The Raven

O The Raven é, provavelmente, um dos melhores restaurantes em operação em Porto Alegre.

Agora que o prezado leitor se recuperou da afirmação bombástica acima e terminou de questionar as minhas credenciais — aliás, inexistentes — de crítico gastronômico, deixe-me explicar. É verdade, o cardápio do The Raven não apenas não tem inovação alguma em ingredientes ou processos, como beira o reacionarismo culinário. O ambiente lembra mais um Biergarten do que um restaurante francês clássico. A louça é ordinária e há o mínimo de garçons possível para atender às mesas encostadas uma na outra de maneira a preencher o salão ao máximo. Então, o que eu vi no The Raven?

Uma das melhores relações custo/benefício da capital gaúcha, aliada a total franqueza a respeito dos objetivos do lugar. O The Raven parece se pretender uma porta de entrada ao mundo da alta gastronomia para os leigos, a preços baixos o suficiente para transmitir uma aura de segurança na experiência, e entrega exatamente isso. Tem filé Rossini, com foie-gras, a R$ 59. Vieiras com caviar a R$ 32. Carta de vinhos enxuta, mas razoável. Quase os mesmos preços de um prato de arroz de carreteiro ou maminha recheada vendido na concorrência imediata do bairro. É um convite a quem tem medo de investir centenas de reais em provar coisas novas nos franco-italianos chiques de Porto Alegre.

No dia em que jantamos lá, um sábado, chegamos por volta das 22h, prevendo uma fila inviável. Havia uma fila, realmente, mas como éramos apenas dois levou menos de 15 minutos para vagar uma mesa. O lugar estava completamente lotado de famílias comemorando aniversário, mas sem crianças, e alguns poucos casais na faixa dos 20-30 anos. Pretendíamos pedir as vieiras flambadas na vodca com caviar, mas a garçonete ofereceu escargots “que chegaram hoje mesmo”, então decidimos deixar as vieiras, fixas no cardápio, para outra ocasião. A entrada previa quatro escargots a R$ 32, mas recebemos cinco caracóis. Só há talheres comuns no The Raven, daqueles bem simples, mas a equipe percebeu a nossa dificuldade para puxar as lesmas da casca e trouxe garfinhos de coquetel feitos de madeira.

O restaurante é um dos poucos a oferecer o fenomenal vinho tannat H. Stagnari Premier, uruguaio, então pedimos uma garrafa (R$ 72). Casaria bem com o confit de pato com purê de batatas e ervilha torta (R$ 49) e o magret de pato com risoto de queijo de cabra. Fomos bebericando e a comida demorando. Quando começava a pensar em perguntar ao garçom qual era o problema, o chef veio à mesa explicar que “não estou gostando muito do magret”, daí a demora, e saber por qual prato queríamos trocar. Pedimos então a picanha de cordeiro com molho de frutas vermelhas e purê de batatas com chocolate branco (R$ 48). O chef também avisou que, devido às tribulações, não cobraria pelos escargots da entrada. Não se trata de um excelente serviço? Para a sobremesa, encomendamos um zabaglione (R$ 18) e um semifreddo de pistache (R$ 16).

Tudo estava, no mínimo, competente, exceto pelo semifreddo, que chegou à mesa ainda muito congelado — mas era o final da noite de um dia de casa cheia. O confit estava macio, mas crocante por fora. O purê com ervilha torta, embora pareça trivial, foi um dos pontos altos da refeição. O cordeiro não foi torrado, como é o costume gaúcho, mas chegou à mesa rosadinho. O purê com chocolate branco, se não é algo a se comer todo dia, vale o experimento. Os escargots estavam consistentes, com a dose certa de alho e o saborzinho de terra, característico da salsinha, ao fundo. O zabaglione sem supresas e o creme de chocolate do semifreddo muito superior a, por exemplo, o molho da Torta de Sorvete, que ocupa a mesma faixa de preço noutros locais.

Em resumo, o The Raven oferece pratos clássicos com qualidade e ótimo serviço, sem frescuras e a preços semelhantes ou muito pouco superiores aos de restaurantes cujos cardápios são triviais metidos a besta. O chef é honesto ao servir pratos reconhecíveis por qualquer um como referência gastronômica — ainda que quase pré-moderna — executados com genuína atenção à qualidade. Boa comida, sem frescura. É um lugar ao qual pretendo voltar, quando bater o periódico cansaço das novidades contemporâneas.

The Raven

Rua Sarmento Leite, 969 – Mapa
51 3072-2882

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