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O problema é que dinheiro é sujo

Mas qual é o problema de depender da publicidade, afinal? A maior parte das pessoas prefere usar o GMail gratuitamente, vendo publicidade todos os dias, do que pagar uns míseros 20 euros por ano pelo serviço — ao mesmo tempo que paga 50 euros por mês para ter acesso à Internet em casa. Num certo sentido, a publicidade é até benéfica: obriga os produtores de bens e serviços a fazer o que as pessoas realmente querem. Ou seja, obriga as televisões a fazer informação fantasiosa, populista e de má qualidade, porque é isso que as pessoas preferem; obriga as empresas de revistas e jornais a publicar cinco revistas de palermices, para ganhar dinheiro e conseguir financiar uma revista com informação de qualidade, e obriga os jornais de qualidade, como o Público, o Expresso, o Sol ou o Diário de Notícias, a publicar na sua maior parte palermices, para poderem chegar a um número maior de pessoas. Qual é o problema? A publicidade é o grande soro de verdade da humanidade, corroendo todas as hipócritas declarações de amor fiel às artes, à informação de qualidade, à filosofia e às ciências.

O problema é pensar que temos uma resposta razoável para o problema do financiamento da informação de qualidade, da cultura, da filosofia ou das ciências. Não temos tal coisa. Temos modelos maus, uns menos maus do que outros, mas ninguém tem um modelo bom. E não o teremos jamais se todos assumirmos uma atitude de nojo aristocrático pelo dinheiro, pela compra e pela venda de serviços e bens que envolvam ideias. Estaríamos a dar um passo de gigante na direcção certa se assumíssemos que queremos vender informação de qualidade, artes, filosofia, ciência, aulas. Porque aí veríamos que o problema é encontrar quem realmente queira comprar isso que queremos vender, ao invés de se limitarem a bater hipocritamente no peito dizendo que muito valorizam essas coisas — desde que não tenham de abrir a carteira.

O aparentemente português Desidério Murcho analisa a questão do financiamento da informação na revista de filosofia A Crítica. Boa leitura para esses tempos de apocalipse no jornalismo.