Jornais e micropagamentos

O ex-editor da revista Time, Walter Isaacson, recentemente deu uma palestra em que propõe o micropagamento como solução para a crise financeira do jornalismo.

Uma pessoa que deseja acessar a edição do dia de um jornal ou que é levada a um artigo interessante por meio de um link dificilmente vai pagar o preço de uma assinatura e se submeter às inconveniências dos desajeitados sistemas de pagamento atuais. Acredito que a chave para atrair renda por meio dos serviços oferecidos na rede seja estabelecer um sistema de micropagamento tão simplificado quanto aquele empregado pelo iTunes. Precisamos de algo como moedas digitais ou um sistema semelhante a um bilhete único ou uma carteira eletrônica – um sistema de interface extremamente simples que permita, por meio de um clique, as aquisições casuais de jornais, revistas, artigos, acesso a blogs ou vídeos, ao preço de US$ 0,05, US$ 0,10, US$ 0,50 ou seja quanto for que o seu autor deseje cobrar.

Concordo em gênero, número e grau. Aliás, disse exatamente a mesma coisa em um debate sobre o futuro do jornalismo na Feira do Livro de 2008.

Interessante Isaacson citar as lojas eletrônicas de música. Elas são a evolução de um negócio que se viu ameaçado pela livre distribuição de MP3 via Internet, tentou uma reação e finalmente chegou a um meio-termo. Bons tempos do MP3.com, quando músicas de bandas famosas se misturavam às de bandas iniciantes e era possível baixar tudo de graça e legalmente. Os jornais fizeram o contrário: começaram cobrando, depois liberaram o conteúdo e agora se vêem frente à necessidade de mudar toda uma cultura da gratuidade.

O principal ponto discutido por Isaacson é a mudança da cobrança de uma assinatura mensal para o acesso ao conteúdo por micropagamentos por leitura de unidades menores que uma edição. Assim como é preciso pensar as notícias fora da metáfora do papel para criar boas narrativas para a Web, é preciso pensar o jornal fora da metáfora da edição para chegar a um bom modelo de negócios para a Web.

8 ideias sobre “Jornais e micropagamentos

  1. Yara Tropea

    É bem por aí mesmo. Eu tenho pensado muito nisso no que diz respeito aos filmes. Eu tenho filho pequeno e zero ajuda familiar, assim não posso ir no cinema. Pegar na locadora é um castigo porque eu, certamente, não verei o filme em um dia ou dois. As vezes, levo uma semana assistindo um filme. E comprar o DVD é ridículo porque eu não QUERO TER todos os filmes que eu quero ver. E muito menos pagar R$ 45 por isso. Assim, por que eu não posso comprar o filme pela internet, sem o custo de frete, produto, etc.., para ver APENAS UMA VEZ? E pagar por isso um preço justo?
    Vi uma notícia de 2006 em que uma loja vendia filmes virtualmente por R$ 45!! Um absurdo. Os caras estão vivendo num outro planeta. Bem, a loja virtual em questão já fechou (claro, né?). E enquanto eles não encontram uma solução, VIVA os torrents.

  2. Marcelo Fontoura

    Trasel (desculpe a falta de trema, estou num teclado estranho), concordo com a perspectiva dos micropagamentos, por enquanto ela tem se mostrado a linha mais viável para a distribuição e comercialização de notícias online. A polêmica, no entanto, continua. Há alguns dias o Tiago Dória postou sobre o mesmo assunto (http://www.tiagodoria.ig.com.br/2009/02/13/semana-da-busca-do-santo-graal/), criticando o modelo de micropagamentos, argumentando que “o iTunes é exceção e não regra no mercado”.

    Considero os dois posts, teu e dele, muito bons por darem um pouco de segurança e “lugar onde se segurar” no meio de tantas opiniões e dúvidas quanto à esse novo modelo de negócios.

  3. Träsel Autor do post

    Obrigado pela referência do Tiago Dória, Marcelo. Deixei um comentário sobre isso lá no texto dele.

  4. Old Enough

    Olá nobres, conceitualmente concordo com a questão do micropagamento, mas sorry, isso não possui NADA de conceitualmente novo/revolucionário.O micropagamento ronda os estudos de viabilidade e modelos de negócio há uns 10 anos, no mínimo (isso mesmo, 10 ANOS).

    Dois grandes entraves básicos do “salvador” micropagamento:

    1) custo fixo da transação (na maioria das vezes é maior que o custo do produto). A conta nunca fecha, sempre se tem q ter um ticket (valor da compra) com um valor mínimo para o vendedor não sair no prejuízo.

    ANTES que dêem exemplo de iTunes Store blah blah blah, vamos ao mundo real. UMA coisa é o Steve Jobs IN PERSONA (sim, foi o caso) dobrar conselhos de administradoras em hotéis durante finais de semana. Outra coisa é a massa (“diretorezinhos” quaisquer) querer o mesmo contrato, as administradores locais simplesmente dizem “não” e seguem o jogo.

    2) No micropagamento, vc eleva exponencialmente a dependência estratégica do seu intermediário financeiro para a saúde do seu fluxo de caixa/receita. Quando envolve mobile então, pior ainda: vc está “promovendo” um negócio de comunicação a intermediador financeiro. Que sabendo disso, eleva o custo. E de novo, a conta não fecha. Pq acham q e-Bay trouxe o PayPal pra dentro de casa?

    Nessas discussões de micropagamento sempre se discute o lado do “vendedor”. Mas o grande lance do jogo é o lado do intermediador, que pouca gente joga luz (por preguiça, ou por não ter contato nenhum). Afinal, o que é mais fácil, uma entrevista com o Media guys, ou com os presidentes dos conglomerados financeiros?

  5. Träsel Autor do post

    Realmente, esse é um problema, caro anônimo que não quis se identificar por medo de sei lá o quê. Imagino que esse seja o principal empecilho para a implantação do tipo de micropagamento que, na verdade, é pensado há quase 50 anos, não apenas 10. Ted Nelson já falava nisso. Infelizmente, não entendo mesmo nada disso. Mas se o problema é o custo fixo de transação, a solução é simples: agrupar transações e cobrar a partir de um certo valor mínimo, como as empresas de telefonia a longa distância fazem ou faziam há alguns anos.

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