O jornalismo é essencial para a democracia

O jornalismo sempre foi criticado — na maioria das vezes, pelos próprios jornalistas. É muito raro alguém ficar satisfeito com o resultado de uma reportagem. As fontes sempre têm a impressão de que o repórter selecionou somente as bobagens ditas na entrevista para incluir no texto, ou que o redator discorda delas, porque as contrastou com posições divergentes. Os governos e empresas só gostam de protagonizar uma notícia se ela for mera reprodução de algum comunicado oficial, caso contrário podem até mesmo telefonar ao patrão para pedir a cabeça do jornalista. O leitor às vezes fica com a sensação de que nem todas as perguntas foram respondidas; noutras vezes, de que o jornal defende o lado contrário ao seu. Nem mesmo os repórteres e editores ficam satisfeitos com frequência, pois na maioria das vezes acham que faltou tempo ou espaço para desenvolver completamente a pauta.

O jornalismo, como a democracia, não satisfaz a ninguém. Por isso mesmo, atende aos interesses de todo mundo.

Os jornais e seus sucessores, como o radiojornalismo e o telejornalismo, são um produto da Modernidade, como a Revolução Industrial, o capitalismo e a própria democracia liberal. As democracias contemporâneas se desenvolveram a partir da pressão dos cidadãos por mais direitos frente ao Estado. Elas não nasceram perfeitas — mulheres e analfabetos não podiam votar, por exemplo — e seguem imperfeitas. Todavia, pouca gente razoável propõe um retorno a formas de governo autoritárias, como as monarquias absolutas, aristocracias, oligarquias ou tiranias.

Nenhum ser humano em pleno domínio de suas faculdades mentais considera aceitável ser oprimido pelo Estado. A democracia representativa vem proporcionando vidas mais dignas para as populações que a adotam. Com a garantia de que serão tratados com igualdade, dentro de um estado de direito, os diferentes grupos sociais podem se organizar para levar suas demandas aos governos, ou eleger representantes que as defendam no Congresso.

Como se pode perceber com uma rápida olhada pela janela, isso não significa que todos os grupos sociais sejam ouvidos, ou mesmo que nenhum grupo seja reprimido pelo Estado ao exigir melhores condições de vida. Tampouco significa que todos gozem de boas condições de vida, a todo momento, em todas as democracias. Mesmo nos melhores exemplos de democracia aliada a políticas de bem estar social, como nos países da Escandinávia, existem grupos excluídos politicamente e gente pobre. Em lugares como o Brasil, onde a democracia é jovem ou sofreu interrupções, os problemas são muito mais acentuados: algumas populações ainda vivem como se estivessem numa capitania hereditária, enquanto grupos marginalizados sofrem repressão policial quando buscam seus direitos.

Mesmo se a democracia frequentemente cria problemas que exaurem a nossa paciência, como a eleição de populistas incompetentes ou de grupos corruptos, na perspectiva de longo prazo, com altos e baixos, ela vem cumprindo suas promessas.

Da mesma forma, com altos e baixos, exclusões e problemas, o jornalismo vem cumprindo a maioria de suas promessas. A principal delas é fiscalizar o Estado, para que os cidadãos sigam contando com a garantia de tratamento isonômico e possam continuar se organizando em torno de suas demandas.

Nos últimos anos, os jornalistas e os veículos para os quais trabalham vem sendo cada vez mais criticados e atacados por supostamente trabalharem a favor ou contra algum governo, ou mesmo participarem de conspirações contra o “povo”. A meu ver, essas noções nascem de uma ignorância sobre o papel do jornalismo na sociedade e do processo de produção as notícias. Essa ignorância em muitos casos é instrumentalizada por governos para desacreditar o jornalismo e os jornalistas.

Antes de mais nada, é preciso compreender a diferença entre Estado e governo. O Estado compreende todas as instituições que fazem parte da administração de um território, desde o palácio presidencial até a escola ou o posto de saúde da esquina, passando pelas rodovias e incluindo o capital intelectual dos servidores. O Estado pode ser visto como um patrimônio público, construído com os impostos dos cidadãos ao longo de séculos. O governo é apenas uma entre as instituições que compõem o Estado. Governos compreendem as instituições e pessoas responsáveis por administrar o Estado num determinado período e, portanto, são transitórios.

O papel principal do jornalismo nas democracias é monitorar as instituições que compõem o Estado. Particularmente, os jornalistas fiscalizam os governos, no intuito de preservar o Estado, ou seja, o patrimônio público, de eventuais aproveitadores ou incompetentes. Esse é o motivo pelo qual os governos, mesmo aqueles mais cordiais, têm uma relação conflituosa com a imprensa. Governos podem ter conflitos com outras instituições do Estado, também, como os tribunais de contas ou os ministérios públicos. A imprensa tem um caráter particular porque ela fiscaliza, inclusive, os fiscais do próprio Estado.

A acusação de que o jornalismo persegue o governo, portanto, não deixa de fazer sentido. O porém é que a imprensa não persegue um governo, ela persegue todos os governos. É a sua função social. Quem critica o jornalismo por “perseguir” governos, em geral, está reclamando da perseguição ao seu governo, isto é, ao grupo político com o qual se identifica.

De fato, o papel do jornalismo nas democracias é fiscalizar qualquer instituição ou pessoa dotada de alguma característica que possa configurar uma assimetria de poder em sua relação com o cidadão comum. O capital financeiro acumulado por empresários, por exemplo, lhes garante mais poder do que o trabalhador comum detém, na forma de acesso a políticos e outras pessoas capazes de tomar decisões econômicas, ou simplesmente na possibilidade de pagar jagunços para lidar com desafetos.

Como formulou L. E. Edwardson, editor do Chicago Herald and Examiner, em 1918:

“Qualquer coisa que um patrono deseje ver publicada é publicidade; qualquer coisa que ele queira manter fora do jornal é notícia.”

As redações recebem, todos os dias, montanhas de comunicados de imprensa, ou seja, mensagens criadas por governos, empresas, ONGs e outras instituições ou pessoas no intuito de obter espaço no noticiário e assim legitimar sua ideologia, seu produto ou sua demanda. São os patronos a que se referia Edwardson. Alguns deles podem ter inclusive boas intenções e uma agenda positiva, como oferecer orientações de higiene durante uma epidemia ou combater o desmatamento na Amazônia. Sejam quais forem suas intenções, o papel do jornalista é questionar, analisar e contrabalançar essas fontes.

Os jornalistas são treinados ao longo de quatro anos na faculdade basicamente para desconfiar de todas as fontes. São levados a desenvolver a capacidade de se fazer perguntas sobre os acontecimentos e achar formas de responder a tais questões. Um outro provérbio famoso e apócrifo é: “Se alguém diz que está chovendo e outra pessoa diz que faz sol, o seu trabalho não é citar as duas: o seu trabalho é olhar pela janela e descobrir a verdade.” A reportagem é uma disciplina de verificação.

Para dar um exemplo, quando um repórter recebe no WhatsApp o vídeo de um clínico geral de Itaquaquecetuba afirmando que o distanciamento social é uma resposta ruim à pandemia de covid-19, ou defendendo o uso da hidroxicloroquina para o tratamento da doença, ele deveria se perguntar:

  • Por que essa pessoa teria mais conhecimento do que os médicos que trataram diretamente dos doentes?
  • Por que confiar mais num clínico geral, patologista ou pediatra de Itaquaquecetuba do que num infectologista ou epidemiologista da OMS?
  • Por que confiar num médico que nunca viu um doente de COVID-19, em vez de confiar nas centenas de chineses, italianos e estadunidenses que trataram dessas pessoas?
  • Se o distanciamento não funciona, por que o número de casos foi maior nos países que não o adotaram?
  • A China é um país de governo autoritário, que poderia suprimir notícias sobre a epidemia, mas decidiu fechar cidades e parar a própria economia. Tudo isso foi por nada?
  • Se foi uma conspiração, qual benefício ela traz aos chineses?
  • Se foi uma conspiração chinesa, por que os italianos, coreanos, estadunidenses e outros concorrentes da China na economia mundial se juntaram à conspiração?
  • Se a hidroxicloroquina se mostrou eficaz contra viroses em estudos científicos, por que nenhuma outra virose é tratada com hidroxicloroquina?
  • Por que um pediatra de uma seita judaica mística no interior dos Estados Unidos saberia mais do que autoridades internacionais em virologia a respeito da cloroquina?

Enfim, haveria uma série de outras questões possíveis a se fazer sobre as fontes de desinformação que circulam sobre a covid-19, mas todas elas levam a uma questão central:

Por que eu deveria acreditar que médicos, pesquisadores, a Organização Mundial da Saúde, a Sociedade Brasileira de Infectologia, governos, jornalistas, os próprios pacientes, o mundo todo está enganado, mas só esta pessoa que me enviou um vídeo por WhatsApp detém a verdade?

A resposta óbvia para qualquer jornalista é:

Eu não deveria acreditar!

A pergunta acima é a mais importante a se fazer sempre que ouvimos uma afirmação extraordinária. Quase todos os embustes ou teorias da conspiração partem do pressuposto de que o mundo todo está errado, menos a pessoa que apresenta a proposição. Quem faz afirmações extraordinárias deve ter evidências extraordinárias para embasar tais afirmações, ou pelo menos ser uma autoridade extraordinária no assunto. O papel do jornalista é avaliar a credibilidade da fonte e, sempre que possível, também as evidências apresentadas.

Toda informação enviada espontaneamente a um jornalista é recebida, portanto, com suspeita. Se o presidente convoca uma entrevista coletiva para anunciar a aquisição de dez milhões de testes para detectar o SARS-CoV-2, os repórteres apresentam perguntas difíceis sobre os pontos fracos ou obscuros, telefonam a especialistas para descobrir se é factível os produtos serem entregues na data prometida, analisam documentos para verificar se os preços estão na média do valor de mercado, entre outras diligências. Quando tudo na apuração dá certo, é possível oferecer ao leitor, no final do processo, uma avaliação bem fundamentada da ação governamental, apontando seus acertos, mas, principalmente, seus erros.

Algumas pessoas também criticam o noticiário por se focar excessivamente em acontecimentos ruins ou trágicos, enquanto sobra pouco espaço para as boas iniciativas. É uma crítica válida.

Quando eu ainda trabalhava em redações, atendi um telefonema de uma senhora de Holambra, a qual pretendia divulgar algum festival de floricultura. Como estava em plantão, pedi para ela me enviar um email e o encaminhei à equipe responsável pela programação cultural. No fim das contas, nenhuma nota foi publicada sobre o evento. No plantão seguinte, recebi um email da mesma senhora, com apenas uma frase: “aposto que, se uma flor houvesse levado um tiro, vocês teriam publicado uma notícia”. Eu também aposto!

É da natureza do jornalismo se focar em acontecimentos negativos. Primeiro porque, como explicado acima, sua função principal é proteger o Estado da pilhagem por governos ou servidores corruptos. Além disso, as más notícias costumam ser aquelas fundamentais para o cidadão desempenhar o seu cotidiano da maneira mais benéfica possível. Se há uma pandemia em curso, é preciso avisar às pessoas, para que não coloquem as próprias vidas, ou as dos outros, em risco. Se uma rodovia está mal conservada, os motoristas precisam ser avisados, para que tomem cuidado ao dirigir. Se uma cerveja está contaminada com uma substância tóxica, deixar a notícia para amanhã pode significar a morte de um leitor.

Infelizmente, as redações não podem dar conta de todas as pautas passíveis de apuração em qualquer dia. Antes da internet, havia limite de espaço nos veículos impressos e de tempo nos radiojornais e telejornais. As boas notícias só podiam ser incluídas quando todas as más já estivessem incorporadas ao noticiário, o que era muito raro. Hoje o espaço e o tempo não são problema, mas há o limite da força de trabalho disponível: só se pode apurar a quantidade de pautas para as quais há capacidade na redação. Se há apenas um repórter disponível, ele vai ser designado para cobrir a pandemia e não o festival de floricultura.

Os governos em geral se aproveitam dessa característica do jornalismo para criar um discurso de que a imprensa “torce contra” o país, município ou qualquer instituição estatal. É parte do jogo político e os jornalistas até mesmo importaram um termo do Direito para se referir a esse tipo de reação: jus sperniandi. Num mundo onde existem redes sociais, porém, os governos passaram a instrumentalizar esse discuro para insuflar sua militância contra o jornalismo, numa manobra diversionista para evitar prestar contas à sociedade.

Em resumo, quando o noticiário se foca nos erros e malfeitos do governo, está apenas cumprindo o seu papel de protetor do Estado em benefício da sociedade. É possível se produzir algo semelhante a jornalismo em regimes autoritários, mas não é possível se manter uma democracia sem jornalismo.

Assim como a democracia, é claro, o jornalismo é imperfeito. As empresas de mídia têm maior ou menor boa vontade com determinados governos, da mesma forma como determinados governos podem ter maior ou menor boa vontade com a imprensa. A elite econômica e cultural tem mais acesso à imprensa do que as pessoas pobres, periféricas e, num país racista como o Brasil, as não brancas. Se temos presidentes, governadores, prefeitos, vereadores, deputados, senadores e servidores públicos incompetentes, também temos repórteres, editores, diagramadores, infografistas, fotógrafos e apresentadores incompetentes.

Os defeitos do jornalismo são muito semelhantes aos defeitos da democracia. As suas qualidades também são muito semelhantes às qualidades da democracia. Nos dois casos, a maneira correta de julgar é analisando o todo, não os casos específicos. A longo prazo, a democracia nos trouxe mais benefícios do que prejuízos. O noticiário é um ecossistema, no qual às vezes todos acertam, quase sempre a maioria acerta e alguns erram, raramente todos erram. Se olhamos o panorama completo, existe sempre um ponto médio, um consenso sobre os acontecimentos, que apresenta ao cidadão os fatos relevantes sobre o Estado, dia após dia.

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