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Um depoimento sobre a vida na periferia

Um amigo enviou por correio eletrônico um texto sobre o debate a respeito dos rolezinhos. Ele chegou a pensar em publicar em seu blog, mas desistiu por escassez de paciência para lidar com as inevitáveis respostas pedestres e com a Lei de Godwin. Como é um dos poucos relatos de uma pessoa que realmente conhece a periferia, pois cresceu numa favela do Rio de Janeiro, pedi autorização para publicar aqui o depoimento.

Não concordo necessariamente com os pontos de vista — inclusive porque, para concordar ou discordar, precisaria conhecer a realidade de alguma periferia de grande metrópole.

Há algum tempo, quando ainda tinha blog, risquei a linha que não ia mais cruzar — dar opiniões sobre temas polêmicos, principalmente de política. Mas o debate sobre os rolezinhos mexe com questões pessoais.

Todo mundo que está denunciando apartheid possivelmente nunca ficou na fila para pegar ônibus para a praia e aí a gurizada chega fora da fila invadindo o ônibus pelas janelas e toma o lugar dos outros, pobres, que estavam ali esperando. Nunca tiveram vergonha dos seus vizinhos tocando horror profundo em Copacabana e Ipanema e humilhando balconistas de padaria.

O jovem típico da periferia foi responsável em grande parte pelo inferno que foi viver numa favela carioca chamada Águia de Ouro entre 85 e 95. Um tempo sem a menor regra de convivência. Um aprendizado de como o pobre essencialmente bom é uma idealização. Imagina-se um mundo de opressão social, que havia de algumas formas, mas se esquece que não é só a polícia ou o Estado a oprimir um favelado. Quase sempre, mesmo, é seu vizinho, que se vale do pacifismo ou do medo de quem não reage.

Tinha 20, 21 anos e foi uma fase bem pobre por umas questões de família, mas parecia que era só eu a me solidarizar com os trabalhadores e com os comerciantes passando terror por trabalhar em um domingo na mão do pessoal que invadia tudo, destruía tudo, se comportava como se a praia, a casa, a quadra, a rua, a vida, o baile, o shopping devessem ser um lugar sem regras. A acuar moradores nas ruas. Não era revolta. Esse é um erro típico desse tipo de análise. Era puro e simples vandalismo pela diversão de vandalizar.

A cada volta ao Rio — meus pais ainda estão lá — retorno ao subúrbio para ver que, se há mais prosperidade e mudanças na paisagem, a civilidade nunca chegou. As pessoas se vestem melhor — um grande avanço dos últimos dez anos é esse: as pessoas felizmente não parecem mais pobres –, mas ainda impera nas relações entre os moradores a lei da força, a esperteza, a intimidação. E vai continuar enquanto a sociologia for usada para justificar qualquer comportamento.

Esse é um texto que se presta a certa generalização. Até certo limite a situação é diferente, mas não consigo deixar de ver aqueles empregados de lojas nos funcionários e donos das lojas dos shoppings. Parece que só um arrastão seria condenável. Isso não é apoio à violência da PM e a liminares da Justiça, mas a questão está longe de ser como tenho lido. É mais complexa e tem bem menos a ver com preconceito e racismo do que se coloca. É sobre quem cada um prefere ser – e não ser.

Ano passado, reencontrei um amigo de adolescência e rememoramos as dificuldades de vivermos na época, filhos de pais que nos ensinaram a ser educados e civilizados, em que parecia que as regras eram só para nós. As coisas eram difíceis, mas sobreviveu melhor quem entendeu que não é porque o Estado é escroto que é preciso sê-lo. Eu, pessoalmente, fugia para os livros. Quando não tinha grana, quase sempre em um período, ia ler na biblioteca pública – há boas na zona norte do Rio. Não deixei a barbárie definir quem eu devia ser.

Pensei bastante, por horas, sobre a conveniência de escrever isso. Não tenho nada a ganhar, muito a me incomodar. Mas teria sido um alento em 1986 alguém dizer o que estou dizendo agora, que não estava sozinho. Então devo isso a mim e, talvez, a uma versão minha, mais jovem, com as mesmas questões.

Agora vejo o debate colocado de uma maneira tão idealizada que me faz pensar que a questão sempre será assim. Que no fundo o errado era eu. No entanto, com todas as implicações de uma afirmação destas, continuo achando que favela é um estado de espírito.

Outro depoimento recomendável a respeito dos rolezinhos é o do Leandro Beguoci, também oriundo de uma periferia.