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Interceptação de dados em redes wifi e reportagem investigativa

A revista Matter recentemente publicou uma reportagem sobre a facilidade com que se pode interceptar o tráfego de dados em redes móveis públicas. Por menos de cem dólares, é possível comprar um roteador WiFi Pineapple, que permite a qualquer micreiro de boa vontade “clonar” uma rede e observar emails, navegação na Web, chats e qualquer outro tipo de comunicação entre um computador, smartphone, tablet e a Internet.

Em resumo: contrate um plano 3G e desligue o wifi de todos os seus aparelhos quando não estiver próximo de uma rede confiável. Usar redes públicas desconhecidas é o equivalente informático do sexo casual sem preservativo.

De qualquer forma, a facilidade com que se pode xeretar o tráfego de dados de qualquer pessoa hoje em dia me fez refletir sobre a possibilidade de jornalistas investigativos passarem a usar esse tipo de expediente. À primeira vista, a proposta parece uma aberração ética. Entretanto, não é, em essência, uma técnica muito diferente das campanas e câmeras escondidas.

Durante uma campana, o repórter persegue seus alvos pelas ruas e prédios, anotando os lugares onde estiveram, as pessoas com quem falaram e, eventualmente, capturando imagens. Este foi, por exemplo, o procedimento usado pela equipe da Gazeta do Povo na série Polícia Fora da Lei, que ficou em 2º lugar no Prêmio Latinoamericano de Jornalismo Investigativo. Diversas outras reportagens semelhantes já mereceram reconhecimento dos pares através de prêmios. Pode-se afirmar, então, que as campanas estão dentro dos limites éticos da profissão.

O uso de câmeras escondidas, por outro lado, gera debate entre os jornalistas — e, principalmente, é lamentado pela academia. Alguns repórteres consideram o expediente antiético, porque em geral envolve construir uma situação baseada em imposturas, para levar o alvo a ser filmado cometendo um crime. A resposta, aliás razoável, é que o repórter se torna um impostor em nome do interesse público, que se sobrepõe à infração ética — ao menos, trata-se de uma infração ao código de ética da Fenaj, embora a representatividade do mesmo possa ser discutida.

Digam o que disserem os códigos de ética, porém, programas como o Fantástico vivem do uso de câmeras escondidas e ninguém é punido por isso. Então, essa técnica de reportagem pode ser considerada aceitável, dum ponto de vista pragmático, no Brasil.

Por que não seria aceitável, então, usar um roteador preparado para espionar o tráfego de, digamos, um funcionário público envolvido na venda de licenças ambientais? Observar a navegação na Web e ler os emails trocados entre o suposto funcionário corrupto e seus corruptores não é diferente, ao fim e ao cabo, de sentar ao lado dos mesmos num restaurante e gravar sua conversa. É claro, a interceptação de tráfego pode fornecer acesso a mensagens de pessoas sem nenhuma relação com a investigação, ou, mesmo, à descoberta de que o barnabé gosta de pornografia furry.

Mas, numa campana, não acontece o mesmo? No caso da série “Polícia Fora da Lei”, citado acima, alguns policiais foram vistos frequentando moteis e bordeis. Embora estivessem cometendo uma infração ao usar viaturas, sua vida pessoal, que não interessa à investigação, foi exposta. Casamentos podem ter sido terminados com base nisso. É legítimo causar esse tipo de dano? Não sei. É um efeito colateral abominado pela imprensa? Não é. Numa hipótetica xeretagem de uma conversa num local público, o repórter simplesmente elimina da narrativa as referências a pessoas físicas e jurídicas sem relação com o caso, o que poderia facilmente ser transposto para uma investigação cibernética.

Da mesma forma, fazer um roteador se passar por uma rede wifi para engambelar o mesmo funcionário corrupto e  interceptar seu tráfego de dados não me parece diferente, do ponto de vista ético, de usar uma câmera escondida. É crime? Talvez. Por outro lado, é comum repórteres cometerem crimes, como a compra de drogas ou armas, durante a investigação de quadrilhas de traficantes. Livram-se de processos entregando a muamba à polícia para demonstrar boa-fé, o que também poderia ser feito com uma coleção de documentos interceptados.

O caso mais conhecido de cracking aplicado ao jornalismo é o da britânica News International, no qual funcionários da empresa jornalística contrataram detetives para invadir os telefones de celebridades e roubarem dados. O uso destas técnicas neste caso é indefensável sob qualquer ponto de vista. Mas e se estivessem investigando corrupção no parlamento britânico? Seria ao menos tolerável?

Eu não sei. Entretanto, é um debate a ser iniciado, porque muito em breve o hardware e software necessários para esse tipo de investigação se tornarão mais acessíveis e devem começar a aparecer mais casos de uso pela imprensa.

Fogo amigo na imprensa brasileira

Os últimos dias foram emocionantes para os brasileiros interessados em questões de liberdade de imprensa. Primeiro, a colunista Maria Rita Kehl foi demitida pelo Estadão, por conta de um artigo publicado na véspera das eleições. Já na Barão de Limeira, o setor jurídico resolveu processar o Falha de São Paulo, que satiriza a Folha de São Paulo. Nunca antes na história deste país a imprensa se esforçou tanto em atacar a liberdade de expressão.

Antes que algum leitor mais afobado vá aos comentários me xingar de “petralha” ou “blogueiro progressista”, esclareço: do meu ponto de vista, tanto o Estadão quanto a Folha estão dentro dos limites dos direitos previstos na lei e, possivelmente, dentro dos limites da moral e dos bons costumes. O Estadão, como empresa privada, tem o direito de contratar e demitir quem bem entender. A Justiça ainda decidirá se o Falha de São Paulo está usando indevidamente a marca do jornal, como argumentam os advogados da Folha. Os dois veículos têm sido acusados de censura em “blogs progressistas” e nas redes sociais. Bobagem. Não houve censura alguma por parte dos jornais.

O Estadão, afinal, publicou a coluna de Maria Rita Kehl que supostamente teria levado à demissão. Difícil entender como isso poderia se configurar como censura. Assim como é difícil ter certeza de que a psicanalista foi demitida por causa desse texto específico. Ricardo Grandour, diretor de conteúdo do grupo O Estado de São Paulo, garante que o estranhamento entre as partes vinha acontecendo há algum tempo. Já Maria Rita Kehl assegura ter sido desligada por conta da coluna em questão — mas não fala em censura, vejam bem. Provavelmente ambos estão dizendo meias verdades e a diretoria do Estadão vinha mesmo insatisfeita, acabando por se precipitar com essa reincidência na véspera das eleições.

Kehl sabia muito bem das posições do jornal. O Estadão poderia ter simplesmente impedido a publicação da coluna, o que inclusive tornaria mais simples demiti-la: não haveria uma arma do crime. A meu ver, o fato de o texto ter sido rodado demonstra até certo espírito esportivo por parte da empresa. É injusto acusar o Estadão de censura. Censura é o Estado impedir a publicação de uma informação ou opinião. A demissão é uma consequência funesta, mas não é censura.

Pode-se questionar é a consciência do Estadão sobre os efeitos mais amplos da medida. Embora as empresas tenham opinião – e o grupo Estado faça questão, louvavelmente, de explicitá-la -, um jornal não é um armazém de secos e molhados. O objetivo dos jornais não é apenas ganhar dinheiro, mas servir o interesse público. E o interesse público demanda espaço para o maior número possível de vozes dissonantes, independente da opinião da empresa.

Aliás, mesmo num armazém de secos e molhados, ter posição política diferente daquela do patrão não configura justa causa para demissão.

Enfim, ao desligar Maria Rita Kehl do quadro de colunistas por causa de suas posições opostas às do jornal, o Estadão demonstra ter se rendido à ideologia e perdido o foco na pluralidade desejável numa esfera pública democrática. Quando a imprensa deixa de defender esse ideal, está traindo o papel de defensora da democracia.

Por coincidência, terminava de escrever o parágrafo acima quando @everton137 enviou para o Twitter um artigo publicado hoje por Eugênio Bucci no mesmo Estadão, no qual esta posição está muito melhor explicada:

Uma fórmula editorial é sempre um corte, uma escolha arbitrária, e não há nada de errado nisso. Porém, mesmo dentro do seu corte, da sua escolha editorial, um órgão de imprensa há de saber que sua credibilidade decorre justamente do respeito que reserva às opiniões divergentes. Uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma. Já temos história suficiente para saber que o vício da intolerância não consegue apagar o intolerado – apenas desacredita o intolerante. É ele, não sua vítima, que perde autoridade.

Não está se referindo diretamente ao caso Kehl, mas a análise se aplica com perfeição.

A diretoria do Estadão também demonstrou inacreditável ausência de senso de oportunidade. Houvessem esperado dezembro ou, ao menos, a realização do segundo turno das eleições, a história provavelmente não ganharia tanta aceleração. O diretor de conteúdo reclama que houve uma “reação histérica” nas redes sociais, mas esperava o quê, quando a própria reação de sua empresa à coluna foi histérica? Punir uma opinião política em época de eleições é o mesmo que grudar uma folha de papel escrita “chute-me, por favor” nas costas. O desligamento pode até não ter sido motivado pela coluna do dia 2 de outubro, mas agora ficou impossível convencer qualquer um disso.

Caso ainda mais lamentável é o da Folha de São Paulo. Não se pode falar em censura do jornal contra o Falha de São Paulo, porque a decisão não foi da empresa, mas do juiz ao qual o pedido de liminar foi apresentado. Muito provavelmente, inclusive, a decisão de pedir liminar contra a sátira não passou pela redação, mas foi iniciativa da diretoria do Grupo Folha ou do setor jurídico. O problema é que, assim como o Estadão, a Folha não é um armazém de secos e molhados, mas um jornal, e a imprensa não deveria incentivar essa tendência a regular o debate público com um excesso de advogados, como se tem visto no Brasil.

No momento em que a imprensa passa a se valer de liminares para impedir a divulgação de qualquer tipo de manifestação de opinião ou informação, está abrindo a possibilidade de ser vítima do mesmo expediente. O Estadão, por exemplo, se encontra “há 433 dias sob censura”, impedido de publicar notícias sobre escândalos envolvendo a família Sarney.

A Folha pode exercer o direito de defender sua marca dentro dos limites previstos pela legislação, mas poderia ter entrado com o processo sem pedir uma liminar para a extinção imediata do Falha de São Paulo. Neste tipo de caso, a imprensa deveria sempre esperar o julgamento do mérito, momento em que, efetivamente, a Justiça decide qual parte tem razão. Cabe ressaltar que a liminar concedida pelo juiz não significa que a Folha tem razão: é tão-somente uma medida prévia tomada pela Justiça para proteger os interesses da Folha, caso ao final do processo prove-se que a empresa tem razão.

Os prejuízos de se esperar a decisão sobre o mérito da queixa são muito menores para a Folha do que os prejuízos de uma censura para a sociedade em geral.

Juridiquês à parte, é preciso admitir que a Folha está assumindo um papel ridículo e demonstrando truculência ao perseguir o Falha por fazer graça com o jornal. O poder econômico e político de ambos é completamente desparelho. Não é o Estadão ou O Globo fazendo piada com a Folha, mas sim meia dúzia de pândegos. Era de se esperar mais senso de humor da Barão de Limeira. Otavinho Frias tem muito a aprender com Maurício de Sousa.

Senso de humor é uma virtude na imprensa, até porque demonstra abertura e tolerância. A sátira, além disso, é uma das formas de crítica mais poderosas nas mãos do cidadão. A própria Folha usa a sátira para criticar políticos e outros atores sociais. É lamentável que o jornal não consiga absorver uma crítica. Deprimente ver um dos maiores jornais do país se comportando como um filhinho de papai birrento, que faz troça de todos, mas chama a tia do SOE quando vira alvo de chacota.

A questão mais importante nesses dois casos não é a validade jurídica das ações do Estadão e da Folha, nem muito menos a ideologia dos acionistas, mas o significado disso tudo para a imprensa e a sociedade. Ver os maiores jornais do país demonstrando aversão ao pluralismo e à crítica faz os leitores questionarem seu comprometimento com o interesse público e, portanto, sua legitimidade como fiscais do Estado. Quando a imprensa perde legitimidade, está aberto o caminho para todo tipo de abuso de poder.

Dando um tempo

Os leitores já devem ter percebido que este blog está parado nos últimos meses. Isso está acontecendo por razões excelentes e outras talvez nem tanto:

1- Em primeiro lugar, minha filha nasceu no dia 12 de julho. Obviamente, estou concentrando todo o meu tempo livre nela e na Tati.

2- Estou cruzando o Cabo da Boa Esperança no meu doutorado em Comunicação Social na PUCRS, de modo que as seis horas restantes do meu dia de 30 horas têm sido usadas em leituras e redação da tese.

Minha atividade principal é a de professor, este e outros blogs são apenas uma forma de trabalho voluntário. Não estão no topo da lista de atividades a renunciar, mas estão logo antes de todas as tarefas que rendem dinheiro e, principalmente, das relacionadas à família.

Embora este blog esteja diretamente relacionado com minha atuação como professor, não vejo outro remédio senão suspender as postagens até a vida ficar mais tranquila.

Enquanto isso, recomendo acompanhar meu perfil no Delicious, onde costumo compartilhar leituras interessantes. Deixo ainda os links para alguns artigos e entrevistas publicados na imprensa nos últimos tempos:

Blogs que documentam gravidez são tendência — Mauren Motta

Pais estão dividindo melhor  tarefa de formação emocional dos filhos — ClicRBS

Deep-throat versão século XXI – Sul 21

A decadência do Jornal do Brasil — Sul 21

Sobre o #diasemglobo — Sul 21

Balançando a rede: redes sociais, eleições e #calabocagalvão — ZH Cultura

Redes sociais conquistam espaço dos blogs na preferência dos internautas – ZH Digital

O dito pelo não-dito — Sul 21

O que falam, quem segue quem, o mais citado: conheça o Twitter dos presidenciáveis – UOL Eleições

Como os pais podem administrar o uso da Internet – Zero Hora

A grande mídia não é mais tão grande assim — Sul 21

Área VIP da Abril ainda repercutindo

O caderno Link, do Estadão, traz essa semana uma matéria sobre o caso, para a qual fui entrevistado:

Marcelo Träsel, de 30 anos, do blog Martelada (www.insanus.org/martelada), não aceitou. “Teria de montar um blog novo. Seria muito trabalho. Se me pagassem, daí poderia considerar.”

Tenho a impressão de que essas aspas me fazem parecer preguiçoso (sou, mesmo) e mercenário (não sou).

A editora responde através de Aline Sordilli: “A Abril já produz muito conteúdo. O que queremos com os VIPs é povoar a nossa nova ferramenta de blogs.”

Deveras! Conforme inclusive sugere a matéria principal sobre o assunto, as empresas de mídia estão buscando não o conteúdo dos blogs, mas a infinidade de novas páginas diárias que são capazes de gerar todos os dias. Cada novo post é uma nova página que pode ser usada para veicular anúncios. E anúncios significam dinheiro para a Abril ou qualquer outro portal que esteja recrutando blogueiros, mas em geral não para os blogueiros.

A exigência de cessão de direitos autorais provavelmente era apenas uma proteção jurídica para a Abril, embora em tese permitisse à empresa usar textos de blogueiros em suas revistas sem remuneração, por exemplo.

O engraçado nisso tudo, no fim das contas, é que se a Abril simplesmente tivesse pedido para reproduzir trechos dos meus blogs em suas páginas, fornecendo o devido crédito na forma de um link, teria permitido na boa — como, aliás, aconteceu com o Yahoo! Posts. Sou daqueles ingênuos dos primórdios da Internet que acreditaram no ideal de Tim Berners-Lee: um grande repositório de documentos perfeitamente intercambiáveis e relacionáveis. O que está na Web é para ser linkado. Ter de pedir autorização para citar um trecho e criar um link para determinada página é uma degradação causada por uso excessivo de advogados.

E como se ganha dinheiro com isso? — perguntarão os probloggers. Ora, da mesma forma que os criadores da infraestrutura usada para publicar blogs, veicular anúncios contextuais e banners de programas de afiliados: convertendo reputação em oportunidades. Os inventores do modem, do correio eletrônico, do IRC, do HTML, todos o fizeram por amor à causa. Uma resposta que o repórter não usou na matéria:

Com os blogs eu angario muita reputação na Web. Esse capital social eu converto em capital financeiro através de oportunidades de emprego. Não tive um emprego sequer até hoje em cujo processo seletivo minha produção cultural na Internet não tenha contado muitos pontos.

Infelizmente, não há ideal que resista ao capital.