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Asno em pele de leão

O burro em pele de leão

Uma fábula de Esopo muito apropriada para o contexto político do Brasil dos dias 28 e 29 de outubro de 2019:

Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais irracionais. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: “Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!”

Assim, algumas pessoas ignorantes que, graças à empáfia, dão a impressão de serem as tais, são desmascaradas pela própria tagarelice.

Esopo: fábulas completas, p. 85

Na mesma toada, Esopo oferece esta outra fábula com o mesmo personagem principal:

[A fábula mostra] que você, que é pobre e gente comum, não deve imitar o comportamento dos ricos, para não ser alvo de caçoadas nem correr riscos.

Envolto numa pele de leão, um burro fazia todo mundo pensar que ele era um leão e, assim, punha em fuga homens e rebanhos. Mas, logo que soprou uma rajada de vento, a pele se despegou e o burro ficou nu. Aí, então, todos acorreram e o surraram com varas e porretes.

Esopo: fábulas completas, p. 84

Para que serve um curso de Humanas?

A resposta à pergunta “para que serve um curso de Humanas?” depende, basicamente, da visão de mundo da pessoa à qual a questão é dirigida. Pela mesma razão, a própria pergunta denuncia a ideologia do questionador. Em geral, quem questiona a serventia das humanidades vê o mundo sob uma perspectiva utilitarista, muitas vezes associada a uma posição política reacionária.

Como bem apontou a minha amiga Katarina Peixoto no Facebook, não se responde ao que não deve ser questionado:

A universidade existe para ser excelente e isso deveria bastar. Não basta porque o Brasil resolveu dar um tiro na cabeça e agora estamos às voltas com esse inferno que é lidar com suicida. Realmente, não sei e não tenho tempo, agora, de enfrentar o problema de se devemos ou não prestar contas do que fazemos, à sociedade. No que me concerne, a tarefa é rematadamente impossível. Em primeiro lugar, não é praticável e, em segundo, eu não quero perder minhas amizades.

A quem, em sã consciência, fora da filosofia, pode interessar saber o que é um predicado e por que a estrutura clássica da proposição perdeu o seu enjeu? E as razões por que isso ocorreu, e por que podemos antever a obsolescência lógica da cópula, na LAP? A quem interessa escavar a prioridade semântica sobre as vestimentas gramaticais, em Port-Royal? E a natureza da mente, vamos lá, em Elisabeth da Bohemia? A filósofa seria uma humeana avant la lettre (como uma comentadora fina detecta) ou seria uma cartesiana hard-core (como eu penso que era)? Quem, na fila do pão, quer saber do argumento da distinção real e da leitura que a filósofa da Bohemia fez desse argumento? E a vontade, ela incide direta, ou indiretamente, na asserção? Qual a implicação de uma leitura ou de outra? Vale dizer, na Quarta Meditação e em Port-Royal (também em Spinoza, na Ética)?

Isso dito, mas considerando a guerra do governo Bolsonaro contra as universidades, talvez valha a pena fazer um esforço para explicar a relevância do ensino de Humanas e contradizer a visão reacionária utilitarista mais pedestre. A partir dessa perspectiva, somente os cursos universitários com alguma “aplicação prática” devem ser incentivados ou receber investimento público, por dois pressupostos principais:

  • No nível individual, oferecem mais oportunidades de emprego ao egresso da universidade
  • No nível social, a educação de engenheiros, programadores, farmacêuticos, agrônomos e outros profissionais do gênero gera riqueza

Noutras palavras, as humanidades, artes e outras disciplinas seriam inúteis porque não formariam empreendedores nem técnicos para trabalhar em bancos, empreiteiras, metalúrgicas, latifúndios, entre outras empresas de setores economicamente importantes. Como é necessário gerar riqueza, para gerar postos de trabalho, para empregar a população, para fazer a economia girar, para gerar impostos, para financiar o Estado, os utilitaristas consideram um desperdício investir dinheiro público nessas áreas.

É claro, nem todo utilitarista considera as Ciências Humanas uma perda de tempo — apenas os utilitaristas ignorantes ou ingênuos pensam assim.

Em primeiro lugar, algumas das disciplinas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), consideradas pelos utilitaristas cursos “sérios” e valorizadas pelo mercado, estão cheias de pesquisas sem nenhuma aplicação prática direta ou mesmo aparente. A diferença entre uma tese ridícula na Matemática e uma tese ridícula nas Letras é que pessoas sem nenhuma formação universitária relevante conseguem decifrar pelo menos o título do trabalho no segundo caso e desmerecer o tema de pesquisa.

Esse tipo de crítica em geral parte de reacionários se apropriando de uma perspectiva utilitarista para criticar campos de estudo científico considerados progressistas, como os estudos de gênero ou a teoria crítica, por exemplo. Curiosamente, esses conservadores ignoram as ideias de seus próprios ídolos sobre a ciência. Friedrich Hayek, por exemplo, entendia a evolução cultural em termos darwninistas. De seu ponto de vista, a variedade na cultura era essencial, porque nunca se pode saber qual inovação biológica ou cultural vai oferecer uma vantagem a uma espécie ou grupo.

Pesquisas sem nenhuma aplicação clara no presente podem se mostrar úteis no futuro. A natureza produz todo tipo de características biológicas possíveis, ao acaso. Algumas delas se mostram úteis e permanecem, enquanto outras desaparecem sob os estratos geológicos. Podemos encarar as universidades como máquinas de produção de ideias variadas, algumas das quais vão se mostrar adequadas ao ambiente, outras, não. Assim como na natureza, para se encontrar um traço biológico útil, é preciso arcar com o excesso, com o erro, nas ciências também se deve aceitar a produção de uma variedade exuberante de ideias, para garantir a geração daquelas capazes de aplicação prática no futuro.

Além disso, muitas das contribuições das humanidades para o empreendimento científico em geral e para a economia em particular são frequentemente obscurecidas. Há muitos estudos antropológicos sobre as culturas de povos indígenas, por exemplo. Alguns desses estudos podem parecer bizantinos aos olhos de utilitaristas — por que deveríamos nos preocupar com a filosofia dos mbyá-guarany, se vivemos numa sociedade urbana pós-industrial?

Talvez porque, ao observar a atividade dos karaí, ou curandeiros, o antropólogo pode registrar o uso de certas ervas medicinais. A seguir, um pesquisador de farmacologia pode se basear nesses registros para encontrar o princípio ativo de determinada erva e criar uma nova droga, a qual pode gerar riqueza. Quando isso acontece, porém, a disciplina de Farmácia ganha “pontos” na escala utilitarista, enquanto a Antropologia segue considerada uma atividade, na melhor das hipóteses, capaz de gerar leituras pitorescas.

Numa perspectiva cotidiana e de curto prazo, também, as Ciências Humanas também apresentam contribuições. O cientista da computação Shane Parrish, cujo weblog sobre modelos mentais e processo decisório influencia muitos executivos de Wall Street, relatou em entrevista recente a Sam Harris como as humanidades lhe fizeram falta quando entrou no mercado de trabalho:

Parrish assumiu um emprego num escritório de inteligência canadense logo após sair da faculdade, poucos dias antes dos atentados de 11/9. Em meio ao caos na agência, com a entrada de centenas de novos funcionários, ele se viu promovido a gerente em pouco tempo. Neste ponto, descobriu que a matemática e a programação, as quais tinham sido o foco de seu curso universitário e lhe arranjado um emprego, não eram suficientes para desempenhar suas novas funções, e se voltou para as artes e humanidades.

É um bom negócio para as empresas, porque elas podem contratar pessoas capazes de contribuir quase imediatamente, mas, dentro de quatro ou cinco anos, você está numa função diferente e essa função pode ser ou não afim às suas habilidades aos conteúdos que aprendeu na faculdade. O problema é que você fica inclinado a ver o mundo através dessas lentes. Existe o provérbio antigo segundo o qual “todo problema se parece com um prego para quem tem um martelo”. Para mim foi muito útil, assim como para outras pessoas com quem trabalhei, me abrir para um mundo mais amplo, pois isso não apenas ajuda a entender e a ver interconexões, mas, como vim a descobrir depois, ajuda você a entender outras pessoas, os modelos mentais delas — ajuda você a se comunicar com outras pessoas, se relacionar com elas e desenvolver relacionamentos significativos.


Executivos no Vale do Silício descobriram a mesma coisa, após vários anos se focando nas disciplinas do acrônimo STEM, e vêm contratando funcionários das humanidades e outras graduações “menos sérias”, basicamente porque eles são capazes de se comunicar com outras pessoas.

Finalmente, as humanidades, ao procederem a uma crítica profunda dos valores, costumes, crenças e ideologias, podem servir como uma espécie de “assessoras de vai dar merda” da sociedade. Marx denunciou as contradições do capitalismo no século XIX, muitas das quais se mostraram previsões acertadas ao longo dos conflitos sociais do século XX. Heidegger alertou para a possibilidade da tecnologia ganhar autonomia em relação ao ser humano e vir a suplantá-lo e hoje nos debatemos com a perspectiva de ocupação da maior parte dos postos de trabalho por máquinas. O despropósito de hoje pode ser a análise acertada de amanhã.

Nota de solidariedade

O jornalista e meu colega de diretoria na ABRAJI Guilherme Amado, repórter da revista Época, está sofrendo perseguição das milícias virtuais da família Bolsonaro, por noticiar o sequestro da conta do presidente da República no Twitter — um meio de divulgação tornado oficial por Bolsonaro — por seu filho Carlos, após uma briga de família.

Infelizmente, ele é apenas mais uma vítima da família do presidente e seus apaniguados. Ataques como esse têm sido recorrentes.

É inaceitável um presidente coordenar um ataque contra um jornalista, seja qual for a razão. Mesmo se a notícia fosse absolutamente mentirosa, ainda seria imoral e nojento abusar do poder de presidente da República para perseguir um cidadão.

Aliás, também é inaceitável que a comunicação de um presidente da República fique a cargo de amadores desequilibrados. Assim como é inaceitável a família de um presidente da República apitar em assuntos de governo. Isso é coisa de republiqueta de bananas.

Infelizmente, a população e mesmo os jornalistas parecem estar derivando para enxergar esse tipo de comportamento como normal. Não é. Esse tipo de comportamento por parte do presidente é uma abominação em qualquer democracia séria.

O jornalismo diário precisa incorporar a checagem de fatos

A presidência de Jair Bolsonaro, a julgar pela campanha e pelas atitudes do eleito nos primeiros dias após a vitória, promete um vazamento incalculável de chorume — e as redações serão as estações de tratamento de todo o esgoto.

Por enquanto, Bolsonaro parece estar copiando a estratégia do presidente Donald Trump, da mesma forma que copiou as táticas do candidato Donald Trump. Até a posse e durante o tempo em que permanecer com a faixa, o presidente eleito vai criar factóides e afirmar barbaridades sobre direitos humanos, na esperança de que o ultraje causado desvie a atenção das pautas relacionadas à economia, infraestrutura, segurança e outros temas caros a seu eleitorado. Como argumentei num texto anterior, o ultraje só vai alimentar o extremismo e galvanizar os apoiadores de Bolsonaro.

Além disso, o presidente eleito vem adotando a tática de minar a credibilidade restante da imprensa com o lançamento de balões de ensaio através de subalternos ou fontes anônimas, as quais são desmentidos nos canais de comunicação direta de Bolsonaro quando a proposta é mal recebida. Essa tática permite a ele testar a recepção de medidas entre a população e, ao mesmo tempo, reforçar o discurso contra o jornalismo. Quando desautoriza algum rumor ou volta atrás, Bolsonaro conclama a população a buscar informação diretamente em seus perfis “oficiais” em redes sociais e aproveita para criticar os “erros” da imprensa.

É melhor já ir abandonando qualquer esperança de que o futuro governo opere segundo as regras e costumes de civilidade desenvolvidos na interação entre jornalistas e autoridades desde 1985. Os presidentes eleitos até agora podiam ter maior ou menor boa vontade para com a imprensa, mas respeitaram as regras do jogo. Lidar com Bolsonaro é como jogar com aquele seu primo chato, que escondia cartas na canastra, pegava notas subrepticiamente no Banco Imobiliário ou misturava todas as peças e jogava o tabuleiro para cima quando estava perdendo no War.

Infelizmente, o jornalismo contemporâneo parece cada vez mais suscetível a declarações abomináveis e “furos” embasados em rumores que prometam alguns cliques. Dois anos de governo Trump mostraram ser muito difícil rediscutir valores e normas editoriais  para seguir o conselho abaixo:

Qual norma editorial poderia evitar que repórteres e redações se vejam enredados na estratégia de comunicação bolsonarista?

Jason Reifler, professor da Universidade de Exeter que há anos pesquisa desinformação e fact checking, forneceu uma boa pista durante o 13º congresso da Abraji. A proposta mais importante oferecida por ele, na minha opinião, é incorporar a checagem de fatos às rotinas produtivas da notícia e apresentar qualquer declaração vinda de Bolsonaro atrelada a um qualificador, quando não se puder garantir sua veracidade. Vale a pena assistir à palestra inteira (se não entende inglês, as legendas automáticas em português funcionam razoavelmente bem):

A verificação de fatos é, ou deveria ser, uma etapa normal da produção de notícias. Publicações como a New Yorker são famosas por manterem uma equipe dedicada a conferir a apuração dos repórteres, perguntando a fontes se as aspas usadas em textos são fidedignas, ou checando se datas, locais ou números estão corretos. Esse tipo de checagem ex ante é muito útil para evitar a veiculação de equívocos, os quais são cada vez mais difíceis de corrigir após ganharem o mundo. Em geral, todavia, essa verificação prévia não procura avaliar a veracidade das informações ou declarações em si mesmas, mas apenas garantir sua precisão.

A avaliação da veracidade das declarações de políticos tem sido realizada ex post por agências especializadas em checagem de fatos, como Lupa e Aos Fatos. O objetivo desse tipo de verificação posterior é corrigir as crenças equivocadas causadas por declarações falsas veiculadas pela imprensa, bem como outras formas de desinformação, como boatos. Infelizmente, como Reifler deixa claro em sua palestra, é muito difícil neutralizar falsidades depois de elas se disseminarem em redes sociais e na mídia.

A solução ideal seria ignorar qualquer alegação sem substância feita por qualquer fonte. Porém, essa tática funcionaria apenas se uma massa crítica de redações adotasse a mesma regra. Caso contrário, além do veículo ser furado pela concorrência constantemente, a desinformação acabaria difundida de qualquer maneira. Como Bolsonaro já granjeou apoio de diversas empresas de comunicação, é impensável uma coordenação entre a comunidade profissional para mudar as rotinas de trabalho no futuro próximo. Além disso, essa recomendação não é uma novidade, mas tem sido feita por jornalistas e acadêmicos da área há décadas, sem sucesso.

A solução factível seria a comunidade adotar a norma de qualificar a veracidade das declarações de autoridades no momento de sua publicação. Dessa maneira, é possível ao mesmo tempo registrar o acontecimento em ressonância com a concorrência e neutralizar a desinformação no berçário.

A recente afirmação de Bolsonaro de que o método de cálculo do desemprego aplicado pelo IBGE seria uma “farsa” forneceu bons exemplos da prática acima. Em primeiro lugar, um contraexemplo de manchete que toma a declaração por seu valor de face:

Abaixo, três exemplos de manchetes matam a desinformação no nascedouro:

 

 

Embora seja uma solução simples do ponto de vista técnico, ela pode ser complicada da perspectiva organizacional, porque demanda consenso entre direção, editores e repórteres, bem como a revisão de rotinas de trabalho estabelecidas. Apesar disso, é a resposta mais eficaz disponível a curto prazo para as redações que não pretendem repetir os erros da imprensa estadunidense com Donald Trump.

Conselho de Yuval Noah Harari aos brasileiros

Há algumas semanas, Sam Harris publicou em seu podcast uma conversa com o historiador Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus. Durante a sessão de perguntas da plateia, um brasileiro questionou Harari sobre a polarização política em nosso país, mencionando a atitude confrontacional de apoiadores e detratores de Bolsonaro. Como a resposta me pareceu um conselho útil para o momento, resolvi traduzir e editar o texto da melhor maneira que pude, para benefício de todos os meus concidadãos.

Tomei algumas liberdades na tentativa de deixar o texto escrito mais claro, mas posso ter me equivocado em algum ponto. O trecho em questão pode ser conferido no “vídeo” abaixo. Vale a pena escutar a conversa toda.

PERGUNTA: Então, eu sou originalmente do Brasil. Nós temos uma eleição em três semanas lá e o cara que está liderando a é um personagem tipo Trump. Ele está sendo muito combatido, da mesma forma que Trump foi combatido aqui, de uma maneira muito ineficiente, com muita gente se recusando a debater com o outro campo. Muito preocupante para todos de nós que somos de lá. Estou curioso sobre a sua opinião: onde devemos traçar a linha entre dar espaço para algumas pessoas que não são civilizadas e se envolver com pessoas de quem nós realmente discordamos, mas precisamos nos envolver de alguma forma, ou nos arriscarmos a enfrentar consequências ainda piores.

HARARI: É muito difícil traçar uma linha. Idealmente, eu acho que uma sociedade deve se manter. Eu não estou familiarizado com a situação específica no Brasil, mas geralmente, para uma sociedade continuar funcionando, você precisa ter a capacidade de falar com a maioria de seus vizinhos, colegas e familiares. Isso também é verdade quanto aos Estados Unidos. […] De um modo geral, se você chegar a um ponto em que toda conversa falha, então a sociedade já está tão dividida que a democracia não pode realmente funcionar. Como eu disse no começo, a democracia não é uma espécie de panaceia que funciona em qualquer lugar a qualquer momento, precisa de algumas condições básicas para funcionar, precisa de certas tecnologias, precisa de um certo nível de educação e precisa de um certo nível de consenso. Infelizmente, você não pode ter democracia se tiver uma situação em que não há mais consenso sobre os valores fundamentais de uma sociedade. A democracia não funciona. Democracias funcionam apenas quando você tem esta condição inicial de consenso sobre o fundamental e, em seguida, você pode construir uma democracia em cima disso, mas, se você não tiver essa condição inicial, a democracia não pode realmente funcionar, então logo vai ou na direção da guerra civil, ou na direção da separação, ou na direção da ditadura, mas simplesmente não funciona. É também por isso que tenho medo do que está acontecendo agora nos EUA. Está chegando ao ponto em que simplesmente não há consenso quanto básico. Eu me preocupo muito, por exemplo, com os pedidos de impeachment de Trump e, em especialmente, se os democratas, digamos, tomarem o controle do Congresso nas próximas eleições, o que é uma grande dúvida, mas me preocupa muito se houver um forte movimento em favor do impeachment, porque se isso tem sucesso uma parte muito significativa da população dos EUA perderá toda a fé no sistema. Agora, você pode dizer o que quiser sobre Trump e sobre o seus apoiadores, mas eles ainda são parte de sociedade, eles ainda são seus vizinhos, seus colegas, sua família em alguns casos. Se chegarmos a um ponto em que 25% a 30% da população americana acaba por perder sua confiança básica – “nós finalmente colocamos nosso cara lá e o sistema o assinalou e eliminou” – eles vão perder toda a confiança. Então, é uma situação muito perigosa. […] A questão chave é a confiança. Sistemas humanos em grande escala, no fundo, funcionam na base da confiança. Isso nos traz de volta ao começo de nossa fala de hoje sobre histórias e ficções e assim por diante, algo como o fato de que o dólar funciona com base na confiança e também nações inteiras, no fundo. Se você não tiver mais confiança, então a única coisa que pode funcionar é um regime autoritário, senão tudo se decompõe em guerra civil ou algo parecido. Precisamos fazer todos os esforços. Se ainda há alguma confiança, é melhor preservá-la.