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Para que serve um curso de Humanas?

A resposta à pergunta “para que serve um curso de Humanas?” depende, basicamente, da visão de mundo da pessoa à qual a questão é dirigida. Pela mesma razão, a própria pergunta denuncia a ideologia do questionador. Em geral, quem questiona a serventia das humanidades vê o mundo sob uma perspectiva utilitarista, muitas vezes associada a uma posição política reacionária.

Como bem apontou a minha amiga Katarina Peixoto no Facebook, não se responde ao que não deve ser questionado:

A universidade existe para ser excelente e isso deveria bastar. Não basta porque o Brasil resolveu dar um tiro na cabeça e agora estamos às voltas com esse inferno que é lidar com suicida. Realmente, não sei e não tenho tempo, agora, de enfrentar o problema de se devemos ou não prestar contas do que fazemos, à sociedade. No que me concerne, a tarefa é rematadamente impossível. Em primeiro lugar, não é praticável e, em segundo, eu não quero perder minhas amizades.

A quem, em sã consciência, fora da filosofia, pode interessar saber o que é um predicado e por que a estrutura clássica da proposição perdeu o seu enjeu? E as razões por que isso ocorreu, e por que podemos antever a obsolescência lógica da cópula, na LAP? A quem interessa escavar a prioridade semântica sobre as vestimentas gramaticais, em Port-Royal? E a natureza da mente, vamos lá, em Elisabeth da Bohemia? A filósofa seria uma humeana avant la lettre (como uma comentadora fina detecta) ou seria uma cartesiana hard-core (como eu penso que era)? Quem, na fila do pão, quer saber do argumento da distinção real e da leitura que a filósofa da Bohemia fez desse argumento? E a vontade, ela incide direta, ou indiretamente, na asserção? Qual a implicação de uma leitura ou de outra? Vale dizer, na Quarta Meditação e em Port-Royal (também em Spinoza, na Ética)?

Isso dito, mas considerando a guerra do governo Bolsonaro contra as universidades, talvez valha a pena fazer um esforço para explicar a relevância do ensino de Humanas e contradizer a visão reacionária utilitarista mais pedestre. A partir dessa perspectiva, somente os cursos universitários com alguma “aplicação prática” devem ser incentivados ou receber investimento público, por dois pressupostos principais:

  • No nível individual, oferecem mais oportunidades de emprego ao egresso da universidade
  • No nível social, a educação de engenheiros, programadores, farmacêuticos, agrônomos e outros profissionais do gênero gera riqueza

Noutras palavras, as humanidades, artes e outras disciplinas seriam inúteis porque não formariam empreendedores nem técnicos para trabalhar em bancos, empreiteiras, metalúrgicas, latifúndios, entre outras empresas de setores economicamente importantes. Como é necessário gerar riqueza, para gerar postos de trabalho, para empregar a população, para fazer a economia girar, para gerar impostos, para financiar o Estado, os utilitaristas consideram um desperdício investir dinheiro público nessas áreas.

É claro, nem todo utilitarista considera as Ciências Humanas uma perda de tempo — apenas os utilitaristas ignorantes ou ingênuos pensam assim.

Em primeiro lugar, algumas das disciplinas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), consideradas pelos utilitaristas cursos “sérios” e valorizadas pelo mercado, estão cheias de pesquisas sem nenhuma aplicação prática direta ou mesmo aparente. A diferença entre uma tese ridícula na Matemática e uma tese ridícula nas Letras é que pessoas sem nenhuma formação universitária relevante conseguem decifrar pelo menos o título do trabalho no segundo caso e desmerecer o tema de pesquisa.

Esse tipo de crítica em geral parte de reacionários se apropriando de uma perspectiva utilitarista para criticar campos de estudo científico considerados progressistas, como os estudos de gênero ou a teoria crítica, por exemplo. Curiosamente, esses conservadores ignoram as ideias de seus próprios ídolos sobre a ciência. Friedrich Hayek, por exemplo, entendia a evolução cultural em termos darwninistas. De seu ponto de vista, a variedade na cultura era essencial, porque nunca se pode saber qual inovação biológica ou cultural vai oferecer uma vantagem a uma espécie ou grupo.

Pesquisas sem nenhuma aplicação clara no presente podem se mostrar úteis no futuro. A natureza produz todo tipo de características biológicas possíveis, ao acaso. Algumas delas se mostram úteis e permanecem, enquanto outras desaparecem sob os estratos geológicos. Podemos encarar as universidades como máquinas de produção de ideias variadas, algumas das quais vão se mostrar adequadas ao ambiente, outras, não. Assim como na natureza, para se encontrar um traço biológico útil, é preciso arcar com o excesso, com o erro, nas ciências também se deve aceitar a produção de uma variedade exuberante de ideias, para garantir a geração daquelas capazes de aplicação prática no futuro.

Além disso, muitas das contribuições das humanidades para o empreendimento científico em geral e para a economia em particular são frequentemente obscurecidas. Há muitos estudos antropológicos sobre as culturas de povos indígenas, por exemplo. Alguns desses estudos podem parecer bizantinos aos olhos de utilitaristas — por que deveríamos nos preocupar com a filosofia dos mbyá-guarany, se vivemos numa sociedade urbana pós-industrial?

Talvez porque, ao observar a atividade dos karaí, ou curandeiros, o antropólogo pode registrar o uso de certas ervas medicinais. A seguir, um pesquisador de farmacologia pode se basear nesses registros para encontrar o princípio ativo de determinada erva e criar uma nova droga, a qual pode gerar riqueza. Quando isso acontece, porém, a disciplina de Farmácia ganha “pontos” na escala utilitarista, enquanto a Antropologia segue considerada uma atividade, na melhor das hipóteses, capaz de gerar leituras pitorescas.

Numa perspectiva cotidiana e de curto prazo, também, as Ciências Humanas também apresentam contribuições. O cientista da computação Shane Parrish, cujo weblog sobre modelos mentais e processo decisório influencia muitos executivos de Wall Street, relatou em entrevista recente a Sam Harris como as humanidades lhe fizeram falta quando entrou no mercado de trabalho:

Parrish assumiu um emprego num escritório de inteligência canadense logo após sair da faculdade, poucos dias antes dos atentados de 11/9. Em meio ao caos na agência, com a entrada de centenas de novos funcionários, ele se viu promovido a gerente em pouco tempo. Neste ponto, descobriu que a matemática e a programação, as quais tinham sido o foco de seu curso universitário e lhe arranjado um emprego, não eram suficientes para desempenhar suas novas funções, e se voltou para as artes e humanidades.

É um bom negócio para as empresas, porque elas podem contratar pessoas capazes de contribuir quase imediatamente, mas, dentro de quatro ou cinco anos, você está numa função diferente e essa função pode ser ou não afim às suas habilidades aos conteúdos que aprendeu na faculdade. O problema é que você fica inclinado a ver o mundo através dessas lentes. Existe o provérbio antigo segundo o qual “todo problema se parece com um prego para quem tem um martelo”. Para mim foi muito útil, assim como para outras pessoas com quem trabalhei, me abrir para um mundo mais amplo, pois isso não apenas ajuda a entender e a ver interconexões, mas, como vim a descobrir depois, ajuda você a entender outras pessoas, os modelos mentais delas — ajuda você a se comunicar com outras pessoas, se relacionar com elas e desenvolver relacionamentos significativos.


Executivos no Vale do Silício descobriram a mesma coisa, após vários anos se focando nas disciplinas do acrônimo STEM, e vêm contratando funcionários das humanidades e outras graduações “menos sérias”, basicamente porque eles são capazes de se comunicar com outras pessoas.

Finalmente, as humanidades, ao procederem a uma crítica profunda dos valores, costumes, crenças e ideologias, podem servir como uma espécie de “assessoras de vai dar merda” da sociedade. Marx denunciou as contradições do capitalismo no século XIX, muitas das quais se mostraram previsões acertadas ao longo dos conflitos sociais do século XX. Heidegger alertou para a possibilidade da tecnologia ganhar autonomia em relação ao ser humano e vir a suplantá-lo e hoje nos debatemos com a perspectiva de ocupação da maior parte dos postos de trabalho por máquinas. O despropósito de hoje pode ser a análise acertada de amanhã.