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Não existem segredos digitais; fique longe do Secret

O aplicativo Secret vem ganhando alguma notoriedade entre o público brasileiro. Através dele, os usuários podem expor segredos íntimos para os amigos, os amigos dos amigos e, quiçá, o mundo. A partir do número de telefone, o serviço distribui segredos para os contatos que estiverem registrados no Secret. Se estes “amarem” o segredo, ele será distribuído para os contatos dos amigos e assim por diante. Desta maneira, as intimidades podem se espalhar de um círculo social para o outro. Ao passarem além do segundo nível — os amigos dos amigos –, ganham uma localização (por exemplo, “Porto Alegre”) e podem se espalhar, em tese, para toda a rede de usuários.

O aplicativo procura evitar que um usuário possa ser triangulado a partir do horário, através da randomização da ordem de apresentação ou atraso na entrega, e do status de relacionamento, porque não mostra se o autor é amigo ou amigo de amigo até que ele tenha mais de quatro contatos na rede. Os clientes também podem dissociar os segredos de sua conta periodicamente, para evitar que a equipe do Secret estabeleça relações entre um e outro.

O FAQ do Secret não comenta nada, porém, a respeito de como garantem a segurança das bases de dados nas quais os nomes de usuários e seus telefones ou endereços de correio eletrônico estão armazenados. Mesmo que fossem os servidores mais protegidos do mundo, entretanto, a verdade é que nenhuma comunicação eletrônica é perfeitamente segura e faz parte da natureza das bases de dados digitais transcender os limites das máquinas e redes nas quais estão disponíveis. A informação quer ser livre. Se estiver em formato binário, essa liberdade está a um engenheiro incompetente ou a um cracker habilidoso de distância. Se nem mesmo a NSA pode evitar um vazamento constrangedor, o que esperar de um serviço criado por três sujeitos meio desconhecidos em seu tempo livre?

Submeter intimidades por via eletrônica a um serviço de rede social sobre o qual pouco se sabe é convidar o desastre e a tragédia a fazerem parte de sua vida. A base de dados do Secret vazará, assim como todas as outras existentes no mundo. É questão de tempo.

O mais interessante é o aplicativo ser uma releitura acelerada do Post Secret, talvez um dos weblogs mais interessantes já criados. Nele, são publicados postais criados artesanalmente por indivíduos dispostos a compartilhar algum segredo. Todo domingo, o editor publica um novo postal, que pode vir de qualquer lugar do mundo. Abaixo, um exemplo:

cyber

O Post Secret, embora use a arcaica tecnologia das missivas distribuídas via correios, é bastante mais seguro do que sua contraparte digital. Enquanto os engenheiros do Secret (ou crackers) têm acesso aos autores dos segredos lá divulgados, o editor do Post Secret não tem como saber a identidade dos colaboradores, exceto se eles mesmos decidirem informá-la. Enxeridos em geral tampouco têm muitos recursos para triangular a identidade dos proprietários das intimidades divulgadas no Post Secret: apenas o centro de distribuição ou agência dos correios do qual a missiva partiu. A não ser por uma conjunção extremamente improvável de fatores, é impossível identificar um colaborador apenas com essa informação.

Nem sempre a tecnologia mais avançada é a melhor para um determinado fim. Se você for incapaz de deixar de compartilhar uma determinada intimidade com o mundo, envie uma carta ao Post Secret, mas fique o mais longe possível do aplicativo Secret.

Não basta investir no jornalismo digital, é preciso pensar digitalmente

A leitura do release sobre o lançamento do novo aplicativo de Zero Hora para o iPad é tão chocante que me levou a desenvolver, abaixo, um pequeno exercício de descontrução. Em poucas frases, o autor — ou autores — do texto conseguiu a façanha de cristalizar os equívocos que levaram o jornalismo digital ao estado de penúria econômica e intelectual de hoje em dia. Vamos analisar o texto por pontos:

1. O título do release é “Zero Hora inova no aplicativo para iPad”, com a linha de apoio “A versão 2.0 apresenta notícias com a cara do jornal impresso e atualizadas em tempo real” e a cartola “Papel digital”. Estes elementos já demonstram a perspectiva da diretoria de Zero Hora e do Grupo RBS em relação ao jornalismo contemporâneo e às mídias móveis em particular: tablets, leitores eletrônicos e smartphones são veículos para o jornalismo impresso sem papel. São, em duas palavras, “papel digital”. A primeira implicação importante disso é que o conteúdo produzido para mídias móveis não está submetido ao website de Zero Hora, mas ao jornal impresso. Por conseguinte, as decisões editoriais e comerciais devem ser condicionadas às necessidades do jornalismo impresso, não do jornalismo digital, muito embora aplicativos para iPad sejam, evidentemente, baseados em código binário. Não apenas isso, como inovador no jornalismo, mais de 20 anos após o lançamento do primeiro webjornal, é ter “cara de jornal impresso”. Não custa lembrar que era exatamente essa a abordagem da imprensa em 1995, quando os webjornais apenas republicavam, às vezes até em PDF, como fazia o Correio do Povo, as notícias do jornal impresso. Essa proposta revela uma nostalgia dos “bons tempos” das redações esfumaçadas, máquinas de escrever, paicas, linotipo, aquele imaginário todo de A Montanha dos Sete Abutres.

2. A primeira frase do release é “A leitura de Zero Hora no iPad está mais próxima da profundidade do jornal impresso e da instantaneidade e dos recursos multimídia dos meios digitais”. De saída, o texto já se filia ao grupo de defensores do argumento indefensável de que o suporte papel, em si, favorece a redação de notícias mais profundas e gera leituras mais aprofundadas por parte do público. Não é necessário nem mesmo comparar o noticiário impresso e o digital para descartar esse tipo de determinismo tecnológico. É bastante improvável que a simples passagem de um texto do papel para a tela prejudique a reportagem ou a compreensão do leitor. Sim, o computador desafia nossa atenção com diversas distrações, como alertas de correio eletrônico, redes sociais etc., como descreve Nicholas Carr em Geração Superficial. Porém, é discutível o quanto essas distrações prejudicam a compreensão de notícias e, de qualquer modo, não é como se os leitores de jornais impressos se isolassem em câmaras à prova de som para ler o noticiário todas as manhãs. Ler jornal no ônibus, ou com filhos gritando em volta, ou tentando ao mesmo tempo comer granola e beber café é muito diferente de ler um webjornal com alertas do Facebook agredindo os ouvidos? Tablets e smartphones em geral permitem a execução de apenas um aplicativo por vez, o que de fato evita distrações e aproxima a experiência à da leitura em papel. É um aspecto a favor do argumento exposto no release, mas ainda assim, longe do cerne da questão. Se há ou houve diferença de qualidade no jornalismo produzido para a Web em comparação ao jornalismo produzido para veiculação em papel, é porque poucas redações investiram seriamente nas operações digitais durante as duas últimas décadas. O “online” sempre foi o patinho feio, muitas vezes limitado à republicação de conteúdo de outras plataformas e sem verba própria para reportagem. Esperar qualidade de uma redação sem recursos financeiros e humanos é como esperar feijões de uma planta deixada sem água e sem sol — e culpar a planta quando ela não produz nenhum grão! Em termos estritamente técnicos, as plataformas digitais permitem maior profundidade, uma vez que os textos podem ser tão longos quanto necessário e complementados por multimídia e referências a material de apoio em outros websites. Se essas características foram pouco aproveitadas, a culpa certamente não é da Web, mas das escolhas administrativas e editoriais de empresas jornalísticas.

3. Em seguida, o release informa que “O novo aplicativo 2.0 de ZH, lançado neste domingo, une a identidade visual do papel com a visão editorial e a atualização constante de zerohora.com”. Aqui, pode-se perceber a total ausência de embasamento da defesa do jornalismo impresso como bastião da qualidade pelo argumento tecnológico. A principal característica do veículo impresso adicionada ao aplicativo para iPad de Zero Hora não são repórteres experientes, não é mais dinheiro para reportagens de fôlego, não é um processo editorial mais cuidadoso, mas… A identidade visual! Na visão de Zero Hora, portanto, o que confere profundidade ao noticiário não é o talento dos repórteres e editores, ou as boas condições materiais e institucionais para a realização de reportagens, mas a identidade visual. Essa frase corrobora o ponto número 2, comprovando que, para o autor do release, a qualidade do jornalismo está ligada a seus aspectos materiais, ou seja, ao suporte. Ironicamente, o texto destaca a “visão editorial” de Zerohora.com, junto da “atualização constante”. Noutras palavras, identidade visual parece ser um fator mais importante do que visão editorial na produção de bom jornalismo, para o autor do release.

4. O restante do texto se dedica a listar as funcionalidades do aplicativo para iPad de Zero Hora. Apenas uma é diretamente ligada ao jornal impresso: a possibilidade de ler uma reprodução digital do jornal em papel. Por outro lado, a possibilidade de “ver os assuntos mais relevantes do momento na Capa e Contracapa do aplicativo, com a velocidade do site do jornal” parece se relacionar com os assuntos em pauta na edição impressa do dia, mas, na verdade, essa Capa e Contracapa espelham as manchetes de Zerohora.com. Temos aqui um defeito de design, pois aplicativos podem até ter capas, mas certamente não podem ter contracapas, ao menos no iPad, que não tem telas dos dois lados. É claro, pode ser apenas uma forma lúdica de fazer uma ponte entre o jornal impresso e sua reencarnação em tablet. Seria uma forma de agradar aos leitores mais conservadores, mas às custas de um design mais centrado nas características do suporte digital, cujas funcionalidades nativas, aliás, são as mais profusas e interessantes: previsão do clima em tempo real, personalização editorial, vídeos e galerias de fotos. Exceto pelas mesmas fontes usadas na versão impressa e a leitura da edição impressa, não há nenhuma outra característica do jornal impresso no aplicativo. Inclusive, a arquitetura de informação não se afasta muito da arquitetura padrão de webjornais. De modo que, mesmo aceitando como verdadeiros os argumentos dos defensores do impresso, este aplicativo não cumpriria as promessas de maior profundidade, porque claramente segue uma estética mais próxima da Web. Existem aplicativos que permitem uma maior aproximação com a experiência de leitura em papel, como o Readability, mas estes são completamente diferentes do aplicativo de ZH.

Conclusão

Zero Hora parece estar sofrendo de certa esquizofrenia institucional. Por um lado, realizam investimentos na área digital e, inclusive, desenvolveram uma das melhores operações digitais da imprensa brasileira. Excluindo os jornais nacionais, como Folha, Estadão, Globo e Valor, talvez a RBS produza o melhor jornalismo digital do Brasil. Por outro lado, a instituição se vê obrigada a prestar tributo ao jornal impresso. Não tenho conhecimento algum da intimidade da RBS, mas arriscaria o palpite de que há gestores ligados ao impresso tentando defender enquanto for possível seu feudo e, com alguma sorte, seguir no trono após a inevitável migração para o digital e abandono do papel. É o que tem ocorrido na maioria das redações mundo afora. O principal sintoma disso é o aparente contrasenso da produção de conteúdo para mídias móveis estar subordinada ao corpo editorial do jornal impresso, e não da redação digital, em grande parte dos casos.

O problema é que essa doença pode acabar matando o jornalismo, porque a maior parte dos repórteres, editores e gestores das redações voltadas a veículos impressos passou as duas últimas décadas fingindo não ver ou, pior, hostilizando abertamente as mídias digitais. Serão mesmo as pessoas certas para capitanear a substituição da celulose pelos bits? A mentalidade retrógrada dos defensores do papel tende a ignorar as possibilidades e constrangimentos das mídias digitais, ao tentar enquadrá-las nos modelos obsoletos de jornalismo. Com isso, perde-se duplamente: as liberdades do código binário são subaproveitadas e as qualidades do jornalismo impresso acabam sacrificadas.

É claro, há sempre o risco de se tratar meramente de um release infeliz divulgado por Zero Hora. Por outro lado, como ele segue publicado, sem alterações, o leitor se sente obrigado a inferir que essa seja realmente a opinião da empresa — um release é, afinal, a voz de uma instituição. As críticas acima também servem para quase todos as organizações jornalísticas que contam com veículos impressos e suas versões digitais. Esse exemplo foi usado porque estava à mão.

É um problema de cultura profissional, não desta ou daquela empresa especificamente. A própria BBC teve dificuldades em construir uma redação voltada para o digital, mesmo contando, potencialmente, com os melhores recursos humanos que o jornalismo tem a oferecer, no mundo inteiro. A única saída encontrada pela BBC para superar os obstáculos da cultura profissional foi removê-los, ou seja, demitir os funcionários refratários à atualização das rotinas produtivas. Nem toda redação pode se dar a esse luxo.

Mas nem toda a nostalgia do mundo vai evitar o fim dos jornais impressos, simplesmente porque o papel é uma tecnologia superada para distribuir notícias. Ainda se presta muito bem a jornalismo investigativo, cultural, opinião e infografia, mas, para o feijão-com-arroz das hard news, os suportes digitais são muito mais adequados. Hoje, ainda se pode vencer algumas batalhas cedendo à nostalgia do papel no design de produtos digitais, mas duvido que seja possível vencer a guerra com essa estratégia.