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Imprensa, público, comensalismo e simbiose

Um estudo do ecossistema noticioso de Baltimore, publicado pelo Project for Excellence in Journalism, descobriu que 95% das informações novas veiculadas na imprensa durante uma semana vieram da mídia tradicional, sendo a maioria do jornal. Além disso, verificou-se que 80% das notícias simplesmente reapresentaram informação já conhecida. Quase metade da informação nova foi divulgada pelo Baltimore Sun, o principal jornal da cidade.

A pesquisa traz importantes indícios para investigar as causas do declínio da imprensa como indústria e de como reinventá-la.

O papel das redes sociais e weblogs no ecossistema noticioso, conforme o estudo, é servir principalmente como sistema de alerta e repercussão da informação desencavada pelas redações de jornais e reproduzida nos websites jornalísticos.

Ainda assim, um dos seis principais temas do noticiário na semana abordada pelo estudo foi disparado por um blog independente. O autor do Maryland Politics Watch percebeu no website da Procuradoria distrital uma consulta da empresa de transporte público do Estado de Maryland sobre a possibilidade de instalar microfones para supervisionar as conversas de passageiros. Os veículos de imprensa local começaram a perseguir a pauta logo em seguida. O blogueiro não entrevistou ninguém, apenas o repórter do Baltimore Sun tomou esse trabalho. O resto da mídia, aparentemente, apenas copiou e colou — sem creditar.

O caso mostra o quanto é fundamental a participação do público no atual ecossistema noticioso. Um cidadão ser o responsável por iniciar uma das principais coberturas semanais em uma cidade grande não é pouca coisa. O estudo dá a impressão de menosprezar um tanto o trabalho do blogueiro, embora ele tenha sido fundamental. A cadeia causal gerada por seu comentário acabou por matar no berço a idéia vigilantista da empresa de transporte público da região.

Os críticos podem dizer que não houve esforço de reportagem real do blogueiro, Paul Gordon, porque ele não entrevistou ninguém, apenas apontou um link. Há aí dois problemas de avaliação. Primeiro, não é papel do público entrevistar fontes. Isso é papel dos jornalistas. Se um leitor por acaso se dá esse trabalho, ótimo, mas cobrar o mesmo nível técnico dos profissionais em material produzido por colaboradores ou jornalistas amadores é um contrasenso — a não ser que os jornalistas estejam realmente querendo abdicar de sua profissão. Em segundo lugar, descobrir uma informação nova é a parte mais importante do processo de reportagem. Sem um furo, ninguém sai do lugar. Portanto, o Gordon realizou a parte principal do trabalho — o que, aliás, deveria ser motivo de humilhação para toda a imprensa de Baltimore.

Muitos websites jornalísticos e weblogs divulgaram informações coletadas por outros sem fornecer os devidos créditos, além disso. Esse dado corrobora uma opinião que emiti recentemente em entrevista ao Alec Duarte: não existe mais informação exclusiva. O Baltimore Sun levou três dias para perceber o texto no Maryland Politics Watch, mas outros websites levaram poucas horas para replicar a informação do Baltimore Sun. A imprensa como um todo ignorou a nota no website da Procuradoria por um mês. Se não fosse por Gordon, o público correria o risco de saber do projeto de vigilância apenas quando já estivesse implantado.

Apesar de não existir mais informação exclusiva, ainda existem enfoques exclusivos. A imprensa deveria investir naquilo que as redes sociais e weblogs não podem investir: encontrar fontes que tragam novos argumentos e pontos de vista sobre os acontecimentos. Infelizmente, a julgar pelos resultados do estudo, não parece ser essa a abordagem dos jornais. A maioria das novas informações no período estudado teve como ponto de partida a administração pública ou organizações. Foram muito poucas as informações novas provenientes de fontes descobertas por iniciativa de repórteres.

Os jornais devem aprender a direcionar melhor o inegável poder de fogo que mantêm, mesmo após 20 anos de World Wide Web. Há cerca de dez anos, pensava-se que a essa altura o jornal impresso estaria morto ou em coma avançado. No entanto, continua sendo o principal produtor de informação. Porém, o estudo também mostra que tem sido produzida cada vez menos informação nova. Os jornais são vencedores numa competição de várzea, não numa Copa do Mundo. Isso pode explicar o declínio da indústria e a necessidade de reinventá-la.

O caminho para a reinvenção, a meu ver, é unir o potencial do público em levantar pautas com a técnica de reportagem e narrativa dos jornalistas. Os jornais devem criar sistemas de captação de informação gerada pela comunidade e, ao mesmo tempo, partir do princípio de que toda informação estará disponível imediatamente a toda a concorrência. Devem tomar essa informação como base e passar a investir mais na repercussão com fontes inusitadas, que dêem um enfoque especial para cada veículo, em vez de reproduzir as mesmas aspas disponíveis em todo o ecossistema midiático.

A relação entre imprensa e o público dotado de acesso às redes sociais e ferramentas de publicação ainda é de comensalismo: os dados da pesquisa mostram que, em geral, weblogs e redes sociais reaproveitam a informação gerada pelas redações. Manchetes e links são distribuídos e trechos são comentados Web afora, mas as redes sociais raramente produzem notícias.

Alguns poderiam considerar isso parasitismo, mas, apesar do que dizem os Rupert Murdochs da vida, a distribuição e repercussão das notícias não causa mal algum aos jornais e, às vezes, pode beneficiá-los. O parasitismo existe, é claro, mas geralmente se dá entre jornalistas. O caso do Maryland Politics Watch, aliás, mostrou que a imprensa algumas vezes parasita os blogs e redes sociais, reproduzindo informação sem fornecer os devidos créditos.

A atual relação de comensalismo entre imprensa e público, na qual o público é levado a reboque pelos jornalistas, como as rêmoras e os tubarões, deveria se tornar uma relação de mutualismo, na qual os dois agentes se beneficiassem. Quem sabe, até mesmo evoluindo um dia para uma relação de simbiose. O público tem muito com que colaborar, mas as redações precisam se abrir a essa colaboração.

Jornalismo testa os limites do uso justo

As últimas semanas foram emocionantes para os interessados no debate sobre o futuro do jornalismo e questões de direitos autorais e liberdade de informação. A Associated Press divulgou seu plano de incluir em cada notícia um software que permita rastrear a reprodução das informações em agregadores de conteúdo e ferramentas de busca. Estes dados permitirão à fundação sem fins lucrativos formada por 1,4 mil jornais americanos processar, por exemplo, o Google, porque o serviço de buscas apresenta a manchete e uma ou duas primeiras frases das notícias da AP. Poderia processar blogs que comentem uma notícia produzida pela AP sem adquirir a licença. Serviços como Delicious também poderiam ser afetados. Até mesmo usuários do Twitter que soem o alerta sobre algum evento poderiam ser processados. A agência pretende cobrar US$ 2,50 por palavra reproduzida, quando a citação somar cinco ou mais palavras.

A justificativa para a criação dessa ferramenta de fiscalização para as notícias da agência é que mesmo a reprodução da manchete e uma ou duas frases em um serviço de compartilhamento de links ou resultados de busca configuram uma infração de direitos autorais. Como já comentei anteriormente, é um argumento totalmente falacioso, porque a AP e qualquer jornal ou website podem impedir facilmente a aparição de seu conteúdo nos resultados de ferramentas de busca. O problema é que isso equivale a suicídio editorial, porque a maior parte do tráfego de leitores para qualquer website costuma vir das ferramentas de busca. Então, se esses serviços e agregadores geram audiência, não seria o caso de agradecê-los pelo serviço prestado gratuitamente?

Não, ao menos na opinião dos signatários da Declaração de Hamburgo. De fato, para eles as ferramentas de busca devem pagar para levar leitores aos jornais, porque lucram veiculando anúncios junto aos resultados de buscas. É engraçado, mas não há registro de alguma empresa de mídia propondo dividir os lucros dos anúncios em rádio, jornal e televisão com os entrevistados que fornecem matéria-prima para as notícias com o sacrifício de seu precioso tempo. Aliás, o entrevistado em geral tem de se deslocar até o estúdio por conta própria e muitas vezes não recebe nem um cafezinho.

Como bem percebeu o autor do blog Epeus Epigone, numa sátira ao editor do Wall Street Journal, todas as acusações feitas pelos jornais às ferramentas de busca e agregadores podem ser remetidas à própria imprensa. O jornalismo vive de repercutir informações criadas por outras pessoas: as fontes. O negócio da imprensa só é possível porque os cidadãos e empresas — inclusive o Google, fonte inesgotável de notícias para cadernos de informática e economia — fornecem dados e fatos de graça. Os jornais não criam fatos ou idéias, sua função é reunir informação, empacotá-la num formato compreensível e distribuí-la. O valor agregado pelos jornais é a conveniência. Então, a quem pertencem, afinal, os acontecimentos? Aos jornalistas? Aos participantes dos acontecimentos? A empresas?

Os acontecimentos não são produção intelectual como a literatura ou a música, mas patrimônio público. O pacote específico criado por um jornalista e distribuído por uma empresa, a maneira de relatar um acontecimento, a notícia, essa, sim, pertence a seus criadores. O fato em si, porém, pertence à humanidade. Os jornais são responsáveis por facilitar o acesso dos seres humanos à sua história, às suas circunstâncias. Uma vez que um acontecimento é divulgado, porém, passa a fazer parte dessa história. As ferramentas de busca prestam um serviço semelhante ao dos noticiários, ajudando as pessoas a navegar no dilúvio de informações disponíveis, a maioria divulgadas pela própria imprensa. Ao tentarem cobrar das ferramentas de busca por esse serviço público, as empresas estão sequestrando um patrimônio público, impedindo que os cidadãos tenham acesso à sua história.

O conceito-chave aqui é o de uso justo, ou fair use no inglês, um mecanismo da lei de direitos autorais que permite a reapropriação de parte de uma obra ou conteúdo, em geral para fins educacionais ou não-comerciais. O limite entre uso justo e infração de direitos autorais é complexa e deve ser definida caso a caso, ou seja, não existem regras claras. Nos Estados Unidos, pouca gente se arrisca a incorrer nessa prática exatamente pela falta de regras — o custo de comprovar a justiça do uso nos tribunais acaba tornando qualquer vitória uma vitória de Pirro. Para se ter uma idéia das aberrações geradas pela interpretação estrita das leis de direitos autorais, muitas vezes um pesquisador não pode citar à vontade os próprios trabalhos publicados em revistas científicas. Enfim, um problema sobre o qual Lawrence Lessig pode falar com muito mais propriedade.

A Associated Press e outras empresas aterrorizadas pelas mudanças no modelo de negócios do jornalismo pretendem arrastar os agregadores e serviços de busca para um debate sobre uso justo. Não podem ser ignorantes o suficiente para realmente acreditar em seus próprios argumentos, mas provavelmente contam com a aversão das empresas por batalhas judiciais caras e cansativas. As grandes corporações não se deixarão intimidar tão facilmente, mas talvez acabem cedendo, se a mídia conseguir demonizá-las junto à opinião pública — provavelmente não acontecerá –, ou sendo obrigadas a ceder, se os tribunais comprarem os argumentos absurdos da AP e seus correligionários. A mídia está envolvida em uma batalha política, possivelmente tentando dar alguma sobrevida ao atual moribundo modelo de negócios, como tentou fazer a indústria fonográfica em meio à débâcle causada pelos serviços de compartilhamento de arquivos.

O português Paulo Querido publicou um texto bastante esclarecedor sobre a proposta indecente da mídia. Leitura muito recomendada, especialmente para executivos de empresas jornalísticas. Jeff Jarvis também fez uma boa análise técnica sobre a questão.

Numa ponta oposta do debate em torno do uso justo, Ian Shapira publicou no Washington Post um relato sobre como a rede de blogs Gawker roubou uma reportagem sua. Uma crítica bastante equilibrada e sensata sobre determinados abusos cometidos por empresas e indivíduos que se aproveitam de conteúdo produzido por outros, uma prática infelizmente comum na Internet. Há muitos blogs por aí que vivem de regurgitar reportagens feitas por profissionais, sem acrescentar nada às informações, nem mesmo um ponto de vista original. Faturam com anúncios em cima do esforço dos outros.

É saudável a matéria de Shapira, especialmente porque ele descreve o trabalho duro de levantar informações originais, de testemunhar os acontecimentos, contrapondo à facilidade com que um colega jornalista reaproveita os dados. Jornalistas em geral são muito “desleixados” ao creditar informação a colegas. É prática comum nas redações reprocessar idéias e informações de concorrentes, do rádio, da televisão, de revistas estrangeiras, sem dar os devidos créditos. O uso de informação levantada por outra pessoa é visto como um demérito, uma fraqueza, portanto há resistência em admiti-lo. Se nem mesmo os jornalistas respeitam o trabalho uns dos outros, como esperar respeito por parte do resto da sociedade? O grave no caso relatado por Shapira é o fato de sua reportagem não ter sido apropriada indevidamente por um cidadão que edita um blog como passatempo, mas por um jornalista assalariado de uma empresa concorrente. O repórter da Gawker deixou de desempenhar bem sua função, como o próprio dono da empresa admitiu.

Os links são o fundamento da Web. A rede mundial de computadores foi criada para permitir a conexão entre documentos na forma de hipertexto. Por isso mesmo, não faz sentido resumir as informações principais de uma reportagem e publicar um novo texto num espaço diferente. Para informar o leitor, bastaria publicar a referência do texto original. O defensável e desejável, nesse caso, seria o repórter da Gawker apontar para a matéria de Shapira e, a partir dela, produzir uma análise original ou levantar informações complementares.

Um dos desafios do jornalismo hoje é encontrar o equilíbrio entre o caráter de serviço público e, consequentemente, a necessidade de permitir o uso justo das informações, e a proteção ao trabalho dos profissionais de imprensa. Se algumas empresas de mídia estão tomando posições irracionais frente às mudanças trazidas pela comunicação em rede, se tentam controlar o incontrolável, é certo que também há abusos por parte de muitas iniciativas individuais e empresariais. O uso justo da informação reside em algum ponto entre esses dois casos.

Como fazer dinheiro com webjornalismo

Ninguém sabe. Ao menos, é a conclusão a ser tirada pela leitura da melhor reportagem até o momento sobre o mercado de jornalismo atual e futuro, produzida por El País da Espanha. De Clay Shirky a Rupert Murdoch, a opinião de todos os grandes pensadores e empresários foi incluída. Algumas considerações:

  • Engraçado ver proprietários de jornais acusando as ferramentas de busca e outros serviços de distribuição de informação de “roubo” de conteúdo por fornecerem links com manchetes e uma ou duas linhas de texto. A única maneira de compreender essas declarações é como manifestações políticas para tentar forçar os agregadores de conteúdo, empresas de telefonia e provedores de hospedagem a darem uma esmolinha aos jornais. Só isso explica a falha em perceber que sem esses serviços, as versões digitais dos jornais teriam zero leitores. Felizmente, é um dos poucos problemas para o qual existe uma solução muito fácil: deixem de publicar seu conteúdo na Web.
  • O futuro das redações provavelmente passa pela substituição da maioria dos repórteres por free-lancers recebendo por matéria publicada, modelo do qual o coreano Ohmynews foi pioneiro. As redações serão enxutas e formadas por editores, cuja principal tarefa será gerenciar o fluxo de informações vindas dos quatro cantos do mundo, organizar a edição impressa e as capas da edição digital do jornal. Isso traz grandes oportunidades para repórteres fuçadores e com boa imaginação para pautas, ou ainda para aqueles vivendo fora do país, que poderão trabalhar como correspondentes estrangeiros. Reportagem sob demanda, inclusive integrando os amadores às rotinas produtivas de maneira mais profunda.
  • A informação publicada nos jornais se tornará menos confiável. É muito mais difícil para um editor verificar a honestidade de um repórter escrevendo de Katmandu, com o qual mantém contato apenas via Internet, do que o caráter de um colega com quem trabalha todos os dias da semana. Em compensação, a Internet permite verificar os dados e fatos divulgados em uma notícia com maior facilidade. Ou seja, o senso crítico será uma habilidade essencial para o cidadão das próximas décadas. E bons editores serão profissionais cada vez mais valorizados.
  • Por outro lado, um artigo da revista americana The Atlantic, dica do Leandro Sarmatz, mostra um caminho possível para o webjornalismo: investir mais no enquadramento da informação disponível para públicos específicos do que na produção de notícias tentando agradar a todos, como faz a The Economist. Michael Hirschorn vê na interpretação do mundo para uma comunidade bem definida um caminho para manter audiências ao menos razoáveis. O autor traça um paralelo da revista britânica com blogs que faz sentido: nem sempre a redação da revista produz informação inédita e muitas vezes deixa a imparcialidade em segundo plano, mas seus redatores são excelentes em costurar todas as notícias e reportagens de uma edição num retrato compreensível do mundo para a audiência de centro-direita liberal. A aproximação com o formato dos blogs pode ser um elemento para angariar leitores — o problema é vendê-los aos anunciantes depois. (Item acrescentado às 22:30 de 8 de julho.)
  • Cedo ou tarde, alguém vai descobrir como gerar lucro a partir da publicação de conteúdo na Web. Os empresários têm razão quando estranham o fato de a Internet ser a mídia que mais cresce e mais prende a audiência, mas cujo resultado em receitas de publicidade é o pior. O problema parece ser a falta de imaginação dos empresários e publicitários. O UOL publicou um informativo recentemente, no qual expõe dados e mais dados estatísticos com o objetivo de incentivar o investimento em publicidade na Internet. São números realmente entusiasmantes, mas ao final do prospecto, quais são as soluções oferecidas pelo UOL? Banners, anúncios em vídeo, anúncios contextuais ou presença em comparadores de preço. Todos metáforas digitais de publicidade em mídias antigas: impressos, comerciais de televisão, classificados, páginas amarelas. Criatividade zero. É inevitável o aumento da participação da Internet nos orçamentos de propaganda, mas é bastante duvidoso que os clientes destinem suas verbas para esse tipo de anúncios anacrônicos.