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O jornalismo diário precisa incorporar a checagem de fatos

A presidência de Jair Bolsonaro, a julgar pela campanha e pelas atitudes do eleito nos primeiros dias após a vitória, promete um vazamento incalculável de chorume — e as redações serão as estações de tratamento de todo o esgoto.

Por enquanto, Bolsonaro parece estar copiando a estratégia do presidente Donald Trump, da mesma forma que copiou as táticas do candidato Donald Trump. Até a posse e durante o tempo em que permanecer com a faixa, o presidente eleito vai criar factóides e afirmar barbaridades sobre direitos humanos, na esperança de que o ultraje causado desvie a atenção das pautas relacionadas à economia, infraestrutura, segurança e outros temas caros a seu eleitorado. Como argumentei num texto anterior, o ultraje só vai alimentar o extremismo e galvanizar os apoiadores de Bolsonaro.

Além disso, o presidente eleito vem adotando a tática de minar a credibilidade restante da imprensa com o lançamento de balões de ensaio através de subalternos ou fontes anônimas, as quais são desmentidos nos canais de comunicação direta de Bolsonaro quando a proposta é mal recebida. Essa tática permite a ele testar a recepção de medidas entre a população e, ao mesmo tempo, reforçar o discurso contra o jornalismo. Quando desautoriza algum rumor ou volta atrás, Bolsonaro conclama a população a buscar informação diretamente em seus perfis “oficiais” em redes sociais e aproveita para criticar os “erros” da imprensa.

É melhor já ir abandonando qualquer esperança de que o futuro governo opere segundo as regras e costumes de civilidade desenvolvidos na interação entre jornalistas e autoridades desde 1985. Os presidentes eleitos até agora podiam ter maior ou menor boa vontade para com a imprensa, mas respeitaram as regras do jogo. Lidar com Bolsonaro é como jogar com aquele seu primo chato, que escondia cartas na canastra, pegava notas subrepticiamente no Banco Imobiliário ou misturava todas as peças e jogava o tabuleiro para cima quando estava perdendo no War.

Infelizmente, o jornalismo contemporâneo parece cada vez mais suscetível a declarações abomináveis e “furos” embasados em rumores que prometam alguns cliques. Dois anos de governo Trump mostraram ser muito difícil rediscutir valores e normas editoriais  para seguir o conselho abaixo:

Qual norma editorial poderia evitar que repórteres e redações se vejam enredados na estratégia de comunicação bolsonarista?

Jason Reifler, professor da Universidade de Exeter que há anos pesquisa desinformação e fact checking, forneceu uma boa pista durante o 13º congresso da Abraji. A proposta mais importante oferecida por ele, na minha opinião, é incorporar a checagem de fatos às rotinas produtivas da notícia e apresentar qualquer declaração vinda de Bolsonaro atrelada a um qualificador, quando não se puder garantir sua veracidade. Vale a pena assistir à palestra inteira (se não entende inglês, as legendas automáticas em português funcionam razoavelmente bem):

A verificação de fatos é, ou deveria ser, uma etapa normal da produção de notícias. Publicações como a New Yorker são famosas por manterem uma equipe dedicada a conferir a apuração dos repórteres, perguntando a fontes se as aspas usadas em textos são fidedignas, ou checando se datas, locais ou números estão corretos. Esse tipo de checagem ex ante é muito útil para evitar a veiculação de equívocos, os quais são cada vez mais difíceis de corrigir após ganharem o mundo. Em geral, todavia, essa verificação prévia não procura avaliar a veracidade das informações ou declarações em si mesmas, mas apenas garantir sua precisão.

A avaliação da veracidade das declarações de políticos tem sido realizada ex post por agências especializadas em checagem de fatos, como Lupa e Aos Fatos. O objetivo desse tipo de verificação posterior é corrigir as crenças equivocadas causadas por declarações falsas veiculadas pela imprensa, bem como outras formas de desinformação, como boatos. Infelizmente, como Reifler deixa claro em sua palestra, é muito difícil neutralizar falsidades depois de elas se disseminarem em redes sociais e na mídia.

A solução ideal seria ignorar qualquer alegação sem substância feita por qualquer fonte. Porém, essa tática funcionaria apenas se uma massa crítica de redações adotasse a mesma regra. Caso contrário, além do veículo ser furado pela concorrência constantemente, a desinformação acabaria difundida de qualquer maneira. Como Bolsonaro já granjeou apoio de diversas empresas de comunicação, é impensável uma coordenação entre a comunidade profissional para mudar as rotinas de trabalho no futuro próximo. Além disso, essa recomendação não é uma novidade, mas tem sido feita por jornalistas e acadêmicos da área há décadas, sem sucesso.

A solução factível seria a comunidade adotar a norma de qualificar a veracidade das declarações de autoridades no momento de sua publicação. Dessa maneira, é possível ao mesmo tempo registrar o acontecimento em ressonância com a concorrência e neutralizar a desinformação no berçário.

A recente afirmação de Bolsonaro de que o método de cálculo do desemprego aplicado pelo IBGE seria uma “farsa” forneceu bons exemplos da prática acima. Em primeiro lugar, um contraexemplo de manchete que toma a declaração por seu valor de face:

Abaixo, três exemplos de manchetes matam a desinformação no nascedouro:

 

 

Embora seja uma solução simples do ponto de vista técnico, ela pode ser complicada da perspectiva organizacional, porque demanda consenso entre direção, editores e repórteres, bem como a revisão de rotinas de trabalho estabelecidas. Apesar disso, é a resposta mais eficaz disponível a curto prazo para as redações que não pretendem repetir os erros da imprensa estadunidense com Donald Trump.

Conselho de Yuval Noah Harari aos brasileiros

Há algumas semanas, Sam Harris publicou em seu podcast uma conversa com o historiador Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus. Durante a sessão de perguntas da plateia, um brasileiro questionou Harari sobre a polarização política em nosso país, mencionando a atitude confrontacional de apoiadores e detratores de Bolsonaro. Como a resposta me pareceu um conselho útil para o momento, resolvi traduzir e editar o texto da melhor maneira que pude, para benefício de todos os meus concidadãos.

Tomei algumas liberdades na tentativa de deixar o texto escrito mais claro, mas posso ter me equivocado em algum ponto. O trecho em questão pode ser conferido no “vídeo” abaixo. Vale a pena escutar a conversa toda.

PERGUNTA: Então, eu sou originalmente do Brasil. Nós temos uma eleição em três semanas lá e o cara que está liderando a é um personagem tipo Trump. Ele está sendo muito combatido, da mesma forma que Trump foi combatido aqui, de uma maneira muito ineficiente, com muita gente se recusando a debater com o outro campo. Muito preocupante para todos de nós que somos de lá. Estou curioso sobre a sua opinião: onde devemos traçar a linha entre dar espaço para algumas pessoas que não são civilizadas e se envolver com pessoas de quem nós realmente discordamos, mas precisamos nos envolver de alguma forma, ou nos arriscarmos a enfrentar consequências ainda piores.

HARARI: É muito difícil traçar uma linha. Idealmente, eu acho que uma sociedade deve se manter. Eu não estou familiarizado com a situação específica no Brasil, mas geralmente, para uma sociedade continuar funcionando, você precisa ter a capacidade de falar com a maioria de seus vizinhos, colegas e familiares. Isso também é verdade quanto aos Estados Unidos. […] De um modo geral, se você chegar a um ponto em que toda conversa falha, então a sociedade já está tão dividida que a democracia não pode realmente funcionar. Como eu disse no começo, a democracia não é uma espécie de panaceia que funciona em qualquer lugar a qualquer momento, precisa de algumas condições básicas para funcionar, precisa de certas tecnologias, precisa de um certo nível de educação e precisa de um certo nível de consenso. Infelizmente, você não pode ter democracia se tiver uma situação em que não há mais consenso sobre os valores fundamentais de uma sociedade. A democracia não funciona. Democracias funcionam apenas quando você tem esta condição inicial de consenso sobre o fundamental e, em seguida, você pode construir uma democracia em cima disso, mas, se você não tiver essa condição inicial, a democracia não pode realmente funcionar, então logo vai ou na direção da guerra civil, ou na direção da separação, ou na direção da ditadura, mas simplesmente não funciona. É também por isso que tenho medo do que está acontecendo agora nos EUA. Está chegando ao ponto em que simplesmente não há consenso quanto básico. Eu me preocupo muito, por exemplo, com os pedidos de impeachment de Trump e, em especialmente, se os democratas, digamos, tomarem o controle do Congresso nas próximas eleições, o que é uma grande dúvida, mas me preocupa muito se houver um forte movimento em favor do impeachment, porque se isso tem sucesso uma parte muito significativa da população dos EUA perderá toda a fé no sistema. Agora, você pode dizer o que quiser sobre Trump e sobre o seus apoiadores, mas eles ainda são parte de sociedade, eles ainda são seus vizinhos, seus colegas, sua família em alguns casos. Se chegarmos a um ponto em que 25% a 30% da população americana acaba por perder sua confiança básica – “nós finalmente colocamos nosso cara lá e o sistema o assinalou e eliminou” – eles vão perder toda a confiança. Então, é uma situação muito perigosa. […] A questão chave é a confiança. Sistemas humanos em grande escala, no fundo, funcionam na base da confiança. Isso nos traz de volta ao começo de nossa fala de hoje sobre histórias e ficções e assim por diante, algo como o fato de que o dólar funciona com base na confiança e também nações inteiras, no fundo. Se você não tiver mais confiança, então a única coisa que pode funcionar é um regime autoritário, senão tudo se decompõe em guerra civil ou algo parecido. Precisamos fazer todos os esforços. Se ainda há alguma confiança, é melhor preservá-la.