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Jornalismo, quadrinhos e comédia

Os responsáveis pela divulgação do novo álbum de Allan Sieber, É tudo mais ou menos verdade, fizeram a gentileza de me enviar um exemplar. Além do óbvio prazer em receber um livro de graça, há dois outros motivos para comemorar: Sieber é um dos melhores cartunistas/quadrinistas do Brasil e sou fã da mistura entre jornalismo e quadrinhos.

A arte sequencial ainda é pouco explorada nas redações, exceto pela eventual reconstituição passo-a-passo de crimes. Os quadrinhos até há pouco tempo eram bastante desprezados, tanto por conservadores quanto por progressistas. Estes consideravam os gibis mais um instrumento de imperialismo da grande conspiração mundial capitalista, aqueles viam nos quadrinhos um poderoso diluente da moral e dos bons costumes. Não admira, portanto, que essa linguagem tenha passado ao largo do jornalismo até há pouco.

Um dos principais responsáveis por mostrar que boa reportagem pode ser feita em quadrinhos foi Joe Sacco. Uma de suas principais obras, Área de segurança Gorazde, conseguiu a proeza de simplificar um assunto árido — a guerra civil na ex-Iugoslávia — sem perder a profundidade e deixar de discutir as complexas relações de poder e cultura que levaram ao conflito. Ou seja, mostrou a jornalistas no mundo todo que quadrinhos podem ser um veículo para temas sérios — nada que Crumb, Will Eisner ou Art Spiegelman já não houvessem mostrado, mas o fato de Sacco se apresentar como jornalista talvez tenha lhe angariado alguma atenção.

As histórias de Allan Sieber, porém, adicionam aos quadrinhos um outro fenômeno contemporâneo do jornalismo: a informação através da ironia e do sarcasmo. Programas de televisão como o Colbert Report, Daily Show e Escapist News Network têm conseguido apresentar à audiência os fatos que a mídia ignora ou é incapaz de mostrar devido aos constrangimentos impostos pela cultura profissional do jornalismo. Esse tipo de programa poderia ser remetido ao gênero jornalístico da crônica, que sempre misturou informação, opinião e até mesmo ficção para dar conta das problemáticas que as notícias não conseguiam captar. A imprensa diária detesta a complexidade e às vezes o humor e a ficção baseada na realidade são as únicas formas de retomar certas problemáticas.

“Hitler no Leblon” é um dos melhores exemplos da comédia enquanto jornalismo no álbum de Sieber. A presença do ditador germânico no Rio de Janeiro é, evidentemente, ficcional, mas o personagem interage com tipos sociológicos da classe média carioca e serve para mostrar seu preconceito contra os pobres — e ainda comparando, por tabela, essa mentalidade com o nazismo. Um efeito parecido ocorre nas “Pequenas biografias de pessoas menores ainda” e na série “Ilha de Sexy”, nas quais personagens ficcionais misturam-se a celebridades e figuras cariocas.

O álbum traz não apenas crônicas sequenciais, mas também reportagens. Nelas, Sieber acaba se focando mais nos bastidores dos acontecimentos do que nos fatos principais, oferecendo ao leitor informações pouco ou nunca vistas nos jornais. O próprio autor sempre se coloca como personagem ativo das reportagens, beirando o jornalismo gonzo. Dentro do estilo jornalismo-verdade, as melhores histórias são aquela em que Sieber faz um curso de sedução furado e as coberturas do Fashion Rio e da FLIP. Ninguém é poupado — nem o próprio Sieber, quase sempre mostrado como um loser, deslocado no mundo do trabalho e dos relacionamentos.

Esse, aliás, é o ponto mais fraco em sua obra. Da insatisfação consigo mesmo vem a energia para a crítica social vitriólica de Sieber, mas sob o permanente risco de descambar para o mero ressentimento antiburguês. Nada contra o ódio à classe média: embora seja um clichê e tenha eficácia semelhante a chutar um cachorro morto, é sempre divertido. O problema é que, ao se rebaixar, Sieber permite ao leitor interpretação de estar buscando um salvo-conduto para sua crítica social. Essa possibilidade surge raras vezes durante a leitura do álbum e Sieber nunca chega a cruzar realmente a linha, mas, se um dia o fizer, o sarcasmo e a ironia podem se degradar até formar um quadro patético. Até porque não há motivo para se desculpar.

Quarto escuro

Não é um espetáculo de dança, não é uma instalação e não é uma performance inspirada na obra de David Lynch, mas Quarto Escuro é um excelente começo para quem gostaria de se interessar por essas coisas, mas tem vergonha de não entender:

Será uma apresentação única na sala 209 da Usina do Gasômetro no próximo sábado, dia 12 de setembro, às 19:30. Os ingressos custam R$ 10, com meia entrada para estudantes, idosos e artistas.

Para quem não puder estar na Usina, tentaremos transmitir ao vivo pelo INSTRUÇÕES]desdobramentos.

E também é uma chance imperdível de ver a bailarina e coreógrafa Tatiana da Rosa — a melhor do mundo conforme 50% dos habitantes da minha casa — em ação. :-)

Mais um pouco de arte

+INSTRUÇÕES]desdobramentos

A bailarina e coreógrafa Tatiana da Rosa — também conhecida como minha esposa —  dança novamente neste e no próximo final de semana em duas ações diferentes dentro do projeto +INSTRUÇÕES]desdobramentos. Serviço:

Quarto Escuro
Dia: 27 e 28 de junho (sábado e domingo)
Horário: 21h
Ingresso: R$15,00 (inteira), R$8,00 (estudantes, idosos, classe artística), R$8,00 + 1kg de alimento e 1 agasalho
Local: Sala 209 – Usina do Gasômetro

Solos
Dia: 4 e 5 de julho (sábado e domingo)
Horário: 21h
Ingresso: R$15,00 (inteira), R$8,00 (estudantes, idosos, classe artística), R$8,00 + 1kg de alimento e 1 agasalho
Local: Sala 209 – Usina do Gasômetro