Mudando o currículo do Jornalismo

Estou participando da redação de uma proposta da Rede de Pesquisa Aplicada em Jornalismo e Tecnologias Digitais para a consulta pública do MEC sobre diretrizes curriculares. Minha opinião sobre o que deveria ser contemplado nos novos currículos dos cursos de Jornalismo  — que não necessariamente será aceita integralmente, ou mesmo parcialmente, pelos colegas da rede — é que deve-se preparar os estudantes para uma convergência de mídias cada vez mais profunda.

Visto com entusiasmo ou com objeções pelos profissionais do Jornalismo e por pesquisadores, trata-se ainda assim de um processo irreversível e irrefreável do ponto de vista técnico. Se em pouco mais de dez anos de desenvolvimento do jornalismo na Web podemos verificar um movimento tão pronunciado no sentido da convergência, o que esperar dos próximos dez anos, data em que os primeiros jornalistas formados a partir dessas diretrizes curriculares estarão saindo das universidade?

Se nosso papel como educadores é participar da formação de profissionais capazes de assumir as responsabilidades e suprir as demandas que a sociedade lhes impõe, é fundamental que as novas diretrizes curriculares acompanhem o processo de convergência midiática. Desse ponto de vista, as atuais divisões no ensino das linguagens jornalísticas parecem excessivamente impermeáveis. Os alunos criam produtos noticiosos audiovisuais voltados para a televisão em disciplinas de Telejornalismo e depois criam produtos voltados para a Web em disciplinas de Jornalismo Online — isto é, quando existem tais disciplinas –, de forma totalmente independente, quando hoje na maioria das redes de televisão espera-se dos conteúdos que possam servir tanto para transmissão via espectro eletromagnético, quanto via Web. De fato, redes como a MTV e a TV Cultura apresentam já uma programação mista, que se estende da televisão para o computador num continuum. O mesmo ocorre com jornais, revistas e emissoras de rádio.

Seria o ideal, portanto, que as novas diretrizes eliminassem as divisões entre telejornalismo, radiojornalismo, jornalismo impresso e Web, e que as linguagens audiovisuais e textuais fossem trabalhadas sempre em conjunto, tomando o formato de uma redação integrada. O meio digital seria o amálgama que permite o traslado da informação entre essas diferentes linguagens — mas não se resumiria a isso, porque a hipermídia tem características e uma lógica comunicacional própria, que precisam ser aprendidas.

9 ideias sobre “Mudando o currículo do Jornalismo

  1. taís

    A maioria dos pesquisadores de Jornalismo ainda acham que contar quadradinho de jornal é uma forma de conhecimento científico. Para as Velhas Virgens, que são arredias ao contato mesmo com produtos culturais que não sejam “o rádio”, “a revista” (“como assim pesquisar arte na comunicação?”), a internet ainda parece ser o Apocalipse, não a prova de que eles precisam rever o mundo em que vivem.

    Em tempo: os profissionais de Comunicação buscam cada vez mais pós-graduações para completar a sua formação, mas são raras as disciplinas de pesquisa dadas com alguma seriedade e competência nos cursos de graduação. Algo que fuja do “ei, isso é um rodapé”.

  2. maria madureira

    träsel, tu acreditas que os currículos de jornalismo deveriam privilegiar a técnica? ou pensas que as disciplinas do tipo ‘comunicação e teoria política’, ‘comunição e sociologia’ têm igual peso na formação profissional do jornalista? ficaria feliz em saber tua opinião a esse respeito, de uma maneira geral.

  3. Träsel Autor do post

    Maria, nessa proposta eu abordei mais o lado da técnica, da prática do meio digital, porque as disciplinas em que estou envolvido na Famecos são quase todas práticas. Resolvi deixar para os professores com mais conhecimento de causa sobre esse tipo de disciplina de que falaste a tarefa de fazer propostas.

    Enfim, sendo objetivo, minha opinião é que elas são essenciais. Não gostaria de dar aulas num curso de Jornalismo em que esse tipo de estudo não estivesse contemplado.

  4. Heleno

    Träsel, humildemente, eu considerei a tua escolha bem sensata. Ainda esses dias discuti com a minha noiva, que é professora de Jornalismo na Unipampa, a respeito da necessidade de integrar os futuros colegas no ambiente digital. Não que eu seja uma sumidade no assunto, bem pelo contrário – é por estar correndo atrás da atualização que eu noto o quanto vale a preocupação com a capacidade técnica em tempos de convergência.

    Eu estava te devendo umas pedras: demorei um pouco para conseguir os arquivos da revista aquela que eu disse que ia providenciar na mesma semana, lembra?). A vontade de ser elegante me impede de detalhar mais o assunto, mas deixei a publicação em dezembro do ano passado. Como pretendo cursar o mestrado em 2010 (jornalismo online é a área de interesse, o objeto ainda estou precisando definir) e já estás no rol dos pesquisadores que consultarei, talvez ocorra a possibilidade de eu relatar pessoalmente todo o caso, se o assunto interessar na ocasião. Enfim, gerei os PDFs das três primeiras edições(link da primeira abaixo) e devo upar a quarta edição hoje mesmo. Todas sem as páginas de anúncios, em prol da facilidade de visualização dos arquivos. Estou à disposição para trocar e-mails sobre o assunto. Saudações e bom trabalho.

    http://www.scribd.com/doc/11458301/Revista-O-Produtor-Agosto-de-2008-Sem-Anuncios-Web

  5. Träsel Autor do post

    Posso bem imaginar o tipo de conflitos que levou a esse desenlace, Heleno. Boa sorte com os novos projetos e obrigado pelos PDFs.

  6. Vlad

    Espero que a proposta tenha sucesso! Apesar de que não farei grande proveito dela já que estou a dois semestres de me formar. Mas seria ótimo substituir pelo menos uma das quatro disciplinas de tv e rádio da Famecos por cadeiras de convergência. E mais cadeiras teóricas são bem vindas também. Mais Teoria da Comunicação é meu idílio! lol.

  7. Tiago Medina

    De fato, professor.
    Não sei se lembras, mas semestre passado (2008/2), fiz a monografia sobre convergência digital. Alguns dos meus colegas me chamaram de nerd pra baixo, entretanto sabia da importância do tema – negada por alguns desses colegas.
    Depois de quatro anos na faculdade, senti falta de explicações profundas e aulas práticas sobre convergência. Nessa pesquisa, usei muito mais os conhecimentos das disciplinas de online do que nas outras (rádio, jornal, tele). E, se é ‘convergência’, teria que ser vista em todas, ao meu ver.
    Isso, inclusive, pesou na apresentação do trabalho. Quando eu tive que responder como um repórter convergente deveria agir para uma cobertura melhor. E formulei a resposta sem ter um embasamento suficiente, que deveria ter tido ao longo dos quatro anos do curso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *