Arquivo da tag: memória

A memória é mais sólida do que o concreto

Outro dia passei pela esquina da João Telles com a Independência e percebi que haviam derrubado o antigo prédio da OSPA. Não que estivesse alheio ao fato de um empreendimento imobiliário estar planejado para o local, mas por alguma razão me passou despercebido o plano de demolir completamente o prédio antigo. Tampouco era um prédio pelo qual tinha especial apreço, pois frequentei muito pouco o teatro e um tanto mais as suas escadarias, bebendo cerveja enquanto esperava os amigos chegarem para nos dirigirmos a alguma casa noturna da região. Sua fachada, todavia, era parte de minha memória afetiva da avenida Independência e, agora, não existe mais.

A ausência do prédio da OSPA funcionou como uma madelleine arquitetônica, trazendo um sentimento de nostalgia pela paisagem urbana da minha infância e adolescência. A expectativa de vida ao nascer em 1991 era de 65 anos para habitantes da região Sul, segundo o IBGE, então estou, estatisticamente, além da metade da minha trajetória, embora não seja velho. Ainda assim, as coisas que pareciam mais sólidas na infância, porque feitas de concreto e tijolos, vêm se esboroando sob a ação do tempo social. A rua onde vivi por mais de 20 anos não existe mais. O bairro para o qual me mudei há sete anos perde casas para incorporadoras imobiliárias toda semana. Fico imaginando como é ter 75 ou 80 anos e nada mais do que você conhecia existir, nem mesmo pessoas que se lembrem de como a paisagem costumava ser. É lamentável que a memória seja mais dura que o concreto.

Essa reflexão me fez compreender porque tanta gente é contra o “progresso” trazido pelas construtoras. Não se trata apenas da questão urbanistica. Uma casa ou um prédio derrubados não são apenas um amontoado de pedras e areia transportados para dar lugar a outro montinho, maior e mais novo. São referências culturais e afetivas eliminadas em função do lucro, signos arquitetônicos que compõem o mapa mental de cada habitante duma cidade. Um prédio é mais do que a soma de suas partes materiais. No Japão, a capela de Ise Jingu foi demolida e reconstruída a cada 20 anos desde pelo menos o ano 700 da era cristã. Os habitantes locais dizem que ela tem 1300 anos porque, embora as vigas e telhas possam ter menos de 20 anos, sua carga simbólica é milenar e permanece na história e cultura locais.

Algumas pessoas consideram a incorporação imobiliária desenfreada um progresso. Outras se ressentem com a destruição de seus pontos de referência simbólicos para atender ao desejo de acionistas de construtoras por mais e mais dinheiro. Num Estado menos patrimonialista haveria um ponto de equilíbrio entre essas duas demandas sociais, mas nossas câmaras de vereadores são dominadas por construtoras e os planos diretores são, consequentemente, impotentes ou desrespeitados sistematicamente. A situação gera um grande ressentimento no grupo que gostaria de ver a memória afetiva da cidade mais respeitada e, daí, movimentos como o Proteja Petrópolis ou Moinhos Vive. Os empresários não parecem se dar o trabalho de tentar compreender essa perspectiva e descartam a posição dos descontentes como mera aversão ao progresso. Ou compreendem perfeitamente, mas não se importam com a cidade ou com outros seres humanos.

Juremir Machado da Silva chama os aloprados da expansão imobiliária de xiitas do concreto. É uma boa alcunha para designar a conjunção de políticos imorais e empresários egoístas que vem tomando Porto Alegre de assalto desde sempre, literalmente patrolando a paisagem urbana e a memória de seus habitantes. Resistir ao poder do capital é difícil, mas ao menos a catarse pode ajudar os nostálgicos a se despedirem de suas memórias.

Como obter do Twitter seu arquivo pessoal e passar a arquivar tweets você mesmo

ATUALIZAÇÃO: O Twitter criou uma funcionalidade para baixar os arquivos dos perfis, que ainda não está disponível para todos os clientes. É gratuito e basta ir até a página de configurações, rolar até o final e ver se o botão “Request your archive” está lá.

—————

No ano passado, o Twitter decidiu impor diversas restrições ao uso de sua API, tornando inviáveis vários serviços de arquivamento, como o IFTTT, por exemplo. A mudança ocorreu no momento em que a empresa anuncia um serviço para baixar os arquivos de atualizações — mediante pagamento, conforme alguns relatos.

Com isso, todos os produtos baseados na exportação de tweets para bancos de dados na nuvem (como Friendfeed, por exemplo) se tornam inviáveis. A nova política de uso da API só permite operações equivalentes a “salvar como” ou capturar a tela em PDF ou algum formato de arquivo de imagem. Na prática, não se pode mais criar quase nenhum tipo de mash-up a partir de tweets, ainda mais levando-se em conta que a partir de março de 2013 os fluxos Atom e RSS também serão abandonados à própria sorte, ou desligados, ainda não está muito claro.

Com essas mudanças, afirmam os executivos do Twitter, o serviço poderá oferecer uma “experiência mais consistente ao usuário”. Em tradução livre, significa que o Twitter está aderindo à contra-revolução iniciada pela Apple e se fechando cada vez mais, em busca de maior controle sobre seus produtos. Exceto que, ao contrário da App Store, no caso do Twitter o produto é composto principalmente de conteúdo gratuito gerado por seus clientes e pelas próprias subjetividades dos clientes, vendidas para anunciantes. Dave Winer, que nunca teme assumir o papel de Cassandra e avisar sobre os riscos de deixar propriedade intelectual sob a tutela de corporações, resume a indignação dos desenvolvedores de aplicativos para o Twitter:

Yes, this was unfair. Twitter had been telling developers, for years, that they should develop all kinds of clients. That was when Twitter was just a website and had no clients of its own. It bought a few of the developer products, and the advice changed. Really bad planning, and/or carelessness of the worst kind. I’m surprised there weren’t any lawsuits.

Se nunca se preocupou em tratar bem os desenvolvedores — a não ser quando precisava deles — muito menos o Twitter se preocupa em permitir aos usuários do serviço maior controle sobre seu arquivo de mensagens e imagens. Na verdade, sempre foi uma das piores plataformas de redes sociais neste aspecto: não apenas ficam disponíveis apenas os últimos 3200 tweets, como mesmo estes são acessíveis somente mediante operações técnicas relativamente complexas para o usuário comum. A maioria dos tweets desaparece das linhas de tempo entre uma e duas semanas após a publicação. Boa sorte tentando encontrá-los depois, sem saber a URL exata.

Tampouco o Twitter é transparente quanto a essas restrições. Normalmente, fica-se sabendo pela imprensa especializada sobre estas características. Por conta disso, só fui perceber o problema após ultrapassar a barreira dos 3200 tweets e me vi sem acesso ao conteúdo produzido por mim mesmo. Caveat emptor, é claro, mas não deixa de ser no mínimo antipático criar um modelo de negócios baseado em trabalho gratuito dos clientes e não oferecer aos escrav… — perdão! — colaboradores controle nem mesmo sobre a produção intelectual de sua propriedade.

Como obter todos os seus tweets

Buscando uma forma de obter meu arquivo de tweets, cheguei a este artigo da holandesa Anne Helmond, com um passo-a-passo para solicitar uma cópia de todos os seus dados junto ao setor jurídico do Twitter.

O texto com a solicitação é baseado numa lei européia, mas imaginei que eles não devem conhecer a lei brasileira, então mudei o artigo usado como argumento para um artigo do Código de Defesa do Consumidor. O texto abaixo foi enviado ao endereço Twitter-Legal@twitter.com.

NOME
RUA
CIDADE
CEP
PAÍS

DATA

To the Twitter Legal Department,

Re: @trasel

This is a request to access my personal data under Section VI of the LEI Nº 8.078, DE 11 DE SETEMBRO DE 1990, known as Brazilian Consumer Protection Act.

As a Twitter user based in Brazil I request records of the following:

All personal data that Twitter holds about me, inter alia
All logs of IP addresses associated with my account (because these are bound to my password-authenticated account and are thus identifiable)
Any records of the contacts stored on my mobile device that may have been collected by Twitter via the ‘Find Friends’ function, or any other information collected from a Twitter mobile client
Any records of disclosures of personal data to other parties, including law enforcement (such records of disclosures themselves constitute personal data)

I request this information to be delivered in machine-readable form, to the e-mail address registered to my Twitter account.

Data Subject Authentication

My name: Marcelo Ruschel Träsel

My current Twitter handle: @trasel

My e-mail address: XXXXXXXXXXXX@gmail.com

Please inform me, prior to processing this request, if you require a fee to be paid.

I look forward to receiving this information within 30 days. If you have any queries or questions regarding my request, please contact me by e-mail.
Yours faithfully,

Após o recebimento, o setor jurídico do Twitter envia uma mensagem com número de protocolo, à qual você deve apenas responder, sem acrescentar nada, para dar início ao processo. No mesmo dia, já recebi uma mensagem de um ser humano, oferecendo mais informações e confirmando o início do processo. Nesta mensagem, pediram o envio de um FAX de um documento de identidade com foto. Há serviços gratuitos de FAX online que permitem anexar arquivos e mandar para qualquer telefone no mundo. Tomei o cuidado de  rasurar todos os dados da carteira de identidade que não fossem minha foto e nome completo, para não dar mais informação do que o necessário.

Dentro de dois ou três dias, você deve receber no endereço de correio eletrônico vinculado a sua conta no Twitter uma cópia em PDF do pedido e a solicitação de que confirme, por e-mail mesmo, ter realizado o pedido de acesso à informação. Basta responder algo como “Yes, I confirm this request to disclose information was sent by me”.

Após este último passo, em cerca de uma semana você receberá uma mensagem com o endereço do link para baixar um arquivo ZIP com todas as informações solicitadas. O ZIP é um banco de dados em JSON, salvo engano, então será preciso usar algum aplicativo para uma leitura mais amigável. Por outro lado, o texto dos tweets está completo, com data, nesse banco, podendo ser lido com um esforço mínimo. O importante mesmo é que você terá em suas mãos todo o conteúdo criado para o Twitter durante anos como cliente do serviço.

Como arquivar seus tweets

Resta a questão de como arquivar seus tweets vindouros. A maneira mais fácil, sem ter de instalar nada num servidor próprio, é assinar o fluxo RSS num aplicativo adequado. Estou usando o próprio Thunderbird para tanto. Além disso, criei duas receitas no IFTTT, que exportam os tweets para o Dropbox e uma planilha no Google Docs, a partir do fluxo RSS.

O problema é que não se sabe o futuro dos fluxos RSS de contas do Twitter, então esses recursos podem deixar de funcionar em breve.

Para gerar o fluxo RSS de sua conta no Twitter, basta substituir os XXXX ao final da URL abaixo pelo seu nome de usuário:

http://api.twitter.com/1/statuses/user_timeline.rss?screen_name=xxxxx

Depois, é só cadastrar a URL com seu nome de usuário numa das receitas do IFTTT, ou no seu leitor de RSS favorito.

Bônus: caso você use listas em sua conta do Twitter, aqui há um tutorial de como gerar o link para o fluxo RSS dessas listas.