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Filosofia e literatura

Interessante o ciclo de palestras Filosofia e Literatura, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Os encontros acontecem durante nove segundas-feiras, sempre às 17h15, na sala 315 do prédio 8 da universidade. O ingresso para todo o ciclo de eventos é a doação de um livro.

24/08
Plotino filósofo, Plotino escritor
Prof. Dr. José Carlos Baracat Júnior (Instituto de Letras/UFRGS)

31/08
Hermenêutica e literatura
Prof. Dr. Draiton Gonzaga (Faculdade de Filosofia/PUCRS)

28/09
A razão em pane: de Hegel a Kafka
Prof. Dr. Eduardo Luft (Faculdade de Filosofia/PUCRS)

05/10
Heidegger
Prof. Dr. Ernildo Stein (Faculdade de Filosofia/PUCRS)

19/10
Bachelard
Profa. Dr. Ana Maria Lisboa de Mello (Faculdade de Letras/PUCRS)

26/10
O Iluminismo e a descoberta da natureza
Prof. Dr. Luiz Antonio de Assis Brasil (Faculdade de Letras/PUCRS)

09/11
Adorno
Prof. Dr. Ricardo Timm de Souza (Faculdade de Filosofia/PUCRS)

16/11
Jacques Derrida, desconstrução e literatura
Prof. Dr. Sérgio Bellei (Faculdade de Letras/PUCRS)

23/11
Jacques Derrida, literatura e filosofia
Prof. Dr. Nythamar H. F. de Oliveira Júnior (Faculdade de Filosofia/PUCRS)

Fechando as portas da percepção

A New Yorker publicou uma profunda reportagem sobre o fenômeno do uso de neuroampliadores por pessoas saudáveis, o que está sendo chamado nos Estados Unidos de “neurologia cosmética”. São medicamentos desenvolvidos para o tratamento de diversos problemas mentais e cognitivos, como a Ritalina e o Provigil, cujos efeitos em indivíduos que não precisam tomá-los incluem algum tipo de estímulo dos processos intelectuais. Estudantes, programadores, executivos e outros profissionais têm usado essas drogas para ganhar uma vantagem competitiva, ou ao menos algumas horas a mais por noite para concluir tarefas no fim do prazo.

É irônico serem chamados de neuroampliadores em inglês, já que esses medicamentos em geral produzem o efeito de fixar a atenção do usuário por mais tempo do que o normal. Ou seja, seu efeito é de restringir o foco de percepção do mundo e assim a criatividade e a inteligência. Trata-se de muletas para desempenhar tarefas repetitivas e de pouca exigência intelectual. De fato, essa é a opinião de vários médicos entrevistados. Um deles diz estar preocupado com o resultado da proporção de estudantes e jovens trabalhadores usando essas drogas atualmente, porque podemos estar criando uma “geração de contadores muito atentos”. Outro parece decepcionado com a banalidade dos f’ãs de neuroampliadores, observando que em geral eles servem apenas para pessoas sem uma boa idéia conseguirem levar adiante algum trabalho medíocre qualquer. Na conclusão, Margaret Talbot escreve:

Every era, it seems, has its own defining drug. Neuroenhancers are perfectly suited for the anxiety of white-collar competition in a floundering economy. And they have a synergistic relationship with our multiplying digital technologies: the more gadgets we own, the more distracted we become, and the more we need help in order to focus. The experience that neuroenhancement offers is not, for the most part, about opening the doors of perception, or about breaking the bonds of the self, or about experiencing a surge of genius. It’s about squeezing out an extra few hours to finish those sales figures when you’d really rather collapse into bed; getting a B instead of a B-minus on the final exam in a lecture class where you spent half your time texting; cramming for the G.R.E.s at night, because the information-industry job you got after college turned out to be deadening. Neuroenhancers don’t offer freedom. Rather, they facilitate a pinched, unromantic, grindingly efficient form of productivity.

É quase de uma robotização voluntária da consciência. Enquanto nas décadas de 1960 e 1970 o esforço da sociedade se dava no sentido de abrir as portas da percepção a novas idéias, novas formas de vivenciar o mundo, hoje a busca é pelo fechamento da consciência às perturbações exteriores. Em nossa cultura, a contradição, o erro, o irracional são cada vez mais considerados meras perturbações e cada vez menos oportunidades de criação, de invenção. Um mundo de zumbis reprodutores de dados enclausurados em escritórios anódinos é a imagem de futuro que se apresenta em nossa cultura.

Essa imagem lembra um pouco o Admirável Mundo Novo distópico de Aldous Huxley, cujos habitantes arrastavam suas existências sob o efeito de drogas variadas, cada uma voltada para um tipo específico de tarefa. Se, como a reportagem sugere, os neuroampliadores acabarem por ser aceitos pelos órgãos sanitários e se tornarem apenas mais um suplemento para o organismo, a pressão social e talvez mesmo a exigência administrativa em usá-los criará uma casta de gente medíocre destinada somente a fazer a economia girar. A desvalorização da formação cultural já está produzindo um fenômeno semelhante, hoje. Há gente eficiente sobrando, mas funcionários capazes de ter idéias são cada vez mais raros — e mais bem pagos do que os outros.

O desejo de aumentar a eficiência dos processos mentais é um desejo de combater nossas características orgânicas, o desgaste fisiológico, o cansaço, a degradação. Pessoalmente, considero patético e infantilóide o desespero em regular e dominar o orgânico, expresso na popularização da cirurgia plástica, nos regimes nutricionais e esportivos, na moda e agora na disseminação dos neuroampliadores. No fundo, é uma tentativa de negar a própria mortalidade, um tipo de narcisismo em que o indivíduo se considera importante demais para decair e desaparecer da existência. “A única coisa que não muda é que tudo muda”, ensinava Heráclito. O mundo é movimento. Uma sociedade que não erra, não fracassa, também não evolui.

O problema é que dinheiro é sujo

Mas qual é o problema de depender da publicidade, afinal? A maior parte das pessoas prefere usar o GMail gratuitamente, vendo publicidade todos os dias, do que pagar uns míseros 20 euros por ano pelo serviço — ao mesmo tempo que paga 50 euros por mês para ter acesso à Internet em casa. Num certo sentido, a publicidade é até benéfica: obriga os produtores de bens e serviços a fazer o que as pessoas realmente querem. Ou seja, obriga as televisões a fazer informação fantasiosa, populista e de má qualidade, porque é isso que as pessoas preferem; obriga as empresas de revistas e jornais a publicar cinco revistas de palermices, para ganhar dinheiro e conseguir financiar uma revista com informação de qualidade, e obriga os jornais de qualidade, como o Público, o Expresso, o Sol ou o Diário de Notícias, a publicar na sua maior parte palermices, para poderem chegar a um número maior de pessoas. Qual é o problema? A publicidade é o grande soro de verdade da humanidade, corroendo todas as hipócritas declarações de amor fiel às artes, à informação de qualidade, à filosofia e às ciências.

O problema é pensar que temos uma resposta razoável para o problema do financiamento da informação de qualidade, da cultura, da filosofia ou das ciências. Não temos tal coisa. Temos modelos maus, uns menos maus do que outros, mas ninguém tem um modelo bom. E não o teremos jamais se todos assumirmos uma atitude de nojo aristocrático pelo dinheiro, pela compra e pela venda de serviços e bens que envolvam ideias. Estaríamos a dar um passo de gigante na direcção certa se assumíssemos que queremos vender informação de qualidade, artes, filosofia, ciência, aulas. Porque aí veríamos que o problema é encontrar quem realmente queira comprar isso que queremos vender, ao invés de se limitarem a bater hipocritamente no peito dizendo que muito valorizam essas coisas — desde que não tenham de abrir a carteira.

O aparentemente português Desidério Murcho analisa a questão do financiamento da informação na revista de filosofia A Crítica. Boa leitura para esses tempos de apocalipse no jornalismo.