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Um ano sem Twitter me ensinou que nem eu, nem a plataforma temos salvação

Há pouco mais de um ano, decidi abandonar o uso diário do Twitter. O gatilho foi  uma crítica ao lamentável Camarote dos Atrasados do ENEM promovido pelo Cid Não Salvo, na qual cometi a infelicidade de incluir sua arroba.

O episódio evidenciou todos os problemas do Twitter enquanto plataforma de redes sociais e a pessoa horrível que ela tende a nos tornar, quando abusamos de seu uso. A seguir, discuto os principais aspectos do caso de 2017 e minhas impressões durante um breve retorno ao Twitter durante a campanha para o 2º turno das eleições presidenciais em 2018.

Poucos segundos após o meu tweet, Cid o compartilhou em sua timeline, buscando ao mesmo tempo justificar a exploração anual do sofrimento dos estudantes que perdem o horário das provas do ENEM e são impedidos de participar:

Como se pode perceber nas estatísticas de ambos os tweets, mais de 600 pessoas resolveram participar da conversa. É uma pequena parte do universo de 1,8 milhão de seguidores do Cid, mas um grupo de fãs aguerridos. A reação foi inesperada, porque sou do tempo — e Cid também é deste tempo — em que o debate no Twitter era mais parecido com um duelo do século 18 do que com uma espécie de MMA na qual, se o oponente for um influencer, a disputa se dá numa espécie de octógono cheio de ariranhas treinadas por ele.

Não vou entrar no mérito da justificativa de Cid para o camarote, mas me focar em minha resposta a ela:

Logo após esse diálogo, o relato da mãe foi questionado. Um suposto monitor e vizinho do rapaz se manifestou no Facebook para dizer que ele na verdade teria se atrasado para a prova e inventado a história do conflito com a PM como desculpa para a família.

Para fins de argumentação, vou partir do pressuposto de que o desmentido é a verdade sobre o caso. Não investiguei as credenciais do Ca Íque, assim como não investiguei o relato de Daise Oliveira antes de usar a anedota como argumento contra o Camarote dos Atrasados, mas em princípio não me parece haver motivos para acreditar mais num ou noutro, uma vez que ambos são apenas relatos no Facebook. Em todo caso, o importante é que um produtor de desinformação ligado a Jair Bolsonaro redigiu um artigo com base nisso para me atacar. Cid aproveitou este artigo para incitar suas ariranhas mais uma vez:

Embora o embate carecesse de fair play, eu precisava reconhecer que ninguém mandara criticar o sujeito e ainda incluir a arroba dele na crítica. Além disso, abrira o flanco ao me valer duma informação publicada em redes sociais enquanto digitava no celular em algum aeroporto, sem tomar o tempo necessário para checar.

Optei pela redução de danos e passei a ignorar os ataques subsequentes. Além disso, bloqueei todos os fãs do Não Salvo que responderam a meus tweets com ofensas pessoais e denunciei as ameaças e outros tipos de reação que, a meu ver, infringiam as regras da plataforma. Também denunciei o artigo do Renovamídia ao Medium, que é uma subsidiária do Twitter.

A resposta do Twitter às denúncias pode ser resumida pelo GIF abaixo:

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Entendi o recado e, alguns dias depois, ao ser lembrado pelo próprio Twitter do aniversário de meu perfil, decidi encerrar minhas atividades na plataforma, exceto para compartilhar informações profissionais:

Uma fábrica de babacas

A experiência ressaltou alguns efeitos colaterais do uso continuado do Twitter na minha personalidade, os quais já vinha percebendo, mas fingia ignorar porque a plataforma havia se tornado, ao longo de dez anos de uso, um de meus principais passatempos, veículos de expressão e canais de interação com amigos. O Twitter era uma grande diversão. Bebida e outras drogas também podem ser uma grande diversão, mas causam um monte de problemas para o usuário e para as pessoas no entorno.

Um dos efeitos colaterais do uso continuado do Twitter foi a degradação de minhas noções de civilidade na Internet. A querela com o Cid exemplifica bem o ponto: você questionaria em voz alta, numa rodinha de amigos durante uma festa, uma terceira pessoa presente ao evento que estivesse ouvindo suas afirmações? Foi exatamente o que fiz. Releia meu tweet assoberbado de probidade, se acha que estou exagerando. É de uma rudeza atroz. Se fosse um evento isolado, seria apenas uma infelicidade. Porém, eu vinha percebendo com incômodo cada vez maior esse tipo de atitude em minha timeline — e na de quase todo mundo mais no Twitter.

Não é uma questão de ser avesso a conflitos e discussões. Pelo contrário, eu adoro debates acalorados. Poucas coisas me dão mais alegria do que arrastar um adversário na lama com o poder da palavra. Esse era, justamente, o problema. Seja por mudanças no design e funcionalidades da plataforma, no sentido de favorecer a interação direta, seja pelo desenvolvimento de uma cultura nociva de confronto, o Twitter atiça os instintos mais primitivos de seus usuários. Os mais propensos à agressividade encontram recompensa imediata para o sarcasmo, a ironia, o conflito, na forma de retweets e likes.

Quando dei por mim, estava lamentando palavras ditas a outras pessoas ou à multidão anônima algumas horas antes com frequência alarmante. Estava me tornando um babaca.

Não apenas isso, mas estava me tornando um babaca displicente. A necessidade de participar de todas as discussões, de não perder a piada, a réplica espertinha, a sinalização de virtude mediante o endosso de uma posição, estava me levando a cada vez mais vezes compartilhar informação duvidosa, ou fazer afirmações pedestres. É uma questão de probabilidade: em meio a 15 tweets por dia, ou 56,9 mil em dez anos, é garantido dizer alguma bobagem.

É também uma questão de design: o Twitter, assim como o Facebook, o WhatsApp e outras redes sociais, tem como objetivo principal fomentar a produção de conteúdo e a interação entre os usuários. Quanto mais conteúdo se produz e mais tempo se passa nestes serviços, mais dados podem ser coletados e vendidos para anunciantes. Para conseguir isso, seus designers se valem dos mesmos métodos aplicados por Pavlov a seus cachorros: sinais luminosos ou sonoros. Ao longo do tempo, o condicionamento operante nos torna viciados em abrir os aplicativos e checar as timelines, para obter recompensas psicológicas como curtidas, comentários e visualizações.

Resistir a pegar o smartphone e abrir um aplicativo quando se recebe uma notificação é tão difícil quanto resistir a um pote de Nutella ou pacote de batatas fritas, porque ambos foram engenhados para apelar às fraquezas da psique humana relacionadas às necessidades básicas de alimentação, num caso, e socialização, no outro.

Além disso, a velocidade da movimentação na timeline demanda decisões muito rápidas sobre quais tweets compartilhar, curtir ou criticar, de modo a abrir espaço na fila para o próximo assunto e sob pena de perder a oportunidade de entrar no vagão de determinado assunto com todo mundo. A ansiedade para inaugurar uma discussão, introduzindo uma informação ainda invisível para a nossa rede imediata de contatos muitas vezes se sobrepõe ao juízo.

As redes sociais são desenhadas como caixas acústicas nas quais o viés de confirmação é amplificado. Por ser alinhado à esquerda e crítico da discriminação de negros e pobres por parte de policiais, tendo a crer imediatamente no relato de que um estudante foi impedido de chegar no horário ao local de prova do ENEM devido a uma abordagem. Pessoas com crenças opostas tenderão a acreditar imediatamente em relatos que desacreditem essa narrativa. Esse comportamento é natural no ser humano, mas se torna muito mais pernicioso na Internet, onde é possível encontrar “evidências” para sustentar qualquer crença e receber reforço positivo de dezenas, centenas ou milhares de pessoas com mentalidade semelhante.

Em resumo, o Twitter é uma fábrica de babacas levianos.

No meu caso, não existe nível seguro de uso de redes sociais. A estrutura da minha personalidade parece ser propensa a abusar das recompensas psíquicas fornecidas pelo Twitter. Durante a campanha eleitoral de 2018, decidi que era um mal necessário voltar a participar da plataforma. Em poucos dias, havia retornado aos piores hábitos de um ano antes. Como um alcoólatra, o primeiro gole me leva direto para o fundo da toca do coelho. Esse é um motivo forte para evitar o contato com esse tipo de rede social. Por isso, optei por apagar todo meu arquivo de tweets e manter o perfil apenas para divulgação de informações profissionais.

Crime ocore nada acotece feijoada

Um motivo secundário para deixar de usar o Twitter é de ordem política. A organização vem se mostrando incapaz ou desinteressada em evitar linchamentos e perseguições através dos serviços que oferece. Não é um grande problema quando se trata de uma briga de moleques, como a relatada acima. Porém, jornalistas vem sendo linchados e ameaçados sistematicamente por militantes de Jair Bolsonaro nos últimos meses e o Twitter não toma nenhuma atitude a respeito do problema, sob o pretexto de respeitar a liberdade de informação e expressão.

A justificativa é um embuste para desviar a atenção do fato de que a empresa se esforça para evitar qualquer ação passível de ser interpretada como julgamento editorial. Facebook, Twitter e assemelhadas querem evitar ao máximo serem consideradas empresas de mídia, porque assim passariam a ser obrigadas a respeitar a legislação pertinente, muito mais restrita do que a legislação sob a qual empresas de tecnologia operam.

As possibilidades de denúncia se restringem a casos muito específicos: publicação de dados pessoais como número de telefone ou endereço, incentivo ao suicídio ou automutilação, ofensas a categorias protegidas — entre as quais não consta, é claro, orientação política — e ameaças claras de dano físico. É possível denunciar um perfil ou tweet por promover assédio direcionado, mas, como relatado acima, em geral as denúncias não dão em nada. No caso do Cid Não Salvo, a empresa até respondeu, após alguns dias, que não via nada de mais nos tweets, é verdade. Enviei um email solicitando uma reavaliação, mas os funcionários do Twitter levaram vários dias mais para dar retorno e àquela altura desisti de seguir adiante, pois já havia me decidido a abandonar a plataforma. Era apenas uma briga de moleques, mas a mesma resistência do Twitter a assumir responsabilidade acontece em casos graves envolvendo colegas jornalistas.

As regras são vagas e o Twitter faz uma análise caso a caso, a qual pode levar muitos dias. Na maioria das ocorrências, porém, o linchamento dura algumas horas, então a eventual retirada de um tweet ou suspensão de conta acaba não trazendo nenhum benefício à pessoa assediada. Fica a impressão de que a organização faz corpo mole para retirar esse tipo de conteúdo do ar porque, na verdade, a mobilização de militantes para perseguir jornalistas e outros tipos de abuso são lucrativos para a empresa. Algoritmos de distribuição de anúncios são incapazes de compreender o significado dos conteúdos aos quais associam publicidade, afinal. Todo tweet é uma oportunidade comercial, por mais nocivo que seja.

Tenho certeza de que o Twitter poderia identificar linchamentos através de algoritmos e tomar medidas para os interromper. Se não o fazem, é por falta de compromisso com a sanidade da plataforma. O mesmo ocorre com o Facebook, que permite direcionar anúncios para antissemitas, mas nega ser capaz de identificar racistas e os expelir da plataforma. O argumento contra esse tipo de filtragem é que poderia gerar falsos positivos e bloquear perfis inocentes. É um bom argumento, mas a política atual peca no sentido contrário, expondo usuários inocentes a todo tipo de abuso.

Em resumo, essas empresas se apresentam como plataformas para a interação social, mas são na verdade máquinas de conversão de atenção em dinheiro. Todas os seus movimentos são e serão, necessariamente, no sentido de preservar essa função primordial. Se esse objetivo for melhor atingido com linchamentos e assédio, tanto pior para a sociedade.

Interceptação de dados em redes wifi e reportagem investigativa

A revista Matter recentemente publicou uma reportagem sobre a facilidade com que se pode interceptar o tráfego de dados em redes móveis públicas. Por menos de cem dólares, é possível comprar um roteador WiFi Pineapple, que permite a qualquer micreiro de boa vontade “clonar” uma rede e observar emails, navegação na Web, chats e qualquer outro tipo de comunicação entre um computador, smartphone, tablet e a Internet.

Em resumo: contrate um plano 3G e desligue o wifi de todos os seus aparelhos quando não estiver próximo de uma rede confiável. Usar redes públicas desconhecidas é o equivalente informático do sexo casual sem preservativo.

De qualquer forma, a facilidade com que se pode xeretar o tráfego de dados de qualquer pessoa hoje em dia me fez refletir sobre a possibilidade de jornalistas investigativos passarem a usar esse tipo de expediente. À primeira vista, a proposta parece uma aberração ética. Entretanto, não é, em essência, uma técnica muito diferente das campanas e câmeras escondidas.

Durante uma campana, o repórter persegue seus alvos pelas ruas e prédios, anotando os lugares onde estiveram, as pessoas com quem falaram e, eventualmente, capturando imagens. Este foi, por exemplo, o procedimento usado pela equipe da Gazeta do Povo na série Polícia Fora da Lei, que ficou em 2º lugar no Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo. Diversas outras reportagens semelhantes já mereceram reconhecimento dos pares através de prêmios. Pode-se afirmar, então, que as campanas estão dentro dos limites éticos da profissão.

O uso de câmeras escondidas, por outro lado, gera debate entre os jornalistas — e, principalmente, é lamentado pela academia. Alguns repórteres consideram o expediente antiético, porque em geral envolve construir uma situação baseada em imposturas, para levar o alvo a ser filmado cometendo um crime. A resposta, aliás razoável, é que o repórter se torna um impostor em nome do interesse público, que se sobrepõe à infração ética — ao menos, trata-se de uma infração ao código de ética da Fenaj, embora a representatividade do mesmo possa ser discutida.

Digam o que disserem os códigos de ética, porém, programas como o Fantástico vivem do uso de câmeras escondidas e ninguém é punido por isso. Então, essa técnica de reportagem pode ser considerada aceitável, dum ponto de vista pragmático, no Brasil.

Por que não seria aceitável, então, usar um roteador preparado para espionar o tráfego de, digamos, um funcionário público envolvido na venda de licenças ambientais? Observar a navegação na Web e ler os emails trocados entre o suposto funcionário corrupto e seus corruptores não é diferente, ao fim e ao cabo, de sentar ao lado dos mesmos num restaurante e gravar sua conversa. É claro, a interceptação de tráfego pode fornecer acesso a mensagens de pessoas sem nenhuma relação com a investigação, ou, mesmo, à descoberta de que o barnabé gosta de pornografia furry.

Mas, numa campana, não acontece o mesmo? No caso da série “Polícia Fora da Lei”, citado acima, alguns policiais foram vistos frequentando moteis e bordeis. Embora estivessem cometendo uma infração ao usar viaturas, sua vida pessoal, que não interessa à investigação, foi exposta. Casamentos podem ter sido terminados com base nisso. É legítimo causar esse tipo de dano? Não sei. É um efeito colateral abominado pela imprensa? Não é. Numa hipótetica xeretagem de uma conversa num local público, o repórter simplesmente elimina da narrativa as referências a pessoas físicas e jurídicas sem relação com o caso, o que poderia facilmente ser transposto para uma investigação cibernética.

Da mesma forma, fazer um roteador se passar por uma rede wifi para engambelar o mesmo funcionário corrupto e  interceptar seu tráfego de dados não me parece diferente, do ponto de vista ético, de usar uma câmera escondida. É crime? Talvez. Por outro lado, é comum repórteres cometerem crimes, como a compra de drogas ou armas, durante a investigação de quadrilhas de traficantes. Livram-se de processos entregando a muamba à polícia para demonstrar boa-fé, o que também poderia ser feito com uma coleção de documentos interceptados.

O caso mais conhecido de cracking aplicado ao jornalismo é o da britânica News International, no qual funcionários da empresa jornalística contrataram detetives para invadir os telefones de celebridades e roubarem dados. O uso destas técnicas neste caso é indefensável sob qualquer ponto de vista. Mas e se estivessem investigando corrupção no parlamento britânico? Seria ao menos tolerável?

Eu não sei. Entretanto, é um debate a ser iniciado, porque muito em breve o hardware e software necessários para esse tipo de investigação se tornarão mais acessíveis e devem começar a aparecer mais casos de uso pela imprensa.