão decente.

IMG_5711O jantar começa com uma referência à culinária pop: junto dos pães com um purê de alho, creme azedo temperado e manteiga com alecrim e sal grosso, uma latinha de manteiga Aviação chega à mesa. Também termina com uma referência pop nas balas Dadinho que acompanham o café e a conta. Os pães do couvert, entretanto, não são nada de especial. Em compensação, são servidos durante todo o jantar, o que permite passar os miolos no fundo do prato e capturar cada gota de molho.

O menu degustação é servido apenas se todos os integrantes da mesa o pedirem. Cada um apresenta suas restrições alimentares e o chef monta a seqüência de seis (R$ 195) ou oito pratos (R$ 275) de acordo. O sommelier vai sugerindo os vinhos para acompanhar ao longo da refeição. É uma boa pedir um menu na primeira visita ao D.O.M., até porque sai mais em conta do que pedir seis pratos à la carte.

Não sei se adianta comentar cada prato. Falta competência lingüística para descrever as sensações. A Tati talvez tenha encontrado a melhor metáfora: a comida do D.O.M. tem movimento, cada nova garfada ocupa espaços diferentes na língua. Há sempre uma nova textura, um novo detalhe, uma supresa. A cada prato, só conseguia pensar algo como “puta merda, o Atala é foda!”. Prefiro comentar apenas a entrada e a sobremesa, símbolos da experiência de comer na mão do Atala.

IMG_5716A primeira entrada foi um gel de tomates verdes com carne de cordeiro curada. Minha reação foi de ceticismo quanto à combinação, mas assim que o primeiro bocado espalhou a acidez e o frescor do tomate misturado à imponência salgada da carne curada, entremeados pela crocância de cristais de sal grosso e breves sinais de coentro, tudo fez sentido. Essa entrada, a meu ver, simboliza o lado imaginativo de Atala.

IMG_5727A sobremesa era composta, além de um ravióli de banana indescritível e funghi branco com uma calda com essência de uma planta cujo nome esqueci — uma ousadia que na minha opinião não deu muito certo –, de um pudim de leite absolutamente perfeito. É difícil crer que um sabor tão conhecido possa surpreender de alguma forma, mas o pudim de leite de Atala o faz. Quase chorei de emoção ao prová-lo. É o símbolo da perfeição técnica do D.O.M.

Os outros pratos do menu, todos excelentes, foram uma segunda entrada de ostra empanada com ovas de salmão e sagu — aliás, nunca comi um marisco com uma consistência tão exata –, espaguete de palmito pupunha com camarão e manteiga de coral — feita de restos do camarão, como aprendi com um colega de mesa –, creme de cogumelos em caldo de vitela com arroz selvagem tostado, costelinha de porco à brás com mandioquinha-palha e espuma feita do molho da carne e vinho. O queijo foi um purê de mandioquinha com queijo gruyère e minas. Aliás, confiram o vídeo abaixo, mostrando como esse aligot é servido:

Na viagem de volta de São Paulo, encontramos alguns amigos no aeroporto. Eles perguntaram se era muito caro comer no D.O.M.. Não é. R$ 195 para degustar as criações de um dos maiores cozinheiros do mundo, produzidas com os melhores ingredientes disponíveis no mercado, não é caro. Ainda mais se for encarada como espetáculo que de fato é e comparada ao preço de outros espetáculos. Um ingresso para o show do Radiohead, no mesmo final de semana, realizado num lamaçal sem nenhuma estrutura fedendo a bosta de cavalo, custava R$ 200, mas as pessoas acham normal.

Peço desculpas pela má qualidade das fotos e, para finalizar, relato uma história a respeito do D.O.M., ouvida no mesmo aeroporto. Dois sujeitos foram visitar um amigo que mora em frente ao restaurante e quiseram comer lá, mas não havia mesas disponíveis. O anfitrião argumentou, lembrou que era um freqüentador assíduo e, ante as negativas, desafiou: “OK, então o que vocês podem fazer pelos meus amigos de fora que querem conhecer a comida de vocês?”. O atendente pediu o endereço e em cerca de meia hora dois garçons apareceram no apartamento com duas refeições para os turistas. Isso é levar a gastronomia a sério.

D.O.M.
Rua Barão de Capanema, 549 – Mapa
11 3088-0761

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