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Visualizações de dados concretas

Nas últimas semanas, tive contato com dois projetos artísticos que me levaram a pensar, na falta de termo melhor, nas possibilidades oferecidas por visualizações de dados concretas.

O primeiro projeto se chama Hypotopia e foi criado por estudantes de arquitetura da Technisches Universität de Viena. A proposta era mostrar ao público o significado dos 19 bilhões de euros usados pelo governo austríaco para salvar da falência o banco Hypo Alpe Adria. A solução foi criar uma cidade-modelo para mais de cem mil habitantes, em blocos de concreto e madeira, no centro de Viena.

O cidadão podia caminhar ao largo e por entre os blocos da maquete, que previsa ruas sem carros, sustentabilidade energética e outros benefícios ainda não existentes nas cidades normais, para cujos aprimoramentos os governos alegam jamais ter dinheiro suficiente. O impacto de medir com os próprios olhos, ainda que em escala, poder até mesmo tocar com as mãos, o prejuízo causado à Áustria por um banco irresponsável é certamente maior do que o impacto de um gráfico de barras, ou mesmo uma simulação em vídeo, numa tela de computador. A necessidade de se deslocar até uma praça para desfrutar de Hypotopia, de tomar tempo para apreciá-la, também estabelece uma relação mais reflexiva, talvez, entre o público e a visualização, do que os poucos segundos de atenção dispensados a um gráfico competindo com meia dúzia de notificações numa tela.

Um outro projeto interessante é Dein Erdanteil, apresentado em Berlim pelo artista plástico sueco Nikolaj Cyon. Ele criou um jardim no aeroporto de Tempelhof, onde plantou ervas, verduras e frutos como pepinos e abóboras. O jardim ocupa uma área de 19,75 metros quadrados, o equivalente a 1/100 da área de terra agriculturável disponível por ser humano, conforme dados da FAO.

Obra Dein Erdanteil (2012), de Nikolaj Cyon, em exposição em Berlim. (Reprodução)

Obra Dein Erdanteil (2012), de Nikolaj Cyon, em exposição em Berlim. (Reprodução)

O jardim permite ao público estabelecer uma relação mais direta, mensurável em escala humana, da quantidade de recursos naturais disponíveis para cada um de nós. É fácil multiplicar os cestos de tomates e folhas por 100 e perceber se estamos individualmente abusando, ou não, do espaço que nos foi designado pela mãe natureza.

Embora não tenha observado estas duas obras ao vivo, mas apenas por imagens na Web, seu impacto sobre minha compreensão dos problemas discutidos por ambas foi muito grande. Só posso imaginar qual foi o tamanho de sua influência sobre o público das exposições. Talvez fosse produtivo para a imprensa realizar experimentos nessa linha, mesmo que para serem distribuídos primordialmente em imagens.