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Fazenda Barbanegra

Sou um grande fã do restaurante El Viejo Pancho, uma casa de parrillada pertencente a uruguaios. É um excelente lugar para se comer carne a la carte, tomar chope e assistir a jogos de futebol. Há duas semanas, porém, minha fidelidade foi abalada pela melhor qualidade da carne servida no Fazenda Barbanegra, restaurante de parrilla relativamente novo no bairro Auxiliadora.

Fazenda BarbanegraEmbora tenha sido difícil chamar a atenção de algum dos garçons na chegada ao lugar, após um primeiro contato o atendimento fluiu simpático e sem incidentes. Começamos com uma porção de timo (mollejas) e uma lingüiça calabresa — deliciosa e fornecida pelo frigorífico Castro, de Pelotas. O timo estava perfeito, ao mesmo tempo seco e tenro, muito superior ao mesmo prato no El Viejo Pancho. Seguimos com um vazio (cerca de R$ 20) e uma picanha de cordeiro (cerca de R$ 35), ambos servidos num ponto adequado. Muitas churrascarias têm a mania de esturricar a carne ovina e a de porco, por causa de mitos sobre infecções parasitárias de épocas menos higienicamente corretas nos matadouros e frigoríficos brasileiros. Hoje, porém, não faz sentido esnobar um cordeiro mal passado — embora esse tipo de carne não fique boa em ponto bleu, como a carne de gado.

Como acompanhamento, ordenamos uma sala mista com castanhas, damascos e queijo parmesão, bastante razoável. O destaque do couvert é o patê de fígado feito em casa, bastante forte. Há também um creme de manjericão e manteiga. A sobremesa foi a recomendada pelo leitor Otto: pudim de leite, a mais famosa do Fazenda Barbanegra. Parece ser feito com leite condensado fervido, o que confere um sabor semelhante ao do doce de leite. É muito bom, mas o da minha mãe é melhor.

Os preços do Fazenda Barbanegra regulam com os do El Viejo Pancho. Muda muito o ambiente, porém. Enquanto o Pancho recebe fãs de futebol e chope num salão enorme, o Barbanegra é pequeno e recebe clientes mais, digamos, badalantes. É bom reservar mesa ou chegar cedo aos domingos.

FAZENDA BARBANEGRA
Rua Ten. Cel. Fabrício Pillar, 791 – Mapa
51 3333-0492

Geometria da pizza

Quando descobri que o ex-asilo ao lado do Barranco, que há meses estava em reforma, iria se tornar uma pizzaria uruguaia, fiquei automaticamente ansioso pra conhecer o lugar. Primeiro, claro, por se tratar de mais uma opção gastronômica na cidade, em um espaço interessante, com uma área aberta sob a copa de árvores de aspecto muito agradável. Segundo, porque eu queria entender o que significava uma pizza ser uruguaia.

Cheguei a cogitar que se tratava apenas uma desculpa para batizar o lugar de Punta Del Diablo (obedecendo à seguinte equação: “a legítima A” = “um novo conceito em A”, sendo A um ramo de negócio qualquer), mas eu estava enganado. E se você pensou que a resposta era o formato da pizza, retangular ao invés do clássico círculo, também se enganou.

De fato, a pizza, assada em forno à lenha, é retangular e vem servida em uma base de madeira. Todavia, é no cardápio que está o segredo da coisa. Não tem sabor filé com batata palha, não tem sabor cachorro-quente, não tem sabor coração de galinha. Tem sabor de pizza de verdade, aliche, pesto, quatro queijos (com brie no lugar daquele usual creme nojento de catupiry), todas ótimas.

Concluí: é pizzaria uruguaia porque tem dignidade, como o sofrido e falido povo da Conaprole demonstra todos os dias. Uruguaio é orgulhoso e não baixa a cabeça, não podia servir pizza de milho, mesmo.

Ah: além do belo ambiente sob as árvores, a Punta Del Diablo tem estacionamento grátis. A pizza grande sai por pouco mais de R$ 20,00. Serve bem duas pessoas.

Ah 2: deve ter cervejas uruguaias, mas não afirmo porque só bebo Coca.

Ah 3: o cardápio ainda estava um pouco improvisado nas duas vezes que eu fui, especialmente na parte das sobremesas.

PUNTA DEL DIABLO
Av. Protásio Alves, 1472
Petrópolis – Porto Alegre

Cerveja brasileira

Entendo muito pouco de cerveja e não deveria estar falando sobre o assunto, mas, instado por uma conversa com o Träsel, vou meter minha colher. Meu método pessoal de seleção da bebida envolve basicamente os seguintes passos:

Dê um gole. É alcoólico? Se sim, passe para a próxima etapa. -> Tem cheiro de cereais ou vegetais menos nobres decompostos? Se não, próxima etapa. -> Deixa retrogosto de cloro ou água podre? Se não, passe para a próxima etapa. -> Beba o resto.

Para o meu paladar, seguindo à risca esses preceitos, no Brasil inteiro só passam a Itaipava, Boêmia, Original e Cerpa. De todas elas a que mais gosto é a Itaipava, pois sucede que, além de passar nos testes acima, costuma ser a mais barata do grupo.

Há alguns dias estava falando com o especialista no assunto e ele disse que todo mundo de São Paulo que ele conhece fala mal da Itaipava, ao que eu respondi: Isso deve ser opinião de mulher, a maioria dos bebedores profissionais de cerveja que conheço aqui trocam quase qualquer outra pela Itaipava. Mulher não gosta porque é barata e as paulistanas têm isso de não gostarem de coisas baratas – são sinônimo, para elas, de coisa ruim. Enfim. E ele respondeu: “bingo”.

Esse é o mesmo tipo de mulher que bebe Freixenet ou Prosecco feito em alambiques fétidos na Sicília e acha muito melhor que espumante brasileiro (aqueles mesmos que ganham a maioria dos concursos de degustação às escuras na França). Os importadores brasileiros são sujeitos muito sortudos, pois a combinação de um público que não faça idéia do que está bebendo e que tenha os bolsos forrados e pródigos deve ocorrer muito raramente em outras paragens.

Passei uns cinco anos tomando cervejas uruguaias quando morei na fronteira e trabalhava no Uruguai: Nenhuma das cervejas uruguaias dos anos 90 – não sei como estão hoje – tinha o gosto nítido e marcante de água de piscina que quase todas as cervejas brasileiras têm. As exceções são as que estão na lista acima.

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