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Jornalismo brasileiro adota a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais

No dia 31 de março último, o golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart e instalou um regime autoritário no Brasil completou 50 anos. A imprensa produziu os cadernos, websites, cronologias e documentários de costume, mas um novo tipo de material jornalístico ganhou bastante destaque: a reencenação de acontecimentos históricos em redes sociais — no caso, o Twitter.

Reencenações históricas não são uma novidade. O cinema e os nerds vêm reencenando batalhas importantes ao vivo ou em filme há décadas, várias delas com grande atenção aos detalhes. Em 2011, no aniversário de 30 anos do título mundial, a rádio Globo retransmitiu o jogo Flamengo X Liverpool. Na Web, circula há anos a reconstrução da Segunda Guerra Mundial em versões para IRC e Facebook. No Twitter, mesmo, já existem há tempos o perfil @RealTimeWWII e outros do mesmo tipo, como o diário da rainha Vitória.

Neste 31 de março, pelo menos cinco instituições brasileiras promoveram uma reencenação histórica do golpe de Estado de 1964: O Globo, o grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, o Instituto Moreira Salles e o laboratório de jornalismo da Famecos/PUCRS, o Editorial J, usando o perfil @Golpe1964. O portal Terra também reencenou em tempo real o putsch contra Jango, mas, em vez de usar o Twitter, aproveitou o momento para estrear sua nova ferramenta de narração ao vivo.

Cronologia do Golpe  golpe1964  no Twitter

 

A resposta do público, no caso do Editorial J, foi surpreendente. Se a proposta interessasse a 500 pessoas, já consideraríamos um sucesso.  O perfil, porém, atingiu a marca de 2 mil seguidores na primeira semana e no dia 2 de abril amanheceu com uma audiência de mais de 5 mil pessoas. A resposta também foi excelente em termos de comentários: não apenas muitos seguidores elogiaram e disseminaram o @Golpe1964, como diversos veículos de nos entrevistaram e publicaram notícias sobre a iniciativa. Ficamos estupefatos.

A ideia nasceu do dilema sobre como competir com a imprensa profissional na cobertura dos 50 anos do golpe dispondo de muito menos recursos. Como sou fã dos perfis de reencenação histórica, propus ao Victor Rypl, editor de Web do Editorial J, fazermos algo parecido. Ele comprou a ideia e usou parte das férias de verão para pesquisar o livro 1964: Golpe ou Contragolpe?, de Hélio Silva. Também usamos outras fontes, como os acervos online de jornais existentes na época, a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional e até mesmo o Departamento de Estado americano. Nos últimos dias, ganhamos a ajuda da Sofia Schuck, nova estagiária do laboratório.

A partir dessas fontes, foram criados as centenas de tweets, escritos como se os eventos estivessem acontecendo no presente, e armazenadas as imagens necessárias. Um dos acertos foi iniciar, devagarinho, duas semanas antes de 31 de março, porque o intervalo de tempo permitiu que o perfil se disseminasse pelas redes sociais e houvesse uma audiência já cadastrada para acompanhar a narração na data mais importante. Também levamos em conta a vantagem de assinar a ideia antes de todos os outros — não é uma proposta tão original assim, afinal, e parecia óbvio que alguém maior do que nós iria fazer algo parecido. Com isso, obtivemos muito mais repercussão do que se iniciássemos no dia 31 de março, junto com O Globo e o Instituto Moreira Salles.

Outra diferença para as demais iniciativas é que pretendemos permanecer publicando conteúdo sobre as principais efemérides da ditadura. Esta foi uma das razões para termos criado um perfil dedicado apenas aos 50 anos do golpe, em vez de usar o @EditorialJ. Um perfil específico tem ainda a vantagem permitir a divulgação normal das matérias na conta oficial, sem atrapalhar a reencenação histórica, e evitar a confusão.

O Globo, por exemplo, narrou a rebelião no perfil @oglobopolitica, o qual seguiu publicando outros tipos de conteúdo, como uma sessão de perguntas e respostas com Miriam Leitão. Além de misturar textos de naturezas diferentes, essa decisão do Globo quebrou o encanto da reencenação. Afinal, o primeiro requisito para o sucesso desse tipo de iniciativa é manter ao máximo a suspensão da descrença. É como na cena do filme Em Algum Lugar do Passado em que Christopher Reeve se hospeda num hotel antigo e usa roupas de época, para criar um ambiente propício a um retorno ao ano de 1912.

Esse modelo obrigou o Globo a usar uma hashtag: #aovivo1964. São 11 caracteres valiosos. Um pefil dedicado, ou ao menos uma suspensão de todos os outros tipos de publicações, permitem evitar o uso de palavras-chave e deixar mais espaço para narrar os eventos. Um pouco de espaço livre nos tweets também favorece a repercussão e a interação, pois facilita que os leitores insiram comentários próprios antes do RT.

Uma ideia que gostaria de ter tido foi usar um código para indicar a fonte de cada tweet, como fez o Instituto Moreira Salles. É um dado útil para os leitores, que podem assim buscar as referências para se aprofundar, ou então questionar a exatidão das informações.

Uma ideia que gostei de ter tido foi retweetar os eventos dos quais não dispúnhamos em nosso arquivo. O grupo Tortura Nunca mais também embarcou no espírito esportivo e republicou o nosso material. Ambos ganharam em qualidade e ofereceram uma experiência melhor para o público com essa atitude, porque os perfis jornalísticos costumam retweetar informações de outras fontes quando estão realizando uma cobertura em tempo real. Aumentamos a verossimilhança.

Finalmente, essa experiência teve o mérito de mostrar à equipe do Editorial J que mesmo redações com poucos recursos, hoje em dia, podem competir por atenção do público com as grandes empresas de comunicação — é necessário apenas planejamento e um pouco de sorte.