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Nestas eleições, vote em mulheres, negros, índios, LGBTs e outras minorias

Nunca antes na história deste país eu tive tantas dúvidas quanto aos candidatos a agraciar com meus votos como nestas eleições. Como sempre faço, vou abrir abaixo o meu voto, na esperança de influenciar um ou outro leitor e dar minha contribuição ao processo democrático.

Meu axioma, após o nascimento de minha filha, se tornou votar, sempre que possível, em mulheres. Embora nossa presidente seja uma mulher, um avanço nada desprezível, na câmara de deputados e no senado elas ocupam menos de 10% das cadeiras. É preciso, portanto, aumentar a participação feminina na representação política. Quem tem uma filha tem, a meu ver, obrigação de buscar um futuro mais equânime para ela através de, entre outras coisas, o voto.

Outro norte das minhas escolhas por candidatos é o foco no poder Legislativo. Durante a campanha, o debate nas redes sociais se concentrou nas opiniões dos candidatos a presidente quanto às questões do aborto, da legalização das drogas, do casamento entre homossexuais e afins, entre outras problemáticas de direitos humanos. O problema é que todas essas questões dependem de leis específicas para serem regulamentadas. Quem aprova as leis? O Congresso. A opinião de um eventual presidente nestes temas, portanto, tem sua relevância, mas não é fundamental. O importante, mesmo, é eleger um Congresso progressista, caso você concorde com essas propostas.

Voto útil

O voto útil é um dos hábitos mais reprováveis dos brasileiros. Todos deveriam votar de acordo com sua consciência, mesmo que seus candidatos, em princípio, não tenham chance. Quando se troca o voto no, digamos, PCO pelo voto no PT, por exemplo, acaba-se desincentivando outros eleitores a escolher esta legenda. Não é o caso do PCO, cuja obstinação é lendária, mas outros partidos podem se ver desmotivados a investir de verdade nas eleições majoritárias, preferindo cargos mais fáceis de obter. O PSOL, por exemplo, designou seus melhores candidatos à concorrência por cadeiras estaduais, não pelas de deputado federal, no Rio Grande do Sul.

Em especial nas eleições para as casas legislativas, não é preciso se preocupar com o voto útil. Mesmo que você vote num candidato com poucas chances, ele será computado para a legenda e ajudará os outros candidatos do partido — parto do princípio, provavelmente ingênuo, de que a maioria das pessoas comunga do programa geral de um partido ao escolher um representante. Em todo caso, um candidato que não se eleja, mas tenha uma quantidade razoável de votos, pode receber mais investimento do partido num pleito futuro.

quociente eleitoral prevê, em linhas gerais, que todos os votos para um partido serão computados e cotejados com o número de votos por vagas a preencher. Assim, um partido pode ganhar nas urnas o direito de ocupar uma, três ou nove cadeiras, por exemplo. A ocupação se dará conforme o número de votos de cada candidato do partido, do maior para o menor. Portanto, é preciso tomar cuidado ao votar em celebridades que alugam seus nomes para legendas pequenas, porque pode-se acabar elegendo arrivistas desconhecidos, como ocorreu no caso do Tiririca.

Voto nulo

Existem diversos argumentos razoáveis em favor do voto nulo, mas não consigo deixar de considerá-lo imaturidade política. Ninguém tem obrigação de se interessar pelo processo democrático, mas justificar a idiotia — idiotés, na Grécia Antiga, designava os indivíduos que se dedicavam somente à vida privada e não participavam da deliberação sobre os problemas da pólis — pela ausência de candidatos representativos da vontade individual é narcisismo.

Nenhum dos candidatos abaixo me representa perfeitamente e enxergo milhares de defeitos no sistema político brasileiro. Isto não significa que não haja alguma opção menos ruim. Sempre há um candidato ou partido que ao menos se aproxima da visão de mundo do eleitor, mas a sobreposição nunca é perfeita. De fato, a possibilidade de representação perfeita é apenas um ideal teórico, mas na prática ela é impossível, porque as ideias competem e sua correlação de forças é dinâmica. Quem quer representação perfeita deve concorrer ele mesmo a algum cargo.

É preciso lutar por mudanças no sistema político, mas, enquanto elas não vêm, é sensato adotar procedimentos de redução de danos, votando em candidatos que tenham um mínimo de relação com os valores de cada um. Além disso, escolher candidatos que demonstrem alguma coragem para lutar por mudanças, ainda que tímidas.

O resto é mimimi.

Presidente

Estava certo de que iria votar na Dilma, por causa de seu esforço em aprovar o Marco Civil da Internet e dos investimentos em educação superior que os governos petistas vêm fazendo nos últimos 12 anos. Porém, o presidente da Capes fez declarações preocupantes recentemente. Além disso, o governo tem excluído a área de Humanas do programa Ciência Sem Fronteiras, o que denota preconceito e ignorância quanto à contribuição desse tipo de pesquisa para a sociedade.

Por outro lado, a gestão tucana foi dramática para as universidades federais e a pesquisa científica. O governo FHC foi uma época de vacas magras para os cientistas brasileiros. O programa de governo do PSDB sinaliza um retorno a essa politica. Além disso, tenho relutância em votar em herdeiros de clãs políticos como Aécio Neves. Primeiro, porque perpetua o espírito coronelista que ainda causa certas distorções na política brasileira. Segundo, porque Aécio Neves tem histórico de cerceamento da liberdade de imprensa em Minas Gerais. Como jornalista, não posso compactuar com isso. Finalmente, Aécio é homem e pretendo votar em mulheres.

Entre os principais concorrentes, restaria Marina Silva. Embora suas propostas para a educação pareçam boas, não consigo ultrapassar a desconfiança em relação à candidata do PSB. A principal razão foi sua incompetência em registrar a Rede, mesmo com seu patrimônio de milhões de votos angariados em 2010, num país onde qualquer imbecil cria um partido. Pior ainda, Marina acusou o PT de melar a fundação da Rede.

Não duvido que dificuldades possam ter sido criadas artificialmente, mas esse é o tipo de problema que só acomete a quem fica na linha tênue entre o suficiente e o insuficiente. Marina tinha cacife para obter um número absurdo de assinaturas, contra o qual nenhum burocrata poderia fazer nada, mas não conseguiu. Por quê? Só consigo pensar em incompetência. Finalmente, apesar de toda a conversa sobre nova política, Marina resolveu sacrificar suas convicções para colonizar o PSB, numa demonstração de que seu discurso, além de incompreensível, é vazio.

Até simpatizo com as propostas de Luciana Genro e creio que seria interessante o PSOL ter mais participação, por ser um partido comprometido com avanços sociais. Em Porto Alegre, foram os principais responsáveis por remexer o lodo das concessões de transporte público e forçar uma redução no valor das tarifas de ônibus. Por outro lado, Genro nunca passa de 1% das intenções de voto, mesmo no cenário atual de insatisfação popular e politização da juventude. Por que o PSOL não conseguiu mobilizar os manifestantes de junho de 2013? Talvez devido ao fato de, no fim das contas, ser um partido pouco aberto à participação popular, exceto do povo “inventado pela taxidermia socialista“.

Ao fim e ao cabo, meus principais interesses — educação superior e pesquisa científica — foram bem atendidos ao longo do governo Dilma, conforme minha própria percepção e diálogos com alguns colegas. Ainda houve a aprovação do Marco Civil da Internet de lambujem. O governo federal tem sofrido muitas críticas dirigidas ao modelo econômico, mas não tenho capacidade de discernir quem tem razão nesse ponto. Há muito a melhorar, mas o saldo até agora me parece positivo.

Governador

A única mulher concorrendo no Rio Grande do Sul é Ana Amélia Lemos, representante do atraso e do conservadorismo. Além disso, ela tem o perfil de uma arrivista social: foi protegida por uma mulher rica na infância, cursou o colégio com uma bolsa conferida pelo governador Leonel Brizola, depois fez com que um deputado pagasse por sua faculdade, favor a que retribuiu roubando o tal deputado de sua então esposa e filhos, para depois aproveitar o mandato de senador biônico de seu marido e acumular um cargo de confiança no Senado com sua função de diretora da sucursal da RBS em Brasília.

Portanto, resta votar pela manutenção de Tarso Genro no governo do Estado. Primeiro, pelo compromisso histórico do PT com a ampliação de oportunidades para as minorias. Segundo, porque o partido vem reestruturando a UERGS, uma instituição importante. Finalmente, para que o inovador projeto do Gabinete Digital siga em andamento e tenha oportunidade de mostrar resultados — por enquanto, ainda está para se ver ganhos sociais concretos, para além do importante, mas superficial, agrado à comunidade focada na cultura digital. Também gostaria de ver se a EGR vai dar certo, ou será de fato o fracasso que se prenuncia.

Faço aqui um apelo: se você não for votar em Tarso, ao menos vote no Sartori. Se você tem parentes que odeiam o PT, faça campanha pelo Sartori. Ele tem bom histórico em Caxias do Sul e um perfil de gringo que me remete a meus parentes colonos, que podem ter uma visão de mundo menos cosmopolita do que Tarso e Ana Amélia, mas costumam ser gente trabalhadora e honesta. Enfim, qualquer coisa é preferível a Ana Amélia. O Robaina pode ser uma alternativa mais à esquerda.

Senador

Essa é fácil: Olívio! Por motivos de:

Deputado federal

Como expliquei acima, considero as casas legislativas a principal preocupação nas eleições. O poder Executivo, ao menos em princípio, tem a função de aplicar as leis criadas nos parlamentos, não de as criar ele mesmo. É claro, no Brasil o presidente detém algum poder a mais devido ao contexto local, no qual temos, na prática, um governo de coalizão e um foco mais atento no ocupante do Palácio do Planalto, o que lhe confere maior legitimidade para conduzir reformas.

Também pretendo votar em mulheres que promovam avanços sociais. Procurei alguma candidata do PSOL, por acreditar que o partido vem apresentando um contraponto importante e mais à esquerda ao próprio PT, nas cadeiras legislativas que ocupa. Porém, não há nenhuma candidata interessante do PSOL gaúcho a deputada federal.

Por outro lado, o PT tem Maria do Rosário, cujo compromisso histórico com os direitos humanos é reconhecido até pelos opositores. Compromisso que a levou a solicitar a investigação do próprio cunhado, detido com uma prostituta menor de 18 anos. Rosário também é interessada pela área da cultura, outro setor que valorizo. Votarei, portanto, nela.

Deputado estadual

Meu primeiro impulso era votar no Pedro Ruas, por sua atuação na defesa do transporte público em Porto Alegre. Também porque ele costuma atear fogo ao circo com alguma frequência, mais acertando do que errando, um papel importante na Assembleia Legislativa. Felizmente, o PSOL gaúcho tem uma candidata comprometida com a questão do transporte, com os direitos humanos, das minorias raciais e de gênero e tão incendiária quanto Ruas: Fernanda Melchionna.

Votarei nela, inclusive por achar que o PSOL merece mais oportunidades de mostrar sua compreensão da participação popular, ou comprovar de uma vez a acusação de Reinaldo Azevedo, de que o povo é apenas um conceito abstrato para os correligionários da sigla.

Ainda sobre a foto de Dilma

Este artigo foi enviado à Zero Hora como resposta ao artigo de Moisés Mendes sobre esta fotografia da presidente Dilma Roussef. O texto não foi publicado, nem creio que será, então reproduzo-o aqui. Ao final, há o artigo original de Moisés Mendes, para quem não leu.

Em novembro de 1970, eu não havia nascido e, na verdade, meus pais nem mesmo se conheciam. Nasci em 1978 e minha primeira lembrança política é assistir ao funeral de Tancredo Neves na televisão.

Em 1989, fazia boca de urna o candidato a presidente Luís Inácio Lula da Silva em Lajeado, junto a um tio sindicalista, quando fomos abordados por um fiscal do Tribunal Regional Eleitoral e até hoje creio que meu tio só não foi detido porque estava acompanhado de uma criança.

Em 1992, aos quinze anos, além de dormir lendo clássicos da literatura e acordar pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara, acompanhava as notícias sobre o escândalo envolvendo o presidente Fernando Collor. Por alguma razão, não participei da passeata pelo impeachment. Devo ter ficado em casa lendo Cem Anos de Solidão.

Em 1996, com a redução para 16 anos da idade mínima para obter título eleitoral, pude votar em Raul Pont para prefeito de Porto Alegre, após quase uma década de colaboração espontânea em campanhas para o Partido dos Trabalhadores. Em 1998, com a eleição de Olívio Dutra para governador, participei do carnaval fora de época que tomou conta de Porto Alegre.

Com o PT no poder, vieram as decepções. Acabei me afastando da militância partidária descomprometida que mantivera até então. Passei a dirigir essa energia para causas mais específicas, como a resistência ao projeto da Lei de Cibercrimes do senador Eduardo Azeredo, em 2008.

Nada disso rendeu uma imagem que revelasse minha alma, que dispensasse legendas, que estivesse para mim como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras. Não tenho uma foto enfrentando generais da ditadura, como a imagem da presidente Dilma, nem haveria por quê: minha contribuição para a história da política brasileira foi circunstancial e modesta. Não tenho vantagens para contar.

Todavia, não acredite na conversa de que é preciso ser torturado e enfrentar o poder com altivez e destemor, para que valha a pena deixar de lado o Luan Santana e o tratamento da acne em nome da participação política. Mesmo uma contribuição bissexta e molenga como a que dei à construção da democracia no Brasil rende memórias que conferem um pouco de paz de espírito e satisfação consigo mesmo na vida adulta. Nem todos podem ser heróis, mas todos podem e devem ser cidadãos.

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11 de dezembro de 2011 | N° 16914
ARTIGOS
A foto de Dilma, por Moisés Mendes*

Enquanto alguém fotograva Dilma Rousseff naquele interrogatório da Auditoria Militar do Rio, você fazia o quê? Você que era jovem, com idade para duelar com a ditadura e cometer loucuras em nome da democracia ou de uma revolução, o que você fazia naquele novembro de 1970 enquanto Dilma encarava os militares com o nariz empinado e você nem sabia que Dilma existia?

Admita: você, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos não faziam quase nada. Eu confesso: tinha 17 anos, dormia escutando as baladas da Rádio El Mundo de Buenos Aires e acordava pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara. Como nos empurraram para a alienação naquele 1970, em Alegrete ou em Porto Alegre!

E agora você, que tem hoje a idade de Dilma em 1970, que tem 22 aninhos, que já postou mais de mil fotos suas no Facebook: você já tem uma foto síntese como aquela de Dilma? Tem a imagem que revele sua alma, que dispense legendas, que esteja para você como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras? Você tem uma imagem que tenha condensado tudo de você?

Se ainda não produziu a foto reveladora de sua presença neste mundo, não se penitencie. A foto de Dilma é única. Não acredite na conversa de que todos os jovens daquele 1970 enfrentavam a ditadura com o olhar de laser de Dilma. Os jovens de 1970 estavam anestesiados por quatro anos de regime militar, pelo Tri no México, pela censura.

A edição número 115 de Veja, de 18 de novembro daquele 1970, trazia esta capa: Em quem os jovens votaram. A reportagem tratava de uma pesquisa com mil jovens de 18 a 22 anos, de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, que votavam pela primeira vez no dia 15 daquele mês para eleger senadores e deputados.

Algumas revelações da pesquisa: 52% não sabiam por que os militares fizeram o golpe de 64; outros 25% disseram que o golpe evitara o comunismo; 71% achavam que o povo estava feliz com a situação do país; 51% dos jovens gaúchos votariam na Arena (o partido do governo) e 44% no MDB (da oposição); e 55% de todos os pesquisados no país votavam “por obrigação” (só 10% entendiam que votar era um direito). E quem tinha sido Oswaldo Aranha? 83% não tinha a menor noção. E qual seria a nota para o presidente Médici? Um 8,4. E assim por diante.

Na eleição, de 70, o MDB levou uma lambada de dois votos por um da Arena. A Arena elegeu 41 senadores e 223 deputados federais. O MDB, apenas seis senadores e 87 deputados. No Estado, Daniel Krieger e Tarso Dutra, arenistas, foram eleitos senadores com o dobro de votos dos emedebistas Paulo Brossard e Geraldo Brochado da Rocha.

Foi uma goleada do partido do governo, com o voto faceiro dos jovens. Vão dizer que havia a campanha do voto nulo, que o país ainda estava confuso, que faltava coesão ao MDB, aos democratas e às esquerdas. Nessa confusão, os jovens eram, como escreveu Mino Carta, o diretor de Veja, “pouco politizados, muito práticos e eventualmente ingênuos”.

Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto do regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.

A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra.