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Jornais brasileiros finalmente reconhecem a existência da Internet

Entre 18 e 19 de agosto, ocorreu em São Paulo o 10º Congresso Brasileiro de Jornais, organizado pela Associação Nacional de Jornais. O evento é voltado mais aos executivos do que a jornalistas e público em geral. O tema do ano foi “ruptura, inovação e avanço”. Em linhas gerais, o objetivo era garantir ao mercado publicitário que os jornais impressos ainda servem para alguma coisa e, cientes de seu fim próximo, estão buscando novas formas de intermediar o fluxo de informação entre as marcas e o consumidor:

No Market Place Jornais, em uma mesma ferramenta, o mídia terá acesso às informações essenciais para definir a escolha dos jornais por meio dos seguintes critérios: audiência; perfil de leitores; formatos básicos; tabela comercial e contato direto para a publicação. Desse modo, o mídia ganhará em facilidade e agilidade para tomada de decisões. Outro produto inédito no mercado é o Digital Premium Jornais, que permite a veiculação de anúncios digitais num pool de sites de jornais, em um mesmo dia. Trata-se de um formato flutuante com bastante espaço para os criativos obterem o máximo das suas mensagens, sendo exibido a toda audiência desse dia. Dentre as vantagens do Digital Premium Jornais, destacam-se o grande impacto, velocidade e efetividade, grande audiência, facilidade de operação e negociação com apenas um interlocutor.

A mensagem, entretanto, foi empacotada num colorido e brilhante papel de otimismo amarrado com fita de pensamento positivo. Basta passar os olhos pelos releases sobre as palestras para perceber a tentativa de mascarar o inevitável declínio do impresso com dados fora de contexto a respeito da audiência qualificada e credibilidade do papel. A presença digital do congresso, porém, não transmitiu muita confiança na habilidade da ANJ em relação à mídia digital.

O problema já começa pelo “clique aqui” que não funciona no Chrome, Firefox ou Internet Explorer — tive de abrir a visualização do código fonte da página para acessar o conteúdo. Dá a impressão de que, após 20 anos de jornalismo online, os associados da ANJ ainda não aprenderam a regra básica de Nielsen sobre links quebrados. Quem tentou acompanhar os debates via redes sociais também saiu frustrado, pois não havia uma hashtag oficial — #CBJ retornava tweets sobre um campeonato de judô –, tampouco qualquer um dos membros da plateia se preocupou em fazer um relato em tempo real. Para um congresso cujo tema era inovação e avanço, promover um esforço de cobertura em redes sociais seria o mínimo para demonstrar conhecimento da dinâmica de comunicação na era do jornalismo pós-industrial.

Os empresários, enfim, parecem estar se esforçando em convencer anunciantes sobre a relevância do jornal impresso, enquanto correm atrás dos 20 anos perdidos negando o impacto da digitalização sobre seu modelo de negócios e preparam, finalmente, a ruptura com o papel, que deve acontecer cedo ou tarde. Clay Shirky aponta, entretanto, um problema sério nesse discurso empresarial que garante algum futuro para o jornal impresso, que é manter os trabalhadores, isto é, os jornalistas, na ignorância:

Journalists have been infantilized throughout the last decade, kept in a state of relative ignorance about the firms that employ them. A friend tells a story of reporters being asked the paid print circulation of their own publication. Their guesses ranged from 150,000 to 300,000; the actual figure was 35,000. If a reporter was that uninformed about a business he was covering, he’d be taken off the story.

Muitos jornalistas aderem de forma acrítica ao discurso patronal de que o jornal é importante demais para desaparecer, sob pena de colocarem em risco a própria carreira. De fato, muitos inclusive reforçam essa perspectiva ao fazerem questão de ignorar completamente os fundamentos econômicos da indústria na qual trabalham e, mesmo, desvalorizar esse conhecimento como um tipo de filistinismo incompatível com o caráter missionário e os princípios éticos da profissão. O Titanic vai afundando e os passageiros batem palmas enquanto a orquestra executa música de ninar.

De qualquer forma, é um bom sinal esse reconhecimento velado das diretorias de jornais a respeito da necessidade de encontrar alternativas de financiamento antes de o impresso se tornar inviável, ainda que tardio. A letargia dos executivos e, em especial, do setor comercial da imprensa permitiu a empresas de tecnologia como Google e Facebook ocuparem o espaço aberto pela passagem da mídia radial, centralizada, para o cenário de comunicação em rede.

Os trabalhadores das redações, todavia, não deveriam enxergar razão alguma para confiar no sucesso desses esforços e fariam bem em tentar aprender um pouco sobre a economia digital, além de desenvolver habilidades com hipermídia e informática. Se os empresários demoram a romper com o jornal impresso, ordenhando a vaquinha enquanto ela definha por inanição, os jornalistas devem desistir o mais rápido possível de tentar salvá-la pelos métodos tradicionais e buscar outros modelos de produção de notícias, ou deixar o pago e migrar para a metrópole digital.

A inteligência coletiva não vai salvar o jornalismo

Nesta semana, dois eventos marcantes evidenciaram o problema de confiar na inteligência coletiva como solução para a crise da imprensa. Na madrugada do dia 14 de agosto, com a vitória do San Lorenzo na Copa Libertadores, o Impedimento encerrou suas atividades, após nove anos produzindo a melhor — e, por vezes, a única — cobertura de futebol sul-americano no Brasil. No dia seguinte, estreou o novo caderno de gastronomia de Zero Hora, agora sob a direção dos criadores do Destemperados, cujo primeiro post foi publicado há sete anos. Ambos iniciaram suas atividades como weblogs amadores na cidade de Porto Alegre e ampliaram suas atividades ao longo do tempo, profissionalizando-se e buscando formas de financiar a atividade editorial. Entretanto, apenas um deles sobreviveu. Por quê?

A resposta mais simples é que apenas um deles produzia jornalismo no sentido estrito. Embora o Impedimento publicasse mais crônicas esportivas do que reportagens ou notícias, sua perspectiva era sempre crítica, apontando dedos para as pessoas e instituições responsáveis, na visão dos autores, pelos problemas do futebol mundial. Às vezes, produziam até mesmo reportagens investigativas sobre o negócio da bola. Não eram uma redação tradicional, mas, ao contrário de grande parte da imprensa esportiva brasileira, não puxavam o saco de dirigentes para garantir acesso privilegiado aos corredores dos estádios. Em suma, buscavam, dentro dos limites operacionais estreitos de um grupo de repórteres sem esteio numa empresa ou instituição, publicar informação que alguém, em algum lugar, preferiria não ver publicada.

O Destemperados, por outro lado, se apresentou, desde o início, como um guia de restaurantes sem intenção de propor algum tipo de crítica, mas publicar crônicas agradáveis que registrassem estabelecimentos interessantes. De fato, um dos dez mandamentos dos Destemperados é “não avaliarás”. Não há, em essência, nenhum problema nessa abordagem, por duas razões: primeira, a política editorial é bastante explícita, de modo que leitores buscando crítica gastronômica não são levados ao equívoco; segunda, nenhum dos fundadores do weblog é jornalista — um é publicitário, o outro advogado e a terceira, formada em Relações Internacionais — e não estavam, portanto, submetidos ao código de ética dessa profissão. Não se pode, então, cobrar deles a observação da missão principal da imprensa.

Eu mesmo uso os guias de restaurantes e prestigio os eventos promovidos pelos Destemperados, mas não costumava ler com frequência o Impedimento. O objetivo aqui não é criticar a proposta de alguma das duas publicações. A sobrevivência do Destemperados e a morte do Impedimento são um bom ponto de partida, isto sim, para refletir sobre as soluções propostas pela cibercultura para o declínio do jornalismo strictu sensu ao redor do mundo e, mais especificamente, no Brasil.

Desde os anos 1990, em especial a partir da experiência do Centro de Mídia Independente durante os protestos contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle, começou a surgir uma proposta de substituição da imprensa pela inteligência coletiva, turbas espertasmultidão ou qualquer outro nome que se queira dar à produção de informação e conhecimento por uma coletividade anônima interconectada pelas redes de computadores. Em linhas gerais, o argumento é o seguinte: a digitalização e a Internet causam uma crise econômica na imprensa ao eliminarem seu monopólio sobre a distribuição de informação, enquanto incentivam amadores e diletantes a produzir jornalismo, ensejando uma crise de legitimidade e de identidade entre os profissionais, cujo resultado, combinado à diminuição de verbas publicitárias, é o encerramento de diversos veículos ou a limitação da reportagem nas redações restantes; entretanto, a mesma Internet responsável pelo declínio do jornalismo é vista como a fonte de seus substitutos, que emergiriam da inteligência coletiva, através de um processo seletivo de traços darwinistas, para preencher as lacunas deixadas pela imprensa moribunda na esfera pública.

O raciocínio acima está bastante simplificado e dificilmente algum autor o segue literalmente — a maioria tem reservas ou é mais exagerado num ou noutro ponto — mas o resumo reflete a média do imaginário subjacente à relação entre tecnologia, inteligência coletiva e mídia que vem operando no Ocidente nos últimos anos. Há também os críticos dessa proposta, como Jaron LanierAndrew Keen e Robert McChesney, entre outros. Eles apontam algumas das armadilhas do pensamento tecnológico e da fé desmedida no maquinismo como solução para problemas que são, fundamentalmente, culturais e políticos. Um paralelo entre o Impedimento e o Destemperados pode ajudar a compreender essas críticas ao poder da inteligência coletiva de assumir as funções sociais jornalismo, ao menos no contexto local do Rio Grande do Sul.

O caso Impedimento

O Impedimento sempre foi um projeto paralelo de seus autores. Entretanto, começou a ganhar credibilidade no mundo do jornalismo, a formar uma comunidade de leitores fiéis e seus autores se viram, então, incentivados a passar das crônicas esportivas à reportagem em primeira mão. A média de page views por mês era de 230 mil, mas ao final da Copa do Mundo de 2014 atingiu 700 mil visualizações. Foi um dos primeiros weblogs brasileiros a usar o crowdfunding para realizar uma cobertura, ainda em 2009 — no caso, a final da Copa Libertadores da América. As vaquinhas sempre foram um sucesso e o Impedimento chegou mesmo a estabelecer uma parceria comercial com a revista Trivela, para a venda de anúncios. Os anúncios tradicionais, porém, nunca vieram em quantidade ou valor suficiente para comprar o leite das crianças.

Eles tentaram aproveitar a comunidade fiel de leitores através do ImpedClub, um modelo de assinatura mensal que premiava os clientes com alguns brindes simples. Conforme Douglas Ceconello, um dos editores, a resposta surpreendeu e cerca de 250 almas se associaram. Certos leitores chegavam a contribuir com o dobro do valor mensal de R$ 20 do plano mais caro, simplesmente porque amavam o Impedimento. Começaram a pagar por reportagens, usando o dinheiro do ImpedClub. Ainda assim, não foi o suficiente para garantir um pro-labore digno para a equipe editorial, apesar de apenas R$ 10 mil por mês serem suficientes. Os rapazes do Impedimento, aliás, eram mestres em mobilizar a comunidade de leitores. Um exemplo foi a ImpedCopa, um campeonato de futebol amador que em sua décima edição vai reunir 108 atletas em doze times.

Em resumo, o Impedimento seguiu a cartilha do jornalismo digital contemporâneo: produziram conteúdo segmentado e hiperlocal de qualidade, souberam mobilizar a comunidade de leitores, firmaram parcerias comerciais, usaram os ganhos de eficiência na comunicação da Internet para organizar esforços de crowdfunding e até mesmo “anúncios orgânicos”, isto é, publieditoriais, eles veicularam. De acordo com os defensores da inteligência coletiva como solução para a crise no jornalismo, portanto, deveriam ter conseguido pelo menos dinheiro suficiente para amealhar um pro-labore equivalente aos salários que receberiam numa redação. O mantra desses intelectuais lembra o do filme Campo dos Sonhos: “construa e eles virão”. O Impedimento construiu e alguns gatos pingados até apareceram, mas não em número suficiente para garantir a permanência da que talvez tenha sido a mais inovadora iniciativa de jornalismo esportivo da década.

Enquanto o Impedimento era velado, no dia 15 de agosto, o Destemperados atingia o ápice da trajetória em termos de legitimidade, assumindo a produção de conteúdo para o caderno Gastrô de Zero Hora. Além das resenhas de restaurantes, também passaram a produzir reportagens e entrevistas, que antes eram raras no veículo. A relação com a RBS vem de anos, começando com um programete na rádio Itapema. Nos últimos tempos, a parceria se consolidou.

O caso Destemperados

O Destemperados desde cedo começou a veicular anúncios no website, embora eles nunca tenham fornecido um rendimento significativo como o conteúdo patrocinado, ou branded content. Ainda em 2008, lançaram um guia de gastronomia focado no verão em Punta del Este. Também foram um dos primeiros blogs nacionais a produzir um aplicativo para smartphones. A partir daí, começaram a se expandir por diversas áreas, como organização de eventos e cursos de extensão em “food experience”, por exemplo. Além disso, os proprietários criaram outros blogs, segmentados para diferentes públicos, e uma agência de produção de conteúdo, a Winehouse. Um dos principais eventos organizados pelo Destemperados, já sob a égide da RBS, mas antes de efetivamente assumirem o caderno de gastronomia da Zero Hora, foi o Pop Up Restaurant, patrocinado pelo Matte Leão, que trouxe a Porto Alegre diversos chefs para jantares especiais ao longo de semanas.

O weblog segue como a principal plataforma de conteúdo, com 200 mil visitas e 500 mil visualizações por mês, em média. Entretanto, sua função parece ser mais divulgar a marca e incentivar anunciantes a comprarem outros produtos da empresa, como o conteúdo patrocinado e cotas em eventos. É a credibilidade do conteúdo do weblog que atrai alunos para o curso de “food experience”, comensais para os jantares e anunciantes ou patrocinadores para os guias. A habilidade com diferentes plataformas provavelmente foi a característica que levou a Zero Hora a firmar uma parceria comercial para a terceirização do caderno de gastronomia do jornal.

Assim como o Impedimento, o Destemperados soube mobilizar a comunidade de leitores para alavancar a audiência. A partir de 2012, começaram a alistar “food hunters” nas principais cidades do país e mesmo no exterior. Estes colaboradores produzem conteúdo local e mantêm o fluxo de publicação no weblog, além de aumentarem o valor do serviço para os usuários do aplicativo de celular, que podem contar com o Destemperados em viagens, por exemplo. Até a parceria com a Zero Hora, o Destemperados mantinha apenas dois funcionários além dos três fundadores. Com a demanda e os recursos da RBS, a equipe foi ampliada para doze pessoas.

Algumas lições sobre empreendimentos jornalísticos independentes

O que o Impedimento deixou, então, de fazer? Seus integrantes não aceitaram deixar de ser repórteres para se tornar administradores, porque o Impedimento, afinal, foi criado para que pudessem fazer melhores reportagens, não para lidar com anunciantes e agências de publicidade o dia todo. Seria possível argumentar que o espírito crítico do Impedimento afastou anunciantes, mas esta não é a avaliação de Ceconello, que afirma nunca ter percebido mal-estar nas relações com anunciantes. O problema principal, para ele, foi o despreparo das agências de publicidade para lidar com pequenos empreendimentos jornalísticos: pregam a inovação, mas são conservadoras ao formatar parcerias; ou então, enviam produtos em lugar de anúncios, como se os repórteres pudessem se sustentar com escambo.

O que o Destemperados fez diferente? Focaram-se em resultados comerciais antes mesmo de começar a produzir conteúdo. Segundo o diretor Diego Fabris, os produtos multiplataforma foram pensados em conjunto com o weblog, há sete anos, mas lançados aos poucos. Por um lado, o fato de publicarem resenhas permite se dedicar a questões administrativas sem deixar de escrever; afinal, todo mundo precisa comer em algum momento e se pode perceber nos textos que as refeições e viagens de lazer são o momento principal de coleta de informações dos fundadores do Destemperados. Além disso, a abertura à participação dos leitores, com o projeto Food Hunters, permitiu aos proprietários manter a frequência de publicação e expandir a base de audiência para além do Rio Grande do Sul sem incorrer em custos com ampliação da equipe, ao menos de início. O resultado é que, em média, o Destemperados fatura em torno de R$ 50 mil por mês, ou cinco vezes a necessidade mínima do Impedimento.

O Impedimento, ressalte-se, usou os recursos do ImpedClub para contratar free-lancers, em lugar de reinvestir na ampliação dos negócios. Esse fato evidencia a mentalidade jornalística de seus administradores, que, de outro modo, talvez houvessem pensado em formas de transformar o capital em lucro. A própria ImpedCopa poderia ser um evento gerador de faturamento, se pudessem firmar parcerias com patrocinadores. Todavia, como Ceconello deixou claro, não há boa vontade dos anunciantes em relação a empreendimentos pequenos. Essa avaliação é coerente com minha experiência pessoal: há uns dez anos, participei da revista impressa Type, cujo fundador contratou uma pessoa experiente em comercialização de anúncios, mas mesmo assim esbarrou no preconceito das grandes agências com uma revista ainda pouco firme no mercado. O problema é que sem anúncios a revista também não teve como se firmar e, assim, encerrou as atividades. É simplesmente mais seguro e fácil anunciar nos canais de sempre.

Uma das poucas formas de obter anunciantes e patrocinadores sem ter credibilidade no mercado parece ser a mobilização de relações pessoais. Se há na publicação uma pessoa com boas relações no mercado; amigo, parente, ou colega de proprietários de empresários ou sócios de agências de publicidade, os anúncios chegam como favor pessoal, não necessariamente como reconhecimento pela qualidade do conteúdo. Uma segunda forma é a adulação pura e simples dos novos-ricos, que explica a existência de revistas como South Star e websites como o RS Negócios. Noutras palavras, as relações de poder seguem como o principal fator de sucesso de um empreendimento jornalístico, como ocorria na era pré-Internet.

Em resumo, o argumento “construa e eles virão” não se sustenta no mundo real. Se a inteligência coletiva mediada tecnicamente pela Internet fosse suficiente para a seleção natural do jornalismo strictu sensu e sua manutenção, o Impedimento deveria ter feito até mais sucesso comercial do que o Destemperados. Então, é preciso deixar de confiar na tecnologia para suprir a necessidade das sociedades democráticas por jornalismo e buscar alternativas no campo da política.

Alguns pontos relevantes que se pode depreender das duas trajetórias descritas acima:

1. Se é um empreendimento, alguém na equipe deve assumir o papel de empresário. A principal diferença entre o Impedimento e o Destemperados foi a predominância de uma mentalidade jornalística no primeiro e de uma mentalidade empresarial no segundo. Deixando-se de lado esse fator, todas as outras condições e circunstâncias são muito semelhantes, assim como ambos apresentam boa qualidade de conteúdo dentro de suas propostas.

2. Se ninguém na equipe mantém boas relações com empresários, políticos ou agências de publicidade, só há duas alternativas de financiamento: patrocínio do terceiro setor ou faturamento com venda direta à audiência. O problema do patrocínio do terceiro setor é depender também, em alguma medida, de boas relações políticas. Embora em geral a concorrência por bolsas seja mais aberta, baseada em editais, os selecionadores levam em conta a inserção de um determinado projeto numa comunidade de ativistas — por exemplo, o fato de algum dos proponentes já haver participado de outros projetos como voluntário ou funcionário. Além disso, em geral esse tipo de patrocínio se foca em jornalismo voltado a questões políticas e sócio-econômicas, o que eliminaria tanto o Impedimento quanto o Destemperados do concurso.

3. O problema de contar com financiamento direto pela audiência é ninguém ainda ter descoberto exatamente como vender notícias para leitores na era do jornalismo pós-industrial. Se alguém descobrir como fazê-lo, avise.

4. A terceirização parece ser uma via promissora, ao menos no Brasil. Além do Destemperados, há em Porto Alegre a experiência de agências como Cartola, Fronteira e República. Seus fundadores são repórteres jovens que, insatisfeitos com as restrições das redações tradicionais, pediram demissão e criaram suas próprias empresas. Hoje, prestam serviços para seus ex-empregadores e inclusive grandes veículos do Sudeste. Ganharam mais liberdade de escolha das pautas a serem perseguidas e, ao mesmo tempo, melhores salários e qualidade de vida. Essa abordagem, porém, talvez não salvasse o impedimento, pois a RBS terceirizar parte de sua cobertura esportiva para uma publicação independente significaria assumir falhas numa área que talvez concentre a maior parte da força de trabalho editorial da empresa, para não falar da maior massa de vaidade.

Estelionato de atenção

Capa do UOL

No dia 22 de março, Dia da Água, a capa do UOL amanheceu pintada pelo horrendo tom de azul da reprodução acima. O portal pertencente aos grupos Folha e Abril foi um dos veículos escolhidos para uma ação de marketing da Ambev, cujo objetivo era divulgar um tal Movimento CYAN — daí o tom de azul característico. Outros jornais a aderir foram o Globo e o Estadão, sendo que estes também pintaram a capa das edições impressas.

Não é de hoje que os grandes jornais brasileiros começaram a vender suas capas. Todo mundo sabe que a indústria do jornalismo está periclitante e é preciso ganhar dinheiro como for. Faz parte. Vivemos em uma sociedade em que o jornalismo está submetido à lógica do capital. Não é o ideal, mas ainda é melhor do que uma sociedade sem jornalismo.

Pessoalmente, considero que esse tipo de prática deprecia a credibilidade do veículo frente aos leitores — um perigo, visto que a credibilidade é o principal ativo das empresas de comunicação. A longo prazo, pode se mostrar um tiro no pé entregar ao assinante um jornal com metade de uma capa tamanho standard tomada por ofertas de computadores parcelados em 12 vezes. Porém, não condeno a decisão de pintar as capas de azul.

O que realmente me incomoda é ver uma ousadia como essa ser imposta pelo setor comercial, em vez de partir da redação. Os recursos hídricos são um tema de grande importância, que raramente ganha espaço no noticiário. Receber um jornal com a capa totalmente tingida ou acessar um portal e encontrar tudo azul causa um choque no leitor, que vai parar por um segundo para refletir sobre a mensagem. Nesse caso, porém, o leitor não encontrou uma justificativa para o impacto da capa. Nenhum dos veículos produziu reportagens especiais sobre o problema de garantir água potável para a humanidade. A maioria apenas publicou fotos de rios bucólicos e boletins da ONU.

É um desperdício lamentável. Seria bom ver as empresas de comunicação brasileiras se unindo para conscientizar a população sobre esse tema, produzindo reportagens especiais aprofundadas. Por melhor que seja o material informativo oferecido pela Ambev em sua campanha, não há necessariamente um compromisso com o interesse público. A empresa convida especialistas para dar palestras sobre os recursos hídricos, propõe aos leitores ações para economizar água, mas a problematização fica na superfície. Não se discute a sustentabilidade do modelo econômico atual com maior profundidade — e nem se deve esperar isso de uma campanha publicitária.

Para piorar, os leitores do UOL pensam que a pintura azul foi uma ação editorial. Ou seja, o conteúdo produzido pelo departamento de marketing da Ambev, para o bem ou para o mal, será considerado pela audiência um conteúdo de responsabilidade do Grupo Folha.

Outro exemplo recente foi uma sobrecapa veiculada no jornal Correio do Povo de 31 de março. A peça publicitária tinha projeto gráfico idêntico ao do jornal, inclusive com elementos como a previsão do tempo e o logotipo da Rede Record, e a manchete era “Mestre Mamzumba chega ao Brasil”. De cara, o conjunto da manchete e foto com um africano evidentemente estereotipado me indicaram haver algo errado, mas levei algum tempo até encontrar o aviso de “informe publicitário” no material. Trata-se de uma campanha da Agência Escala para as lojas Colombo, que já vem se desenrolando há mais tempo.

Sobrecapa publicitária do Correio

A confusão ao deparar com a sobrecapa do Correio do Povo me fez perder tempo investigando seu significado. Se soubesse ser um anúncio, teria descartado à primeira vista e seguiria lendo as notícias do dia. O anúncio frustrou minhas expectativas enquanto leitor, pois toda a técnica jornalística desenvolvida ao longo de mais de um século de profissionalização tem como objetivo facilitar a leitura e torná-la mais rápida. Sequestrar a atenção dessa forma pode fazer todo sentido do ponto de vista da publicidade, mas é um erro do ponto de vista jornalístico.

Nos dois anúncios comentados aqui, o leitor é interpelado pela peça gráfica e mobiliza sua atenção — o que Seth Godin chama de marketing de interrupção –, mas esse esforço não é recompensado por um conteúdo jornalístico de qualidade. A meu ver, trata-se de um verdadeiro estelionato de atenção.

Imprensa, público, comensalismo e simbiose

Um estudo do ecossistema noticioso de Baltimore, publicado pelo Project for Excellence in Journalism, descobriu que 95% das informações novas veiculadas na imprensa durante uma semana vieram da mídia tradicional, sendo a maioria do jornal. Além disso, verificou-se que 80% das notícias simplesmente reapresentaram informação já conhecida. Quase metade da informação nova foi divulgada pelo Baltimore Sun, o principal jornal da cidade.

A pesquisa traz importantes indícios para investigar as causas do declínio da imprensa como indústria e de como reinventá-la.

O papel das redes sociais e weblogs no ecossistema noticioso, conforme o estudo, é servir principalmente como sistema de alerta e repercussão da informação desencavada pelas redações de jornais e reproduzida nos websites jornalísticos.

Ainda assim, um dos seis principais temas do noticiário na semana abordada pelo estudo foi disparado por um blog independente. O autor do Maryland Politics Watch percebeu no website da Procuradoria distrital uma consulta da empresa de transporte público do Estado de Maryland sobre a possibilidade de instalar microfones para supervisionar as conversas de passageiros. Os veículos de imprensa local começaram a perseguir a pauta logo em seguida. O blogueiro não entrevistou ninguém, apenas o repórter do Baltimore Sun tomou esse trabalho. O resto da mídia, aparentemente, apenas copiou e colou — sem creditar.

O caso mostra o quanto é fundamental a participação do público no atual ecossistema noticioso. Um cidadão ser o responsável por iniciar uma das principais coberturas semanais em uma cidade grande não é pouca coisa. O estudo dá a impressão de menosprezar um tanto o trabalho do blogueiro, embora ele tenha sido fundamental. A cadeia causal gerada por seu comentário acabou por matar no berço a idéia vigilantista da empresa de transporte público da região.

Os críticos podem dizer que não houve esforço de reportagem real do blogueiro, Paul Gordon, porque ele não entrevistou ninguém, apenas apontou um link. Há aí dois problemas de avaliação. Primeiro, não é papel do público entrevistar fontes. Isso é papel dos jornalistas. Se um leitor por acaso se dá esse trabalho, ótimo, mas cobrar o mesmo nível técnico dos profissionais em material produzido por colaboradores ou jornalistas amadores é um contrasenso — a não ser que os jornalistas estejam realmente querendo abdicar de sua profissão. Em segundo lugar, descobrir uma informação nova é a parte mais importante do processo de reportagem. Sem um furo, ninguém sai do lugar. Portanto, o Gordon realizou a parte principal do trabalho — o que, aliás, deveria ser motivo de humilhação para toda a imprensa de Baltimore.

Muitos websites jornalísticos e weblogs divulgaram informações coletadas por outros sem fornecer os devidos créditos, além disso. Esse dado corrobora uma opinião que emiti recentemente em entrevista ao Alec Duarte: não existe mais informação exclusiva. O Baltimore Sun levou três dias para perceber o texto no Maryland Politics Watch, mas outros websites levaram poucas horas para replicar a informação do Baltimore Sun. A imprensa como um todo ignorou a nota no website da Procuradoria por um mês. Se não fosse por Gordon, o público correria o risco de saber do projeto de vigilância apenas quando já estivesse implantado.

Apesar de não existir mais informação exclusiva, ainda existem enfoques exclusivos. A imprensa deveria investir naquilo que as redes sociais e weblogs não podem investir: encontrar fontes que tragam novos argumentos e pontos de vista sobre os acontecimentos. Infelizmente, a julgar pelos resultados do estudo, não parece ser essa a abordagem dos jornais. A maioria das novas informações no período estudado teve como ponto de partida a administração pública ou organizações. Foram muito poucas as informações novas provenientes de fontes descobertas por iniciativa de repórteres.

Os jornais devem aprender a direcionar melhor o inegável poder de fogo que mantêm, mesmo após 20 anos de World Wide Web. Há cerca de dez anos, pensava-se que a essa altura o jornal impresso estaria morto ou em coma avançado. No entanto, continua sendo o principal produtor de informação. Porém, o estudo também mostra que tem sido produzida cada vez menos informação nova. Os jornais são vencedores numa competição de várzea, não numa Copa do Mundo. Isso pode explicar o declínio da indústria e a necessidade de reinventá-la.

O caminho para a reinvenção, a meu ver, é unir o potencial do público em levantar pautas com a técnica de reportagem e narrativa dos jornalistas. Os jornais devem criar sistemas de captação de informação gerada pela comunidade e, ao mesmo tempo, partir do princípio de que toda informação estará disponível imediatamente a toda a concorrência. Devem tomar essa informação como base e passar a investir mais na repercussão com fontes inusitadas, que dêem um enfoque especial para cada veículo, em vez de reproduzir as mesmas aspas disponíveis em todo o ecossistema midiático.

A relação entre imprensa e o público dotado de acesso às redes sociais e ferramentas de publicação ainda é de comensalismo: os dados da pesquisa mostram que, em geral, weblogs e redes sociais reaproveitam a informação gerada pelas redações. Manchetes e links são distribuídos e trechos são comentados Web afora, mas as redes sociais raramente produzem notícias.

Alguns poderiam considerar isso parasitismo, mas, apesar do que dizem os Rupert Murdochs da vida, a distribuição e repercussão das notícias não causa mal algum aos jornais e, às vezes, pode beneficiá-los. O parasitismo existe, é claro, mas geralmente se dá entre jornalistas. O caso do Maryland Politics Watch, aliás, mostrou que a imprensa algumas vezes parasita os blogs e redes sociais, reproduzindo informação sem fornecer os devidos créditos.

A atual relação de comensalismo entre imprensa e público, na qual o público é levado a reboque pelos jornalistas, como as rêmoras e os tubarões, deveria se tornar uma relação de mutualismo, na qual os dois agentes se beneficiassem. Quem sabe, até mesmo evoluindo um dia para uma relação de simbiose. O público tem muito com que colaborar, mas as redações precisam se abrir a essa colaboração.

Jornais e micropagamentos

O ex-editor da revista Time, Walter Isaacson, recentemente deu uma palestra em que propõe o micropagamento como solução para a crise financeira do jornalismo.

Uma pessoa que deseja acessar a edição do dia de um jornal ou que é levada a um artigo interessante por meio de um link dificilmente vai pagar o preço de uma assinatura e se submeter às inconveniências dos desajeitados sistemas de pagamento atuais. Acredito que a chave para atrair renda por meio dos serviços oferecidos na rede seja estabelecer um sistema de micropagamento tão simplificado quanto aquele empregado pelo iTunes. Precisamos de algo como moedas digitais ou um sistema semelhante a um bilhete único ou uma carteira eletrônica – um sistema de interface extremamente simples que permita, por meio de um clique, as aquisições casuais de jornais, revistas, artigos, acesso a blogs ou vídeos, ao preço de US$ 0,05, US$ 0,10, US$ 0,50 ou seja quanto for que o seu autor deseje cobrar.

Concordo em gênero, número e grau. Aliás, disse exatamente a mesma coisa em um debate sobre o futuro do jornalismo na Feira do Livro de 2008.

Interessante Isaacson citar as lojas eletrônicas de música. Elas são a evolução de um negócio que se viu ameaçado pela livre distribuição de MP3 via Internet, tentou uma reação e finalmente chegou a um meio-termo. Bons tempos do MP3.com, quando músicas de bandas famosas se misturavam às de bandas iniciantes e era possível baixar tudo de graça e legalmente. Os jornais fizeram o contrário: começaram cobrando, depois liberaram o conteúdo e agora se vêem frente à necessidade de mudar toda uma cultura da gratuidade.

O principal ponto discutido por Isaacson é a mudança da cobrança de uma assinatura mensal para o acesso ao conteúdo por micropagamentos por leitura de unidades menores que uma edição. Assim como é preciso pensar as notícias fora da metáfora do papel para criar boas narrativas para a Web, é preciso pensar o jornal fora da metáfora da edição para chegar a um bom modelo de negócios para a Web.