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Ativismo atencioso

O ano de 2018 promete um dilúvio de ignorância, raiva e paixão na esfera pública brasileira. O país está em crise política desde 2013, passou por um processo traumático de impeachment da presidente Dilma Rousseff e viu seus possíveis substitutos soterrados por denúncias de corrupção. Nas próximas eleições, tudo indica a concorrência entre dois candidatos profundamente odiados por grandes parcelas do eleitorado: Lula e Bolsonaro. Há gasolina derramada por todos os lados e basta alguém acender um cigarro para tudo pegar fogo. Todos os dias, vemos algum incêndio tomar conta do Facebook, do Twitter ou dos grupos de WhatsApp.

Por um lado, os brasileiros correligionários de Lula se deixam levar pela paixão e custam a enxergar, ou pelo menos a admitir, os defeitos do ex-presidente e do Partido dos Trabalhadores. Consideram a Lava Jato apenas uma conspiração da elite contra o progresso social—o que a operação também pode ser, concomitantemente a uma investigação policial séria sobre corrupção e diversas outras coisas. Muitos atores sociais diferentes participam da Lava Jato, cada um com suas agendas próprias. Como quase tudo no mundo, é um fenômeno complexo. Considerar tudo uma conspiração das oligarquias é uma posição simplista.

Por outro lado, os bolsonaristas se deixam levar pela raiva e atribuem todos os problemas do Brasil aos mandatos sucessivos do PT no Planalto. Os presidentes Lula e Dilma, de fato, cometeram muitos erros e, na melhor das hipóteses, fecharam os olhos à corrupção em seus governos, se não se envolveram diretamente. No entanto, os presidentes numa República não são plenipotenciários, mas dependem da Câmara dos Deputados, do Senado, do Banco Central e diversas outras instituições para administrar o país. Além disso, seu desempenho é afetado pelo contexto econômico interno e externo. Muitas das faturas deixadas na porta do PT deveriam ser apresentadas a outros partidos, mas os bolsonaristas, cegos pela raiva, não conseguem, ou não querem, enxergar a complexidade do processo político.

Movidos pelas emoções básicas da agressão ou paixão, os dois grupos alimentam a confusão um do outro através de embates nas redes sociais ou encontros de família, até o ponto em que a agressão deixa de ser o plano de fundo existencial e se manifesta de forma material, através de pensamentos, palavras e ações negativas.

O cenário é desestimulante e talvez a vontade da maioria dos budistas ou praticantes de meditação seja se refugiar no êxtase da shamatha ou da vipashyana. Mas não seria essa um atitude embasada na ignorância?

O budista americano Robert Wright, autor de Why is Buddhism True, vem enfrentando os mesmos desafios, porque a situação política nos Estados Unidos tem muitos paralelos com a brasileira. Desde a eleição de Donald Trump, ele vem convidando budistas e não-budistas a adotarem a resistência atenciosa, um caminho do meio entre as duas reações mais comuns à frustração política: ignorar a situação e se isolar nos afazeres pessoais, ou duplicar o investimento de paixão e agressão na militância.

Como explica Sakyong Mipham Rinpoche:

Na meditação de atenção plena, ou shamatha, tentamos alcançar a estabilidade e a calma de nossa mente. O que começamos a descobrir é que essa calma, ou harmonia, é um aspecto natural da mente. Através da prática da atenção plena simplesmente a desenvolvemos e fortalecemos, e, como decorrência, somos capazes de permanecer em nossa mente, com tranqüilidade, sem luta.

Essa tranquilidade abre um espaço maior entre os pensamentos, emoções, ou demais elementos da paisagem mental, e nossa reação habitual a eles. O padrão habitual do ser humano é se apegar a um lampejo de raiva, por exemplo, e o preencher com cada vez mais energia, o tornando cada vez mais amplo e denso, até ocupar todo o campo de atenção. Se conseguimos manter a estabilidade, no entanto, essa faísca de raiva tende a exaurir a própria energia e se dissipar naturalmente em pouco tempo. Uma das maneiras de manter a estabilidade é não reduzir o foco da atenção, mas a manter plena, ou seja, aberta a todo o ambiente interno e externo. A prática de shamatha ou vipashyana ajuda a se manter neste espaço mais aberto, onde um pensamento ou uma emoção são apenas uma das experiências ocorrendo a cada momento.

O ativismo atencioso, portanto, consistiria em se manter aberto a todos os pontos de vista possíveis sobre um determinado fato social, buscando se distanciar ao máximo dos sentimentos de aversão ou apego que um político, movimento, ideia ou evento possam nos causar. No momento em que nos fechamos em nossa reação inicial, também nos fechamos ao diálogo e à capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros. A ausência de empatia ou diálogo leva, com frequência, a uma polarização cada vez maior entre ideologias que, vendo bem, concordam em diversos pontos, quiçá na maior parte.

Todos os brasileiros, sejam do PSOL ou DEM, MBL ou MPL, querem acesso a bons serviços de saúde, garantia de educação para todos e maior segurança nas ruas. Mesmo quanto aos métodos para se atingir esses objetivos há pouca divergência: fora dos discursos para a militância, nem o PSOL pretende estatizar toda propriedade privada e conceder o poder aos sovietes, nem o DEM pensa a sério em privatizar o SUS e vender a Amazônia aos americanos. Não à toa, as disputas entre esquerda e direita na esfera pública vêm se dando em cima de questões morais, como união civil entre pessoas do mesmo sexo ou exposições de arte, pois estes são, em geral, os únicos pontos em que de fato esses polos divergem fundamentalmente. Embora possam existir variações teóricas aparentes nos programas dos diferentes partidos, na prática há pouca variação em torno do centro político.

Levar em conta essa sobreposição de objetivos quando lidamos com militantes ou simpatizantes do campo político supostamente oposto é uma forma de se evitar que o Brasil seja incendiado pelas estratégias de grupos preocupados apenas em criar uma diferença artificial, para obter assentos em palácios de governo e casas legislativas. Partir do pressuposto de que todos queremos basicamente as mesmas coisas pode ajudar a fazer firmar compromissos quanto aos métodos para se atingir esses objetivos e encontrar soluções para os pontos em que realmente há oposição de opiniões. Ademais, sempre existe a possibilidade do campo político oposto estar com a razão em alguma questão específica.

De novo, não é preciso ser budista, nem mesmo praticar meditação, para praticar o ativismo atencioso. Porém, como praticante budista, essa é a perspectiva adotada neste texto.

Ultraje é o alimento do extremismo

Em linhas gerais, a proposta de Wright é evitarmos embarcar no foguete da raiva, quando o comportamento de algum político ofende o nosso ego, usando para tanto as ferramentas proporcionadas pela meditação.

Políticos como Trump ou Bolsonaro são mestres do ultraje. Eles sabem muito bem quais frases ou atitudes provocam a reação mais visceral possível em seus opositores, os quais, ao disseminar críticas nas redes sociais, na verdade acabam promovendo ainda mais as ideias das quais discordam.

Por um lado, ao adotarmos uma atitude ultrajada, nos distraímos da tarefa mais importante e difícil, que é analisar e trabalhar com os fatores que levam pessoas como Bolsonaro a receberem apoio de uma parte tão grande da população brasileira. Por exemplo, a segurança pública é um problema que preocupa tanto à esquerda quanto à direita, atinge tanto os ricos quanto os pobres—estes, talvez, até mais. Em vez de disseminar uma notícia com alguma fala de Bolsonaro defendendo a redução da maioridade penal para 16 anos, pode ser muito mais produtivo, como tática de enfrentamento de sua candidatura, divulgar alternativas mais humanitárias para a redução da criminalidade.

Por outro lado, aos nos sentirmos ultrajados pelas ideias de Bolsonaro, acabamos em geral estendendo nossa raiva a seus apoiadores, criando uma divisão entre “nós” e “eles”. Em primeiro lugar, um dos princípios fundamentais do budismo é considerar a separação entre sujeito e objeto um equívoco. Em segundo lugar, a aversão dificulta o exercício de se colocar no lugar do outro e tentar enxergar o mundo através de seus olhos—processo que Wright chama de “empatia cognitiva”. Não é o caso de sentir pena ou compaixão—empatia emocional, como diriam os psicólogos—por militantes de políticos extremistas, mas de perceber que eles podem ter motivos racionais para ver nessas posições uma solução para seus problemas cotidianos. Do contrário, a tendência é considerar todos “fascistas” ou “comunistas”, o que imediatamente elimina qualquer possibilidade de diálogo.

Finalmente, o ultraje muitas vezes alimenta a narrativa que galvaniza a militância em prol dos políticos extremistas. No Brasil, a esquerda, em especial a militância petista, adotou nas décadas seguintes à redemocratização uma atitude de desprezo frente aos apoiadores dos partidos de direita, pois se considerava a detentora de princípios éticos superiores—só eles se preocupavam com os pobres, eram honestos, incorruptíveis, defensores da liberdade contra as forças do reacionarismo. O tempo mostrou que, na verdade, o Partido dos Trabalhadores só não tivera ainda a oportunidade de aderir à corrupção, pela falta de contato com o poder. Agora, o desprezo demonstrado por décadas foi incorporado à narrativa da direita e, até mesmo, do centro político nacional. A esquerda ganhou a pecha de hipócrita, elitista e intelectualóide. Qualquer crítica vinda da esquerda a Bolsonaro nasce da desonestidade intelectual ou do interesse por se manter sugando o Estado, não das falhas do próprio Bolsonaro, na visão de seus militantes. Responder às suas propostas gritando palavras de ordem cada vez mais alto apenas reforça a caricatura da esquerda como o inimigo a ser combatido—e políticos extremistas só podem sobreviver num ambiente polarizado, cheio de inimigos.

O que fazer?

Infelizmente, todo o modelo de negócios das redes sociais é baseado em nos tornar desatentos. Por isso, exercitar o ativismo atento no Facebook, Twitter ou WhatsApp se torna exponencialmente mais difícil do que numa conversa presencial. Assim, talvez o melhor conselho para quem pretende evitar recair na agressão, paixão ou ignorância seria desativar seus perfis nas redes sociais, sair dos grupos de WhatsApp e fazer algo mais produtivo com seu tempo—como praticar meditação, por exemplo. Ou então, vá encontrar amigos e organizar um partido ou um protesto.

Todavia, deixar as redes sociais de lado pode ser inviável para a maioria das pessoas, porque precisam delas em sua vida profissional, ou porque seus parentes e amigos não sabem mais se comunicar de outra forma. Ao mesmo tempo, muitos de nós podem se sentir motivados, até mesmo interpelados, pelo contexto atual a encontrar uma forma de participar da política e evitar as consequências negativas de uma recaída no extremismo.

O primeiro passo é se manter atento quanto às próprias reações e consciente de como os fatos e ideias causam impacto nos diferentes grupos políticos. Se Bolsonaro deixa de se manifestar sobre a morte da vereadora carioca Marielle Franco, é, de fato, quase irresistível o tachar de covarde. Da mesma forma, a tentação de tachar os manifestantes contrários à presença de Lula em Bagé de fascistas pode ser enorme. Porém, esse tipo de declaração não vai fazer as pessoas “do outro lado” repentinamente enxergarem a luz e aderirem à nossa ideologia. Pelo contrário. Lançar ofensas a grupos opostos no espectro político tem como única serventia aprofundar os laços entre os militantes do lado ofensor e se isolar do lado ofendido. É uma forma de ampliar o abismo entre “nós” e “eles”. Num momento em que o Brasil precisa acalmar os ânimos, se encastelar nas próprias opiniões pode ser contraproducente.

Um tweet ou curtida pode parecer uma gota no oceano, um ato sem maiores consequências, mas, como pondera Wright:

Você pode se perguntar quanta diferença poderia fazer sendo um pouco mais atento. Afinal, você provavelmente não é, digamos, um membro da CNN ou um produtor de podcasts com muitos seguidores. Mas as mídias sociais—Twitter e Facebook em particular—têm embaçado a fronteira entre jornalistas profissionais e pessoas com opiniões. Os jornalistas agora recebem um feedback tão detalhado e contínuo que são mais imediatamente reativos à opinião pública do que nunca. De fato, uma razão pela qual tantos jornalistas se tornaram foguistas profissionais do ultraje é que eles recebem um reforço positivo imediato para alimentá-lo. Toda vez que você retweeta ou compartilha algo no Facebook, você está votando, ajudando a moldar o teor da resistência.

Quando vemos um tweet ou post no Facebook chamando “Bozonaro” de fascista, homofóbico ou estuprador, podemos nos perguntar qual seria o benefício de o curtir ou retweetar. Brincadeiras com o nome do candidato refletem o comportamento que desejamos construir na esfera pública? Reforçar o fato dele ser homofóbico atrapalha ou ajuda sua candidatura? Acusar Bolsonaro de ser um estuprador não é um exagero que arrisca fazer a oposição a ele parecer intelectualmente desonesta? Se reagimos a um tweet ou post, damos um voto para este conteúdo ganhar mais relevância nas redes sociais, ser apresentado a mais gente. Pouco a pouco, nossos votos vão construindo a aparência do “nosso” campo político, ou do campo “dos outros”, da mesma forma como cada cigarro vai construindo o câncer de pulmão no futuro, embora, isoladamente, neste momento, acender um possa parecer um ato insignificante.

Da mesma forma, devemos tomar cuidado quando, com a intenção de desconstruir o discurso do candidato opositor, incluímos em nossos tweets ou posts manifestações suas em mídias sociais e notícias a respeito das mesmas. Como dito acima, os conteúdos indesejáveis ganham assim ainda mais relevância e são mostrados a ainda mais leitores. Além disso, as pessoas com as quais nos conectamos podem concordar com os discursos extremistas e enviar esse tipo de informação a elas só reforça suas posições. Na maioria dos casos, ignorar é a tática mais produtiva. Se Bolsonaro houvesse sido ignorado pela mídia há alguns anos, em vez de ter suas declarações difundidas em todos os canais em tom de escândalo, talvez não fosse hoje um candidato competitivo à presidência da República.

É claro, esse autocontrole não é fácil de se exercer. Como dito acima, afinal, os serviços de redes sociais foram criados e são constantemente redesenhados para nos fazer reagir aos conteúdos circulando por lá. A prática de meditação pode oferecer o espaço mental necessário para percebermos, reconhecermos e avaliarmos as consequências de nossas reações, antes de tomar uma atitude frente a elas. Como praticante budista da linhagem Shambhala, recomendo as instruções de Sakyong Mipham Rinpoche para quem quiser começar a meditar, mas há no Brasil muitos professores excelentes em todas as linhagens, então você pode procurar um centro perto de sua casa. Não é necessário ser budista para meditar, então também existem opções seculares de instrução.

Os jesuítas desenvolveram um método chamado “análise de horizonte” para observar as respostas internas a leituras. É uma abordagem útil para quando estamos lendo notícias, linhas do tempo nas redes sociais ou mensagens no grupo de WhatsApp de ex-colegas de escola. O método consiste nos seguintes passos:

  1. Imprima o texto
  2. Arranje uma hora de silêncio num lugar onde você não será perturbado (Como alternativa, você pode optar por fazer várias sessões curtas, em que você simplesmente lê tanto quanto tiver vontade)
  3. Use duas canetas coloridas diferentes e, ao ler o texto, observe quando você é atraído por algo que lê e quando se sente perturbado ou resistente a algo que você leu. Sublinhe as coisas que o atraírem com uma caneta colorida. Sublinhe as coisas às quais você tem resistência com a outra caneta colorida.
  4. Em seguida, releia os trechos sublinhados e responda, por escrito ou mentalmente, às seguintes questões: Quais trechos ou ideias mais me atraíram? A quais trechos ou ideias eu tive mais resistência? Por quê? Quais poderiam ser as razões da minha atração ou resistência a essas ideias?

Caso se trate de um post no Facebook ou notícia curta, não é necessário, claro, passar por todo este processo, mas se pode anotar mentalmente os pontos de atração ou resistência e ir direto para a reflexão sobre os motivos para essas reações.

Tampouco é necessário ser budista para exercitar a empatia cognitiva—ou a emocional, ou a compassiva, aliás. Basta se esforçar para compreender os argumentos e as circunstâncias dos outros e analisar uma questão a partir desta perspectiva diferente da nossa. As pessoas com frequência se equivocam a respeito das causas e soluções dos problemas sociais, mas raramente adotam perspectivas extremistas por serem malvadas. Em geral, cometemos o erro fundamental de atribuição ao tentar entender o comportamento dos outros seres humanos e, por isso, decidimos que eles cometem determinados atos por serem idiotas, malvados ou por estarem com a intenção de nos prejudicar por qualquer razão. No entanto, a maioria das pessoas em geral está buscando agir de maneira correta e promover o bem estar social. Devemos sempre partir deste pressuposto ao julgar as posições dos outros.

Quando tudo isso falha e o impulso de criticar ou defender é muito forte, costumo adotar o seguinte procedimento, antes de apertar o botão de “publicar” ou “enviar”: escrevo a resposta ou comentário que está em minha cabeça, mas, em vez de remeter aos destinatários ou publicar na timeline, apago tudo. A satisfação emocional é quase a mesma de publicar, mas não crio problemas com outras pessoas. As consequências nefastas, neste caso, se restringem ao meu próprio estado mental. Dez segundos depois, meu comentário sarcástico ou minha mensagem furibunda já parecem escritos por outra pessoa. E, de fato, o foram.