Arquivo da tag: antinatalismo

Uma solução infalível e acessível para salvar a humanidade

Hoje, 5 de junho, é Dia Mundial do Meio Ambiente. Em 2019, a ONU escolheu como tema da campanha a poluição atmosférica, responsável por milhares de mortes todos os anos, sem falar nos ambientes urbanos miseráveis de se viver gerados pelas emissões de automóveis, termelétricas, indústrias e agropecuária. O emporcalhamento progressivo da atmosfera prejudica nossa qualidade de vida e contribui para o desastre climático iminente.

Trocar o carro pela bicicleta, separar o lixo, consumir alimentos orgânicos, comprar roupas em brechós, abandonar os canudinhos de plástico, entre outras atitudes comuns de pessoas preocupadas com o meio ambiente são todas louváveis e necessárias, mas, infelizmente, mal arranham a superfície do problema. É impossível viver sem causar algum impacto ambiental e os seres humanos são propensos a causar danos enormes em comparação com outras espécies, sobretudo hoje em dia, quando o nível de conforto esperado é muito superior ao nível de conforto de que mesmo as classes abastadas desfrutavam há 200 ou 300 anos.

Além disso, navegar os conselhos muitas vezes contraditórios sobre as melhores formas de poupar o meio ambiente é oneroso e exige muita educação formal. É melhor lavar um pote de Nutella usado, para não contaminar o lixo seco, mesmo se a lavagem vai gastar água preciosa e cada mililitro de gordura polui vários litros de água? Esse tipo de questão surge a todo momento quando se está tentando separar lixo. Outra dificuldade é a tendência do ser humano a racionalizar a própria preguiça, dizendo a si mesmo que não vale a pena usar fraldas de pano no bebê, por exemplo, se ninguém mais faz isso e todos vamos nos ver soterrados em montanhas de urina gelificada com fezes embrulhadas de qualquer maneira.

Antinatalismo moderado

A meu ver, a solução ambiental mais eficiente, simples de explicar e acessível a qualquer pessoa é adotar um antinatalismo moderado. O filósofo David Benatar e grupos como o Movimento pela Extinção Voluntária da Humanidade são contrários à concepção de filhos porque, além de contribuir para a morte de outros seres e degradação geral da Terra, seria moralmente errado trazer novos humanos ao nosso vale de lágrimas. Não vou detalhar por que acho equivocada a crença moral dos antinatalistas, mas eles estão certos pelo menos em parte. O objetivo final do antinatalismo moderado não seria extinguir a espécie humana para benefício de todo o planeta — e talvez da própria humanidade –, mas uma redução voluntária da nossa população até níveis razoáveis.

Uma redução do número de humanos pela metade dos 7,7 bilhões atuais seria um excelente objetivo inicial. Paul Ehrlich afirma que os recursos naturais são capazes de sustentar 2 bilhões de seres humanos sem entrar em colapso.

A taxa de fertilidade necessária para a população se renovar é de 2,1 filhos por mulher. Se a média de filhos por mulher caísse abaixo desse patamar, a população terrestre passaria a decrescer. Se todas as mulheres passassem a ter apenas um filho a partir de amanhã, em alguns anos a população passaria a decrescer suavemente e, assim que todas as pessoas acima dos 20 anos vivas hoje fossem comer capim pela raiz, o número de seres humanos passaria a cair pela metade a cada geração. Em cerca de cem anos seria possível atingir a meta de reduzir pela metade nossa população.

Convencer todo mundo a ter apenas um filho é, claro, uma tarefa difícil, então o projeto de reduzir a humanidade pela metade levaria vários séculos. A China levou duas décadas para baixar a taxa de fertilidade para cerca de 1,6, mas é uma ditadura. O Irã, todavia, embora tenha um governo autoritário, conseguiu reduzir as taxas de fertilidade de mais de 6 filhos por mulher para abaixo de 2 em duas décadas, através de programas educacionais, garantia de contraceptivos gratuitos, apoio no planejamento familiar e fomento à pesquisa científica relacionada ao tema.

A lição do Irã é clara: se os governos tornarem a redução populacional uma prioridade, é possível em apenas uma geração chegar a um nível abaixo do ponto de reposição. A partir daí, basta aguardar e, em poucos séculos, a humanidade chegará à população sustentável de cerca de 2 bilhões de cabeças. Infelizmente, os governos tendem a ser contrários a esse tipo de proposta, porque estão a serviço da manutenção da economia, não da Terra. Agropecuária, indústria e serviços precisam de consumidores. Os sistemas de previdência e seguridade social precisam de contribuintes. Menos gente significa menos impostos, menos soldados e menos lucro.

Se adotado, o antinatalismo moderado causaria, cedo ou tarde, o caos econômico. É impossível manter o sistema atual sem o crescimento contínuo da população. Ao mesmo tempo, o sistema atual leva necessariamente ao apocalipse climático. Pode parecer uma escolha difícil, mas a mim parece claramente melhor viver num sistema diferente do que ser extinto. No entanto, as gerações atuais vêm passando a fatura climática para os netos dos meus netos para usufruir das benesses da sociedade de consumo. De qualquer perspectiva, a decisão tem de ser nossa. Contar com alguma tecnologia futura que evite o desastre causado pelo efeito estufa é apenas raciocínio motivado e otimismo exagerado.

No sistema capitalista tecnocientífico atual, mesmo se um indivíduo adota a permacultura e procura viver uma vida com o menor impacto possível, a maioria das decisões segue dependendo de outras instituições, como governos e corporações, cujos incentivos vão no sentido de manter o status quo. O impacto é muito baixo no quadro geral e me parece muito mais difícil convencer uma pessoa a se mudar para um lugar no meio do mato, para viver numa casa de barro sem eletricidade e cagar numa latrina, do que a convencer a ter apenas um filho, nenhum filho ou adotar uma criança. Adotar a permacultura causa um desconforto enorme para alguém acostumado ao ambiente urbano, enquanto restringir o número de filhos na verdade poupa trabalho e ainda garante uma vida mais tranquila economicamente para o indivíduo.

Além disso, nada impediria as pessoas que desejassem muito ter um filho de concretizar o sonho. Quem fosse menos egoísta do que eu — tenho uma filha de nove anos — poderia abrir mão desse sonho para preservar o meio ambiente. Quem fosse realmente abnegado poderia ao mesmo tempo contribuir para o projeto antinatalista e oferecer uma vida digna aos filhos das pessoas em más condições econômicas, adotando crianças. As pessoas poderiam inclusive ter um filho natural e adotar quantas crianças mais quisessem, caso desejassem ter famílias grandes. A meu ver, todo mundo sairia ganhando.

A proposta antinatalista oferece ainda a vantagem de se alinhar às demandas das mulheres por um abandono da ideologia maternalista patriarcal, segundo a qual elas nasceriam com um instinto voltado à procriação e ao cuidado das crianças. Essa ideologia muitas vezes se manifesta na forma de pais, tias, avós e amigas questionando sobre casamento e filhos, cobranças que fazem muitas mulheres se sentirem em débito com a sociedade quando decidem nunca ter filhos. Sob o antinatalismo moderado, essas mulheres seriam celebradas como heroínas sociais.

De fato, uma das principais estratégias de comunicação do antinatalismo moderado seria incentivar com veemência toda mulher ou casal que se mostrasse propenso a não produzir filhos. Ao mesmo tempo, repreender a parentalha que insiste em cobrar netos, sobrinhos, ou casamento. Os antinatalistas moderados com acesso a algum canal de comunicação influente poderiam multiplicar essa inversão do discurso sobre a família na esfera pública.

A segunda estratégia principal consistiria em incentivar programas de planejamento familiar, seja votando em parlamentares comprometidos com o tema, demandando governos por maior atenção ao problema, ou contribuindo com organizações da sociedade civil focadas na questão através de voluntariado ou doações.

Eu sei. O antinatalismo moderado, se não parece uma proposta radical demais, soa a um plano fantasioso, porque vai contra fatores biológicos, psicológicos, religiosos, filosóficos, políticos e até mesmo econômicos. No entanto, as propostas atuais para se evitar o desastre climático não sofrem dos mesmos defeitos, dependendo da boa vontade não apenas das pessoas, mas dos governos e corporações? E mesmo as pessoas de maior boa vontade, as que decidem viver usando a menor quantidade possível de recursos naturais, causam um impacto pífio no quadro geral.

Abrir mão de ter filhos, ou pelo menos mais de um filho, depende somente dos indivíduos e tem uma influência muito mais longa e profunda sobre o ecossistema. A contribuição de cada potencial vida humana que deixa de vir ao mundo para evitar a extinção da espécie é infalível.