Arquivo da tag: jornalismo

Nove regras para identificar besteiras

O astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan escreveu, pouco antes de sua morte nos anos 1990, O mundo assombrado pelos demônios, livro no qual procura mostrar como o raciocínio lógico e procedimentos experimentais adequados podem combater as forças do obscurantismo.

Sagan oferece nove dicas para identificar besteiras, falácias, fraudes e outros tipos de charlatanismo. O “kit de deteção de bobagens” foi pensado por ele para cientistas aplicarem a si mesmos, mas serve bem para jornalistas, especialmente os que se dedicam ao trabalho com dados. Segue uma tradução livre:

  1. Sempre que possível, deve haver confirmação independente dos “fatos”.

  2. Incentive um debate profundo sobre as evidências pelos proponentes especializados, representando todos os pontos de vista.

  3. Argumentos baseados em autoridade têm pouca importância – “autoridades” cometeram erros no passado. Eles vão fazê-lo novamente no futuro. Talvez a melhor maneira de dizer isso é que na ciência não existem autoridades; no máximo, há especialistas.

  4. Conceba mais de uma hipótese. Se há algo a ser explicado, pense em todas as maneiras diferentes em que poderia ser explicado. Então, pense em testes pelos quais você poderia refutar sistematicamente cada uma das alternativas. O que sobreviver, a hipótese que resiste à refutação nesta seleção darwiniana entre “múltiplas hipóteses de trabalho”, tem uma chance muito melhor de ser a resposta certa do que se você tivesse simplesmente executado a primeira idéia que lhe chamou a atenção.

  5. Tente não ficar demasiado ligado a uma hipótese só porque é sua. Ela é apenas uma estação intermediária na busca do conhecimento. Pergunte-se por que você gosta da ideia. Compare-a de forma justa com as alternativas. Procure encontrar razões para rejeitá-la. Se não o fizer, outros o farão.

  6. Quantificar. Se tudo o que você está explicando tem alguma medida, alguma quantidade numérica vinculada, você será muito mais capaz de discriminar entre as hipóteses concorrentes.

  7. O que é vago e qualitativo está aberto a muitas explicações. É claro que há verdades que devem ser buscadas nas muitas questões qualitativas que somos obrigados a enfrentar, mas encontrá-las é mais desafiador.

  8. Se há uma cadeia de argumentos, todos os elos da cadeia devem funcionar (inclusive a premissa) – e não apenas a maioria deles. Navalha de Occam. Esta regra conveniente nos exorta, quando confrontados com duas hipóteses que explicam os dados igualmente bem, em escolher a mais simples.

  9. Sempre pergunte se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, falseada. Proposições que não são testáveis, irrefutáveis, não valem muito. Considere a grande ideia de que nosso Universo e tudo nele é apenas uma partícula elementar – um elétron, por exemplo – num Cosmos muito maior. Mas se nunca pudermos adquirir informações de fora de nosso universo, não é a ideia impassível de refutação? Você deve ser capaz de verificar as afirmações. Céticos inveterados devem ter a oportunidade de seguir o seu raciocínio, para duplicar seus experimentos e ver se eles obtêm o mesmo resultado.

Lançamento do livro “Interações em rede”

Na próxima quarta-feira, às 18h30, na Faculdade de Comunicação Social da UFRGS, será lançado o livro Interações em rede, organizado pelo mestre Alex Primo. Na ocasião, haverá uma mesa redonda com os autores, na qual eu apresentarei meu artigo “Toda resistência é fútil: o jornalismo, da inteligência coletiva  à inteligência artificial”.

O livro reúne artigos de alunos e ex-alunos do Laboratório de Interação Mediada por Computador da Fabico/UFRGS, capitaneado pelo Alex, que foi meu orientador de mestrado. É uma comemoração pelos dez anos do LIMC, assim como o Seminário de Interação Mediada por Computador, evento que será fechado pela mesa-redonda.

Segue o resumo do meu artigo:

O predomínio do pensamento tecnológico trouxe o mundo ocidental à era da cibercultura, caracterizada pela busca de soluções técnicas nas mais diversas instâncias da experiência humana: políticas, econômicas, existenciais e deontológicas, entre outras. Neste contexto, a noção de inteligência coletiva viabilizada pela técnica, especialmente a telemática, tem sido cada vez mais indicada e usada como instrumento de resolução de problemas sociais. Por outro lado, a automação, inicialmente circunscrita a processos mecânicos, tem sido aplicada nos últimos anos a atividades intelectuais, com o desenvolvimento de robôs e inteligências artificiais capazes de coletar e analisar informação. A prática profissional do jornalismo não escapa destas circunstâncias, adotando diversas técnicas de captação de inteligência coletiva e repórteres-robôs para atrair audiência e compensar a escassez de mão-de-obra nas redações, como forma de combater a crise econômica causada pela digitalização do noticiário. Estas soluções podem ser compreendidas como uma introdução de tendências pós-humanistas na prática do jornalismo, movimento que vai de encontro ao caráter humanista da profissão.

Em breve, o livro estará disponível no catálogo da Editora Sulina, por R$ 35.

Aberta nova turma de Jornalismo Digital

Estão abertas as inscrições para uma nova turma da especialização em Jornalismo Digital, curso de pós-graduação lato sensu oferecido pela Famecos/PUCRS coordenado por mim. As aulas começam em abril de 2011 e vão até agosto de 2012, nas sextas à noite e sábados pela manhã, a cada duas semanas. O valor das 18 mensalidades é de R$ 500.

Informações sobre datas, disciplinas, corpo docente, datas e documentos necessários para a inscrição no site da especialização em Jornalismo Digital.

Muitos leitores manifestaram o desejo de cursar essa especialização na versão a distância, mas infelizmente ainda não temos condições de oferecer essa modalidade.

Mudando o currículo do Jornalismo

Estou participando da redação de uma proposta da Rede de Pesquisa Aplicada em Jornalismo e Tecnologias Digitais para a consulta pública do MEC sobre diretrizes curriculares. Minha opinião sobre o que deveria ser contemplado nos novos currículos dos cursos de Jornalismo  — que não necessariamente será aceita integralmente, ou mesmo parcialmente, pelos colegas da rede — é que deve-se preparar os estudantes para uma convergência de mídias cada vez mais profunda.

Visto com entusiasmo ou com objeções pelos profissionais do Jornalismo e por pesquisadores, trata-se ainda assim de um processo irreversível e irrefreável do ponto de vista técnico. Se em pouco mais de dez anos de desenvolvimento do jornalismo na Web podemos verificar um movimento tão pronunciado no sentido da convergência, o que esperar dos próximos dez anos, data em que os primeiros jornalistas formados a partir dessas diretrizes curriculares estarão saindo das universidade?

Se nosso papel como educadores é participar da formação de profissionais capazes de assumir as responsabilidades e suprir as demandas que a sociedade lhes impõe, é fundamental que as novas diretrizes curriculares acompanhem o processo de convergência midiática. Desse ponto de vista, as atuais divisões no ensino das linguagens jornalísticas parecem excessivamente impermeáveis. Os alunos criam produtos noticiosos audiovisuais voltados para a televisão em disciplinas de Telejornalismo e depois criam produtos voltados para a Web em disciplinas de Jornalismo Online — isto é, quando existem tais disciplinas –, de forma totalmente independente, quando hoje na maioria das redes de televisão espera-se dos conteúdos que possam servir tanto para transmissão via espectro eletromagnético, quanto via Web. De fato, redes como a MTV e a TV Cultura apresentam já uma programação mista, que se estende da televisão para o computador num continuum. O mesmo ocorre com jornais, revistas e emissoras de rádio.

Seria o ideal, portanto, que as novas diretrizes eliminassem as divisões entre telejornalismo, radiojornalismo, jornalismo impresso e Web, e que as linguagens audiovisuais e textuais fossem trabalhadas sempre em conjunto, tomando o formato de uma redação integrada. O meio digital seria o amálgama que permite o traslado da informação entre essas diferentes linguagens — mas não se resumiria a isso, porque a hipermídia tem características e uma lógica comunicacional própria, que precisam ser aprendidas.