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O futuro do jornalismo

No dia 15 de novembro participei de um debate na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, com Matías Molina e mediação de Marcelo Rech, diretor de produto do grupo RBS. As perguntas colocadas por Rech me fizeram pensar em qual seria o modelo mais adequado para o mercado jornalístico no futuro.

Abraçar o webjornalismo participativo

Os jornais não podem dar conta de todos os fatos considerados relevantes por seu público. O trabalho do jornalista é, sobretudo, decidir quais acontecimentos merecerão a honra de virar notícia e quais serão ignorados. Nos mídia tradicionais, isso ocorria porque o espaço no impresso e o tempo no rádio e televisão são limitados. Ou seja, era fisicamente impossível dar conta de tudo. Com a digitalização, descobriu-se que é economicamente impossível dar conta de tudo, porque não há força de trabalho que baste. Assim, continuamos enfrentando o desafio diário de eleger os assuntos mais importantes do ponto de vista do interesse público. O problema é que o cobertor acada ficando curto em todas as frentes. Nem as hard news mais essenciais para a humanidade ganham a atenção devida, nem o buraco no meio da rua é devidamente noticiado.

Uma possível solução para esse dilema é aproveitar melhor o interesse do público em participar do processo jornalístico. Hoje em dia quase todos os webjornais oferecem algum tipo de seção em que o leitor pode ter uma notícia sua publicada. O problema é que em geral esses espaços são separados das seções de “jornalismo sério” como leprosos na Idade Média. Assim, jornalistas e amadores acabam cobrindo as mesmas histórias dentro de um mesmo veículo, às vezes apenas com pontos de vista diferentes. Não precisa ser assim.

Os webjornais poderiam passar a integrar melhor as informações geradas pelo público a seu noticiário, sobretudo no que tange aos fatos mais simples, como buracos na rua, acidentes automobilísticos, incêndios, problemas em serviços públicos etc. Esse tipo de produção já é usado esporadicamente, como é o caso dos vídeos amadores feitos por pessoas que presenciaram um fato. Esse uso poderia ser aprofundado. Poderiam ser criadas equipes específicas para verificar as informações e posteriormente publicar as notícias produzidas por amadores junto às notícias produzidas por profissionais — tudo, é claro, devidamente sinalizado para o leitor. Um exemplo de como integrar repórteres profissionais e amadores vem da própria Zero Hora, com seu Leitor-Repórter. O Terra é outro portal que costuma usar bastante bem as imagens enviadas pelo público, freqüentemente publicando-as no espaço principal da capa. O melhor modelo até agora, porém, é o OhmyNews.

A vantagem dessa integração seria liberar os profissionais das pautas simples, para que eles possam se aprofundar nos assuntos mais relevantes ou demandantes em termos de horas de trabalho. Por outro lado, fatos que jamais ganhariam a esfera pública serão noticiados, arejando o noticiário e atendendo a interesses de mais grupos sociais. Nesse caso, porém, seria preciso encontrar uma forma de recompensar os amadores que doarem seu trabalho para a empresa de comunicação, caso contrário esse modelo se configuraria como exploração de trabalho não-remunerado. Uma idéia interessante é permitir acesso livre ao conteúdo fechado para os leitores que colaboram com o webjornal, ou mesmo dar-lhes assinaturas do jornal impresso.

Criar escassez

Faça a seguinte experiência: compre todos os jornais do dia em sua cidade e compare as notícias de alguma editoria. Digamos, política e mundo. Verifique a assinatura de cada uma das matérias semelhantes. Percebeu algo interessante? Sim, os textos são quase todos iguais, com alguma pequena variação entre parágrafos. Sim, as agências de notícias são as fontes principais da maioria deles. Por algum motivo, as diretorias de jornais acreditam que você deva pagar — ou gostariam que pagasse — para ler notícias que podem muito bem ser lidas de graça nos sites de agências como Reuters, AFP e Agência Brasil.

Nas últimas décadas o número de funcionários nas redações tem caído constantemente. Consoante a isso, os jornalistas mais antigos têm sido demitidos porque ganham mais, ou têm saído voluntariamente porque não agüentam o ritmo de trabalho imposto pela necessidade de “reengenharia” das empresas de comunicação. O resultado são equipes insuficientes e inexperientes e a queda na qualidade do jornalismo. Produzir coberturas sempre originais fica quase impossível. E, de qualquer modo, a maioria dos assuntos políticos e econômicos serão tratados de forma muito parecida porque a técnica e as fontes usadas pelos repórteres são as mesmas.

Uma solução para o financiamento da atividade jornalística pode estar em oferecer material mais atraente ao leitor e cobrar por ele. Os jornais digitais poderiam deixar a informação que pode ser encontrada em outros lugares (abundante) disponível a todos e investir maior esforço de reportagem em pautas inusitadas e exclusivas. Isto é, produzir informação escassa. E escassez, como qualquer estudante de primeiro semestre de Economia sabe, é uma das bases do valor de qualquer produto. Enfim, é preciso primeiro aumentar a qualidade das notícias, para depois querer cobrar por elas.

Adotar micropagamentos

Por que eu devo pagar pela assinatura do jornal inteiro, se apenas algumas partes dele me interessam? Por que não posso pagar apenas pelas notícias que leio? A resposta mais simples para isso é que não existe ainda um sistema de micropagamentos tão fácil de usar quanto receber o jornal impresso em casa todos os dias, ou fazer um pagamento anual via cartão de crédito para ter acesso a sua versão digital.

No entanto, o crowdfunding parece cada vez mais um caminho viável para o jornalismo. Modelos como o da BBC e do The Guardian mostram que o jornalismo produzido por fundações sem fins lucrativos em geral é de bastante qualidade. Um exemplo de que isso pode funcionar é o Back to Iraq, um jornal online dedicado a guerras no Oriente Médio produzido por Christopher Albritton, ex-repórter da AP, que levanta fundos com leitores interessados em uma cobertura diferenciada do assunto para atuar como correspondente. O projeto Spot.us está justamente testando esse modelo.

As possibilidades de aprofundamento da democracia que se abrem com os micropagamentos são enormes. Grupos que não têm espaço na mídia poderiam contratar repórteres para criar um espaço específico. Os pontos de vista na esfera pública poderiam se pluralizar. Ao mesmo tempo, repórteres poderiam escolher o tipo de assunto que querem cobrir. O ganho de eficiência com o meio digital poderia permitir aos jornalistas se reunirem em cooperativas de trabalho que realmente funcionem. Empresas jornalísticas poderiam aproveitar sua grande audiência propor pautas em seus veículos e convidar os leitores a contribuir para aquela reportagem específica, tangenciando o problema de financiamento de coberturas extensas que hoje aflige as redações.

Buscar novos modelos de publicidade

A publicidade na Web é muito mais barata do que a publicidade no jornal impresso, rádio ou televisão. Segundo os diretores de empresas de comunicação, o meio digital ainda é inviável economicamente. O anúncio digital é bem menos eficiente, ninguém clica de propósito em banners e a maioria das pessoas ou nem os percebe, ou sente-se agredida por eles quando se tornam muito invasivos. O problema é que banners são meras transposições do anúncio impresso para a Web. O formato de publicidade mais adequado para esse novo meio ainda não foi criado.

Ou melhor, talvez tenha sido: há cerca de cinco anos o Google aperfeiçoou os anúncios contextuais na forma do AdWords. Esse foi o último formato de publicidade consistente a surgir. Desde então, nem mesmo o Google consegue inventar maneiras de gerar faturamento com o conteúdo de que dispõe. Basta ver os resultados pífios obtidos pelo YouTube até agora. E estamos falando do veículo de mídia mais popular da Web. Isso significa que o formato mais adequado talvez tenha sido descoberto, mas não o modelo de negócios mais adequado.

Será necessário abandonar a idéia de anúncio e passar a adotar a idéia de patrocínio de longo prazo, de associar marcas a veículos de credibilidade, interessantes? Quem sabe mesmo patrocinar pautas específicas, assim como hoje as empresas patrocinam cadernos especiais? Organizações poderiam fazer doações para manter “cátedras” nas redações, postos específicos para a cobertura de determinados assuntos. O problema que se coloca, evidentemente, é o da promiscuidade entre interesses econômicos e jornalísticos. Um modelo desse tipo deveria ser acompanhado de meios de fiscalização do trabalho resultante.